A SANGUE FRIO _

TRUMAN CAPOTE


ParaJACK DUNPHY e HARPER LEE com toda a minha amizade e gratido Declarao
O material contido neste livro no  produto da minha observao direta. Foi colhido em relatos oficiais ou  fruto de entrevistas com as pessoas envolvidas no caso,
entrevistas essas na sua maioria bastante demoradas. Visto estes "colaboradores" serem identificados no texto, intil se tornaria nome-los; no entanto, quero exprimir-lhes
a minha gratido sincera porque, sem a sua paciente colaborao, era impossvel ter levado a cabo a tarefa. Tambm no vou estampar aqui a lista de to dos os cidados
de Finney County que, embora no sejam citados nestas pginas, ofereceram ao autor deste livro uma hospitalidade e uma amizade que ele s poder retribuir mas nunca
pagar. Quero, no entanto, agradecer especialmente a certas pessoas cujo contributo para a minha obra foi de natureza muito especial. So elas: o doutor James AicCain,
presidente da Universidade do Estado do Kansas; Mr. Logan Sanford, bem como todo o pessoal do Kansas Bureau of Investigation; Mr. Charles McAtee, director do Instituto
Penal do Estado de Kansas; Mr, Clifford R. Hope, Jr., cuja assistncia em matria legal considero muitssimo valiosa; finalmente e acima de todos a Mr. William Shawn,
do jornal The New Yorker, que me animou a empreender este trabalho e cuja opinio me acompanhou sempre do princpio ao fim.
As ltimas pessoas a v-los
A aldeiade Holcomb fica situada no meio dos planaltos de trigo, no Oeste do Kansas, numa rea isolada que os demais habitantes do estado chamam "l para diante".
Perto de setenta milhas a leste da fronteira do Colorado, com um cu azul intenso e um ar transparente, de deserto, possui uma atmosfera que lembra mais o Extremo
Oeste do que o Mdio Oeste. A pronncia local tem um sotaque da plancie, um nasalado prprio dos rancheiros, e os homens, na sua maioria, vestem calas justas de
fronteirios, chapus de feltro de aba larga, botas de taco alto com biqueiras aguadas. A terra  plana e os horizontes so incrivelmente vastos; os cavalos, as
manadas de gado e o branco aglomerado dos silos a erguerem-se graciosamente no cu como outros tantos templos gregos se avistam muito antes de o viajante chegar
perto deles. Tambm a aldeiade Holcomb se divisa a grande distncia. No que ela tenha muito que ver.  constituda apenas por um simples e despretensioso agrupamento
de edifcios, cortado ao meio pela linha do caminho-de-ferro de Santa F, uma terreola limitada ao sul pelo curso negro do rio Arkansas (que se diz como se escreve), 
a norte pela auto-estrada n. 50, e a leste e a oeste por terras planas e campos de trigo. Depois das chuvas ou quando se derrete a neve, as suas ruas de terra batida, 
sem nome, sem rvores a ensombr-las, mal pavimentadas, transformam-se em nojentos canais de lama. Num dos extremos da povoao ergue-se um edifcio de estuque que 
ostenta no telhado um reclame luminoso com a palavra - DANA -, porm h muito tempo que o danang fecnou e o anncio se no acende. Perto deste fica um outro edifcio 
que apresenta uma tabuleta no menos inslita, pintada a oiro manchado sobre uma janela suja - BANCO DE HOLCOMB.
Este fechou em 1933 e as suas salas foram transformadas em apartamentos.  um dos dois prdios de apartamentos que a terra possui, sendo o segundo um casaro desmantelado 
a que chamam o "Professorado", visto que grande parte do corpo docente da escola secundria da cidade ali vive. As restantes habitaes de Holcomb so na sua maioria 
casas de um s andar, com um telheiro na frente.
Perto da estao do caminho-de ferro, uma mulher magra, vestida com um casaco de pele de bfalo, calas de cotim e botas de rancheiro, desempenha as funes de empregada 
dos correios num edifcio a cair aos bocados. A estao oferece um aspecto igualmente melanclico, com a pintura amarela toda lascada; o Chefe, o "Superchele" e 
"El Capitan" passam l todos os dias, mas nenhum desses clebres expressos ali pra. Nem to-pouco qualquer comboio de passageiros, apenas um ou outro de mercadorias. 
Na auto-estrada h dois postos de gasolina, um que acumula as funes de mercearia, alis modestamente abastecido, ao passo que o outro tambm serve de caf, o Caf 
Hartman, no qual a senhora Hartman, a proprietria, vende sanduches, caf, bebidas no alcolicas e garrafas de cerveja (em Holcomb, como em todo o estado de Kansas, 
vigora a "lei seca"). Isto  tudo. Mas resta-nos falar, o que  justo, da Escola de Holcomb; um belo estabelecimento cuja existncia prova um facto que o aspecto 
da terra disfara muito bem: que os pais das crianas que frequentam este moderno estabelecimento de ensino dotado de um ptimo corpo docente - no qual se ministra 
instruo desde a classe infantil at ao curso secundrio e possui uma srie de autocarros para o transporte dos alunos, em nmero de trezentos e sessenta, alguns 
dos quais chegam a viver a mais de dezassseis milhas de distncia -, que esses pais, como ia dizendo, so de um modo geral pessoas economicamente prsperas. Rancheiros 
quase todos eles, trata-se sobretudo de gente que veio de fora; alemes, irlandeses, noruegueses, mexicanos, japoneses. Criam vacas e ovelhas, cultivam milho, trigo, 
pasto e beterraba. A agricultura  sempre um negcio contingente, mas no Kansas ocidental os lavradores consideram-se a si prprios uns autnticos "aventureiros", 
pois lutam com uma tremenda falta de chuvas (a mdia anual de pluviosidade  de dezoito polegadas, e angustiantes problemas de irrigao. No entanto, nos ltimos 
sete anos no houve falta de gua. Os lavradores de Fmney County, de que Holcomb faz parte, governaram-se bem; fez-se dinheiro no s na agricultura, mas tambm 
na explorao de vrias reservas de gs natural, e esta prosperidade reflecte-se na nova escola, no interior confortvel das herdades, nos altos e bem recheados 
silos.
At quela manh de Novembro de 1959 poucos americanos
        na realidade at poucos habitantes do estado de Kansas - tinham jamais ouvido falar de Holcomb. Tal como as guas do rio, ou os motoristas da auto-estrada, 
ou os comboios amarelos que correm nas linhas de Santa F, o drama, sob a forma de acontecimentos extraordinrios, nunca ali tinha parado. Os habitantes da aldeia, 
cujo nmero no passava de duzentos e setenta, sentiam-se satisfeitos com isso, contentavam-se em levar uma vida pacata; trabalhavam, caavam, viam televiso, frequentavam 
a escola, iam  igreja, tinham as suas reunies no Clube dos 4 HH. Mas de sbito, s primeiras horas dessa manh de Novembro, uns sons estranhos vieram sobrepor-se 
aos usuais rudos nocturnos de Holcomb: os ganidos histricos dos coiotes, o seco rumorejar das ervas altas, o apito agudo das locomotivas que se afastavam, correndo, 
na noite. Nessa hora ningum os ouviu - aqueles quatro tiros de espingarda que, ao todo, acabaram por destruir seis vidas humanas. Depois disso, porm, os habitantes 
da cidade, at ento suficientemente confiantes para nunca se darem ao trabalho de trancar as portas, passaram a ter sempre os tiros presentes na imaginao, essas 
tremendas exploses que iriam acender o fogo da desconfiana a cuja luz os antigos vizinhos comearam a entreolhar-se com temor, como se fossem estranhos.
O dono da Quinta de River Valley, Herbert William Clutter, de quarenta e oito anos de idade, considerava-se um indivduo de perfeita sade, como bem o provava um 
exame mdico recente, feito por motivo da assinatura de um seguro de vida. Muito embora usasse culos sem aros e fosse de estatura mediana (no chegava a atingir 
o metro e oitenta), Mr. Clutter era uma figura mscula. Tinha ombros largos, os cabelos conservavam a cor escura, o queixo era quadrado, a sua expresso confiante 
traduzia uma juventude saudvel, e os dentes impecveis ainda conseguiam partir nozes. Pesava  roda de sessenta e sete quilos, tal como nos tempos em que se formara 
em agricultura na Universidade do Estado de Kansas. No se podia considerar to rico como o homem mais rico de Holcomb, Mr. Taylor Jones, um lavrador seu vizinho. 
Era, no entanto, o cidado mais conhecido e importante, tanto na sua terra, como em Garden City, a sede do condado vizinho onde fora chefe da Comisso Construtora 
da Primeira Igreja Metodista, edifcio que custara oitocentos mil dlares. Ocupava quase sempre a presidncia da Conferncia das Organizaes Agrcolas do Kansas 
e o seu nome era conhecido e respeitado entre todos os agricultores do Mdio Oeste, bem como em certas reparties de Washington, onde desempenhara o cargo de membro 
da Caixa Federal de Crdito Agrcola durante a administrao de Eisenhower.
Mr. Clutter sabia sempre o que queria e de um modo geral acabava por o conseguir. Na mo esquerda, naquilo que restava de um dedo outrora decepado por uma mquina 
agrcola, usava, havia um quarto de sculo, uma simples aliana de ouro, smbolo do seu casamento com a pessoa que escolhera - irm de um colega de curso, uma rapariga 
tmida, piedosa, delicada, chamada Bonnie Fox, mais nova do que ele trs anos. Dera-lhe quatro filhos - trs raparigas e um rapaz. A mais velha, Eveanna, casada 
e me de um garoto de dez meses, vivia ao norte de llinis, mas vinha frequentes vezes a Holcomb. De facto, ela e a famlia eram esperadas ali dentro de duas semanas, 
pois no Dia da Aco de Graas estava projectada uma grande festa em casa da famlia Clutter (que tinha a sua origem na Alemanha; o primeiro emigrante chamado Clutter 
- ou Klotter, como ento ele escrevia chegara  Amrica em 1880 estavam convidadas cinquenta pessoas de vrias partes, algumas at de longe, como Palatka, na Florida. 
Beverly, a irm a seguir a Eveanna, tambm j no residia na quinta de River Valley, mas sim em Kansas City, onde estudava numa escola de enfermagem. Beverly estava 
noiva de um jovem estudante de biologia, de quem o pai muito gostava; os convites para o casamento, a realizar nas frias do Natal, encontravam-se j impressos. 
Viviam portanto com os pais unicamente Kenyon, que aos quinze anos estava mais alto de que o pai, e a outra irm, um ano mais velha, e que era a menina querida da 
terra: Nartcy. 
Pelo que respeitava  famlia, Mr. Clutter s tinha uma preocupao - a sade da mulher. Era "nervosa", sofria de pequenas "crises", segundo as expresses discretas 
usadas pelos seus amigos. No que fosse segredo o mal que afligia a "pobre Bonnie": todos sabiam que, durante a ltima meia dzia de anos, ela andara sempre nas 
mos dos psiquiatras. Mas at esta sombra ultimamente se dissipara um pouco. Na quarta-feira anterior, ao voltar de um internamento de duas semanas no Centro Mdico 
Wesley, de Winchita, onde costumava ir repousar, Mrs. Clutter dera ao marido uma extraordinria notcia: informara-o, toda satisfeita, de que j sabia a causa dos 
seus padecimentos. Segundo o mdico acabara de declarar, estes no provinham do crebro, mas sim da espinha - tinham uma causa fsica, uma simples vrtebra deslocada. 
Depois de operada, claro, voltaria a ser o que era dantes. Talvez a tenso nervosa, a mania de se isolar, as crises de choro abafadas na almofada, dentro do quarto, 
tudo aquilo fosse devido a um simples osso fora do stio. Se isso era verdade, ento o marido teria razes para se mostrar reconhecido a Deus no Dia de Aco de 
Graas.
O dia, para Mr. Clutter, comeava habitualmente s seis e meia: 
acordava-o o chocalhar das latas do leite e o tagarelar dos dois rapazes que o vinham trazer, ambos filhos de um trabalhador da quinta, chamado Vic Irsik. Hoje, 
porm, os rapazes podiam chegar e irse embora porque ficaria ainda um bocado na cama, A noite anterior, sexta-feira, dia treze, fora bastante fatigante, muito embora 
ele se sentisse satisfeitssimo, Bonnie mostrara-se "tal qual era dantes"; como que para dar uma amostra deste regresso  normalidade, pintara os lbios, arranjara 
o cabelo e, envergando um vestido novo, acompanhara-o  Escola de Holcomb, onde haviam aplaudido a pea Tom Sawyer. Representada pelos alunos, na qual Nancy fazia 
o papel de Becky Thatcher. Agradara-lhe imenso ver de novo a mulher em pblico, nervosa  certo, mas contudo sorridente, a falar s pessoas, ambos se haviam sentido 
orgulhosos de Nancy. Esta representara bem, sem se esquecer do papel. Tal como o pai afirmara ao ir felicit-la ao camarim, "representara maravilhosamente, parecia 
mesmo uma autntica dama do Sul". Nesta altura Nancy, fingindo que o era, de facto, fez uma vnia com a sua saia de balo e pediu-lhe que a deixasse ir at Garden 
City.
No Teatro do Municpio corria um filme "bestial", de terror; era sexta-feira, dia 13. Iam todos os seus amigos. Noutras circunstncias, Mr. Clutter teria recusado. 
Quem fazia as leis l em casa era ele e uma delas mandava que Nancy e tambm Kenyon voltassem para casa s dez horas nos dias de semana e  meia-noite aos sbados. 
Mas transigiu porque se encontrava ainda impressionado pelo espectculo teatral a que acabava de assistir. Nancy s regressou a casa s duas horas. O pai ouviu-a 
chegar e chamou-a, porque, muito embora no fosse pessoa para levantar muito a voz, tinha meia dzia de coisas a dizer-lhe, no tanto acerca da hora tardia a que 
chegava, como a respeito do rapaz que a trouxera de automvel um campeo escolar de basquetebol, chamado Bobby Rupp.
Mr. Clutter gostava de Bobby e, para um rapaz da sua idade, dezassete anos, considerava-o bem educado e digno de confiana. No entanto, durante aqueles trs anos 
em que j tinha licena para sair com rapazes, e apesar de ser bonita e simptica, Nancy nunca acompanhara com mais ningum. E, muito embora Mr. Clutter soubesse 
que era agora costume os adolescentes formarem pares, terem "companheiro certo" e usarem "anis de compromisso", no achava graa  brincadeira, sobretudo desde 
que, ainda h pouco, surpreendera por acaso a filha e o jovem Rupp a beijarem-se. Alvitrara ento que Nancy espaasse mais "esses passeios com Bobby", visto que 
um afastamento gradual custaria menos agora do que mais tarde um rompimento sbito pois a separao teria que dar-se, mais cedo ou mais tarde. A famlia de Rupp 
era catlica e os Clutters metodistas, facto este que bastaria para tirar aos dois jovens quaisquer iluses quanto a um futuro casamento. Nancy mostrara-se razovel 
- pelo menos no discutira - e depois, antes de dar as boas-noites, Mr. Clutter arrancara-lhe a promessa de se ir afastando pouco a pouco de Bobby.
O incidente, porm, retardara-lhe a hora de recolher, que era habitualmente s onze. Por isso, no dia seguinte, sbado, 14 de Novembro de 1959, acordou depois das 
sete. A mulher levantava-se sempre o mais tarde possvel. No entanto, enquanto se barbeava, tomava chuveiro e envergava as calas de veludo canelado, o casaco de 
cabedal fino de vaqueiro e as botas guarnecidas de esporas sem roseta; no receava acord-la porque dormiam separados. H muitos anos que ele ocupava o quarto principal 
da casa uma casa de dois andares, com catorze divises, construda de madeira e tijolo. Muito embora a senhora Clutter guardasse os fatos nos armrios daquele quarto 
e arrumasse os seus cosmticos e os seus numerosos remdios na casa de banho de azulejo azul e tijolos de vidro que lhe ficava contgua, acabara por adoptar definitivamente 
o antigo quarto de Eveanna, que, tal como o de Nancy e de Kenyon, ficava no andar superior.
A casa - quase toda ela desenhada por Mr. Clutter, que desta forma se revelou um arquitecto sensato, equilibrado e com notveis qualidades de decorador - fora construda 
em 1948 e custara quarenta mil dlares. (Se a quisessem vender valeria agora sessenta mil.) Situada na extremidade de uma alameda ensombrada por filas de lamos 
chineses, isolada no meio de um amplo relvado, aquela casa branca causava sensao na cidade de Holcomb; toda a gente a apontava como modelo. Quanto ao interior, 
viam-se por toda a parte tapetes de tons verdes a esconder o brilho dos encerados e a abafar o rudo dos passos: na sala de estar havia um enorme sof forrado de 
um tecido grosseiro com fios metlicos  mistura; uma marquise para os pequenos almoos com estofos de plstico azul e branco. Esta espcie de mobilirio era o preferido 
por Mr. E Mrs. Clutter, bem como por quase todas as pessoas das suas relaes que, na sua maioria, tinham as casas mobiladas de maneira semelhante.
Alm da mulher a dias que vinha durante a semana, os Clutter no empregavam mais pessoal domstico: desde que a mulher adoecera e as filhas mais velhas haviam sado 
de casa, Mr. Clutter aprendera a cozinhar; era ele ou Nancy, mas sobretudo esta, quem habitualmente preparava as refeies. Mr. Clutter gostava de cozinhar e era 
um excelente cozinheiro - no havia nenhuma mulher no Kansas que fabricasse melhor o po, e os seus clebres bolinhos de coco eram os primeiros a esgotar-se nas 
vendas de caridade - no entanto, no se podia considerar um comilo: ao contrrio dos outros rancheiros seus colegas preferia mesmo os almoos frugais. Naquela manh 
havia ingerido apenas uma ma e um copo de leite; uma vez que nunca bebia caf nem ch, a sua refeio da manh era sempre fria. A verdade  que reprovava todos 
os estimulantes, mesmo fracos. No fumava e, claro, tambm no bebia; nunca provara sequer uma bebida alcolica e afastava-se por hbito dos que assim no pensavam 
- circunstncia esta que no limitava as suas relaes sociais, como se poderia imaginar, uma vez que o centro do seu crculo era formado por membros da Primeira 
Igreja Metodista de Garden City, congregao esta que abrangia mil e setecentos filiados, na sua maioria to abstmios como o prprio Mr. Clutter. Muito embora ele 
tivesse o cuidado de no se tornar maador pregando aos outros os seus
pontos de vista, exigia que estes fossem rigorosamente cumpridos pelos seus familiares e trabalhadores que empregava na quinta de River Valley.
        Gosta de beber? - era a primeira pergunta que fazia aos que lhe pediam trabalho. E ainda que a resposta fosse negativa, a pessoa tinha de assinar um contrato 
de trabalho onde se inclua uma clusula que declarava este imediatamente anulado no dia em que se provasse que o signatrio "ingerira lcool. Um amigo de Mr. Clutter, 
antigo lavrador, Mr. Lynn Russel, dissera-lhe certo dia:
        Tu s implacvel, Herb! Estou certo de que se um dia encontrasses um dos teus trabalhadores a beber punhalo imediatamente no olho da rua sem te importares 
que a famlia ficasse a morrer de fome! Foi talvez esta a nica crtica que algum jamais fizera a Mr. Clutter como patro. De resto era conhecido pelo seu bom gnio 
e pela sua caridade para com todos, pagando bons salrios e distribuindo frequentes gorjetas; os seus trabalhadores, muitas vezes em nmero de dezoito, no tinham 
a menor razo de queixa.
Depois de beber o copo de leite e de cobrir a cabea com um bon forrado de pelcia, Mr. Clutter pegou na ma e foi trinc-la l para fora enquanto ia observando 
a manh. Fazia gosto comer mas com um tempo daqueles: a claridade branca do sol descia de um cu purssimo e o vento de leste fazia estremecer, sem as arrancar, 
as folhas dos lamos chineses. O Outono recompensa o Kansas ocidental das agruras que as restantes estaes lhe impe: os ventos fortes do Colorado e a neve que 
sobe at  altura da cinta e mata o gado; os lamaais e os estranhos nevoeiros da Primavera, o Vero ardente, em que at os corvos procuram a sombra escassa e os 
milhares de caules tisnados de trigo estalaram de secos. Finalmente, decorrido o ms de Setembro, o tempo muda e surge um Vero de So Martinho que por vezes se 
prolonga at ao Natal. Enquanto Mr. Clutter admirava esta amostra da estao
outonal, veio ter com ele um cachorro atravessado de raa escocesa, e ambos se dirigiram vagarosamente para
os currais do gado que ficavam anexos a um dos trs barraces que constituam as dependncias da quinta.
Um destes barraces era enorme e tinha a forma de metade de um cilindro; estava cheio a abarrotar de sorgo;
o outro continha uma pilha imensa de milho que cheirava a distncia e valia um dinheiro, coisa de cem mil
dlares. S este nmero representava um aumento de quatro mil por cento em relao ao rendimento que Mr.
Clutter possua em 1934, ano em que se casara com Bonme Fox e viera com ela de Rozel, no Kansas, para
Garden City, onde se empregara como assistente do agente agrcola de Finney Countv. Como era de esperar,
dali a sete meses era promovido, isto , passava ele a assumir a direco dos trabalhos. Os anos que o seu
mandato abrangeu - de 1935 a 1939 - foram os mais secos que aquela regio conhecera desde que os brancos
ali se haviam instalado. O jovem Herb Clutter, bem a par dos processos dinmicos da agricultura, estava mais
do que ningum indicado para servir de intermedirio entre o Governo e os lavradores desesperados, para
quem se tornava muito til o optimismo e a cultura de um jovem simptico que parecia saber do seu ofcio.
Mas mesmo assim ele no se dava por satisfeito com o lugar. Filho de lavradores, sempre ambicionara possuir
terras prprias. Resolvido a consegui-lo, pediu a sua demisso de agente agrcola ao fim de quatro anos e, com
dinheiro emprestado, alugou aquilo que viria a ser o embrio da quinta de River Valley (nome que se
justificava sem dvida pela proximidade sinuosa do rio Arkansas, pois no havia por ali vestgios de qualquer
vale). Este empreendimento foi seguido com interesse por alguns habitantes de Finney County dotados de
esprito rotineiro, que esperavam, divertidos, o falhano do jovem agente, do qual troavam por causa das suas
teorias.
        Isso pode estar tudo muito certo, Herb. Tu sabes bem o que se deve fazer nas terras dos outros: plantem isto,
semeiem aquilo. Mas, se as terras fossem tuas, outro galo cantaria! Enganavam-se; as primeiras experincias foram bem sucedidas, talvez porque, a princpio, ele 
trabalhava dezoito horas por dia. Sofreu vrios reveses - por duas vezes a sementeira do trigo falhou e, certo Inverno, uma tempestade de neve matou-lhe algumas 
centenas de cabeas de gado; mas ao cabo de dez anos o domnio de Mr. Clutter abrangia oitocentos hectares de terras inteiramente 17
suas e
mais trs mil de aluguer, o que, confessavam os seus colegas, se podia considerar "uma bela fazenda". Trigo,
sorgo, semente de pasto constituam as colheitas principais de que dependia a prosperidade da quinta. Os
animais tambm tinham grande importncia - ovelhas e, sobretudo, gado bovino. Havia uma manada de
algumas centenas de cabeas marcadas com o ferro de Clutter, muito embora ningum suspeitasse disso ao ver
o gado que se encontrava nos currais. Estes eram reservados para os bois doentes, algumas vacas leiteiras, os
gatos de Nancy, e Babe, a mascote da famlia, uma velha e gorda gua de tiro, que nunca se aborrecia de andar
com as quatro crianas da casa escarranchadas no seu vasto lombo.
Mr. Clutter atirou a Babe o caroo da ma, enquanto dava os bons-dias a um homem que nesse momento
limpava o curral. Chamava-se Alfred Stocklein e era o nico trabalhador que ali habitava. Os Stocklein com os
seus trs filhos viviam numa casa a menos de cem jardas da casa dos patres; a no serem estes, os Clutter no
tinham outros vizinhos num raio de meia milha. Stocklein, com a sua cara comprida e uns dentes longos,
muito escuros, inquiriu:
        H hoje algum trabalho especial para eu fazer?  que temos um cachopo doente. O mais novo. Eu e a patroa
andmos levantados toda a noite por causa dele. E tinha ideias de o levar ao mdico.
Mr. Clutter mostrou-se condodo e respondeu logo que ficasse com a manh por sua conta. Alm de que, caso
precisassem alguma coisa dele ou da mulher, era s dizerem. Depois, com o co a correr  sua frente,
encaminhou-se para os campos do lado sul, os quais neste momento apresentavam uma cor fulva, dourada e
luminosa, cobertos pelo restolho que ficara aps as colheitas.
O rio
situava-se naquela direco. Junto dele crescia um pomar de rvores de fruto - pessegueiros, pereiras,
cerejeiras e macieiras. Cinquenta anos antes, segundo afirmavam os mais antigos, um pardal levaria apenas
dez minutos a percorrer todas as rvores existentes - no Kansas do Oeste. Ainda hoje o que mais se plantava
na regio eram rvores do algodo e lamos chineses, de folha permanente e com uma resistncia  sede
semelhante  do cacto. No entanto, segundo Mr. Clutter afirmava muitas vezes, "bastaria mais uma polegada
de chuva para aquela regio se transformar num den - o paraso na terra". Aquela pequena plantao de
rvores de fruto junto ao rio representava uma tentativa, com chuva ou sem ela, de, abrir caminho para o
paraso, esse den verde e a cheirar a mas que ele imaginava. A mulher afirmara um dia: 18
        O meu marido preocupa-se mais com as suas rvores do que com os filhos.
A verdade  que toda a gente em Holcomb se recordava de certa ocasio em que uma avioneta avariada se
despenhara em cima dos pessegueiros.
        O Herb ficou como louco! Ainda mal a hlice deixara de girar, j ele apresentara queixa do piloto! Depois de atravessar o pomar, Mr. Clutter continuou ao 
longo do rio, neste momento quase seco e semeado de ilhas, cobertas de praias de areia fina, para onde, noutros tempos, nos domingos de sol e calor, quando Bonnie 
"ainda era para essas coisas", costumavam trazer os cestos com a merenda, passando depois o resto da tarde a espera de um puxo na linha de pesca. Mr. Clutter poucas 
vezes encontrava algum a invadir-lhe a propriedade. Situada a milha e meia da estrada principal, servida por atalhos pouco conhecidos, no era lugar onde os estranhos 
viessem desembocar por acaso. Mas neste momento surgiu um grupo deles e Teddy, o cachorro, correu ao seu encontro a ladrar. Mas este procedimento era estranho em 
Teddy. Muito embora fosse um bom guarda, sempre alerta e pronto a dar o alarme, a sua valentia tinha uma falha: mal avistava uma espingarda, tal como sucedia nesse 
momento, pois os desconhecidos vinham armados, curvava a cabea e metia o rabo entre as pernas. Ningum sabia porqu, pois toda a gente ignorava a sua histria, 
 parte saber-se que era um vagabundo adoptado por Kenyon havia muitos anos. Os visitantes, afinal, eram caadores de faises vindos de Oklahoma. A estao dos faises 
no Kansas, grande acontecimento do ms de Novembro, atraa avalanchas de caadores dos estados vizinhos e, durante a semana anterior, regimentos de homens de bon 
escocs percorriam os campos outonais assustando e espantando com os seus tiros revoadas de pssaros gordos com os papos cheios de gro. Habitualmente, os caadores, 
no caso de no serem hspedes ou convidados, pagavam ao dono das terras uma quantia para poderem caar na sua propriedade. Porm, quando estes homens de Oklahoma 
propuseram a Mr. Clutter comprar-lhe os seus direitos de caa, este respondeu, sorrindo:
        No sou to pobre como pareo. Andem l, apanhem os faises que puderem! Em seguida, levando a mo ao bon, voltou para casa, a encetar o seu dia de trabalho, 
sem que lhe passasse pela cabea que seria o ltimo.
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Tal como Mr.
Clutter, o rapaz que estava tomando o pequeno -almoo num restaurante chamado Little Jewel nunca bebia caf. Preferia cerveja. Trs aspirinas, uma cerveja gelada 
e uma enfiada de cigarros Pall M ali - era a isto que ele chamava un "mata-bicho" como deve ser. Enquanto ia beberricando e fumando, estudava um mapa estendido no 
balco  sua frente - um mapa Phillips 66 do Mxico.
Mas tornava-se-lhe difcil concentrar-se, pois esperava um amigo que j estava atrasado. Olhou atravs da janela para a rua da pequena cidade, uma rua que ele nunca 
vira at ao dia anterior. De Dick nem sinais. Mas ele no ia faltar com certeza; afinal de contas a finalidade daquele encontro fora ideia dele, era "um dos seus 
trabalhos". E, depois de tudo terminado, iriam para o Mxico. O mapa estava todo roto e, de to manuseado, o papel tornara-se fino como a camura. Ao virar da esquina, 
no quarto que alugara no hotel, tinha centenas de outros como aquele - mapas usados de todos os estados da Unio, de todas as provncias do Canad, de todos os pases 
da Amrica do Sul
        pois este jovem era um constante idealizador de viagens, tendo j realizado algumas, de facto: ao Alaska, a Hawai, ao Japo e a Hong-Kong. Agora, graas 
a uma carta, um convite para "um trabalhinho", ali estava ele com todos os seus preciosos haveres; uma mala de carto, uma guitarra e dois enormes caixotes de livros, 
mapas e canes, poemas e velhas cartas que pesavam cerca de uma tonelada. (A cara de Dick quando vira aqueles caixotes! "Santo Deus, Perry. Tu levas esta sucata 
para toda a parte?" E Perry retorquira: "Sucata? Um destes livros custou-me nada mais nada menos de trinta paus!" Ali estava ele, pois, na pequena cidade de Olathe, 
no Kansas. Se se punha a pensar nisso, tinha a sua piada! Imaginem, voltara para o Kansas, onde menos de quatro meses antes jurara, primeiro no tribunal, depois 
a si prprio, no voltar a pr os ps. Pois bem, o juramento fora de pouca dura.
O mapa encontrava-se coberto de nomes rodeados por um crculo de tinta. COZUMEL, por exemplo, uma ilha na costa do Yucatan, onde, segundo lera numa revista masculina, 
se podia "despir a farpela, arvorar um sorriso descontrado, viver como um raj e ter todas as mulheres que se quisesse, apenas por 50 dlares mensais!" Do mesmo 
artigo recordava outras afirmaes interessantes: "Cozumel  um refgio contra as presses sociais, polticas e econmicas. Nenhum funcionrio da polcia incomoda 
as pessoas nesta ilha." E ainda: "Todos os anos bandos de papagaios vm de terra firme pr ali os seus ovos." ACAPULCO estava relacionado com pesca submarina, casinos 
e mulheres ricas e nevrticas; SiERRA MADRE significava ouro, O Tesouro da
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Sierra Madre, um filme que j vira oito vezes. (Era a melhor pelcula de Bogart, mas aquele tipo que fazia de
velho pesquisador lembrava o pai de Perry era tambm estupendo. Walter Huston. Sim, o que afirmara a Dick
era verdade: ele sabia bem tudo o que se relacionava com a pesquisa do ouro, visto que o pai, um profissional,
lho ensinara. E porque no haviam eles dois de comprar uma parelha de cavalos de carga e ir tentar a sorte na
Sierra Madre? Porm Dick, sempre prtico, dissera: "Ora, meu querido! Eu tambm vi essa fita. No fim fica
tudo maluco. Por causa das febres e das sanguessugas e das ms condies de vida que encontravam por toda a
parte. E depois, quando conseguiram arranjar ouro, lembras-te?, vem um vendaval terrvel que leva tudo pelos
ares?") Perry dobrou o mapa. Pagou a cerveja e levantou-se. Sentado, parecia um homem de estatura acima do
normal, forte, dotado de uns ombros, de uns braos, de um tronco macio e desenvolvido de campeo de pesos
e alteres - este desporto era, na verdade, a sua paixo. Mas certas zonas do seu corpo no correspondiam s
outras. Os ps minsculos, encerrados numas botas pretas com fivelas de metal, ficavam bem numa bailarina.
Quando se levantava no era mais alto do que uma criana de doze anos e, de repente, ao caminhar sobre as
pernas cambadas, grotescamente imprprias para o alentado tronco que sustentavam, no parecia um condutor
de cavalos bem constitudo, mas sim um jquei reformado, demasiado gordo e musculoso.
L fora, Perry deixou-se ficar ao sol. Faltava um quarto para as nove e Dick estava atrasado meia hora. No
entanto, se o amigo no lhe tivesse metido na cabea com tanta insistncia a importncia de cada minuto das
vinte e quatro horas futuras, ele nem sequer teria dado pela demora. O tempo raramente contava para ele, pois
sabia inmeras maneiras de o fazer passar, uma das quais era examinar-se ao espelho. Dick dissera-lhe certa
vez:
Parece que cais em transe todas as vezes que te vs a um espelho.  como se estivesses a observar umas boas
ndegas. Caramba, isso no te cansa?
De maneira nenhuma, o prprio rosto fascinava-o. Conforme o ngulo de que se via, tinha uma impresso
diferente. Era uma cara sempre nova e aquelas experincias haviam-lhe ensinado a assumir um ar ameaador,
ou descarado, ou pensativo; uma inclinao de cabea, uma torcidela de boca, e o cigano corrupto transformava-se num romntico gentil. A me era ndia cherokee de 
raa pura: herdara dela aquele colorido da pele, aquele tom iodado, aqueles olhos hmidos, aqueles cabelos negros que usava untados de brilhantina e to compridos 
que formavam patilhas e uma franja. A herana da me via-se a sete lguas. A do pai, um irlands sardento, de cabelos avermelhados, era menos aparente. Dava a impresso 
de que o sangue ndio afogara todos os vestgios da costela cltica. No entanto, a sua presena era confirmada por uns lbios vermelhos e um nariz encurvado, assim 
como pela vivacidade casmurra, pelo egosmo arrogante que muitas vezes animavam aquela mscara de cherokee e tomavam completamente posse dele quando estava a tocar 
guitarra e a cantar. Cantar e imaginar faz-lo em pblico era outra maneira ociosa de passar as horas. Evocava sempre o mesmo cenrio - um clube nocturmo em Las 
Vegas, que por sinal era a sua terra natal. Tratava-se de um salo elegante, repleto de celebridades que contemplavam, cheias de excitao, a nova e sensacional 
estrela que executava a sua famosa composio, acompanhada por violinos e que era um arranjo da melodia be seemg You, acrescida da sua ltima balada original: Cada 
ms de Abril, papagaios em bando, Vermelhos e verdes, cruzam o ar; Vermelhos e verdes, eles passam voando, Cada ms de Abril eles passam cantando, Vermelho e verdes, 
eu vejo-os passar...
(Dick, ao ouvir esta cano pela primeira vez, comentou-a: Os papagaios no cantam. Falam, talvez. Berram.
Mas de certeza no cantam. Claro, o Dick tomava tudo muito  letra, muito, no tinha a menor compreenso
para a msica nem para a poesia
        e, no entanto, pensando bem, fora precisamente essa a razo principal que fizera com que Perry se sentisse
atrado por ele: a sua falta de compreenso literria, a maneira directa como tratava todos os assuntos faziamno
parecer, comparado consigo, muito duro, invulnervel, "totalmente masculino".) No entanto, por muito agradvel que fosse, este sonho de Las Vegas empalidecia ao 
lado de outras vises.
Desde criana, durante mais de metade da sua vida que j somava trinta e um anos, sempre tivera o hbito de
mandar vir livros pelo correio: ("FAA FORTUNA MERGULHANDO! Treine-se em casa nos momentos
livres. Ganhe dinheiro com facilidade mergulhando sem nada ou com botija de oxignio. FOLHETO GRTIS
COM TODAS AS INFORMAES...") e de responder a anncios: (TESOURO SUBMERSO! Cinquenta
mapas autnticos! Oferta Sensacional!), o que representava um desejo de aventuras que a sua imaginao lhe
proporcionava constantemente: o sonho de deslizar atravs das guas profundas, de mergulhar na penumbra
submarina, de passar lado a lado junto de peixes escamados, de 22
olhos selvagens, guardies da carcaa de um navio que se divisava mais adiante, um galeo espanhol naufragado com a sua carga de diamantes e prolas e arcas cheias 
de ouro.
Soou a buzina de um carro. Era Dick, finalmente.
        Santo Deus! Kenyon, j ouvi!
Como habitualmente, Kenyon parecia que tinha o diabo no corpo. Os seus gritos subiam escada acima:
        Nancy! Vem ao telefone!
Descala e em pijama, Nancy desceu precipitadamente. Na casa havia dois telefones um no quarto que o pai utilizava como escritrio e outro na cozinha. A rapariga 
pegou neste.
        Est? Oh, sou, bom dia, Mrs. Katz.
E a senhora Clarcnce Katz, mulher de um lavrador que vivia na estrada principal, disse:
        Eu tinha dito ao teu pai que te no fosse acordar. Disse-lhe que devias estar muito cansada depois do papel maravilhoso que interpretaste a noite passada. 
Estavas linda, minha querida, com aquelas fitas brancas no cabelo! E quando julgavas que o Tom Sawyer tinha morrido vieram-te mesmo as lgrimas aos olhos! Foi melhor 
do que um teatro da TV. Mas o teu pai afirmou que eram horas de te levantares... Bem, so quase nove. Sabes o que eu queria?  que a minha pequena, a Jolene, morre 
com vontade de aprender a fazer a torta de cerejas e, visto tu seres incomparvel nesse doce, andas sempre a ganhar prmios, pensei que talvez a pudesses ensinar 
esta manh.
Noutro dia qualquer Nancy teria de boa vontade ensinado Jolene a fazer um jantar completo de peru; achava seu dever tornar-se prestvel sempre que outras raparigas 
mais novas do que ela solicitavam o seu auxlio para aprender a cozinhar, a coser, ou msica - ou ento, como acontecia tantas vezes, lhe vinham fazer confidncias. 
Como  que ela arranjava tempo para tanta coisa e ainda para "governar praticamente aquela enorme casa"; era uma aluna distinta, chefe da sua turma, dirigente do 
programa dos 4-HH e da Liga Metodista dos Jovens, uma cavaleira distinta, tocava maravilhosamente piano e clarinete, ganhava sempre prmios na feira anual do condado 
(em pastelaria, conservas, trabalhos de agulha e decoraes florais) - como  que uma rapariga que ainda no completara dezasseis anos podia acumular tamanha vastido 
de conhecimentos, e isto sem bazfias, antes com uma alegria radiante, era um enigma que todos resolviam com estas palavras:
Ela tem muito carcter. Herdou-o do pai.
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por certo que a sua mais vincada caracterstica, aquela capacidade de ajudar os outros, lhe vinha do pai, que
possua um refinado sentido de organizao. Todos os seus momentos estavam programados. Ela sabia
perfeitamente a qualquer hora o que ia fazer em seguida e quanto tempo isso lhe levaria. E era esse precisamente o problema que se lhe apresentava agora: tinha o 
tempo todo tomado. Comprometera-se a ir ajudar outra pequena da vizinhana, Roxie Smith, a qual andava a estudar um solo de trompete que tencionava apresentar num 
concerto; prometera  me ir fazer-lhe trs recados complicados; e combinara assistir com o pai a uma reunio dos 4-HH em Garden City. Alm de que tinha de fazer 
o almoo, depois trabalhar no vestido de noiva da Beverly que ela prpria desenhara e estava executando. Desta forma no haveria tempo para encaixar a lio de torta 
de cereja que Jolene pretendia. A no ser que conseguisse faltar a alguma coisa...
        Mrs. Katz, no desligue por favor, um momento!... Atravessou o compartimento e foi ao escritrio do pai.
Este,
que possua uma comunicao de servio para o exterior, ficava separado da sala de estar por uma porta
corredia. Muito embora Mr. Clutter o partilhasse por vezes com Gerald Van Vleet, um rapaz que costumava
ajud-lo na direco da quinta, o escritrio constitua normalmente o seu retiro um santurio bem arrumado,
forrado de nogueira, onde, rodeado de barmetros, mapas pluviomtricos, um binculo, ele costumava sentarse
como um capito de navio na ponte de comando, pilotando a quinta de River Valley na sua viagem, por
vezes arriscada, atravs das estaes.
        No tem importncia - respondeu ele  pergunta de Nancy.
        Podes faltar  reunio dos 4-HH. Levo o Kenyon em teu lugar.
Assim, pegando de novo no auscultador, Nancy disse a Mrs. Katz que sim senhora, estava tudo bem, podia
trazer a Jolene imediatamente. Mas ao desligar franziu o sobrolho.
         estranho declarou olhando em redor. Via o pai ajudando Kenyon a somar uma coluna de algarismos e,
sentado  secretria, perto da janela, Mr. Van Vleet, que possua uma espcie de beleza preocupada e cheiade
rugas que a levava a trat-lo na ausncia por Heathchff. - Cheira-me aqui a cigarros!
        s tu que cheiras? - inquiriu Kenyon.
        No, meu palerma. s tu.
A resposta deixou-o calmo, porque Kenyon sabia que a irm no ignorava o tacto de ele, de quando em
quando, puxar a sua fumaa - ela, de resto, fazia outro tanto.
Mr. Clutter bateu as palmas:
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        Calem-se l. Isto aqui  um escritrio.
Voltando l acima, enfiou umas calas de ganga desbotadas e uma camisola verde, colocando depois no pulso uma das coisas que mais estimava no mundo, um relgio de 
ouro; acima dele estava o gato. E, num plano ainda superior, o anel de sinete que pertencia a Bobby, incmodo penhor do seu "compromisso", que ela usava no polegar 
(quando usava, porque,  mais ligeira zanga, desaparecia) porque mesmo preso com adesivo ele era de um tamanho prprio para homem e no lhe servia no dedo mais indicado. 
Nancy era uma bonita rapariga, magra e gil como um rapaz. Um dos seus maiores atractivos era o cabelo castanho, encaracolado e brilhante, cortado curto (que ela 
escovava cem vezes de manh e  noite), e a pele brilhante, lavada com gua e sabonete, um pouco sardenta ainda e conservando um certo tom dourado do sol do ltimo 
Vero.
Eram, porm, os olhos, escuros e transparentes, como a cerveja preta vista contra a luz, que a tornavam simptica logo ao primeiro olhar e imediatamente denotavam 
a sua inteira franqueza, a sua amabilidade consciente que, alis, no oferecia  toa.
        Nancy! A Susan est ao telefone!
Era Susan Kidwell, a sua confidente. Foi mais uma vez atender  cozinha.
        Diz coisas! - comeou Susan, que habitualmente encetava as suas longas conversas ao telefone com esta frmula. - Para comear diz l porque estiveste a 
noite passada a dar trela ao Jerry Roth.
Tal como Bobby, Jerry Roth era tambm campeo escolar de basquetebol.
        A noite passada? Santo Deus, no lhe dei trela nenhuma? Por termos estado os dois de mo dada? Ele foi aos bastidores durante a representao e eu estava 
to nervosa que ele me segurou na mo para me dar coragem.
        Que enternecedor! E depois?
Depois fui com o Bobby ao cinema. E ento  que estivemos de mos dadas.
        E tiveste medo? No digo do Bobby, refiro-me ao filme.
        Ele no, at se fartou de rir. Mas j sabes como eu sou. Se me assoprassem caa da cadeira abaixo.
        Que ests a roer? -Eu? Nada.
        Sei muito bem, ests a roer as unhas. - Susan no se enganava. Por mais que Nancy se esforasse no perdia o costume de roer as unhas e, sempre que estava 
atrapalhada, roa-as at ao sabugo. - Diz l. Tens alguma coisa que te aborrea?
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No.
        Nancy, e 'est mi... - Susan andava a aprender francs.
        Bem...  o meu pai. H trs semanas que anda levado da breca. Um horror. Pelo menos comigo. E ontem 
noite, quando cheguei a casa, voltou  carga.
O termo " carga" no necessitava de explicao. Tratava-se de um assunto que as duas amigas haviam
discutido largamente, tendo ambas chegado a uma concluso. Susan, resumindo o problema do ponto de vista
de Nancy, declarara:
        Tu gostas do Bobby agora e achas que no podes passar sem ele. Mas l no fundo at ele reconhece que isto
no tem futuro. Mais tarde, quando formos todos para Manhattan, tudo se modificar.
A Universidade do Estado do Kansas fica em Manhattan e as duas raparigas projectavam matricular-se ali para
estudarem arte, ficando ambas a partilhar o mesmo quarto.
        Tudo ser diferente, quer queiras quer no. Contudo agora no podes modificar nada, enquanto viveres em
Holcomb, vires o Bobby todos os dias e te sentares com ele na mesma aula. Nem podia ser doutro modo. Tu e
o Bobby agora so muito felizes. E mais tarde isto constituir uma boa recordao - se algum a no estragar.
O teu pai no ser capaz de compreender isto?
No, no era capaz.
        porque - explicava ela a Susan - sempre que eu tento explicar-lhe ele olha para mim como se eu no fosse
amiga dele. Ou como se tivesse passado a estim-lo menos. E eu fico paralisada. S queria poder obedecerlhe.
Susan no tinha nada que responder a isto; tratava-se de uma espcie de emoes, de relaes que estavam
fora do alcance da sua experincia. Vivia sozinha com a me, que era professora de msica no Colgio de
Holcomb, e mal se recordava do pai, o qual havia muitos anos, l na Califrnia, onde ento viviam, deixara
um dia a casa para nunca mais voltar.
        E de qualquer forma no tenho a certeza de que a causa do seu mal-estar seja s eu. Anda realmente
preocupado com mais qualquer coisa.
-A tua me?
A nenhuma outra amiga Nancy permitiria semelhante sugesto. Susan, no entanto, gozava de certos privilgios. Quando aparecera em Holcomb, uma rapariguinha melanclica, 
cheiade imaginao, magra, dbil e sensvel, com oito anos, um a menos do que Nancy, os Clutters haviam-na adoptado to carinhosamente que a criancinha sem pai que 
viera da Califrnia no tardara a ser considerada como um membro da famlia.
Durante
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sete anos, as duas amigas haviam sido inseparveis, tornando-se, em virtude de uma sensibilidade idntica e
rara, verdadeiramente insubstituveis uma em relao a outra. No passado ms de Setembro, no entanto, Susan
mudara-se do colgio local para o outro mais vasto, que se considerava superior, o de Garden City. Era o que
costumavam fazer os alunos que tencionavam seguir para a Universidade. Porm Mr. Clutter, afincadamente
bairrista, considerava este procedimento como uma afronta ao esprito da comunidade; o colgio de Holcomb
era suficientemente bom para os seus filhos e ali  que deviam continuar os estudos at ao fim. Por isso as duas
raparigas se haviam separado e Nancy sofria com a ausncia da amiga, a nica pessoa junto da qual no
precisava de se mostrar corajosa nem discreta.
        Bem, a verdade  que estamos todos muito contentes com o estado da me - tu j sabes a boa notcia. -
Depois, Nancy prosseguiu: - Escuta - seguiu-se uma pausa como que a ganhar coragem para fazer uma
estranha observao: - porque ser que me cheira constantemente a cigarro? Palavra que as vezes penso que
estou a ficar maluca, quando me meto no carro, quando entro na sala,  como se acabasse de sair dali algum
que tivesse estado a fumar. No  a me, no pode ser o Kenyon - ele no se atreveria...
Nem, por certo, nenhum outro visitante da casa dos Clutters, propositadamente desprovida de cinzeiros. Pouco
a pouco, Susan comeou a compreender a estranha insinuao da amiga. Ignorando quais poderiam ser as suas
secretas ansiedades, ela no se capacitava de que Mr. Clutter procurasse, s escondidas, consolao no tabaco.
Mas antes de ter tempo de indagar se era isso realmente o que Nancy queria dizer, esta cortou:
        Desculpa, Susan. Tenho de me ir embora. Chegou Mrs. Katz.
Dick vinha ao volante de um Chevrolet preto, modelo 1949. No momento de entrar, Perry olhou para o banco
de trs, a certificar-se de que a guitarra se encontrava de facto ali em segurana; na noite anterior, depois de
haver tocado para um grupo de amigos de Dick, esquecera-se dela dentro do carro. Era uma velha guitarra
Gibson, bem lixada e encerada at ficar de um amarelo cor de mel. Junto desta encontrava-se outro instrumento uma carabina de presso de ar de doze milmetros, nova 
em folha, de canos azulados e com alguns faises a voar gravados ao longo da coronha: uma lanterna elctrica, uma faca de pescador, um par de luvas de cabedal e 
um cinto de caa bem guarnecido de balas completavam esta natureza morta.
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Dick bateu com os ns dos dedos no pra-brisas (truz, truz, truz).
        Peo desculpa, mas ns andvamos  caa e perdemo-nos. D licena que fale ao seu telefone?
        Si, senor. Yo comprendo.
Vai ser limpinho respondeu Dick. Garanto-te, p, que havemos de fazer o trabalho bem feito mt ao fim.
        At - corrigiu Perry. Grande leitor de dicionrios, apreciador de palavras estranhas, fizera sempre questo de
melhorar a gramtica e corrigir o vocabulrio do amigo desde que haviam sido companheiros de cela na
penitenciria do estado de Kansas. Longe de se ofender com as lies, e para agradar ao professor, o aluno
escrevera um dia uma mo-cheiade poemas; muito embora os versos fossem obscenos, Perry achara-os muito
cmicos e mandara encadernar o manuscrito na oficina da priso com o ttulo a letras douradas: Piadas Sujas.
Dick trazia vestido um fato-macaco azul; as letras cosidas nas costas diziam BOB SAND. Ele e Perry
seguiram pela rua principal de Olathe at chegarem ao estabelecimento de Bob Sand, uma garagem de
reparao de automveis, onde Dick trabalhava desde que sara da penitenciria, em meados de Agosto. Era
um mecnico competente e ganhava sessenta dlares por semana. Pelo trabalho que tencionava executar
naquela manh no merecia salrio algum, porm Mr. Sand, que o deixava a tomar conta da oficina aos
sbados, no fazia a menor ideia de que naquele dia pagava ao seu empregado para este fazer uma reviso ao
seu prprio carro. Auxiliado por Perry, meteu mos  obra. Mudaram o leo, afinaram a embraiagem,
carregaram a bateria, substituram um rolamento e colocaram pneus novos nas rodas traseiras - reparaes
indispensveis, visto que, entre aquele dia e o outro, o velho Chevrolet teria que executar um grande esforo.
Perry quis saber por que motivo Dick chegara to atrasado ao Caf Little Jewel, ao que este respondeu:
        porque o meu velhote andava por ali e eu no queria que me visse trazer a carabina. Nesse caso desconfiava
logo que no lhe tinha dito a herdade.
Verdade. E que lhe disseste tu, afinal?
Aquilo que tnhamos combinado. Que ia passar a noite fora porque te levava a visitar a tua irm em Fort Scott,
para ela te entregar um dinheiro que lhe deste a guardar. Mil e quinhentos dlares.
Perry tinha de facto uma irm e j tivera duas, mas a que ainda existia no habitava em Fort Scott, uma cidade
do Kansas que
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distava oitenta e cinco milhas de Olathe. Na verdade, nem sequer sabia onde a rapariga parava.
        E ele ficou aborrecido?
        porque havia de ficar aborrecido?
        porque no me grama - respondeu Perry, cuja voz era ao mesmo tempo suave e presumida, uma voz que,
muito embora meiga, emitia cada palavra com preciso, soltando-a como se fosse um anel de fumo a sair da
boca de um padre. - E a tua me  a mesma coisa. Percebo perfeitamente, s pela maneira esquisita como me
olham.
Dick encolheu os ombros.
        Isso no tem nada a ver contigo. Ou melhor: o que eles no querem  ver-me acompanhar com algum que
tenha estado na choa. - Casado duas vezes e duas vezes divorciado, com vinte e oito anos, e pai de trs
rapazes, Dick fora solto condicionalmente sob a promessa de ir viver com os pais; a famlia, que inclua um
irmo mais novo, habitava numa pequena quinta perto de Olathe. - Qualquer pessoa que ostente o alfinete da
fraternidade
        acrescentou, tocando num ponto azul tatuado por baixo do olho esquerdo, o qual constitua uma insgnia,
uma palavra de passe visvel, pela qual os antigos cadastrados o poderiam reconhecer.
        Compreendo - respondeu Perry. - L tm as suas razes. Parecem boa gente. A tua me  at muito simptica.
Dick acenou com a cabea. Tambm ele era dessa opinio. Ao meio-dia largaram as ferramentas e Dick,
ligando o motor, escutou o rudo regular e ficou satisfeito com o trabalho.
Nancy e a sua protegida, Jolene Katz, achavam-se tambm satisfeitas com o seu trabalho daquela manh; esta
ltima, de facto uma garota esgalgada, de treze anos, impava de orgulho. Olhou muito tempo para a detentora
da fita azul, contemplou depois as cerejas com entusiasmo, abraou Nancy, inquirindo:
        Diz l, fui eu na verdade que fiz a torta?
Nancy riu-se, retribuindo-lhe o abrao, e afirmou que sim, fora ela quem fizera a torta... com uma ligeira
ajuda.
Jolene exigia que a provassem imediatamente. Era uma estupidez deixarem-na arrefecer.
        Anda, deixa ver um bocado para cada uma. Para si tambm
        acrescentou, dirigindo-se  senhora Clutter, que acabava de chegar  cozinha. A senhora Clutter sorriu, pelo
menos tentou sorrir. Doa-lhe a cabea. Agradeceu, mas protestou que no sentia vontade de comer. Quanto a
Nancy, no tinha tempo. Roxie
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Lee Smith e o solo de trompete estavam  sua espera e depois tinha ainda que fazer os recados da me. Um
destes dizia respeito a uma exposio dos presentes de noiva que um grupo de raparigas estava organizando
para Beverly. O outro relacionava-se com a festa que iam dar no Dia da Aco de Graas.
        Vai-te embora, querida. Eu fao companhia  Jolene enquanto a me no a vem buscar - declarou Mrs.
Clutter. Depois dirigiu-se  pequena com a sua invencvel timidez e acrescentou:
        No caso de ela no se importar de ficar a fazer-me companhia.
        Em nova tinha ganho um prmio de locuo; mas, com a idade, a sua voz ficara reduzida a um nico tom, o
de quem pede desculpa, e toda a sua personalidade se resumia numa srie de gestos confusos de quem recera
ofender algum ou de qualquer modo cair no desagrado dos outros. - Espero que compreendas e no julgues a
Nancy mal -educada.
        Meu Deus, que ideia! Eu gosto tanto dela! De resto toda a gente gosta. No h ningum como a Nancy. Sabe
o que disse a Mrs. Stringer? - perguntou Jolene, referindo-se a professora de economia domstica: - Um dia
ela declarou diante de toda a aula: "A Nancy Clutter est sempre com pressa, mas o tempo chega-lhe para
tudo. E isto  a definio de uma verdadeira senhora."
        Sim - replicou Mrs. Clutter. - Todos os meus filhos so muito eficientes. No precisam de mim para nada.
Jolene nunca estivera sozinha com a me de Nancy, que tinha fama de ser uma pessoa "esquisita", mas, apesar
de tudo quanto ouvira dizer a seu respeito, a pequena sentia-se muito  vontade, porque Mrs. Clutter, embora
nunca estivesse descontrada, possua o dom de descontrair os outros, como geralmente acontece com as
criaturas indefesas que no constituem ameaa para ningum; at mesmo para Jolene, uma rapariguinha to
infantil, o rosto asctico e triangular de Mrs. Clutter, o seu ar a um tempo caseiro e angelical, despertavam um
instinto de compaixo protectora. Quem diria que ela era a me de Nancy! Uma tia... podia admitir-se, uma tia
solteirona, que ali estivesse de visita...
        No, eles no precisam de mim para nada - repetiu ela enquanto se servia de uma chvena de caf.
Muito embora o resto da famlia respeitasse a averso que o marido votava quela bebida, ela tomava duas
chvenas todas as manhs e no comia praticamente mais nada durante o resto do dia; pesava quarenta e
quatro quilos e os seus anis - a aliana de casamento e outro com um diamante, to pequeno que mal se via
        danavam-lhe nos dedos ossudos.
Jolene cortou uma fatia de torta:
        Que rica coisa! - exclamou ela, metendo-a pela boca abaixo 30
vorazmente. - Daqui em diante vou fazer uma torta destas todos os dias!
        Bem, tu tens muitos irmos, e os rapazinhos comem muito. O meu marido e o Kenyon nunca se fartam dela. Nancy, que  quem a faz, j no a pode ver. Vai acontecer-te 
a mesma coisa... No...
para que disse eu uma coisa dessas? - A senhora Clutter, que usava culos sem aros, tirou-os e comprimiu os olhos com as mos. - Desculpa, minha querida. Tenho a 
certeza de que nunca te aborrecers de comer a tua torta. Vai saber-te sempre muito bem...
Jolene ficou calada. O tom de alarme na voz da senhora Clutter assustara-a; sentia-se confusa e desejava que a me, que prometera vir busc-la s onze horas, chegasse 
depressa.
J mais calma, a senhora Clutter inquiriu:
        Gostas de miniaturas? De coisas pequeninas? - e convidou Jolene a entrar na sala de jantar, para ver as prateleiras de um armrio onde estavam expostas 
algumas bugigangas minsculas: tesouras, dedais, cestinhos de cristal para pr flores, garfos e facas. - Tenho algumas destas coisas desde rapariga. O meu pai e 
a minha me, toda a minha famlia, passvamos grande parte do ano na Califrnia. Perto do mar. Havia l uma loja que vendia estes lindos objectos. Olha estas chaveninhas! 
- Um servio de ch para bonecas tremia-lhe na palma da mo, sobre um tabuleiro minsculo. - Foi o meu pai quem mas deu. Eu tive uma infncia muito feliz.
Ela era filha de um lavrador abastado chamado Fox, tinha trs irmos que a adoravam e no fora estragada com mimos, mas sim poupada a todas as contrariedades e educada 
na convico de que a vida no era mais do que uma sucesso de acontecimentos agradveis: Outonos no Kansas, Veres na Califrnia, uma srie interminvel de presentes, 
tal como aquelas chaveninhas de ch. Aos dezoito anos, influenciada pela leitura de uma biografia de Florence Nightingale, inscreveu-se como aluna de enfermagem 
no Hospital de Santa Rosa, em Great Bend, no Kansas. Mas no era aquela a sua vocao e, ao cabo de dois anos, acabou por o confessar: as realidades da vida do hospital 
- as cenas que presenciava, os cheiros - enojavam-na. No entanto, ainda hoje lamentava no ter concludo o curso e recebido o diploma "quanto mais no fosse para 
provar" - segundo declarou a uma amiga - "que fora algum dia capaz de conseguir levar a cabo alguma coisa".
Em vez disso, encontrara Herb e casara-se com ele. Era colega do irmo mais velho, Glenn; na verdade, visto as duas famlias viverem apenas a vinte milhas de distncia, 
h muito que o conhecia
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de vista, porm os Clutter, gente simples da aldeia, no eram das relaes dos Foxes, que se podiam considerar mais ricos e cultos. No entanto, Herb tinha boa figura, 
era um rapaz piedoso, sabia o que queria, desejava-a, e ela apaixonou-se por ele.
        O meu marido viaja muito - disse ela a Jolene. - Est sempre com ideias de ir aqui ou ali: Washington,
Chicago, Oklahoma, Kansas City. s vezes at me parece que ele no pra em casa. Mas seja onde for que ele
v lembra-se sempre de que eu aprecio estas coisas pequeninas. - Abriu um leque de papel: Este trouxe-me ele
de S. Francisco. S custou umpence. Mas no  to lindo? No segundo ano de casada nascera-lhe Eveanna e dali a trs anos Beverly; depois de cada parto a jovem me 
sofria uma inexplicvel crise de desnimo acessos de desalento que a faziam vaguear de sala em sala, a torcer as mos de desespero. Decorreram mais trs anos entre 
o nascimento de Beverly e de Nancy, e foi durante esse perodo que tiveram lugar os piqueniques e as excurses ao Colorado; trs anos durante os quais ela Governou 
a sua casa e foi feliz. Porm, com o nascimento de Nancy, e depois com o de Kenyon, as crises de depresso repetiram-se e, da segunda vez, para no mais desaparecerem 
por completo. Era como que uma nuvem que pairava e podia ou no trazer chuva. Tinha "perodos bons", que por vezes se prolongavam durante semanas e meses, mas mesmo 
durante estes nunca mais voltou a ser "o que era dantes", aquela encantadora e afectuosa Bonnie
que os amigos tanto estimavam. No conseguia mostrar a vitalidade social necessria para corresponder s
inmeras actividades do marido. Ele era um "companheiro", um "chefe nato"; ela no era nada disso e
acabara por nem sequer tentar acompanh-lo. Desta forma, seguindo cada qual o seu caminho, que era
norteado por atenes ternas e uma total fidelidade, comearam cada um a fazer uma vida semi--parte: a
dele, uma carreira pblica, coroada por uma srie de triunfos compensadores; a dela, toda interior, conduzindo-a por vezes aos corredores dos hospitais. Mas nunca 
perdia totalmente a esperana. Amparava-a a f em Deus e, de tempos a tempos, era socorrida pelas ajudas temporais que lhe proporcionava a Sua misericrdia infinita: 
lia o reclame de um remdio milagroso, ouvia falar num novo tratamento ou ento, como sucedera mais recentemente, resolvera acreditar que a causa do seu mal era 
"um nervo repuxado".
        As coisas pequenas pertencem-nos de verdade - declarou ela fechando o leque. - Escusamos de as deixar,
podemos lev-las numa caixa de sapatos.
32
Lev-las para onde?
Ora, para onde quer que se v. Podemos ausentar-nos durante muito tempo.
Alguns anos atrs, a senhora Clutter fora at Wichita, na inteno de fazer um tratamento de quinze dias, e
demorara-se dois meses. A conselho de um mdico, o qual achava esta experincia capaz de a fazer recuperar
"a noo de que podia ser til e necessria", alugara um apartamento e arranjara um lugar de empregada de
ficheiro do Y. W. C. A.1 O marido, sempre pronto a colaborar, animara-a nesta aventura, mas ela sentira-se
ento bem de mais e considerara essa atitude pouco crist, a tal ponto que o sentimento de culpa que da lhe
adveio anulou totalmente o valor da experincia.
        Pode-se at nunca mais voltar a casa e ento convm ter connosco alguma coisa que nos pertena, que seja
realmente nossa.
A campainha da porta tocou. Era a me de Jolene.
        Adeus, minha querida - e meteu-lhe na mo o leque de papel. Custou s umpence, mas  realmente bonito.
Em seguida, a senhora Clutter ficou s em casa. Kenyon e o pai tinham ido para Garden City; Gerald Van
Vleet despedira-se at ao dia seguinte; e a mulher a dias, aquela boa Mrs. Helm, a quem se podia contar tudo,
no vinha aos sbados. O melhor que tinha a fazer era voltar para a cama - aquela cama que abandonava to
raramente que a pobre Mrs. Helm via-se grega para mudar os lenis duas vezes na semana.
No segundo andar havia quatro quartos de cama e o dela ficava no fundo de um espaoso trio despido de
qualquer moblia, com excepo de um bero que havia sido comprado para o neto. Se trouxessem colches
para o trio e fizessem dele camarata, a casa poderia albergar bem vinte pessoas por ocasio da festa que
tencionavam dar no Dia da Aco de Graas; os restantes convidados teriam de se hospedar nos motis ou nas
casas dos amigos. Entre os membros da famlia Clutter, esta reunio por alturas do Dia da Aco de Graas
era habitual e cada um recebia em sua casa quando lhe cabia a vez. Este ano calhara a sorte a Mr. Clutter e
nada havia a fazer seno cumprir, mas, dado o facto de coincidir a reunio com os preparativos do casamento
de Beverly, a senhora Clutter sentia-se incapaz de levar a cabo fosse o que fosse. Qualquer dos acontecimentos
exigia que ela tomasse decises, coisa que sempre detestara e temia, pois, quando o marido estava ausente e
lhe vinham pedir o seu alvitre  queima-roupa
Nota: Young Women Christian Association - Associao Crist das Raparigas. (N da T.) 33
nos assuntos da quinta, isto constitua para ela o maior dos tormentos. E se cometesse um erro? O Herb ficaria
zangado? O melhor era fechar a porta do quarto  chave e fingir que no ouvia chamar, ou ento responder
como tantas vezes fazia:
        No posso. No sei. Deixem-me, por favor.
O quarto que ela to raras vezes abandonava era austero; se acaso a cama estivesse feita, um estranho que ali
chegasse julglo-ia permanentemente desocupado. Uma cama de castanho, uma secretria de nogueira, uma
mesinha-de-cabeceira e um quadro representando Jesus a caminhar sobre as guas. Era como se ela pretendesse com o facto de no trazer para ali as suas coisas, deixando 
assim que o compartimento permanecesse impessoal, diminuir a ofensa que fazia ao marido ao abandonar o quarto dele. A nica gaveta utilizada da secretria continha 
um boio de Vic Vapoiub, um pacote de Klenex, uma almofada elctrica, umas poucas de camisas de noite brancas e meias de algodo tambm brancas. A senhora Clutter 
usava sempre um par destas meias para dormir, porque tinha permanentemente os ps frios. Pela mesma razo conservava as janelas habitualmente fechadas. No penltimo 
Vero, num domingo abafado de Agosto, em que ela ficara ali encerrada, dera-se um penoso incidente. Havia visitas naquele dia, um grupo de amigos que tinha sido 
convidado para colher amoras, entre estes Wilma Kidwell, a me de Susan. Tal como os outros amigos dos Clutter, a senhora Kidwell aceitava a ausncia da dona da 
casa, pensando, como de costume, que ela se encontrava "indisposta" ou ento "ausente em Wichita". Fosse como fosse, quando chegou a hora de irem todos para o pomar, 
a senhora Kidwell recusou-se a sair; estava habituada a viver na cidade, fatigava-se facilmente e preferiu ficar dentro de casa. Mais tarde, enquanto esperava pelo 
regresso dos outros que tinham ido colher amoras, ouviu chorar, um choro desesperado, que cortava o corao.
        Bonnie! - chamou ela, correndo pelas escadas acima e atravessando o trio at ao quarto da amiga. Quando
abriu a porta, o calor concentrado no quarto foi como que uma mo a abafar-lhe a boca. Apressou-se a abrir
uma janela.
        No faas isso! - gritou-lhe Bonnie. - Eu no tenho calor nenhum. Estou cheiade frio. Estou gelada! Meu
Deus! Meu Deus! - e agitava os braos. - por piedade, meu Deus! Que ningum me veja neste estado!
A senhora Kidwell sentou-se na borda da cama. Quis abraar Bonnie e esta acabou por consentir.
        Wilka - disse ela. - Estive a escutar. Estive a ouvir-vos falar a todos. A falar e a rir, muito divertidos. Eu fico
sempre de fora,
tenho falhado tudo. Os melhores anos da minha vida, os filhos... tudo. Pouco falta para que at o Kenyon seja
um homem. E que recordao ter ele de mim? A de um fantasma, Wilka.
Neste dia, que seria o ltimo da sua vida, Mrs. Clutter foi pendurar no armrio a bata de chita que vestira,
envergando uma das longas camisas de noite e um par de meias brancas lavadas. Depois, antes de se deitar,
tirou os culos que trazia e substituiu-os por outros. Muito embora assinasse uma poro de jornais (The
Ladies Home Journal, Reader's Digcst e o Together: Mdmonth Magazine for Mctbodist Families), nenhum
destes se encontrava neste momento sobre a mesinha-de-cabeceira apenas a Bblia. Entre as pginas desta
havia uma marca, uma fita de seda encerada sobre a qual haviam bordado este aviso: "Prestai ateno, vigiai e
orai; porque vs no sabeis quando soar a hora."
Os dois rapazes pouco tinham em comum, mas no se apercebiam disso, visto que possuam um certo nmero
de afinidades superficiais. Por exemplo, ambos eram requintados e exigentes Depois daquela manh de lubrificao, passaram cerca de uma hora no toilette da garagem. 
Dick em roupas interiores era muito diferente do Dick completamente vestido. Assim, parecia um rapazola magro, de altura mdia, descarnado e talvez com o peito metido 
para dentro; despido, via-se que no era nada disso, mas sim um atleta treinado em peso e alteres. O focinho de um gato tatuado em azul, com uma expresso de riso, 
cobria-lhe a mo direita; sobre um dos ombros floria uma rosa. Outros sinais, desenhados e tatuados por ele, ornamentavam-lhe os braos e o tronco: a cabea de um 
drago com uma caveira entre as mandbulas; mulheres nuas de seios opulentos; um diabrete brandindo uma forquilha; a palavra PAZ acompanhada com uma cruz rodeada 
de riscos a imitar raios de luz; e duas composies sentimentais - uma delas um ramo de flores dedicado  ME E Ao PAI, o outro um corao que celebrava o romance 
de Dick E CAROL, a rapariga com quem se casara aos dezanove anos e da qual se separara seis anos mais tarde, a fim de "reparar a sua falta para com outra jovem, 
me do seu filho mais novo. ("Tenho trs filhos dos quais tomarei definitivamente conta" - declarara ele ao ser liberto condicionalmente. "A minha mulher casou outra 
vez. Fui casado duas vezes, mas com a segunda no quero nada").
Mas nem o fsico de Dick nem as pinturas que o adornavam tinham o condo de impressionar tanto como o
seu rosto, que
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parecia formado por bocados que no correspondiam bem uns com os outros. Era como se lhe tivessem partido
a cabea ao meio da mesma forma que se corta uma ma, colando-a de novo, um pouco descentrada.
Sucedera-lhe de facto uma coisa parecida; as suas feies mal alinhadas eram consequncia de um desastre de
automvel ocorrido em 1950 e que lhe deixara o rosto mais comprido, com a face esquerda ligeiramente
abaixo da direita, os olhos no s desnivelados mas de tamanho diferente, tendo o esquerdo um olhar malvolo
como o das serpentes, uma fixidez da pupila demasiado azul que, embora involuntariamente, parecia no
entanto querer avisar as pessoas da maldade que lhe ia l por dentro. Porm, Perry afirmara-lhe:
        No te preocupes com os teus olhos, pois tens um sorriso extraordinrio. Um daqueles sorrisos a que
ningum resiste.
A verdade  que a contraco do sorriso fazia-lhe regressar as feies ao seu lugar normal e tornava possvel
distinguir nele uma personalidade menos assustadora, uma espcie de "bom rapaz" tipo americano, com o
cabelo cortado  escovinha, mas j um pouco crescido, revelando certo equilbrio, sem ser demasiado
inteligente. (Na realidade ele era muito inteligente. Um teste feito na priso classificava-o entre 90 e 110
pontos.)
Perry tambm tinha sido sinistrado, e os seus ferimentos, produzidos por um desastre de motocicleta, haviam
sido mais graves do que os de Dick; passara meio ano num hospital do estado de Washington e outros seis
meses de muletas; muito embora o acidente tivesse ocorrido em 1952, as suas pernas cambadas, de ano,
partidas em vrios stios e mal cicatrizadas, ainda lhe doam a ponto de ele se haver transformado num viciado
da aspirina. Embora tivesse menos tatuagens do que o companheiro, as suas eram mais complicadas - no
trabalho feito pelo prprio, de amador, mas sim verdadeiras obras de arte, realizadas por mestres de Honolulu
e de Yokohama. No bceps direito tinha tatuado o nome Cookie, que era o de uma enfermeira com quem havia
tido relaes de amizade durante a sua estadia no hospital. No brao esquerdo ostentava um tigre de plo azul,
olhos cor de laranja e dentes amarelos arreganhados; uma cobra cuspideira enrolada  volta de um punhal
deslizava-lhe ao longo do brao; e por toda a parte do corpo luziam caveiras, avultavam sepulturas, desabrochavam crisntemos.
        Pronto, meu menino. Acaba l com a penteadela - declarou Dick, j de ponto em branco.
Depois de haver despido o fato de trabalho, envergava agora umas calas de caqui cinzentas, camisa a
condizer e, tal como Perry, botas pretas de canos at ao artelho. Perry, que nunca conseguia 36
encontrar calas que servissem nas suas pernas deformadas, trazia-as enroladas em baixo e usava uma jaleca de cabedal. Bem lavados, penteados, to compostos como 
dois janotas que fossem encontrar-se com as namoradas, meteram-se no carro.
A distncia entre Olathe, um subrbio de Kansas City, e Holcomb, que tambm se podia chamar um subrbio de Garden City, era aproximadamente de quatrocentas milhas.
Uma cidade de onze mil habitantes, Garden City comeara a albergar os seus fundadores logo a seguir  Guerra Civil. Mr. C. J. (Bfalo) Jones, caador itinerante 
de bfalos, fora em parte o responsvel pela transformao da aldeia, at ali constituda por um aglomerado de tendas e barrotes onde se prendiam os cavalos, num 
opulento centro de rancheiros, cheio de saloons barulhentos, com um teatro de pera e o hotel mais bem mobilado e confortvel que existia entre Kansas City e Denver 
- numa palavra, uma espcie de estncia fronteiria que rivalizava com outro centro que ficava cinquenta milhas a leste, Dodge City. Juntamente com Bfalo Jones, 
que perdera o seu dinheiro e depois o juzo (os ltimos anos da vida passou-os a pregar pelas ruas contra o extermnio dos animais que ele com tanto lucro ajudara 
a matar), as glrias do passado esto mortas e enterradas. Existem ainda algumas recordaes; uma fila de edifcios de cunho relativamente antigo, a que chamam o 
Quarteiro Bfalo, e o Hotel Windsor, outrora luxuoso, com os seus sales de tectos altos e trabalhados e o seu ambiente de escarradores e palmeiras em vasos, que 
mantm, no meio das diversas lojas e supermercados, como que um cunho de Rua Principal; supremacia esta muito discutvel, visto que os quartos escuros e vastos do 
Hotel Windsor, os seus trios sonoros, por muito evocativos do passado que sejam, no podem competir com a comodidade do ar condicionado que oferece o pequeno e 
esmerado Hotel Warren, ou o Wheat Lands Motel, com os seus aposentos dotados de televiso e a sua "Piscina de gua Aquecida".
Quem quer que haja feito a travessia da Amrica, de uma costa a outra, seja de comboio, seja de automvel, passou, decerto, por Garden City, mas provavelmente pouca 
gente ter reparado nela.
No passa de mais uma cidade situada no centro precisamente 110 centro - do continente dos Estados Unidos. Os habitantes, provavelmente, e com razo, protestariam 
contra tal indiferena.
Muito embora eles exagerem: (por mais que se procure, em nenhuma outra parte do mundo se encontra gente mais simptica, ar mais puro, gua mais fresca", ou ento: 
"Eu podia ter 37
ido para Denver ganhar trs vezes mais, mas tenho cinco filhos e acho que no existe melhor terra para os
educar. Escolas admirveis, onde se praticam todos os desportos. Temos at os primeiros anos da Universidade". E ainda: "Vim para c para estagiar na advocacia. 
Temporariamente. Nunca pensei em ficar.
Tive oportunidade de me ir embora, mas para qu? Para que diabo me havia de ir embora? Talvez isto no seja
Nova Iorque... Mas quem pode desejar viver em Nova Iorque? Aqui temos bons vizinhos, pessoas que se
interessam umas pelas outras, e isso  que conta. De resto, aqui h tudo quanto um homem decente possa
desejar. E belas igrejas. E um campo de golfe"). O recm-chegado a Garden City, uma vez que se habitue ao
silncio que se estabelece logo depois das oito da noite, descobrir muitas coisas que desculparam este
bairrismo exagerado: uma biblioteca pblica muito bem organizada, um jornal dirio eficiente, largos de relva
bem cuidados, ruas calmas ladeadas de vivendas onde as crianas e os animais podem correr, sem receio, um
enorme parque de recreio dotado at de um pequeno jardim zoolgico ("Vejam os ursos Polares!", "Vejam o
Elefante Pequenino!") e a piscina que ocupa uns poucos de hectares ("A maior piscina do mundo com entrada
GRTIS!). Semelhantes atributos, alm da poeira dos ventos e dos apitos constantes dos comboios, constituem uma "cidade de provncia" que provavelmente  recordada 
com saudade por aqueles que partem e que para aqueles que ficam oferece uma sensao de enraizamento e de alegria.
Todos, sem excepo, garantem que entre os seus habitantes no existem distines sociais ("Nada disso. Aqui
no se usam essas coisas. So todos iguais, sem se olhar a questes de riqueza, cor ou credo. Passa-se tudo
como deve ser numa verdadeira democracia. Ns c somos assim"). Mas claro, as diferenas sociais so
observadas, to rigorosamente como em qualquer outra colmera humana. Cem milhas a oeste estava-se fora da
"Zona da Bblia", aquela faixa da Amrica que se regulava rigorosamente pelo Evangelho e dentro da qual um
homem era obrigado, quanto mais no fosse por motivos de interesse, a cumprir rigorosamente os preceitos da
religio. Em Finney County, porm, estava-se ainda dentro da "Zona da Bblia" e portanto a filiao religiosa
de cada um constitua o factor de influncia mais importante no seu nvel social. Oitenta por cento dos fiis
eram baptistas, metodistas e catlicos romanos; no entanto, entre a elite - composta por comerciantes,
banqueiros, advogados, mdicos e rancheiros influentes - predominavam os presbiterianos e os episcopalistas.
Acontece por vezes um metodista ser bem aceite; um ou outro democrata consegue infiltrar-se, mas, na sua
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maioria, a classe dominante compe-se de republicanos das direitas e de filiados na seita presbiteriana e episcopalista.
Na sua qualidade de homem instrudo e eficiente na sua procisso, como destacado republicano e dirigente religioso - muito embora pertencesse  seita metodista -, 
Mr. Clutter poderia aspirar a fazer parte da elite local. Uma vez, porm, que sempre se recusara a ser membro do Country Club de Garden City, nunca convivera com 
a alta sociedade que ali dava cartas. Pelo contrrio, afastavase dela, visto que os divertimentos desta no coincidiam com os seus. No apreciava jogos de cartas, 
nem golfe, nem cocktails, nem ceatas s dez da noite - numa palavra, era contra todo e qualquer divertimento que no tivesse, segundo dizia, "a sua utilidade". E 
era esse o motivo por que, naquele sbado, em lugar de estar jogando uma partida de golfe, ele se encontrava a presidir a uma reunio no Club dos 4-HH de Finney 
Country. (4-HH significava "Head, Heart, Hands, Healthe" e o seu lema era "Aprendamos a praticar". Tratava-se de uma organizao nacional com ramificaes no estrangeiro, 
cujo objectivo  auxiliar os que vivem nas reas rurais - particularmente as crianas - a desenvolver as capacidades e a moral. Nancy e Kenyon eram membros deste 
clube desde a idade de seis anos.) No fim da reunio, Mr. Clutter disse:
        H uma coisa que tenho a declarar, a qual diz respeito a um dos nossos scios adultos. - E os seus olhos procuraram uma japonesa gorducha rodeada por quatro 
filhos tambm rechonchudos. - Todos vocs conhecem a Mrs. Hideo Ashida. Sabem que os Ashidas vieram para aqui depois de habitarem o Colorado e que h dois anos se 
entregam  agricultura em Holcomb. Trata-se de uma famlia exemplar, daquelas que nos orgulhamos de ter entre ns. Todos partilham a minha opinio.
Pelo menos todos aqueles que estiveram doentes e a quem Mrs. Ashida fez aqueles seus deliciosos caldos, muito embora para isso se tivesse de deslocar sabe-se l 
a que distncia. Todos viram tambm as flores que ela cultiva em lugares onde ningum poderia esperar que elas se dessem.
Devem tambm estar lembrados da maneira como ela contribuiu, na feira do condado do ano findo, para o xito da exposio do nosso Club. Por isso venho sugerir que 
lhe seja oferecido um prmio no nosso banquete da prxima tera-feira.
Os filhos de Mrs. Ashida, apinhados em volta dela, davam-lhe cotoveladas e o rapaz mais velho gritou:
        Olha, me! Aquilo  contigo!
Porm, Mrs. Ashida ficara toda envergonhada; limpava os Nota: Cabea, Corao, Mos, Sade. (N. Da T.)
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olhos com as suas mos papudas de criana e ria. Era casada com um lavrador que cultivava terras de renda; a
quinta onde viviam, muito batida do vento e isolada, ficava a meio caminho entre Garden City e Holcomb. No
fim das reunies do Clube dos
4-HH, Mr. Clutter costumava levar os Ashidas a casa no seu automvel e naquele dia assim fez tambm.
        Isto  que foi uma surpresa! - exclamou Mrs. Ashida quando seguiam j pela estrada, na carrinha de Mr.
Clutter. - Passo a vida a agradecer-lhe, Herb, mas obrigada mais uma vez.
Ela havia-o conhecido no dia seguinte  sua chegada a Finney County, na vspera do Dia da Aco de Graas.
Mr. Clutter e Kenyon tinham ido visitar os Ashidas, levando-lhe um carregamento de abboras e cabaos.
Durante aquele primeiro ano no faltaram os presentes de produtos que os Ashidas ainda no haviam colhido,
tais como espargos e alfaces. E Nancy levava-lhes muitas vezes a sua gua Babe para as crianas passearem.
        Sabe, a muitos respeitos  esta a melhor terra em que temos vivido. O meu marido diz o mesmo. Nem
queremos pensar em ir embora daqui e comear a vida outra vez noutro stio.
        Sair daqui? -protestou Herb, afrouxando.
        Bem, Herb.  por causa da quinta e dos senhorios... O Hideo pensa que poderamos tirar melhor rendimento
noutra parte. Talvez no Nebrasca. Mas ainda no est nada resolvido. Por enquanto so s projectos.
O tom corajoso da voz dela, sempre risonha, tornava aquelas melanclicas notcias de certo modo menos
desanimadoras, mas, ao ver que Mr. Clutter entristecera, ela mudou de assunto:
        Herb, preciso que me d a sua opinio - disse. - Eu e os midos queremos dar ao Hideo um presente pelo
Natal, mas qualquer coisa de importante . O que ele mais precisa  dos dentes. Diga-me uma coisa, se a sua
mulher se lembrasse de lhe oferecer trs dentes de ouro o senhor achava um disparate? Isto , achava que era
como se lhe pedisse para passar o Natal na cadeira do dentista?
        Voc  formidvel! Nunca se lembre de ir embora daqui seno atamo-la de ps e mos! - declarou Mr.
Clutter. - Sim senhor, dentes de ouro, acho muito bem. Se mos dessem a mim ficava encantado da vida!
A resposta satisfez Mrs. Ashida, pois esta bem sabia que ele no falaria assim se no aprovasse a sua ideia; era
um cavalheiro. Nunca o vira responder com galanteios, fazer-se atrevido, ou faltar  sua palavra. E ela
arriscou-se a formular um pedido:
        Escute, Herb. No banquete, nada de discursos. Combinado? No gosto de palavreados. Consigo,  outra
coisa. Voc  capaz
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de se pr de p e falar diante de centenas de pessoas. Ou milhares. Sente-se  vontade e consegue convencer os
outros. Nada lhe mete confuso. - Invocava assim uma qualidade que toda a gente reconhecia em Mr. Clutter:
a calma segurana que fazia dele um ser  parte e que ao mesmo tempo que o impunha ao respeito dos outros,
tambm os mantinha um pouco  distncia.
        No o consigo imaginar com medo seja do que for. Acontea o que acontecer, o senhor consegue sempre
sair-se bem.
Pelo meio da tarde, o Chevrolet negro chegava a Emporia, no Kansas. Era uma grande povoao, quase uma
cidade, e no oferecia qualquer perigo, por isso os ocupantes do carro resolveram fazer ali algumas compras.
Arrumaram o automvel numa rua lateral e procuraram at encontrarem uma loja que vendia de tudo.
A primeira compra foi um par de luvas de borracha; destinavam-se a Perry, que, ao contrrio de Dick, se
esquecera de trazer umas velhas de casa.
Dirigiram-se a um mostrador onde se via exposta roupa feminina. Aps uma rpida discusso, Perry disse:
        por mim no desisto delas. Dick era de opinio contrria:
        E os meus olhos? So demasiado claros para se poderem disfarar.
        Menina - disse Perry chamando a ateno de uma das caixeiras. - Tem meias pretas? Depois de obter uma resposta negativa, props que fossem procurar a outra 
loja:
        As pretas  que servem para o efeito.
Porm, Dick mostrou-se inabalvel: meias, fosse qual fosse a sua cor, no eram precisas para nada, seria uma
despesa intil.
-J gastei dinheiro de mais com esta histria!
Afinal de contas ningum ficaria vivo para contar fosse o que fosse.
        No haver testemunhas - lembrava ele a Perry, pela milsima vez, segundo parecia a este.
Irritava-o a maneira como Dick pronunciava aquelas palavras, como se elas contivessem a soluo de todos os
problemas; era estpido no admitir que pudesse haver uma testemunha que lhes tivesse passado despercebida.
        s vezes acontece o imprevisto, as coisas levam uma volta diferente do que ns imaginamos.
Porm, Dick sorria, fanfarro:
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        No sejas medricas! Isto no pode falhar.
Claro, no podia falhar porque o plano era de Dick e desde o primeiro passo at ao silncio final estava
impecavelmente delineado.
A seguir precisavam de corda. Perry examinou a mercadoria e experimentou-lhe a resistncia. Como servira
na Marinha Mercante, percebia do assunto e era perito em toda a espcie de ns complicados. Escolheu uma
de nylon branco, slida e fina como um arame. Discutiram um com o outro a poro que seria necessria. Esse
pormenor irritava Dick, pois fazia parte de uma incgnita  qual, a despeito de todos os seus clculos, no
estava habilitado  responder. Por fim, declarou:
        Santo Deus! Como poderei eu saber isso?
        Tens de saber mesmo. Dick fez um esforo:
         o homem, a mulher, o rapaz e a pequena. Talvez haja mais dois. E sbado, podem ter convidados. Digamos
oito, ou talvez doze. A nica coisa certa  que todos eles tm de marchar desta para melhor.
        Isso parece-me muita gente. Nunca se pode ter a certeza.
-
        No foi isso o que te prometi, p? Que at as paredes haviam de ficar cheias de cabelos? Perry encolheu os ombros:
        Nesse caso o melhor ser levarmos o rolo inteiro.
Este media coisa de cem jardas, quanto bastava para atar doze pessoas.
Fora o prprio Kenyon quem fizera a arca: uma arca de mogno, forrada de cedro, que ele tencionava oferecer
a Beverly como presente de noivado. Neste momento estava a dar-lhe os ltimos retoques, mais uma camada
de verniz, e trabalhava naquilo a que chamavam o antro, nas caves. O mobilirio do antro, uma sala cimentada
que ocupava todo o comprimento da casa, era constitudo quase inteiramente de peas da sua autoria
(prateleiras, mesas, bancos, uma mesa de pingue-pongue) e os ornamentos haviam sido confeccionados por
Nancy (a cobertura de chita que rejuvenescia o sof decrpito, as cortinas, as almofadas, nalgumas das quais
se liam legendas como esta: S FELIZ? Ou ento: NO  PRECISO SER-SE MALUCO PARA AQUI
VIVER, MAS  PREFERVEL). Kenyon e Nancy haviam tentado juntos dar uma pintadela nas paredes para
lhes tirar o inevitvel aspecto grosseiro, mas ambos consideravam a sua obra um xito. Na verdade tanto um
como outro achavam que aquele antro
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constitua a sua obra-prima e o seu paraso: Nancy porque ali podia receber "a malta" sem incomodar a me e Kenyou porque conseguia l dentro isolar-se e martelar, 
serrar e distrair-se  vontade com as suas "invenes", a mais recente das quais era uma caarola elctrica. Junto do antro ficava a casa das caldeiras, que continha 
uma mesa coberta de ferramentas e de outras obras que ele trazia entre mos: uma aparelhagem sonora e uma antiga grafonola de manivela que pretendia consertar.
Fisicamente, Kenyon no se parecia nem com o pai nem com a me: o seu cabelo cortado rente tinha a cor do cnhamo, media um metro e oitenta de altura, era magro, 
embora fosse suficientemente forte para ter salvo um dia um casal de ovelhas adultas durante uma tempestade de neve, trazendo-as as costas - forte e bem constitudo, 
mas dotado infelizmente daquela falta de coordenao muscular que  prpria dos rapazes que crescem demasiado depressa. Este defeito, agravado pela sua incapacidade 
para fazer qualquer coisa sem culos, impedia-no de tomar parte activa nos desportos de grupo (basquetebol e beisebol), que constituam o principal passatempo dos 
rapazes que poderiam ser seus amigos ntimos. Portanto, s tinha um - Bob Jones, filho de Taylor Jones, cujo rancho ficava apenas a uma milha a oeste da casa dos 
Clutter. Nas zonas rurais do Kansas, os rapazes comeam a conduzir carros muito cedo; Kenyon tinha doze anos quando o pai o autorizou a comprar, com o dinheiro que 
juntara a criar ovelhas, uma velha carrinha com motor modelo A, a que ele e Bob chamaram o "carro dos Coiotes". Perto da quinta de River Valley existia uma misteriosa 
extenso de terreno conhecida pelo nome de Sandy Hills; assemelhava-se a uma praia sem mar e,  noite, os coiotes costumavam juntar-se ali em alcateias, no meio 
das dunas, a uivar. Quando havia luar, os rapazes gostavam de lhes dar caa, perseguindo-os e tentando ultrapass-los com o automvel; poucas vezes o conseguiam, 
pois o mais vagaroso dos coiotes  capaz de correr a cinquenta milhas por hora, ao passo que a velocidade mxima do carro deles era de trinta e cinco milhas; porm 
a corrida era fascinante e divertida, com o carro a deslizar na areiae as silhuetas dos coiotes recortadas no cu no dizer de Bob, aquilo era um espectculo de cortar 
a respirao.
Igualmente fascinante e mais til era a caa ao coelho praticada pelos dois rapazes: Kenyon atirava bem e o amigo melhor ainda e entre os dois conseguiam por vezes 
entregar meio cento de coelhos  "fbrica", uma organizao de Garden City que os pagava a dez cntimos por cabea e que depois congelava a carne e aproveitava as 
peles para entregar aos fabricantes de visons. Porm, 43
aquilo que tanto Bob como Kenyon mais apreciavam eram as suas excurses venatrias ao longo das margens
do rio, onde passavam a noite acampados, envoltos em cobertores; escutavam ao romper do dia um roagar de
asas, e dirigiam-se para o local donde vinha o som, com todas as cautelas. Mas o melhor de tudo era o regresso
a casa com uma dzia de patos pendentes dos cintos. Ultimamente, contudo, as coisas haviam-se modificado
um pouco entre Kenyon e o amigo. No houvera discusso nem sequer um abandono ostensivo, nada, a no
ser o facto de Bob, que contava agora dezasseis anos, ter passado a andar com uma rapariga. Isto significava
que Kenyon, um ano mais novo e ainda na fase do adolescente solitrio, j no podia contar com a sua
companhia. Bob afirmara-lhe:
        Quando tiveres a minha idade vers como  diferente. Eu costumava pensar como tu: Mulheres? Que
interesse podem elas ter para ns? Mas a certa altura comeamos a conversar com uma determinada rapariga e
descobre-se que  bestial. Vais ver!
Mas Kenyon no acreditava; no podia admitir que algum dia viesse a desejar perder uma hora a falar com
uma rapariga qualquer em lugar de andar a caa, ou a entreter-se com os cavalos, com as suas ferramentas e
maquinetas, ou at com um livro. Uma vez que Bob no estava disponvel, preferia distrair-se sozinho, visto
que, por temperamento, saa muito mais  me do que ao pai. Era uma criana sensvel e tmida. Os seus
colegas consideravam-no um bocado "peneirento", mas perdoavam-lhe, dizendo: "Oh, o Kenyon anda sempre
na lua!"
Enquanto dava tempo ao verniz para secar, foi fazer outro trabalho que o obrigava a sair l para fora. Desejava
limpar o jardim da me, um matagal de verdura emaranhada que ficava por baixo da janela do quarto desta.
Ao chegar ali, encontrou um dos trabalhadores que remexia a terra com uma enxada. Tratava-se de Paul Helm,
o marido da mulher a dias.
        Viu o carro? - inquiriu o homem.
Sim, Kenyon tinha visto o automvel parado na alameda um Buick cinzento, diante da porta do escritrio do
pai. -Julguei que soubesse a quem pertencia.
        No sei, a no ser que seja de Mr. Johnson. O pai tinha dito que estava  espera dele hoje.
Mr. Helm, o falecido Mr. Helm, pois veio a morrer de um ataque no ms de Maro seguinte, era um homem
taciturno, de cinquenta e muitos anos, cujas maneiras retradas escondiam uma natureza curiosa e observadora;
gostava de saber o que se passava  sua volta.
        Quem  esse Johnson?
44
         um tipo da companhia de seguros. Mr. Helm resmungou:
        O seu pai j deve estar farto de o aturar. Vejo ali o carro h mais de trs horas, segundo me parece.
Um arrepio de frio a anunciar o crepsculo atravessou o ar e, muito embora o cu se conservasse de um azul
inaltervel, as sombras dos crisntemos alongavam-se j pelo cho; no meio destes brincava o gato de Nancy
embaraando as patas na rfia com que Kenyon e Mr. Helm atavam as plantas naquele momento. De sbito a
prpria Nancy surgiu atravessando o prado a cavalo na gorda Babe, a qual regressava do seu passeio habitual
ao sbado: um banho no rio. Acompanhava-os Teddy, o co, e todos trs escorriam gua.
        Vai apanhar uma constipao - avisou Mr. Helm.
Nancy riu-se. Nunca estivera doente, nem uma vez s. Depois de saltar do cavalo, estendeu-se no cho, no
meio da erva  beira dos canteiros, e agarrou no gato que ergueu acima da cabea, beijando-o no focinho.
Kenyon mostrou-se enojado:
        Essa de dar beijos no focinho dos animais!
Tu costumavas beijar o Skeeter - recordou ela.
        O Skeeter era um cavalo.
Um belo cavalo, por sinal, de plo avermelhado que ele criara desde poldro. Que bem ele saltava uma
barreira!
Tu rebentas com esse cavalo avisava-o o pai. - Um dia ds cabo dele! E assim foi. Certo dia que Skeeter galopava por uma estrada fora, com o dono em cima, o seu 
corao teve uma falha, tropeou e caiu morto. Decorrido um ano, Kenyon ainda se recordava dele com desgosto, muito embora o pai, com pena do rapaz, lhe tivesse 
prometido deix-lo escolher um poldro da criao da prxima Primavera.
        Kenyon - disse Nancy. - Achas que o Tracy j falar? Na altura em que c vier? Tracy ainda no tinha um ano e era filho da irm Eveanna, a sua preferida. 
(Beverly era a favorita de Kenyon.)
        Acho que vou ficar maluca quando o ouvir chamar-me "tia Nancy". Ou a ti "tio Kenyon". Achas que vais
gostar de o ouvir dizer isso? Isto , gostas de ser tio? Kenyon! Santo Deus, porque no respondes ao menos
uma palavra?
        porque tu s maluca - retorquiu ele, atirando-lhe com uma flor decepada, uma dlia de duas cores que a
rapariga espetou nos cabelos.
Mr. Helm pegou na enxada. Os corvos comearam a crucitar, 45
o crepsculo aproximava-se e a casa dele ficava longe; a alameda dos lamos chineses transformara-se num
tnel escuro e ele vivia l no fim,  distncia de meia milha.
        Boa noite - disse o homem ao partir. Olhou ainda uma vez para trs.
        E foi essa - iria ele declarar no dia seguinte - a ltima vez que os vi. Nancy conduzia a velha Babe para a
estrebaria, tal como j disse, tudo na forma do costume.
O Chevrolet preto estava parado mais uma vez, agora em frente do hospital catlico, nos subrbios de
Emporia.  fora de tanto ser massacrado ("O teu mal  esse, achas que s tu  que sabes, o que tu dizes  que
est certo!"), Dick rendera-se. Enquanto Perry o esperava dentro do carro, ele entrara no hospital, resolvido a
comprar a uma das freiras um par de meias pretas. Este processo muito pouco ortodoxo de as obter fora ideia
de Perry: as freiras, dizia ele, devem estar bem fornecidas. Este processo, claro, apresentava um inconveniente: as freiras e tudo quanto lhes dissesse respeito 
traziam azar e Perry respeitava muito as supersties. (Tinha outras que eram o nmero 13, os cabelos ruivos, as flores brancas, os padres que atravessam a rua e 
sonhar com cobras.) No entanto no havia outro remdio. Aqueles que acreditem piamente em supersties so, a maioria das vezes, fatalistas, e era este o caso de 
Perry. Encontrava-se ali, envolvido naquele negcio, no porque o tivesse desejado, mas sim porque a sorte o decidira; podia prov-lo, muito embora no tivesse inteno 
de o fazer, pelo menos com o conhecimento de Dick, porque essa prova consistiria na confisso do verdadeiro e secreto motivo do seu regresso ao Kansas. Isto representava 
uma quebra do juramento a que se sujeitara, por uma razo totalmente estranha ao "trabalhinho" de Dick ou  carta que este lhe enviara a cham-lo. Essa razo era 
o facto de que, algumas semanas antes, ele viera a ter conhecimento de que, na tera-feira, 12 de Novembro, um dos seus antigos companheiros na penitenciria de 
Lansmg, no estado de Kansas, ia ser liberto e Perry desejava, acima de tudo no mundo, encontrar-se com este homem que era o seu "verdadeiro e nico amigo", o "inteligente" 
Willie-Jay.
Durante o primeiro dos trs anos que passara na priso, Perry observara Willie-Jay  distncia, com interesse
e, ao mesmo tempo, um certo receio; se algum dos presidirios queria parecer um "duro", as mtimidades com
Wilhe-Jay s o poderiam prejudicar. Este rapaz era o sacristo da cadeia; tratava-se de um irlands magro, de
cabelos prematuramente grisalhos e olhos
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cinzentos, melanclicos. A sua voz de tenor constitua a glria do coro dos detidos. At mesmo Perry, que desprezava todas as manifestaes de piedade exagerada, 
se sentia "impressionado" quando ouvia Willie-Jay cantar "A Orao do Senhor"; a letra grave do hino, cantada com um esprito to crdulo, comovia-o e fazia-o reconsiderar 
se acaso o seu desprezo seria justo.
A certa altura, instigado por uma certa curiosidade religiosa, aproximou-se de Willie-Jay, e este, interessando-se por ele imediatamente, julgou adivinhar naquele 
aleijado de olhos sonhadores e voz enfatuada, um tanto rouca, "um poeta, uma natureza rara e destinada a ser salva"; logo se sentiu dominado pela ambio de "levar 
aquele rapaz para Deus". As suas esperanas fortaleceramse quando certo dia Perry lhe mostrou um desenho a pastel feito por ele - um enorme e ingnuo retrato de 
Jesus realizado sem nenhuma tcnica. O capelo protestante de Lansing, o reverendo James Post, apreciou-o a tal ponto que o pendurou no seu gabinete, onde ainda 
hoje se encontra.
Representava um Salvador muito magro e belo, com os lbios grossos e os olhos magoados de Willie-Jay. Este retrato materializava o ponto culminante do problema espiritual 
de Perry, o qual nunca foi muito agudo,  preciso que se note, e, por ironia do destino, o seu fim tambm: considerava aquele retrato de Jesus uma "hipocrisia", 
uma tentativa de "iludir e trair Willie-Jay", pois descria tanto em Deus como at ali. Mas como poderia confessar isto arriscando-se a perder o nico amigo que at 
 data fora capaz de o "compreender verdadeiramente?" (Hod, Joe, Jesse, tudo viajantes que encontrara pelo caminho, s estes haviam sido os seus "camaradas", nunca 
tivera nenhum como Willie-Jay, que, na opinio de Perry, "se podia considerar acima de qualquer inteligncia vulgar, compreensivo como qualquer psiclogo experimentado". 
Como era possvel que um homem daqueles tivesse ido parar a Lansing? Era isso o que intrigava Perry. A resposta, que ele conhecia, mas se recusava a admitir como 
sendo "uma evaso  verdadeira pergunta humana", no entanto satisfatria para os espritos simples, era que o sacristo da cadeia, que ento contava trinta e oito 
anos, era um ladro, um gatunozito que naqueles ltimos vinte anos vinha cumprindo penas em diversas penitencirias de cinco estados diferentes.) Perry resolveu-se 
a confessar: tinha muita pena, mas o Cu, o Inferno, os Santos, a Divina Providncia, nada disso o interessava - e se a amizade de Willie-Jay era baseada na esperana 
de que Perry algum dia viesse ajoelhar com ele aos ps da cruz, estava redondamente enganado e ento a sua amizade seria falsa, seria uma fraude, tal como o retrato 
de Cristo que pintara.
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Como sempre sucedia, Willie-Jay compreendeu: desconsolado mas no desiludido, teimou em fazer namoro 
alma de Perry, at ao dia em que a este foi concedida liberdade condicional. Na vspera escreveu-lhe uma
carta de despedida, cujo ltimo pargrafo rezava assim: "Tu s um homem de paixes violentas, um homem faminto que no sabe ao certo sobre que recai o seu apetite, 
um homem profundamente frustrado que luta no intuito de projectar a sua individualidade no espaldar da rgida conformidade. Existes num submundo suspenso entre duas 
superstruturas, uma de auto-expresso, outra de autodestruio. Tu s forte, mas existe uma falha na tua fortaleza e, a no ser que aprendas a dominarte, a falha 
revelar-se- mais forte do que a fortaleza e destruir-te-. Qual  essa falha? Uma reaco emocional explosiva desproporcionada ao motivo. E isto porqu ? Qual a 
razo desta ira irracional em face dos outros que vs felizes e contentes? Porqu este desprezo crescente pelos outros e este contnuo desejo de os ferir? Pois bem: 
tu julga-los estpidos, despreza-los em virtude da sua moral, a felicidade de que gozam  a causa da tua frustrao e ressentimento. Isto porm so inimigos perigosssimos 
que trazes no teu seio e que mais tarde viro a revelar-se to mortferos como balas. Felizmente para ela, no entanto, a bala mata a sua vtima. No entanto estes 
vrus, que persistem atravs do tempo, no matam um homem mas deixam no seu rasto a carcaa de uma criatura desfeita e aniquilada; no seu ntimo o fogo contnua 
a arder, mas  alimentado por cavacos de desprezo e de dio. Pode conseguir recolher qualquer coisa, mas nunca triunfos porque  inimigo de si prprio e est-lhe 
vedado gozar o fruto das suas realizaes.
Lisonjeado por ser o alvo deste sermo, Perry deixou que Dick o lesse, e este, que no nutria grande considerao por Willie-Jay, considerara a carta "uma srie 
de patacoadas" e comentara:
        Cavacos de desprezo! Ele  que me saiu um bom cavaco! Claro, Perry j esperava esta reaco e no seu ntimo sentiu-se satisfeito porque a amizade entre 
ele e Dick, com o qual pouco convivera at quase ao fim da sua estadia em Lansing, representava uma consequncia e um contrapeso ao excesso de estima que nutria 
pelo sacristo. Talvez Dick fosse realmente " um balofo", ou mesmo, segundo Willie-Jay, " um fanfarro mal-intencionado". De qualquer modo, tinha muita piada, era 
esperto, realista, "po-po, queijo-queijo", e no tinha papas na lngua nem macaquinhos na cabea. Alm de que, ao contrrio de Willie-Jay, no contrariava as ideias 
exticas de Perry; estava sempre pronto 48
a dar-lhe ouvidos, a partilhar com ele as fantasias relativas a "tesouros escondidos" nos mares do Mxico ou
no meio das florestas do Amazonas.
Depois da libertao de Perry, decorreram quatro meses de passeatas num Ford em quinta mo que custara
cem dlares, entre Reno e Las Vegas, de Belligham, no estado de Washington, para Buhl, no Idaho. E foi
nesta ltima cidade, onde encontrara trabalho temporariamente como motorista de camio, que recebeu a carta
de Dick:
Caro amigo P:
Sa em Agosto e depois de sares conheci uma pessoa que tu no conheces, mas essa pessoa falou-me de uma
coisa que est mesmo a calhar para ns. Aquilo  canja, um trabalhinho perfeito...
At quele dia Perry nunca imaginara voltar a encontrar Dick. Ou mesmo Willie-Jay. Mas pensara muito
neles, especialmente no ltimo, que, na sua recordao, via como um homem grisalho e cheio de sabedoria,
muito alto, que se encontrava sempre presente no seu esprito.
"Tu queres estar permanentemente na oposio", declarara-Ihe Willie-Jay num dos seus sermes. "Queres
viver sem responsabilidades, sem f, nem amigos, nem calor humano." Durante as suas recentes e solitrias deambulaes, sentindo-se sem conforto e sozinho, Perry 
rememorara muitas vezes esta acusao e conclura que era injusta. Interessava-se pelos outros, sim senhor, mas quem  que quisera saber dele para alguma coisa? 
O pai? Sim, at certo ponto. Uma ou duas raparigas, mas isso era uma longa histria. De resto mais ningum, a no ser Willie-Jay. E s este lhe reconhecera o valor, 
as possibilidades, s ele compreendera que Perry no era apenas um mestio atarracado e supermusculoso.
Apesar de todos os sermes que lhe pregava, vira-o tal e qual ele se via a si prprio - um ser "excepcional,
raro, um artista". A sua vaidade encontrara eco em Willie-Jay, a sua sensibilidade achara acolhimento
favorvel e aqueles quatro meses de afastamento de quem tinha dele uma to alta opinio transformara esse
amigo numa personagem mais atraente do que todo e qualquer tesouro escondido. Por isso, quando recebeu o
convite de Dick, lembrou-se imediatamente de que a data proposta por Dick para a sua vinda ao Kansas
coincidia precisamente
com a altura da libertao de Willie-Jay. E logo decidiu que iria. Dirigiu-se a Las Vegas, vendeu o calhambeque, reuniu a sua coleco de mapas, cartas antigas, 
manuscritos, livros, e comprou um bilhete de autocarro. O resultado da viagem, entregava-o ele ao destino. Se as coisas "no corressem bem" com Willie- Jay, "aproveitar-se-ia 
ento da proposta de Dick". Ao cabo e ao resto, s Dick lhe restava, porque quando o autocarro chegou a Kansas City, no dia 12 de Novembro  noite, Willie-Jay, que 
ele no tivera tempo de avisar, deixara j a cidade na realidade apenas com cinco horas de avano, - partindo da mesma estao trmino onde Perry desembarcava. Isto 
ficou ele sabendo depois de telefonar ao reverendo Mr. Post, que logo em seguida lhe tirou todas as esperanas recusando-se a revelar-lhe o destino do sacristo.
        Seguiu para leste - limitou-se ele a informar. - Tem boas oportunidades. Arranjou um belo lugar e uma casa
de gente que est pronta a ajud-lo.
E Perry, ao desligar o telefone, sentia-se "tonto de fria e desiluso".
Mas, afinal, perguntava a si prprio, depois de acalmar o desgosto, o que esperava ele de um encontro com
Willie-Jay? A liberdade separara-os; como homens livres, nada tinham em comum, eram a anttese um do
outro, nunca poderiam formar "uma parelha", pelo menos uma parelha capaz de empreender uma das
aventuras submarinas l para as bandas do sul que ele e Dick haviam projectado. No entanto, se no fosse
aquele desencontro com Willie-Jay? Se se tivessem reunido s durante uma hora que fosse, Perry no se
encontraria agora ali, em frente daquele hospital,  espera que Dick sasse trazendo um par de meias pretas.
Disso estava ele convencido, "sabia", mesmo, que era assim.
O companheiro voltou com as mos a abanar.
        Nada feito! - declarou com uma despreocupao que fez Perry desconfiar.
Tens a certeza? Chegaste mesmo a pedir? -pois claro!
        No acredito! Penso que entraste, deste uma volta e saste outra vez.
        Est bem, meu querido. Seja como tu dizes - e Dick ps o carro a trabalhar. Depois de seguirem um bocado
em silncio, Dick bateu de leve no joelho do companheiro:
        Ora vamos! A ideia era disparatada. Que haviam elas de pensar, ao ver-me chegar ali para comprar umas
meias como se estivesse numa loja de miudezas...
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Perry anuiu:
        Talvez fosse melhor assim. As freiras so azarentas como o raio...
O representante, em Garden City, da Companhia de Seguros de Vida de Nova Iorque sorriu ao ver M r. Clutter
destapar uma permanente Parker e abrir um livro de cheques. Recordou-se de um dito que corria e disse:
        Sabe o que dizem de si, Herb? Desde que os cortes de cabelo subiram para dlar e meio, voc paga ao
barbeiro com um cheque.
        E  exacto - replicou ele. Tal como os membros da realeza, nunca trazia dinheiro consigo. -  esse o meu
processo de fazer transaces. Quando esses tipos das finanas aqui vm meter o nariz, os cheques ao portador
so os nossos melhores amigos.
Com o cheque j preenchido, mas ainda no assinado, o agente de seguros, um tipo forte j careca, de
maneiras muito simples, que se chamava Bob Johnson, desejou que o cliente no estivesse a ser assaltado
pelas dvidas da ltima hora. Herb era muito teimoso e lento nos negcios; havia um ano que Johnson andava
 roda dele para conseguir este seguro. Porm no se tratava disso; o cliente estava apenas a experimentar
aquilo que Johnson chamava o "momento solene", um fenmeno bem conhecido dos agentes de seguros. O
estado de esprito de um homem que faz um seguro de vida assemelha-se de certo modo ao de quem assina o
seu testamento;  costume nesse instante surgirem pensamentos fnebres.
        Sim, sim - prosseguiu Mr. Clutter, como se falasse consigo mesmo. - Tenho muitos motivos para dar graas
a Deus. H coisas maravilhosas na minha vida. - Sobre as paredes forradas de castanho do escritrio viam-se
emoldurados alguns documentos que eram outros tantos marcos comemorativos da sua carreira: um diploma
universitrio, um mapa da quinta de River Valley, prmios agrcolas, um certificado com iluminuras onde se
viam as assinaturas de Dwight D. Eisenhower e de John Foster Dulles, onde eram louvados os servios
prestados por ele ao Banco de Crdito Agrcola. - Tenho os filhos. Nesse captulo tambm fui feliz, No devia
diz-lo, mas sinto orgulho neles,  verdade. Vejam o Kenyon. Neste momento diz que sente inclinao para
ser engenheiro ou cientista, mas no me digam que no nasceu para lavrador. Se Deus quiser ainda h-de vir
um dia a dirigir tudo isto. Voc conhece o marido da Eveanna, o Don Jarchow?  veterinrio. No calcula
como gosto daquele rapaz! Do Vere tambm gosto. O Vere English, o noivo que a minha filha Beverly
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teve o bom-senso de escolher. Se me acontecer qualquer fatalidade tenho a certeza de que esses dois rapazes
so muito competentes para tomarem a responsabilidade de tudo; a Bonie, coitada, sozinha, seria incapaz de
governar este barco...
Johnson, que tinha muita experincia de conversas deste tipo, achou que era altura de intervir:
        Ento, Herb! Voc est ainda um rapaz. O que so quarenta e oito anos? E a julgar pelo seu aspecto e pelo
relatrio do mdico, devemos gozar a sua companhia durante um bom par de anos! Mr. Clutter endireitou o busto e pegou na caneta.
        Para lhe falar com franqueza sinto-me lindamente. E encaro o futuro com bastante optimismo. Estou
convencido de que, por aqui, se pode fazer bom dinheiro nestes anos mais chegados.
E, enquanto falava dos seus projectos financeiros, foi assinando o cheque, que em seguida empurrou na
direco do seu interlocutor.
Passavam dez minutos das seis e o agente de seguros estava morto por se ir embora; ia fazer esperar a mulher
para jantar.
        Tive muito prazer em estar consigo, Herb.
        Igualmente, meu velho.
Apertaram as mos. Em seguida, com uma justificada sensao de triunfo, Johnson pegou no cheque de Mr.
Clutter e meteu-o na carteira. Era a primeira prestao de uma aplice no valor de quarenta mil dlares, a qual,
em caso de morte por acidente, pagava a indemnizao a dobrar.
E Ele caminha a par comigo e Ele fala comigo, E diz-me que eu Lhe perteno, E a alegria que sentimos em
permanecer juntos, Nunca ningum a experimentou...
Ajudado pela guitarra, Perry conseguira melhorar bastante a disposio. Sabia de cor os versos de uns
duzentos cnticos e baladas e o seu repertrio ia desde o "Old Rugged Cross" at Cole Porter. Alm da
guitarra, tocava harmnica, acordeo, banjo e xilofone. Numa das suas imaginrias fantasias teatrais, o nome
dele era Perry Otarsons, e intitulava-se "Sinfonia num s homem".
Dick alvitrou:
        E se bebssemos qualquer coisa?
Perry no era grande apreciador de bebidas e qualquer coisa lhe servia. Dick, no entanto, fazia grande questo
na escolha
52
e quando
ia aos bares pedia habitualmente uma "Flor de laranjeira". Do porta-luvas tirou uma garrafa de quarto de litro
que continha uma mistura j feita de vodka e essncia de laranja. Passaram a garrafa um ao outro por vrias
vezes. Embora o crepsculo tivesse chegado havia muito e Dick seguisse a uma velocidade de sessenta milhas,
continuava a guiar sem acender os faris. Tambm a estrada era toda recta, o terreno plano como um lago e
raramente se cruzavam com outros carros. Encontravam-se na zona a que todos chamavam " l adiante", ou
perto dela, pelo menos,
        Raios! - exclamou Perry, contemplando a paisagem, plana e sem limites sob um cu vazio e esverdeado, frio
e solitrio, vendo-se apenas ao longe a tremeluzir as luzes de algumas herdades. Odiava tudo aquilo, assim
como as plancies do Texas e os desertos do Nevada; os espaos horizontais e pouco habitados causavam-lhe
sempre um estado depressivo acompanhado de uma sensao de largofobia. Os seus encantos eram os portos
de mar: apinhados de gente, ruidosos, coalhados de navios, cidades que cheirassem a detritos, tais como
Yokohama, onde passara um Vero quando era cabo no Exrcito dos Estados Unidos, durante a guerra da
Coreia. - Raios! E eles que me disseram para me conservar longe do Kansas! Que no voltasse a pr aqui os
meus pezinhos! E recomendavam isto como se me estivessem a expulsar do paraso! Olha s para esta coisa.
Anda, regala a vista!
Dick passou-lhe a garrafa, cujo contedo ficara reduzido a metade, recomendando: Guarda o resto. Podemos ainda precisar dele.
        Lembras-te, Dick, da nossa conversa a respeito de arranjarmos um barco? Estava c a pensar que poderamos
comprar um no Mxico. Uma coisa barata mas slida. E podamos ir at ao Japo, atravessando o Pacfico. J
se tem feito. Conseguiram-no dezenas de pessoas. No estou a aldrabar, Dick. Tenho a certeza de que ficavas
maluco com o Japo.  uma maravilha, tudo gente muito simptica, com uns modos que parecem flores.
Verdadeiramente simpticos e nada toleires. E ento as mulheres! Tu nem sabes o que  uma mulher a
valer...
Ah, isso  que sei! Afirmou Dick que teimava em se considerar ainda apaixonado pela primeira mulher com
quem casara, de cabelos cor de mel, embora soubesse que ela se consorciara j com outro.
        H l uns balnerios, a que chamam a Piscina dos Sonhos, Um fulano deita-se ao comprido e vm de l umas
gajas que at cortam a respirao a um tipo e esfregam-nos todos da cabea aos ps.
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-J me contaste isso. O tom de Dick era seco.
-J? E se me apetecer repetir?
        Mais tarde. Havemos de falar nisso depois. Que diabo, homem! Julgas que no tenho agora mais em que
pensar?
Dick abriu o rdio; Perry fechou-o imediatamente. Sem se importar com os protestos de Dick, comeou a
dedilhar a guitarra:
Cheguei sozinho, ao jardim, quando o orvalho cobria ainda as ptalas das rosas,
A voz que oio murmurar-me ao ouvido
 a do Filho de Deus...
A Lua Cheiasurgia na orla do horizonte.
Na segunda-feira seguinte, ao prestar declaraes antes de ser sujeito  prova do detector de mentiras, o jovem
Bobby Rupp descreveu a sua ltima visita a casa dos Clutter da maneira seguinte:
        Fazia Lua Cheiae eu pensei que talvez a Nancy quisesse sair comigo... para irmos os dois de carro at
McKinney Lake. Ou ento ao cinema a Garden City. Mas quando lhe telefonei
        deviam ser dez para as sete - ela disse-me que tinha de pedir ao pai. Depois voltou para dizer que ele no
dava licena... por termos ficado at to tarde na noite anterior. E pediu-me ento para eu ir a casa dela ver a
televiso. Eu costumava ir muitas vezes a casa dos Clutter ver a televiso. Note bem que a Nancy era a nica
rapariga com quem tenho acompanhado at hoje. Andmos juntos na escola desde a instruo primria.
Sempre a achei linda e era estimada por todos. J em pequena tinha personalidade. Quero dizer que se fazia
estimar por todos os que a conheciam. A primeira vez que a convidei a sair comigo andava ela na quarta
classe. A maior parte dos rapazes l da escola desejavam convid-la para o baile do fim do ano e eu fiquei
surpreendido - e tambm muito lisonjeado - quando ela aceitou ir comigo. Tnhamos ambos doze anos. O meu
pai emprestou-me o carro e levei-a nele. Quanto mais convivia com ela mais a estimava; a ela e  famlia toda.
No havia ningum como eles aqui nas redondezas, pelo menos que eu conhea. O senhor Clutter pode ter
sido muito severo a respeito de certas coisas - religio, etc. - mas nunca fazia sentir aos outros que estavam
errados e que ele  que estava na razo.
"Ns vivemos a trs milhas de distncia da casa dos Clutter. Eu costumava ir l e vir a p. Mas tenho-me
empregado durante
54
as frias de modo que, no ano passado, consegui comprar um carro, um Ford 5. por isso fui nele e cheguei l
pouco depois das sete. No vi ningum na estrada, nem na vereda que conduz  casa, nem estava ningum c
fora. S o velho Teddy que se ps a ladrar. Havia luz acesa c em baixo - na sala de estar e no escritrio de
Mr. Clutter. O primeiro andar estava s escuras e eu calculei que a senhora Clutter estivesse a dormir - caso
no tivesse sado. Nunca sabamos quando ela estava ou no ausente e eu nunca perguntava por ela. Mas soube
que no me enganara, porque mais tarde o Kenyon quis ir estudar trombone - ele tocava bartono na banda do
colgio - e a Nancy disse-lhe que no podia ser porque acordava a me. A verdade  que, quando eu l
cheguei, j haviam acabado de jantar, a Nancy levantara a mesa, pusera os pratos na mquina de lavar e todos
trs - Mr. Clutter e os dois filhos, estavam na sala. Instalmo-nos, pois, como em qualquer outra noite. Eu e a
Nancy no sof e Mr. Clutter na sua cadeira, a cadeira de baloio estofada. Prestava mais ateno ao livro que
estava a ler, um Rover Boy que era do Kenyon, do que  televiso. A certa altura foi  cozinha e trouxe de l
duas mas; ofereceu-me uma mas eu no aceitei e ele comeu-as ambas. Ele tinha uns dentes muito brancos e
afirmava que era por comer tanta ma. A Nancy... A Nancy estava de pegas e chinelos, calas de ganga e
camisola verde, se me no engano. Usava no pulso um relgio de ouro e uma pulseira de identificao que eu
lhe dera no passado ms de Janeiro, com o nome dela gravado na placa de um lado e o meu do outro, e um
anel, um anel de prata vulgarssimo que ela comprara havia um ano, quando esteve no Colorado com os
Kidwells. No era o meu anel - o nosso anel. Escute: aqui h uma semana ela zangou-se comigo e disse que ia
tirar o nosso anel durante uns tempos. Quando uma namorada nos faz isto  para nos castigar. Isto , ns s
vezes questionvamos, como  costume quando se tem um namoro h muito tempo. O caso  que eu tinha ido
ao casamento de um amigo e durante o lanche bebi uma garrafa de cerveja. A Nancy veio a saber. Uma
linguareira qualquer foi dizer-lhe que eu ficara perdido de bbedo. Ela ficou furiosa e no me falou durante
uma semana. Mas ultimamente andvamos amigos como dantes e estou certo de que ela estava resolvida a
usar de novo o nosso anel.
"pois bem. O primeiro filme da televiso chamava-se Desafio ao Homem e mostrava uns tipos l no rctico,
Canal 2. Depois vimos um filme do Oeste e depois disso uma aventura de espionagem, Os Cinco Dedos. s
nove e trinta foi o Mike Hamer e a seguir as notcias. Porm o Kenyon no gostou de nada, sobretudo por no
o termos deixado escolher os programas. Passou o tempo a criticar 55
tudo e a Nancy a mand-lo calar. Estavam sempre a caturrar os dois mas no fundo eram muito amigos, mais
do que  vulgar entre irmos. Penso que isso talvez se devesse ao facto de estarem tanto tempo sozinhos um
com o outro, durante as ausncias da me ou quando o pai ia para Washington ou para outro stio qualquer. Eu
sei que a Nancy estimava particularmente o Kenyon, mas creio que nem ela nem ningum o compreendiam
perfeitamente. Ele parecia estar sempre alheio. Nunca se sabia o que pensava nem sequer se estava a olhar
para ns, porque era ligeiramente estrbico. Havia quem o considerasse um gnio e talvez fosse verdade. 
certo que lia muito. Mas, como j disse, naquela noite mostrava-se impaciente, no queria ver a televiso,
desejava estudar o trombone e quando a Nancy lhe disse que era melhor no o fazer, lembro-me que Mr.
Clutter alvitrou que ele podia ir para a cave, para o quarto das brincadeiras, onde no incomodava ningum.
Mas tambm no quis.
"O telefone tocou. Uma vez ou duas? Que diabo, j no sei dizer. S me lembro de que, de uma delas, Mr.
Clutter foi atender a chamada do escritrio. A porta ficou aberta - aquela porta de correr que h entre o
escritrio e a sala de estar - e eu ouvi-o perguntar: "E o Van?", por isso fiquei sabendo que ele estava a falar
com o scio, o senhor Van Vleet. E ouvi-o dizer que estava com dores de cabea mas que iam passar. E
prometeu procur-lo na segunda-feira seguinte. Voltou  sala... sim, quando estava a acabar o Mike Hamer. As
notcias demoraram cinco minutos. Depois seguiu-se o boletim meteorolgico. Mr. Clutter arrebitava logo a
orelha quando davam as informaes do tempo. Era disso que ele estava a espera, tal como sucede comigo a
respeito da informao desportiva, que vinha logo a seguir. Quando esta acabou eram dez e meia e eu levanteime.
A Nancy veio acompanhar-me c fora. Conversmos um bocado e combinmos ir juntos ao cinema no
sbado seguinte,  noite, ver um filme que as raparigas estavam ansiosas por ver, o Bine Denim. Em seguida
voltou para casa a correr e eu meti-me no carro. Fazia claro como de dia - a Lua brilhava, e levantara-se uma
espcie de aragem fria; andavam algumas palhas a voar por todos os lados. Mas no vi mais nada. S agora 
que penso que podia estar algum por ali escondido. Talvez no meio das rvores,  espera que eu me fosse
embora.
Os viajantes pararam para jantar num restaurante de Great Bend. Perry, que trocara os seus ltimos quinze
dlares, inclinava-se para tomarem uma cerveja e comerem uma sanduche, mas 56
Dick no concordou, precisavam de um "conchego" slido, no interessava a despesa, quem pagava era ele.
Mandou vir dois bifes de espessura mdia, batatas assadas, frituras, cebola frita, succotash, acompanhamentos
de macarrom e "carolos", salada temperada  moda das ilhas, bolos de canela, torta de ma, creme gelado e
caf. Para terminar entraram numa tabacaria e escolheram dois charutos; foi no mesmo estabelecimento que
adquiriram tambm duas bobinas de adesivo.
Enquanto o Chevrolet preto se dirigia velozmente pela auto-estrada que subia imperceptivelmente at  regio
seca dos planaltos cobertos de campos de trigo, Perry cerrou os olhos e ficou-se a dormitar numa modorra
provocada pela digesto, da qual despertou ao som de uma voz que lia as notcias das onze horas. Fez descer o
vidro e ofereceu o rosto  brisa fresca. Dick informou-o de que se encontravam no condado de Finney.
        Atravessmos a fronteira dez milhas atrs - declarou ele. O carro seguia em grande velocidade. Os reclames
da estrada que a luz dos faris iluminavam fugazmente anunciavam: "Visitem os Ursos Polares", "Pista de
Automveis Burtis", "A maior piscina GRATUITA do mundo", "Motel dos trigais" e, finalmente, um pouco
antes de comear a iluminao da rua: "Viva, estrangeiro! Seja bem-vindo a Garden City. Est em terra de
Amigos!".
Rodearam a parte norte da cidade. No andava ningum na rua quela hora tardia, perto da meia-noite, e no
se via nenhum estabelecimento aberto a no ser uma enfiada de estaes de servio brilhantemente iluminadas
e com aspecto desoladamente solitrio. Dick dirigiu-se a uma,  Hurd's Phillips 66. Veio atender um rapaz que
perguntou:
        Deseja que encha o depsito?
Dick acenou que sim, Perry saiu do carro e fechou-se nos toiLettes dos homens. As pernas doam-lhe, como
era frequente suceder-lhe; doam-lhe tanto como se o desastre tivesse sucedido cinco minutos antes. Tirou trs
aspirinas de um frasco e chupou-as lentamente (gostava do sabor), bebendo em seguida gua da torneira do
lavatrio. Sentou-se depois sobre a retrete e ps-se a massajar as pernas estendidas e a esfregar os joelhos que
mal podia dobrar. Dick afirmara que estavam quase a chegar, "faltavam apenas sete milhas". Abriu o clair do
bolso do casaco e tirou de l um saco de papel; este continha as luvas de borracha que adquirira havia pouco.
Eram acastanhadas, finas e pegajosas, e quando quis experiment-las uma rasgou-se, no muito, apenas uma
fenda entre os dedos, mas isto pareceu-lhe um mau pressgio.
Nota: Prato americano composto de milho e feijes (N da T) 57
A maaneta da porta girou e rangeu, e a voz de Dick inquiriu:
        Queres rebuados? H aqui uma mquina distribuidora. -No.
        Ests bem?
        Estou fixe.
        V l se a ficas toda a noite!
Dick enfiou uma moeda na fenda da mquina, accionou a alavanca e recebeu um saco de rebuados de fruta;
enquanto os ia trincando, voltou para o carro e ficou a observar os esforos do jovem empregado para limpar o
pra-brisas sujo pela poeira do Kansas e pelos insectos esmagados. O rapaz, que se chamava James Spor,
sentiu-se inquieto. Os olhos de Dick e a sua expresso carrancuda, juntamente com a prolongada demora de
Perry no toilette, perturbaram-no. (No dia seguinte contou ao patro: "Estiveram aqui esta noite uns fregueses
muito esquisitos." Mas s muito mais tarde veio a relacion-los com a tragdia de Holcomb.) Dick observou:
        Isto por aqui parece tudo morto.
        Tem razo - respondeu James Spor. - Vocs so os nicos seres vivos que por aqui passam nas ltimas duas
horas. Donde
vm?
        De Kansas City.
        Vieram caar?
        Estamos de passagem, a caminho do Arizona. Arranjmos l emprego na construo. Sabes dizer-me a que
distncia fica isto de Tucumcari, no Novo Mxico?
        No estou certo. So trs dlares e seis cntimos. - Recebeu o dinheiro da mo de Dick, entregou-lhe o troco
e acrescentou: Desculpe, mas estou ali a fazer um servio, a colocar um pra-choques numa camioneta.
Dick ficou  espera, comeu mais alguns rebuados, ligou o motor com gestos impacientes e tocou o klaxon.
Seria possvel que se tivesse enganado quanto ao carcter de Perry? Seria que este estava, ao cabo e ao resto, a
sofrer um ataque de "clicas"  ltima hora? Havia um ano, quando conhecera Perry, considerara-o um "tipo
fixe", muito embora um pouco "fechado", "sentimental e demasiado "sonhador". Simpatizara com ele mas
no achara que merecesse a pena cultivar-lhe a amizade, at que Perry lhe descreveu um assassnio por ele
cometido, contando-lhe que um dia, "s por piada", matara um negro em Las Vegas, batendo-lhe at acabar
com ele com uma corrente de bicicleta. Esta histria fizera subir o pequeno Perry uns poucos de furos na
considerao de Dick; comeou a prestar-lhe mais ateno e, 58
tal como Willie-Jay, muito embora por motivos diversos, acabou por se convencer de que Perry possua certas
qualidades raras e valiosas. Encontravam-se em Lansing vrios assassinos, outros que se gabavam de ter morto
gente ou afirmavam que eram muito capazes de o fazer; Dick, porm, convencera-se de que Perry era aquela
espcie rara de "assassino nato", absolutamente lcido mas totalmente destitudo de conscincia, capaz de
executar a sangue frio, com ou sem motivo, os golpes mais cruis e mortferos. A teoria de Dick era que tal
qualidade, orientada por ele, poderia vir a ser explorada com proveito. Tendo chegado a esta concluso,
comeou a andar de volta de Perry, a lisonje-lo - fingindo, por exemplo, que partilhava o seu entusiasmo
pelas exploraes martimas e pelo seu desejo de aventura, o que no era verdade, pois Dick apenas desejava
"uma vida pacata", com um negcio s dele, uma casinha, um cavalo para passear e "muitos garotos louros".
Interessava, no entanto, que Perry no desconfiasse de nada disto, pelo menos at que aquele seu dom tivesse
servido num futuro prximo as ambies de Dick. Mas talvez este se tivesse enganado, estivesse iludido; se tal
sucedesse, se ao cabo e ao resto ele verificasse que Perry no passava de um "vulgar canastro", nesse caso o
projecto ia por gua abaixo, todos aqueles meses de preparao tinham sido perdidos, nada havia a fazer seno
voltar para trs. Podia muito bem acontecer; Dick voltou a entrar na estao de servio.
A porta do toilette dos homens continuava trancada. Dick bateu:
        Pelo amor de Deus, Perry?!  s um minuto.
        Ento que  isso? Ests doente?
Perry agarrou-se  borda do lavatrio e conseguiu pr-se de p. Tremiam-lhe as pernas, a dor nos joelhos
fazia-o transpirar. Limpou a cara com um guardanapo de papel. Depois abriu a porta e disse:
        Pronto, vamos embora!
O quarto de Nancy era o mais pequeno de todos e tambm o mais pessoal da casa verdadeiramente juvenil e
to vaporoso como a saia de folhos de uma bailarina. Paredes, tecto, tudo, com excepo de uma secretria e
de uma mesinha, tudo estava pintado de cor-de-rosa, azul e branco. A cama cor-de-rosa e branca, coberta de
almofadas azuis, tinha em cima um enorme urso de pelcia cor-de-rosa e branco tambm; este urso fora ganho
por Bobby numa barraca de tiros durante uma feira do condado. Um 59
quadro em corticite de moldura cor-de-rosa pendia por cima da mesinha de toilette que ostentava um folho
branco em toda a volta; gardnias secas, que ela um dia usara ao peito, viam-se espetadas nele, bem como um
postal de boas-festas, receitas recortadas de jornais, fotografias do sobrinhito, de Susana Kidwell e de Bobby
Rupp, este em vrias posies: brandindo um basto de cricket, atirando a bola ao cesto, a guiar um tractor, de
cales de banho, no meio da gua; nas margens do Lago de McKinney (no passava dali porque nunca
conseguira aprender a nadar.) Havia ainda fotografias de ambos, Nancy e Bobby. Destas, a preferida da
pequena era aquela em que se viam juntos  meia luz coada pela folhagem, entre os restos de uma merenda,
olhando um para o outro com uma expresso que, embora no fosse de riso, era alegre e feliz. Atravancavam
ainda a secretria muitas outras fotografias de cavalos, gatos, etc., mortos mas no esquecidos, tal como o
pobre Boobs, "coitadinho", que morrera havia pouco e se desconfiava tivesse sido envenenado.
Nancy era sempre a ltima da famlia a ir para a cama. Segundo afirmara um dia  sua amiga, a professora de
economia domstica, Mrs. Polly Stringer, reservava para ser "vaidosa e egosta" as altas horas da noite. Era
ento que se entregava aos seus cuidados de beleza e higiene, aplicava o creme na cara e, nas noites de sbado,
lavava a cabea. Nessa noite lavara e secara os cabelos, escovara-os e atara-os por fim com uma bandelette de
gaze. Escolhera o trajo que havia de levar  igreja no dia seguinte: meias de nylon, sapatos de salto alto pretos
e um vestido de veludo vermelho, o mais bonito que tinha, todo feito por ela. Foi com esse que foi a enterrar.
Antes de fazer as oraes da noite costumava sempre escrever num dirio os factos principais do dia: ("Hoje
est um dia de Vero. Esperemos que isto dure. Eu e a Sue levmos a Babe at ao rio. Sue tocou flauta. Havia
l muitas borboletas.") Em certos momentos de expanso, confessava: ("Gosto muito dele, de verdade!").
Aquele dirio dava para cinco anos. Durante os quatro que haviam decorrido desde que o comeara nunca
deixara passar um dia sem escrever qualquer coisa, muito embora a importncia de certos acontecimentos
(tais como o casamento da Eveanna, o nascimento do sobrinho) e o desgosto causado por outros (a primeira
"zanga a srio" com Bobby - uma pgina manchada de lgrimas de alto a baixo) tivessem j roubado espao
que pertencia ao futuro. Cada ano estava preenchido com tinta diferente: 1956 era verde e um risco encarnado
separava-o da letra cor de alfazema clara de 1957. Neste ano de 1959, a rapariga escolhera um azul srio. Mas
durante aqueles anos todos, ela
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continuava sempre a fazer variaes com a letra, tombando-a ora para a direita, ora para a esquerda, hoje
redonda, amanh bicuda, larga ou apertada, como se perguntasse: "Mas afinal qual destas  a verdadeira
Nancy? Esta ou aquela? Quem sou eu?" (Certo dia Mrs. Riggs, a professora de ingls, entregara-lhe um
exerccio com o seguinte comentrio rabiscado na margem: "Bom. Mas porque escreveu com trs estilos de
letra?" Ao que Nancy replicara: "porque ainda no sou uma pessoa verdadeiramente adulta para ter uma letra
definida e uma assinatura certa.") No entanto, conseguira progredir alguma coisa nestes ltimos meses e foi
numa letra que j denotava uma certa maturidade que naquele dia escreveu: "Jolene veio aqui e eu ensinei-lhe
a fazer uma torta de cerejas. Fui estudar com a Roxie. Eu e o Bobby estivemos a ver televiso. Ele foi-se
embora s onze."
        E aqui,  aqui, no pode deixar de ser! C est a escola, c  esta a garagem e agora voltamos para o sul.
Parecia a Perry que Dick ia a remoer uma cantilena, todo satisfeito. Deixaram a auto-estrada, atravessaram a
cidade deserta de Holcomb, o caminho-de-ferro de Santa F.
        L esta o banco. Aquilo deve ser o banco. Agora voltamos para oeste. Ests a ver as rvores?  ali. No pode
deixar de ser ali.
A luz dos faris revelou uma fila de lamos chineses: praganas varridas pelo vento corriam pelo cho fora.
Dick baixou as luzes, abrandou a marcha at habituar os olhos  luz do luar. Depois ps-se de novo em
marcha.
Holcomb fica a doze milhas a leste da fronteira montanhosa da zona horria, circunstncia esta que d motivo
a muitas reclamaes, pois em vista disso, s sete da manh, no Vero, e no Inverno s oito ou at depois
disso, o cu ainda est escuro e brilham algumas estrelas - tal como sucedia quando os dois filhos de Vick
Irsik chegaram, naquela manh de domingo, para executarem as suas obrigaes. s nove horas, porm,
quando os dois rapazes terminaram o trabalho durante o qual no haviam notado nada de estranho -, o sol
erguera-se, dando lugar a outro dia maravilhoso para a caa aos faises. No momento em que deixavam a
quinta e se metiam, correndo, pela alameda abaixo, passou um automvel a que eles disseram adeus.
Correspondeu-lhes uma rapariga. Era colega de Nancy e tinha o mesmo nome que esta: Nancy, Nancy Ewalt.
Era a nica filha do homem que ia ao volante, Mr. Clarcnce Ewalt, um sujeito de meia-idade, cultivador
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de cana-de-acar. Mr. Ewalt no frequentava a igreja, nem to-pouco a esposa, porm todos os domingos ia
deixar a filha na quinta de River Valley para que esta acompanhasse a famlia Clutter s cerimnias metodistas
na igreja de Garden City. Esta combinao evitava-lhe "duas viagens de ida e volta  cidade". Costumava ficar
 espera at ver a filha entrar para dentro da casa. Nancy, uma pequena que cuidava muito da sua maneira de
vestir, possua uma silhueta de actriz de cinema, usava culos e caminhava com um jeito tmido, quase em
bicos de ps. Atravessou o relvado e foi tocar  campainha da entrada. A casa tinha quatro portas e ela, ao ver
que, aps repetidas pancadas, no obtinha resposta, dirigiu-se a outra, que era a do escritrio de Mr. Clutter.
Esta encontrava-se parcialmente aberta; a rapariga abriu-a mais um pouco, o bastante para se certificar de que
o escritrio estava s escuras e vazio; no entanto pensou que os Clutters no deviam gostar que ela "se metesse
por ali dentro". Voltou a bater, a tocar  campainha, at que se dirigiu  porta das traseiras. Era a a garagem e
ela reparou que estavam l dentro os dois carros: dois Chevrolet. Portanto a famlia devia encontrar-se toda em
casa. Contudo, depois de haver tocado a uma terceira porta que dava para um "quarto de arrumaes", e 
quarta que era a da cozinha, a pequena voltou para junto do pai, que lhe disse:
        Talvez estejam a dormir.
        Mas isso no  possvel! Posso l crer que Mr. Clutter deixe de ir  igreja, para ficar a dormir.
        Vem da ento, vamos at  residncia dos professores. A Susan deve saber o que se passa.
Esta residncia, que fica mesmo em frente do colgio moderno,  um edifcio vetusto, desmantelado e com
mau aspecto. Os seus vinte quartos esto divididos ao acaso em apartamentos destinados aos professores que
no tenham conseguido encontrar ou no estejam em condies de alugar casa prpria. No entanto Susana
Kidwell e a me haviam conseguido dourar a plula e conferir uma atmosfera confortvel ao seu apartamento,
que constava de trs compartimentos no rs-do-cho. A sala minscula continha, no se sabe como, alm dos
lugares para as pessoas se sentarem, um rgo, um piano, uma coleco de vasos com plantas e as mais das
vezes um cachorrito minsculo, irrequieto, e um gato enorme e sonolento. Nessa manh Susan encontrava-se 
janela a observar a rua. Era uma jovem alta e lnguida, de rosto plido e oval e uns olhos muito bonitos, azulacinzentados;
tinha umas mos extraordinrias, de dedos compridos, flexveis, nervosos e elegantes. Estava j vestida para ir  igreja e esperava a
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todo o momento ver surgir o Chevrolet dos Clutter. Em lugar deles apareceram os Ewalt a contar aquela
histria estranha.
No entanto Susan no sabia de nada, nem to-pouco a me, que alvitrou:
        Se tivessem mudado de ideias estou certa de que no deixariam de telefonar. Susan, porque no telefonas l
para casa? Podem estar a dormir, no  verdade?
        Foi o que eu fiz - afirmou mais tarde Susan nas suas declaraes. - Liguei para l e deixei o telefone tocar
durante um minuto ou mais, pelo menos segundo me pareceu. Ningum veio atender, por isso Mr. Ewalt
lembrou que fssemos l para ver "se conseguamos acord-los". Mas, quando l chegmos, eu no quis fazer
isso. No quis entrar. Sentia-me assustada, no sei porqu , pois nunca pensei... bem, uma pessoa no
consegue imaginar estas coisas. Mas estava um sol lindo e tudo parecia alegre e tranquilo. Depois vi que
estavam l os dois carros, at o velho calhambeque do Kenyon ir aos coiotes. Mr. Ewalt vinha vestido com a
roupa do trabalho; trazia lama nas botas e achava que no estava decente para entrar na casa dos Clutters.
Sobretudo porque era a primeira vez que entrava l dentro, quero eu dizer. Por fim a Nancy acabou por dizer
que ia comigo. Demos a volta at  porta da cozinha, que no estava fechada  chave, claro; a nica pessoa
que ali costumava fechar as portas era Mrs. Helm. As pessoas da casa nunca o faziam. Entrmos e a primeira
coisa que vi foi que os Clutters no tinham tomado o pequeno-almoo; no se viam pratos nem. Nada sobre a
banca. Depois notei uma coisa estranha, a carteira da Nancy estava no cho, entreaberta. Atravessmos a sala
de jantar e parmos ao fundo das escadas. O quarto da Nancy ficava mesmo ao cimo destas. Chamei por ela e
comecei a subir, com a Nancy Ewalt atrs de mim. O som dos nossos passos assustava-me mais do que tudo,
por causa do barulho que faziam no meio de todo aquele silncio. A porta da Nancy estava aberta. As cortinas
no haviam sido corridas e o sol iluminava o quarto todo. No me lembro de ter gritado. A Nancy Ewalt diz
que sim, que eu me fartei de gritar. S me lembro de ter visto o urso da Nancy a olhar para mim. E ela
tambm... Lembro-me de que corri...
Nesta altura Mr. Ewalt pensou que talvez no tivesse feito bem em deixar as duas raparigas irem sozinhas. Ia a
sair do carro para entrar tambm quando ouviu os gritos, mas antes de o conseguir, estas chegaram junto dele a
correr. A filha clamava:
        Ela est morta! - atirou-se-lhe aos braos. -  verdade, pap! A Nancy est morta! Susan protestou:
        No est nada! No digas uma coisa dessas? Isso no  verdade! 63
Est s a deitar sangue do nariz! Acontece-lhe muitas vezes, tem hemorragias terrveis, no  mais nada!
        Mas havia tanto sangue! At nas paredes! Tu  que no viste bem!
        Eu no percebia nada daquilo - afirmou mais tarde Mr. Ewalt. - Lembrei-me de que a menina podia estar
ferida e a primeira coisa que me passou pela cabea foi chamar uma ambulncia. Miss Kidwell, a Susan,
disse-me que havia um telefone na cozinha. Encontrei-o onde ela me tinha dito. Mas o auscultador estava fora
dos ganchos e quando lhe peguei vi que a linha fora cortada.
Larry Hendricks, o professor de ingls, que tinha vinte e sete anos, morava no ultimo andar da Residncia.
Desejava escrever, mas o seu apartamento no se podia considerar o lugar ideal para isso. Era mais pequeno
do que o apartamento das Kidwell e alm disto vivia nele tambm a mulher, trs crianas endiabradas e um
aparelho de televiso sempre a funcionar. (" a nica maneira de manter as crianas quietas".) Muito embora
ainda no tivesse nada publicado, o jovem Hendricks, msculo, ex-marinheiro, natural de Oklahoma, que fuma
cachimbo e possui um bigode e uma cabeleira emaranhada e negra, pelo menos tem um ar de escritor - na
realidade parece-se extraordinariamente com os retratos em novo, do autor que ele mais admira: ernest
Hemingway. A fim de aumentar os seus reduzidos proventos  tambm ele o motorista da camioneta do
colgio.
        Tenho dias de fazer sessenta milhas - declarou a um amigo.
        Isto no me deixa muito tempo livre para escrever, exceptuando os domingos. Ora naquele domingo, quinze
de Novembro, estava eu sentado no meu apartamento s voltas com a papelada. Sabe que vou colher a maior
parte das ideias para os meus contos aos jornais? Pois bem, tnhamos a televiso ligada e as crianas estavam a
fazer barulho. Mas mesmo assim eu ouvi vozes. Vinham l debaixo, da casa das Kidwell. Nunca julguei no
entanto que se tratasse de qualquer coisa relacionada comigo. Estava ali h pouco, viera para Elolcomb s na
abertura das aulas. Porm a certa altura a Shirley, que estava l fora a pendurar umas roupas a enxugar - a
Shirley  a minha mulher -, entrou por ali dentro dizendo:
        Querido, acho melhor ires l abaixo. Parece que esto com um ataque de nervos! Eram as duas raparigas e, na verdade, encontravam-se num estado de grande 
nervosismo. A Susan nunca mais se recomps
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por completo. Nem ser possvel que se recomponha mais, sou eu que lho digo. E a pobre Mrs. Kidwell, essa
ento que nunca teve sade,  uma pilha de nervos, repetia sem parar: (s mais tarde  que eu vim a perceber o
que ela dizia): "Oh, Bonnie, Bonnie, que te aconteceu? Tu estavas to satisfeita, tinhas-me dito que tudo
passara e que nunca mais voltarias a estar doente!" E outras coisas no gnero. At o prprio Mr. Ewalt ficara
to abalado quanto  possvel a um homem da sua tmpera. Ligara o telefone para o gabinete do xerife - o
xerife de Garden City - e dizia-lhe que acontecera "qualquer coisa de muito grave na casa dos Clutter". O
xerife prometeu vir imediatamente. Mr. Ewalt respondeu que estava bem e que ia esper-lo na estrada. A
Shirley desceu para fazer companhia s senhoras e tentar acalm-las, como se isso fosse possvel. Eu sa com
Mr. Ewalt e levei-o de carro at  estrada, ao encontro do xerife Robinson. Pelo caminho ele contou-me o que
sucedera. Quando me falou nos fios cortados, pensei, logo: "Muito bem!" E tratei de ter os olhos bem abertos
e de reparar em todos os pormenores, para o caso de me chamarem a prestar declaraes mais tarde no
tribunal.
"O xerife chegou eram nove e trinta e cinco. Mr. Ewalt fez-lhe sinal para seguir o nosso carro e dirigimo-nos
para casa dos Clutters. Eu nunca l tinha ido, vira-a apenas de longe. Conhecia a famlia, est claro. O Kenyon
era meu aluno do segundo ano de ingls e eu dirigira a Nancy na pea Tom Sawyer. Contudo eles eram umas
crianas to simples que ningum diria a fortuna que tinham nem que viviam numa casa to bonita, com
jardim, rvores e um relvado to bem cuidado. Depois de chegarmos e de Mr. Ewalt ter contado a histria ao
xerife, este falou para o seu gabinete a pedir que lhe mandassem auxiliares e uma ambulncia. E declarou:
"Deve ter acontecido qualquer acidente." Depois entrmos dentro de casa todos trs. Dirigimo-nos  cozinha e
vimos uma carteira de senhora no cho e o telefone com os fios cortados. O xerife trazia uma pistola  cinta e,
quando comemos a subir as escadas para nos dirigirmos ao quarto da Nancy, reparei que ele levava a mo
em cima da arma, pronto a servir-se dela.
"pois bem, aquilo era um espectculo horrvel. Aquela rapariga adorvel... ningum poderia reconhec-la.
Tinha levado um tiro na parte de trs da cabea, com uma carabina que devia encontrar-se  distncia de
apenas duas polegadas. Achava-se deitada de lado, voltada para a parede. A parede estava toda coberta de
sangue. As cobertas encontravam-se puxadas at acima a tapar-lhe os ombros. O xerife Robinson afastou-as e
viu que a pequena estava de roupo de banho, pijama, pegas e chinelos, 65
 como se no se tivesse deitado ainda. Tinha as mos atadas atrs das costas e os tornozelos ligados com uma corda daquelas que servem para puxar as persianas. 
O xerife perguntou: " esta a Nancy Clutter?" Ele nunca a tinha visto antes. E eu respondi: "Sim,  ela,  a Nancy".
"Voltmos para o trio e olhmos em redor. As portasencontravam-se todas fechadas. Abrimos uma e vimos que dava para um quarto de banho. Achmos l qualquer coisa 
de inslito. Vi depois que era a cadeira, uma cadeira como as que se usam nas salas de jantar e que me parecia ali deslocada. Ao abrirmos a porta seguinte, verificmos 
logo que se tratava do quarto do Kenyon.
Viam-se por todos os lados objectos prprios de um rapaz. Reconheci imediatamente os culos dele - pousados numa prateleira junto  cama. Mas esta encontrava-se 
vazia, muito embora se visse que j tinha servido para algum se deitar nela. Encaminhmo-nos em seguida para o fundo do trio, onde ficava a ltima porta e ali 
fomos dar com Mrs. Clutter. Tambm ela tinha sido amarrada. Mas de uma forma diferente, com as mos para a frente, como se estivesse a rezar; numa delas tinha um 
leno apertado. Ou seria um kleenex} A corda que lhe amarrava os pulsos descia at aos tornozelos, ligando-os um ao outro, e depois seguia at aos ps da cama onde 
dava um n muito difcil e complicado. Imagine-se o tempo que aquilo devia ter levado a fazer! E a pobre senhora ali deitada, a morrer de susto! Ora bem, ela trazia 
algumas jias, isto , dois anis, o que me levou a crer sempre que o motivo no fora o roubo. Vestia tambm um roupo, uma camisa de noite branca e meias brancas. 
Haviam-lhe tapado a boca com adesivo, mas levara depois um tiro no lado da cabea e este descolara o adesivo. Tinha os olhos abertos, arregalados. Como se estivesse 
ainda a contemplar o assassino. Porque decerto viu tudo isto e, ele apontar a carabina. Nenhum de ns disse palavra. Sentamo-nos aturdidos. Recordo-me de ver o 
xerife olhar em volta,  procura da cpsula vazia. Mas quem quer que fizera aquele trabalho era demasiado esperto para ter deixado qualquer indcio desse gnero.
"Naturalmente, todos perguntvamos a ns mesmos onde estaria Mr. Clutter e o Kenyon. O xerife disse ento: "Vamos l para baixo." O primeiro compartimento que revistmos 
foi o quarto do dono da casa, aquele onde dormia Mr. Clutter. As roupas da cama estavam puxadas para baixo e, mesmo aos ps, achava-se cada uma carteira com um 
monte de cartes a sair, como se algum tivesse estado a procurar a toda a pressa qualquer coisa: uma nota ou uma carta de crdito, quem sabe? A verdade  que no 
continha nenhum dinheiro e esse facto nada significava. Tratava-se 66
da carteira de Mr. Clutter e este nunca trazia dinheiro consigo. At eu sabia isto, muito embora vivesse em Holcomb havia pouco mais de dois meses.
Outra coisa que eu tambm sabia era que tanto Mr. Cluter como o Kenyon no viam absolutamente nada sem culos. E os de Mr. Clutter achavam-se em cima da secretria. 
Por isso calculei logo que, onde quer que eles estivessem, no tinham ido para l de sua livre vontade. Revistmos o quarto e encontrmos tudo nos seus lugares, 
nenhum sinal de luta, nada desarrumado. A no ser no escritrio, onde o telefone pendia fora do descanso e com os fios cortados, tal como na cozinha. O xerife Robinson 
descobriu algumas espingardas caadeiras dentro de um armrio e cheirou-as a ver se teriam sido disparadas h pouco. Afirmou que no e eu nunca vi um homem to espantado 
ao inquirir: "Onde diabo estar o Herb?" Nesta altura ouvimos passos que vinham da cave. "Quem vem l?" gritou o xerife, pronto A disparar. Nisto uma voz respondeu: 
"Sou eu, o Wendle." Vimos tratar-se de Wendle Meier, o xerife-adjunto. Pelos vistos entrara em casa e, como no nos encontrasse, dirigira-se para a cave  nossa 
procura. O xerife participou-lhe o que se passava, com um ar bastante lamentvel: "Olha, Wendle, no percebo nada disto. H dois cadveres l em cima!" "Os outros 
dois", retorquiu o tal Wendle, "esto l em baixo". Fomos ento atrs dele at  cave.
Ou  sala dos jogos, acho que era assim que lhe chamavam. No fazia escuro, havia vrias janelas que deixavam entrar a luz. O kenyon jazia num canto, deitado no 
sof. Estava amordaado com adesivo e amarrado de ps e mos, tal como a me, pelo mesmo processo complicado: a corda ia das mos at aos ps e vinha depois prender-se 
ao brao do sof. Foi este o que mais impresso me fez, o Kenyon. Talvez por estar menos irreconhecvel do que os outros, por ser o que se parecia mais com o que 
fora em vida, muito embora tivesse levado o tiro de frente, mesmo na cabea.
Vestia uma camisa aberta, calas de ganga e estava descalo, como se se tivesse vestido a toda a pressa e enfiasse a primeira coisa que lhe viera  mo. A cabea 
achava-se recostada sobre duas almofadas, e parecia que algum as colocara ali para tornar o alvo mais fcil.
"Ento o xerife declarou: "Onde vai ter isto?" E, indicava outra porta da cave. E dirigiu-se para l  nossa frente. Mas l dentro no se viu nada enquanto Mr. Ewalt 
no descobriu o interruptor da luz.
Era o quarto da fornalha do aquecimento e fazia ali muito calor. Por aqui  costume as pessoas instalarem uma fornalha de gs na cave e depois canalizarem o ar quente 
pela casa toda. Fica barato e  por isso que todas as casas esto superaquecidas.
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Eu ento olhei para Mr.
Clutter e garanto que era preciso coragem para se fazer isso segunda vez! Pensei que um tiro s no podia
causar uma sangria daquelas e no me enganei. Levara um tiro,  certo, tal como o Kenyon, mesmo junto 
cara. Mas provavelmente j estava morto antes disso. Ou pelo menos moribundo. Porque alm do mais
haviam-lhe cortado a garganta. Vestia um pijama s riscas e nada mais. Tinha a boca fechada com adesivo,
que dava tambm a volta  cabea. Os ps estavam amarrados, mas as mos no, ou pelo menos, ele conseguira, Deus sabe como, talvez com a fora da raiva ou do susto, 
partir as cordas. Encontrava-se estendido, diante da fornalha, dentro de uma caixa de papelo que parecia ter sido colocada ali de propsito.
Era uma caixa de embalagem de um colcho. O xerife exclamou: "Veja isto, Wendle!" Referia-se a uma
pegada feita com sangue, sobre a caixa do colcho. Representava metade da sola de um p, com dois crculos -
dois buracos no meio, como se fossem dois olhos. Depois um de ns - seria Mr. Ewalt? No me recordo -
apontou para outra coisa. Uma coisa que nunca mais poderei esquecer. Por cima havia um cano; e, atada a ele,
pendurada, via-se um bocado de corda, a mesma corda que o assassino usara. No havia dvida de que a certa
altura Mr. Clutter estivera ali amarrado, suspenso pelas mos, e que depois haviam cortado a corda. Mas para
qu? A fim de o torturarem? Creio bem que nunca o saberemos. Nunca se descobrir quem o fez, nem porqu
, nem nada do que se passou naquela casa nessa noite.
"Dali a pouco comeou a chegar gente. Vieram as ambulncias, o coroner, o padre metodista, um fotgrafo da
polcia, funcionrios da polcia do Estado, tipos da rdio e dos jornais. Uma cambada de pessoas. Muitas
vinham da igreja e procediam como se ainda ali se encontrassem. Muito silenciosos, falando em voz baixa.
Era como se ningum pudesse acreditar no que via. Um polcia do estado perguntou-me se eu tinha ali alguma
misso oficial. Quando lhe respondi que no, retorquiu que era melhor ir-me embora. L fora, no relvado, vi o
xerife-adjunto a falar com um homem, Alfred Stocklem, o jornaleiro. Parece que esse tal Stocklein habitava a
menos de cem jardas da casa dos Clutters, separado apenas por um estbulo. Mas afirmara que no ouvira o
menor som e dizia: "Eu no sabia nada disto at h cinco minutos, quando um dos meus filhos veio a correr ter
comigo dizendo que estava aqui o xerife. Eu e a minha patroa no chegmos a dormir duas horas esta noite,
andmos sempre levantados, porque tnhamos o menino doente. Mas a nica coisa que se ouviu, l pelas dez e
meia, onze menos um quarto, foi um carro a ir-se embora, e eu ento disse para a patroa: "L se vai o Bob
Rupp."
68
"Comecei a dirigir-me para casa e no caminho, a meio do relvado, deparei com o velho cachorro do Kenyon,
com um ar absolutamente assustado. Tinha o rabo entre as pernas e no se mexia nem ladrava. E, ao ver o co,
senti-me de novo arrepiado. At ali estivera demasiado aturdido, demasiado dormente para sentir toda a
malvadez do que sucedera. Tanto horror! Tanto sofrimento! Uma famlia inteira! Uma gente boa e amvel,
uma gente que eu conhecia, assassinada! Mas tinha de acreditar porque aquilo era verdade!" Ao longo das vinte e quatro horas passavam em Holcomb oito comboios de 
passageiros rpidos, que no paravam. Desses, dois levavam e deixavam correio, operao esta, que, na opinio da pessoa encarregada, se revelava de certo modo complexa:
pois  como lhe digo, uma pessoa tem de estar alerta. O comboio chega aqui, por vezes a uma velocidade de
cem milhas  hora. S o vento que ele faz  quanto basta para deitar um tipo ao cho. E ento quando os sacos
do correio vm pelos ares, Santo Deus! V! V! V!  como quem apara um golo no futebol! No 
que esteja a queixar-me, note bem! Isto  um trabalho honesto, um servio do Governo, e mantm-me em boa
forma fsica. - A encarregada da mala de Holcomb, Mrs. Sadie Truitt, ou a tia Truitt, como lhe chamavam, no
parece realmente ter setenta e cinco anos.  uma viva forte e de pele queimada pelas intempries, que usa um
leno garrido e botas de vaqueiro ( a coisa mais confortvel que se pode trazer nos ps, macias que nem
penas!), e que vem a ser a mais velha habitante indgena de Holcomb: "Houve tempo em que no havia aqui
ningum que no fosse meu parente. Nessa altura isto chamava-se Sherlock. Depois apareceu por a esse
estrangeiro, Holcomb era o nome dele. Criava porcos. Fez muito dinheiro e decretou que a cidade havia de ter
o seu nome. To depressa o conseguiu, que fez ele? Vendeu tudo e ps-se a andar! Mudou-se para a Califrnia. Mas ns ficmos. Eu nasci aqui e os meus filhos tambm. 
E C ESTAMOS! Uma das suas filhas, Mrs. Myrtle Clarc, por acaso tambm  a empregada dos correios l da terra. "Mas no pensem que eu arranjei este lugar por intermdio 
da Myrtle. Ela nem sequer queria que eu o tivesse. Mas isto  um emprego que se d a quem o desempenhar pelo mais baixo salrio. E o que eu peo  menos do que o 
preo da chuva. Ah, Ah! Isso chatera os rapazes. Muitos deles gostariam de ser encarregados da mala. Mas sempre queria ver se no mudavam de opinio quando a neve 
sobe mais 69
alto do que o
velho Primo Carnera
e o vento corta e os sacos vm pelos ares: Vu! Pumba! Na profisso da tia Truitt, os domingos so dias como os outros. No dia 15 de Novembro e enquanto ela esperava, 
sentada, que passasse o comboio das dez, e trinta e dois, ficou admirada ao ver duas ambulncias que atravessaram a linha frrea e se dirigiram para a casa dos Clutters. 
Este incidente deu origem a um facto que nunca se verificara at ali ela abandonar o seu posto e as malas do correio carem onde muito bem quiseram. Aquela novidade 
queria ela saber em primeira mo.
A gente de Holcomb refere-se  casa dos correios como sendo o "edifcio federal", o que nos parece um ttulo
muito pomposo para um barraco desmantelado e poeirento. O tecto tem fendas, as pranchas do sobrado
oscilam, as caixas do correio no fecham bem, os globos elctricos esto quebrados, o relgio no trabalha.
         tudo uma misria, no  verdade? - concorda a imponente dama, rabugenta e um tanto original que reina
sobre toda aquela runa. - Mas as estampilhas valem, no ? E quero l saber! Aqui no meu canto est-se bem.
Tenho a minha cadeira de baloio, um bom fogo de lenha, uma cafeteira de caf e no me faltam livros para
ler.
Mrs. Clarc  uma figura notvel no condado de binney. E a sua celebridade no se deve  sua actual ocupao,
mas sim a uma outra anterior: foi animadora num dancing, emprego este que o seu actual aspecto est longe
de sugerir. Trata-se de uma mulher esqueltica, incolor e de feitio incaracterstico, que usa calas, camisa de l
e botas de vaqueiro, de idade indefinida (isso  comigo e ningum tem nada que saber!), mas pronta a dar a
sua opinio, que a maior parte das vezes expe numa voz gritante e aguda. At ao ano de 1955 ela e o falecido
esposo exploravam o Pavilho de Dana de Holcomb, negcio este que, em virtude de ser nico, atraa toda a
clientela bebedora e danarina de cem milhas ao redor e cujo comportamento, em contrapartida, atraa de vez
em quando a ateno do xerife.
        Tivemos os nossos dissabores,  certo - confessa Mrs, Clarc no meio das suas recordaes. - Alguns desses
aldees de pernas em arco, mal se lhes dava uma pinga, ficavam mais ferozes do que peles-vermelhas.
Queriam tirar o escalpe a todos quantos apanhavam a jeito. Claro que ns s lhes vendamos bebidas fracas,
nada de genuno. No seramos capazes de uma coisa dessas, mesmo que fosse legal. O meu homem, o Horner
Clarc, no era para essas coisas, nem eu to-pouco. Um dia o meu homem - faz hoje precisamente sete meses
e doze dias que ele se finou, a seguir
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a uma operao que levou cinco horas, feita no hospital do Oregon disse para mim: "Myrt, j que vivemos
toda a nossa vida num inferno, havemos de morrer no cu." E no dia seguinte fechou o pavilho de dana.
Nunca nos arrependemos disso. Oh, nos primeiros tempos eu tinha saudades da minha vida nocturna, das
msicas, de toda aquela alegria. Mas agora que o Hormer desapareceu sinto-me muito feliz por trabalhar aqui
no Edifcio Federal. Passo a vida sentada, a beber caf.
De facto, nesse domingo de manh, Mrs. Clarc acabava de se servir de uma chvena de caf acabado de fazer,
quando a tia Truitt entrou por ali dentro:
        Myrt! - exclamou ela. - Acabam de passar duas ambulncias para a propriedade dos Clutters.
A filha retorquiu:
        Ento e o comboio das dez e trinta e dois?
        Duas ambulncias para os Clutters!...
        E ento? Deve ser a Bonnie, que teve mais um dos seus ataques. Mas onde pra o comboio das dez e trinta e
dois?
A tia Truitt cedeu; como sempre, Myrt tinha resposta para tudo, era dela a ltima palavra. Depois ocorreu-lhe
uma ideia
        Mas Myrt, se  apenas a Bonnie porque so precisas duas ambulncias ? A pergunta era razovel e Mrs. Clarc, grande apreciadora da lgica, muito embora por 
vezes a interpretasse a seu modo, no pde deixar de o admitir. Declarou que iria telefonar a Mrs. Helm. Ela devia saber, afirmou.
A conversa com Mrs. Helm durou alguns minutos e constituiu um tormento para a tia Truitt, que nada mais
conseguia ouvir alm de alguns monosslabos nada significativos que a filha ia respondendo. Pior ainda,
quando esta desligou, no se deu ao trabalho de satisfazer a curiosidade da velha; em lugar disso tomou
placidamente o seu caf, dirigiu-se  secretria e comeou a carimbar um monte de cartas.
        Myrt suplicou a me. Pelo amor de Deus, diz-me o que sabe a Mabel?
        No me admiro nada - declarou Mrs. Clarc - Quando me lembro de que o Herb andava sempre a correr,
vinha aqui buscar o correio sem ter nunca um minuto para dizer bons-dias ou obrigado, parecia um frango
maluco - sempre em reunies de clubes, a girar de um lado para o outro, ocupando lugares que talvez fizessem
falta a algum... Ora veja l, agora parou. J no corre mais?
        O qu, Myrt? Porque  que ele no pode mais correr? Mrs. Clarc ergueu a voz: 71
        porque MORREU! E a Bonnie tambm. E a Nancy. E o rapaz. Algum os matou a todos a tiro.
        Myrt, no me digas uma coisa dessas! Quem foi que os matou? Sem interromper a sua actividade de carimbar as cartas, Mrs. Clarc replicou:
        O homem do avio. Aquele que o Herb multou por lhe ter estragado as rvores de fruto. Se no foi esse
podia ter sido outro qualquer. O vizinho do lado, por exemplo. Todos os vizinhos so uns patifes. Uns zsningum
que esto sempre  espera de uma ocasio para nos darem com a porta na cara.  o mesmo por toda a
parte. A senhora deve sab-lo bem.
        No sei nada disso - exclamou a tia Truitt, tapando os ouvidos com as mos. - Nem quero saber.
        So todos uns patifes!
        Tenho medo, Myrt!
        Medo de qu? Quando chegar a sua vez,
chegou. E no vale de nada pr-se a chorar. - Reparara que a me estava de lgrima ao canto do olho. Quando
o Horner morreu acabei com os medos e com as ralaes. Se h por a algum que me queira cortar o pescoo
que aparea! Que diferena me faz? Tudo acaba na eternidade. Note bem: Se um pssaro comeasse a
transportar todos os gros de areia, um por um, para o outro lado do oceano, o tempo que ele gastasse no seria
mais do que o princpio da eternidade. Por isso, trate de assoar o nariz! A triste nova, anunciada do alto dos plpitos, transmitida pelos fios telefnicos, radiodifundida 
pela emissora de Garden City, aquilo uma tragdia incrvel e impressionante para alm de tudo o que se possa imaginar atingiu os quatro membros da famlia de Herb 
Clutter, na noite de sbado ou na manh de hoje. A morte, brutal e sem motivo aparente..."), produzia em todos uma reaco mais semelhante  da tia Truitt do que 
a de Mrs. Clarc: espanto, que em breve se transformava em desolao, num profundo sentimento de horror, logo agravado pela fria torrente do medo pessoal.
O caf Hartman, que continha quatro mesas de madeira tosca e um balco, mal podia albergar uma pequena
parcela das conversas assustadas, sobretudo dos homens que ali queriam acolher-se. A proprietria, Mrs. Beis
Hartman, uma mulher magrizela e sensata, de cabelos encaracolados, louros mas grisalhos, e olhos verdes
autoritrios, era prima de Mrs. Clarc cuja espcie de ingenuidade conseguia igualar se no ultrapassar mesmo:
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"H quem diga que eu sou uma mulher dura, mas este caso dos Clutter deixou-me arrasada", confessava ela
mais tarde a uma amiga. Imagime-se, uma coisa destas! Quando ouvi a notcia e toda a gente se juntou aqui a
dizer uma data de disparates, a minha primeira ideia foi a Bonnie. Claro, era uma tolice, mas houve muita
gente que pensou o mesmo por causa dos acessos que ela tinha por vezes. Mas agora ningum sabe o que hde
pensar. Pode ter sido uma vingana, da parte de algum que conhecesse bem a casa por dentro. Mas quem
podia querer mal aos Clutter? Nunca ouvi pessoa alguma dizer uma palavra contra eles; era a famlia mais
estimada que se possa imaginar. E se lhes fazem uma coisa destas, quem pode considerar-se seguro, digam-me
c? Um velho que esteve aqui sentado, nesse domingo, ps o dedo na ferida e apontou a razo por que
ningum pode agora dormir descansado; disse ele: "Aqui, todos somos amigos. No h ningum que o no
seja." A est o pior deste crime. Que coisa horrvel os vizinhos no poderem olhar uns para os outros sem
comearem a pensar isto e aquilo! Sim,  muito duro de admitir, mas, se a Polcia algum dia descobre o
criminoso, isso vai ser uma surpresa maior do que o prprio crime." Mrs. Bob Johson, mulher do agente da Companhia de Seguros de Nova Iorque, era uma excelente cozinheira, 
porm o jantar que ela preparou nesse domingo ningum o comeu, pelo menos enquanto estava quente; porque no instante exacto em que o marido espetava a faca num faiso 
tostado recebeu uma chamada telefnica da parte de um amigo. " E isso", recorda ele tristemente, "foi a primeira notcia que tive do que acontecera em Holcomb. Nem 
acreditei. Era-me impossvel. Santo Deus! Pois se eu ainda tinha no bolso o cheque do Clutter, um bocado de papel que valia oitenta mil dlares! Se acaso aquilo 
que me diziam era verdade! Mas - pensava eu -, no pode ser. Deve haver engano! Essas coisas no acontecem. Vender-se a um homem uma aplice importante e ele ser 
morto logo a seguir. Assassinado! O que significava uma indemnizao a dobrar. No sabia o que havia de fazer. Telefonei ao nosso gerente em Wichita. Informei-o 
de que tinha o cheque em meu poder mas que ainda o no registara e perguntei-lhe qual a sua opinio. Bem, a situao era delicada. Parece que, legalmente, no ramos 
obrigados a pagar. Mas moralmente... o caso era diferente. Claro que optmos pela soluo moral." As duas beneficirias desta atitude decente, Eveanna Jarchow e 
a sua irm Beverly, nicas herdeiras dos bens do pai, poucas horas depois da descoberta da tragdia achavam-se j a caminho de Garden City. Beverly vinha de Winfield, 
no Kansas, onde fora
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de visita ao noivo, e Eveanna partira da sua casa em Mount Carrol, no Ilinis. Pouco a pouco, ao longo do dia,
outros parentes foram recebendo a notcia, entre eles o pai de Mr. Clutter e os seus dois irmos, Arthur e
Clarence, assim como a irm, Mrs. Harry Nelson, todos de Larned, no Kansas, e uma segunda irm, Mrs.
Elaine Selsor, de Palatka, na Florida. Tambm os parentes de Bonnie Clutter, Mr. E Mrs. Arthur B. Fox, que
viviam em Pasadena, na Califrnia, e os seus trs irmos - Harold, de Vislia, Califrnia; Howard, de Oregon,
Ilinis, e Glen, de Kansas City, no Kansas, todos foram informados. Na realidade a maior parte dos componentes da lista de convidados para a festa do Dia da Aco 
de Graas em casa dos Clutter recebeu telefonemas ou telegramas e quase todos se puseram a caminho, no para uma festa de famlia como estava projectado, mas sim 
para uma reunio em volta de uma sepultura.
Na Casa dos Professores, Wilma Kidwell foi obrigada a dominar-se a fim de acalmar a filha, visto que Susan,
de olhos inchados, acometida constantemente de vmitos nervosos, teimava em afirmar, inconsolvel, que o
seu dever era correr imediatamente para a quinta dos Rupp: "Ento a me no compreende?" insistia ela. "Se o
Bobby sabe disto de repente? Ele gostava muito dela. Tal como eu.  preciso que seja eu a dizer-lho!"
Mas Bobby j sabia. No regresso a casa, Mr. Ewalt parou na quinta dos Rupp a trocar impresses com o seu
amigo Johnny Rupp, pai de oito filhos, dos quais Bobby era o terceiro. Os dois homens dirigiram-se para o
dormitrio, que era uma casa separada da habitao propriamente dita, a qual se tornara demasiado pequena
para abrigar toda a famlia Rupp. Os rapazes ficavam no dormitrio, as raparigas "em casa". Encontraram o
Bobby a fazer a sua cama. Ouviu o que lhe disse Mr. Ewalt, no fez perguntas e agradeceu-lhe ter vindo ali.
Depois foi l para fora, para o sol. A propriedade dos Rupp ficava num monte, um planalto desafogado donde
se avistava a terra nua aps as colheitas da quinta de River Valley, cenrio este que ficou a contemplar durante
mais de uma hora. Ningum conseguiu distra-lo. A sineta para o jantar tocou e a me veio cham-lo. Chamou
e voltou a chamar, at que por fim o pai disse: "  melhor deix-lo sozinho!" Larry, outro irmo mais novo, tambm se recusou a obedecer ao toque da sineta. Andava 
 roda de Bobby, sem poder fazer nada, mas desejando ser-lhe til, muito embora este lhe dissesse repetidas vezes que se fosse embora. Mais tarde, quando Bobby saiu 
do seu marasmo e se ps a caminho, dirigindo-se  estrada e aos campos na direco de Holcomb, Larry foi atrs dele: "Ei, Bobby! Se vais algures porque no levas 
o carro?" O irmo no
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respondeu. Caminhava com determinao, quase a correr, mas Larry no tinha dificuldade em acompanh-lo.
Muito embora contasse apenas catorze anos era o mais alto dos dois, de peito cavado e pernas compridas,
porque Bobby, a despeito da sua estatura atltica, no ultrapassava uma altura mdia. Era um rapaz esbelto e
bem proporcionado, com um belo rosto simptico e aberto. "Ei, Bobby, escuta. Olha que no te deixam v-la!
No ganhas nada com isto". Bobby voltou-se para ele e exclamou: "Deixa-me! Vai para casa!" O irmo ficou
para trs, mas foi seguindo o  distncia. A despeito da temperatura outonal, do vento spero, os dois rapazes
suavam em bica ao aproximarem-se da barricada que os polcias do Estado haviam erigido  entrada da quinta
de River Valley. Muitos amigos da famlia Clutter, bem como estranhos de todo o condado de Finney, se
haviam ali reunido, mas ningum tinha licena de transpor a barricada, a qual, logo aps a chegada dos irmos
Rupp, foi aberta para dar passagem a quatro ambulncias, nmero este finalmente requisitado para transportar
as vtimas, e um carro cheio de empregados do xerife, os quais, neste momento exacto, estavam falando de
Bobby Rupp. Porque Bobby, como este viria a saber antes da noite, era, para eles, o principal suspeito.
Da janela da sala, Susan Kidwell viu passar o branco cortejo e no desviou os olhos at o ver desaparecer na
curva da rua por empedrar, e dissipar-se a nuvem de p por ele erguida. Contemplava ainda a cena quando viu
surgir Bobby, escoltado pela figura alta do irmo, a caminhar vacilante em direco a ela. A rapariga veio
receb-lo  entrada e declarou: "Eu  que queria dar-te a notcia!" Bobby desatou a chorar, larry ficou-se no
ptio da Casa dos Professores, encostado a uma rvore. No se lembrava de ter visto nunca Bobby a chorar e
nem queria ver. Por isso ps os olhos no cho.
Muito longe dali, na cidade distante de Olathe, num quarto de hotel com gelosias a quebrar a luz do meio-dia,
Perry dormia com um rdio porttil de cor cinzenta a tocar em surdina  cabeceira. Apenas tirara as botas, de
resto no se dera ao trabalho de despir a roupa. Atirara-se de cara para baixo sobre a cama, como se o sono
fosse uma arma que o tivesse atingido pelas costas. As botas pretas, de fivela de prata, tinham ficado de molho
numa bacia de gua morna que se tingira vagamente de vermelho.
Algumas milhas ao norte, na cozinha confortvel de uma modesta herdade, Dick ingeria o almoo dominical.
Os seus companheiros de mesa - o pai, a me e o irmo mais novo nada notavam 75
de extraordinrio nos seus modos. Chegara ao meio-dia, beijara a me, respondera imediatamente s perguntas
desta acerca da sua suposta viagem nocturna a Fort Scott e sentara-se  mesa, na forma do costume. Acabada a
refeio os trs homens da famlia haviam-se sentado na sala a fim de assistirem a um desafio de beisebol na
televiso. A emisso mal comeara quando o pai ouviu, surpreendido, Dick a ressonar; segundo observou ao
filho mais novo, nunca julgou ver algum dia Dick a dormir em lugar de assistir a um desafio de beisebol. Mas,
claro, ele no podia saber at que ponto Dick se sentia cansado, nem que aquele filho que ali estava a dormir
havia conseguido, entre outras coisas, guiar um automvel durante mais de oitocentas milhas em vinte e quatro
horas.
II
Pessoas desconhecidas
Aquela segunda-feira, 16 de Novembro de 1959, foi mais um esplndido dia para a caa ao faiso nas altas
plancies de trigo do Oeste do Kansas - um dia em que o cu se mostrava intensamente azul e brilhante como a
mica. Muitas vezes, em dias semelhantes quele, nos anos anteriores, Andy Erhart havia passado longas tardes
na caa ao faiso, na quinta de River Valiey, em companhia do seu bom amigo Herb Clutter. E, muitas vezes,
a essas expedies venatrias se haviam associado mais trs grandes amigos de Herb: o doutor J. E. Dale,
veterinrio: Cari Myers, dono de uma leitaria, e Everett Ogbum, negociante. Tal como Erhart, que era director
da Estao Agrcola Experimental da Universidade do Estado do Kansas, os outros trs podiam igualmente
considerar-se importantes cidados de Garden City.
Naquele dia este quarteto de antigos companheiros de caa havia-se reunido mais uma vez para percorrer um
caminho familiar, mas agora num estado de esprito bastante estranho e equipados com instrumentos bem
pouco desportivos: baldes e esfreges, escovas e um cesto de tampas cheio de farrapos e detergentes fortes.
Haviam envergado os fatos mais velhos que possuam, uma vez que aqueles homens tinham sentido que era
seu dever de cristos oferecerem-se para limpar alguns dos catorze quartos que constituam a casa de River
Valiey, quartos esses nos quais quatro membros da famlia Clutter haviam sido assassinados, segundo
declarava a certido de bito, "por uma pessoa ou pessoas desconhecidas".
Eihart e os companheiros seguiam de automvel calados. Um deles observou mais tarde:
        Sentamo-nos reduzidos ao silncio quando nos dirigamos para aquele lugar onde sempre havamos sido to
bem recebidos.
Daquela vez foram acolhidos por um polcia de trnsito. Este, de sentinela  barricada que as autoridades
haviam mandado erguer  entrada da quinta, mandou-os entrar com um gesto e eles seguiram durante mais
meia milha pela rua ensombrada pelos lamos que conduzia  casa dos Clutter. Alfred Stocklein, 78
o nico trabalhador que habitava mesmo na propriedade, estava  espera para os mandar entrar.
Dirigiram-se primeiro  casa da fornalha, na cave, onde Mr. Clutter fora encontrado, em pijama, deitado
dentro de uma caixa de papelo que servira de embalagem a um colcho. Terminado o trabalho ali, passaram 
sala dos jogos na qual Kenyon fora morto a tiro. O sof, uma velharia que Kenyon arranjara no ferro-velho e
restaurara, tendo-o em seguida Nancy forrado de novo e coberto de almofadas com legendas, estava transformado numa runa ensanguentada; tal como a caixa de embalagem, 
foi preciso queim-lo. Pouco a pouco,  medida que a equipa de limpeza avanava no seu trabalho da cave para o primeiro andar onde Nancy e a me haviam sido assassinadas 
nas suas camas, iam juntando mais material para a futura fogueira: roupas de cama sujas de sangue, colches, um tapete, um urso de peluche.
Alfred Stocklein, pouco falador de seu natural, conversou sempre enquanto arranjava gua quente e ajudava
nas limpezas. Desejava "que as pessoas acabassem com os ditos e tentassem compreender" como  que ele e a
mulher, muito embora vivendo a menos de cem jardas da casa dos Clutter, no tinham ouvido "nadinha", nem
o mais leve eco do tiro ou da tragdia que se desenrolava a dois passos dali.
        O xerife e toda aquela malta que andou por a  coca de indcios e de impresses digitais eram pessoas de
cabea, que compreendiam as coisas, porque  que ns no tnhamos ouvido nada. Uma das razes foi o vento.
Um vento de oeste, por sinal, que levava todos os sons para o outro lado. Outra razo era aquele enorme
telheiro de milho que fica entre a nossa casa e esta. O telheiro no deixa passar nenhum barulho. E j
pensaram numa coisa? Quem fez este trabalho sabia perfeitamente que ns no podamos ouvi-lo. De
contrrio no se arriscaria a disparar uma carabina por quatro vezes no meio da noite! S se estivesse doido.
Claro que os senhores me vo j dizer que doido era ele, sem dvida nenhuma, para fazer aquilo que fez. Mas
c na minha opinio ele tinha tudo bem planeado de uma ponta  outra. E uma coisa tambm eu lhes garanto.
Tanto eu como a minha patroa, foi esta a ltima noite que aqui dormimos. Vamos mudar-nos para uma casa
que fica  beira da estrada.
Os homens trabalharam desde o meio-dia at ao cair da noite. Quando se chegou  altura de queimarem aquilo
que tinham junto, carregaram tudo num tractor e, com Stocklein ao volante, dirigiram-se para o meio de um
campo situado ao norte da quinta, um terreno plano e colorido, da cor uniforme que tomam em Novembro os
caules de trigo cortados, um amarelo torrado
79
e brilhante. Chegados ali, descarregaram o tractor e fizeram um monte com as almofadas de Nancy, os
cobertores, os colches, o sof da sala de jogos, Stocklein regou-o com petrleo e largou-lhe fogo com um
fsforo.
De todos os presentes ningum estivera to ligado  famlia Clutter como Andy Erhart. Afvel, muito distinto,
um erudito com mos calejadas pelo trabalho e um pescoo queimado do sol, fora companheiro de estudos de
Herb Clutter nos bancos da Universidade do Estado do Kansas.
        ramos amigos havia trinta anos - declarava ele algum tempo depois. E durante essas trs dcadas Erhart
vira o seu antigo companheiro, um regente agrcola do condado, mal remunerado, transformar-se num dos
plantadores mais respeitados e conhecidos na regio:
        Tudo o que Herb possua havia sido ganho por ele - com a ajuda de Deus. Era um homem modesto mas
orgulhoso e tinha razes para o ser. Fundara uma famlia honrada. Conseguira triunfar na vida.
Mas agora essa vida e aquilo que ele fizera dela... Como podia ter acontecido uma coisa destas?, perguntava a
si prprio Erhart enquanto via atear a fogueira. Como era possvel que tamanho esforo, to belas virtudes,
ficassem, de um dia para o outro, reduzidas a isto: a fumo que subia e se dissipava no ar, absorvido pelo cu
azul e imenso
O Gabinete de Investigaes do Kansas, uma repartio estadual com sede em Topeka, possua um efectivo de
dezanove detectives competentes espalhados por todo o estado e cujos servios se podiam requisitar em
qualquer parte sempre que surgia um caso fora da competncia das autoridades locais. O representante desse
Gabinete em Garden City, tambm o agente responsvel por uma grande extenso do territrio do Kansas
Ocidental,  um hhomem magro e bem parecido, descendente de uma famlia que habita a regio h quatro
geraes, o qual conta quarenta e sete anos e se chama Alvm Adams Dewey. Earl Robinson, xerife do
condado de Finney, no podia deixar de pedir a Al Dewey que se encarregasse do caso Clutter. Era inevitvel
e urgente. Dewey, tendo sido ele prprio xerife do condado de Finney (desde 1947 a 1955 e, mais ainda,
agente do FBI (entre 1940-1945, fazendo servio em Nova Orlees, San Antnio, Denver, Miami e San
Francisco, era, do ponto de vista profissional, bastante competente para resolver um crime na aparncia to
destitudo de finalidade e to absurdo como o caso Clutter. Alm disso, 80
a sua atitude em face do crime transformava este, como ele mesmo afirmou mais tarde, "numa questo
pessoal". E prosseguiu dizendo que tanto ele como a mulher eram verdadeiramente amigos de Bonnie:
"Encontrvamo-nos todos os domingos na igreja e visitvamo-nos muitas vezes", acrescentando: "Mas ainda
que eu no conhecesse to bem a famlia e a estimasse, isso no faria a menor diferena. Tenho visto muitos
crimes repugnantes, no h dvida, mas nenhum to cruel como este. Leve o tempo que levar, talvez o resto da
minha vida, mas hei-de saber o que se passou naquela casa. Quem fez aquilo e porqu ." No fim das investigaes havia dezoito homens permanentes encarregados do 
caso, entre eles trs dos melhores detectives do F. B. I, os agentes especiais Harol/d Nye, Roy Church e Clarcnce Duntz. Com a chegada deste trio a Garden City, 
Dewey ficou convencido de que se reunira uma "boa equipa". "O criminoso que se acautele", dizia ele.
O gabinete do xerife ficava no terceiro andar do palcio da justia do condado de Finney, um edifcio vulgar
de pedra e cimento, situado no centro de um simptico largo rodeado de rvores. Presentemente, Garden City,
que foi outrora uma cidade fronteiria bastante turbulenta, acha-se completamente pacificada. De uma forma
geral o xerife pouco tem que fazer e o seu gabinete, formado por trs salas escassamente mobiladas,  um
local tranquilo onde vo passar um bocado os funcionrios ociosos do tribunal; a senhora Edna Richardson, a
amvel secretria, tem habitualmente a postos uma cafeteira de caf e passa a vida a "fazer cera". Ou pelo
menos fazia-a, "at surgir este caso Clutter", trazendo consigo "tantos estrangeiros e essa cambada dos
reprteres". Na verdade, aquele crime que fornecia cabealhos aos jornais tanto em Denver, a oeste, como em
Chicago, a leste, atraa a Garden City muita gente da imprensa.
Na segunda-feira ao meio-dia, Dewey deu uma conferncia de imprensa no gabinete do xerife.
        Vou expor factos e no teorias - informou ele, dirigindo-se aos jornalistas reunidos. - Ora o facto principal,
aquele que no devemos esquecer,  que se trata de quatro assassnios e no apenas de um s. E ignoramos
qual das vtimas era a principal visada, a vtima por excelncia. Poderia ter sido Nancy, ou Kenyon, ou
qualquer dos pais. H quem diga: "No h dvida de que era Mr. Clutter. Ele  que tinha o pescoo cortado e
foi o que mais sofreu." Mas isto  uma teoria e no um facto. Ser-nos-ia muito til saber por que ordem a
famlia foi assassinada, mas o coroner no consegue dizer-nos; apenas sabe que o crime foi cometido entre as
onze da noite de sbado e as duas da manh de domingo.
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        Depois, em resposta a perguntas que lhe eram feitas, declarou que "no senhor, nenhuma das mulheres sofrera qualquer violncia sexual" e que segundo parecia 
nada fora roubado de casa, e que considerava uma pura coincidncia o facto de Mr. Clutter ter feito um seguro de vida com dupla indemnizao oito horas antes de 
ser assassinado. Estava convencido de que nenhuma relao existia entre isto e o crime; como poderia ser de outro modo, visto que as nicas pessoas que beneficiavam 
financeiramente do crime eram as duas filhas que restavam, a senhora Donald Jarchow e a menina Beverly Clutter? Sim, afirmou aos reprteres, ele tinha uma ideia 
formada acerca do facto de serem dois os criminosos. Ou apenas um, mas preferia no a divulgar. A verdade  que, nesta altura, Dewey no conseguira ainda formar 
um juzo. Mantinha umas poucas de opinies, ou, no seu dizer, conceitos e, ao reconstituir o crime, estudou a teoria do criminoso nico, ou de dois. Na primeira 
supunha-se que o criminoso fosse um amigo da famlia, ou pelo menos um homem possuindo mais do que um conhecimento superficial da casa e dos seus habitantes algum 
que soubesse que as portasraramente ficavam fechadas, que Mr. Clutter dormia sozinho no quarto principal do rs-do-cho, que Mrs. Clutter e os filhos ocupavam quartos 
separados no primeiro andar. Esta pessoa, segundo imaginava Dewey, aproximara-se a p, possivelmente cerca da meianoite.
As janelas estavam s escuras, os Clutters dormiam e, quanto a Teddy, o clebre co de guarda dos Clutter... bem, Teddy tinha um medo pavoroso das espingardas, como 
toda a gente sabia. Devia ter-se encolhido todo  vista da arma do intruso e fugido a sete ps. Ao entrar em casa, o criminoso comeava por destruir as instalaes 
telefnicas, uma no escritrio de Mr. Clutter, outra na cozinha, e depois, tendo cortado os fios, dirigia-se ao quarto de Mr. Clutter e acordava-o.
Este, dominado pela arma do visitante, via-se forado a obedecer s suas instrues e acompanhava-o ao segundo andar, onde acordavam o resto da famlia. Depois, 
por meio da corda e do adesivo fornecidos pelo criminoso, Mr. Clutter amarrava e amordaava a mulher, amarrava a filha (que no fora amordaada, no se sabia por 
que motivo), atando-as em seguida com as cordas s prprias camas. Em seguida pai e filho eram escoltados at  cave onde Mr. Clutter se via obrigado a amordaar 
o filho e at-lo ao sof da sala de jogos. Intimavam-no finalmente a entrar na cave e ali recebia uma pancada na cabea, era amordaado e atado. Finalmente para 
poder fazer o que quisesse, o criminoso matava-os um por um, recolhendo de cada vez o cartucho utilizado. At que apagava as luzes todas e ia-se embora.
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As coisas podiam-se ter passado desta maneira. Era uma hiptese, apenas. Porm Dewey tinha as suas dvidas: "Se acaso Herb pensasse que a sua famlia corria perigo, 
um perigo mortal, teria lutado como um leo. E Herb no era nenhum trinca-espinhas, mas sim um tipo forte e em esplndida forma. Kenyon, igualmente, era um rapaz 
to alto ou mais do que o pai, de ombros largos. Tornava-se difcil ele imaginar como  que um homem s, armado ou no, tinha podido dominar os dois." Alm de que 
havia razes para supor, terem todos sido amarrados por uma s pessoa; aos quatro casos o tipo de n era o mesmo, uma espcie de lao.
Dewey, bem como a maioria dos seus colegas, inclinava-se para a segunda hiptese, a qual coincidia com a primeira em muitos pontos, mas cuja diferena principal 
consistia no facto de o criminoso no vir sozinho, mas trazer um cmplice que o ajudava a dominar a famlia, a aplicar os adesivos e a amarr-los a todos. No entanto 
esta teoria tambm apresentava as suas falhas. Dewey, por exemplo, achava difcil de compreender "como  que dois indivduos podiam atingir o mesmo grau de dio, 
aquela espcie de dio psicoptico que seria necessrio para cometer semelhante crime". E prosseguia na explicao: "Admitindo que o criminoso era algum conhecido 
da famlia, um membro da nossa comunidade; admitindo que se tratava de um homem vulgar, com a excepo de nutrir um dio estranho e invulgar contra os Clutter, onde 
ia ele descobrir um companheiro, um tipo suficientemente louco para se prestar a ajud-lo? Isto no faz sentido. No se compreende.
Mas, se analisarmos bem as coisas, nada disto faz sentido." Depois da conferncia de imprensa, Dewey retirou-se para o seu escritrio, uma sala que o xerife lhe 
cedera temporariamente. Continha uma secretria e duas cadeiras vulgares. Aquela achava-se atravancada com o que Dewey esperava poder vir a constituir um dia um 
ncleo de provas legais: os adesivos e as cordas retiradas s vtimas e agora seladas dentro de sacos de plstico (como provas nenhuma destas coisas possua grande 
valor, visto tratar-se de artigos vulgares, fceis de obter em qualquer ponto dos Estados Unidos) e fotografias tiradas no teatro do crime por um fotgrafo da polcia 
- vinte pelculas ampliadas, em papel lustroso, do crnio fracturado de Mr.
Clutter, do rosto desfeito do filho, das mos amarradas de Nancy, dos olhos fixos e arregalados da me, etc. Nos dias seguintes Dewey iria passar muitas horas a 
contemplar aquelas fotografias, na esperana de "ver de sbito qualquer coisa", um pormenor importante que saltasse  vista: "Como naquelas adivinhas em que se pergunta: 
"Quantos
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animais se vem neste desenho?  isto o que estou a tentar fazer. Descobrir os animais escondidos.
Sinto que eles esto l, basta apenas descobri-los." Na realidade, uma das fotografias em primeiro plano de Mr. Clutter e da caixa onde jazia havia fornecido j 
uma valiosa surpresa: algumas pegadas produzidas por umas solas poeirentas onde se via claramente o desenho em estrela de uma sola. Estas pegadas, invisveis a olho 
nu, haviam sido registadas pela pelcula; a verdade  que o fraco da lmpada do flash tinha revelado a sua presena com uma exactido extraordinria. Estes vestgios, 
juntamente com a impresso de um p encontrada na prpria caixa do colcho - a marca ntida de metade da sola de um p -, constituam os nicos "indcios srios" 
de que a investigao dispunha. No que os tornassem pblicos; Dewey e a sua gente haviam resolvido mant-los secretos.
Entre outros objectos guardados na secretria de Dewey, contava-se o dirio de Nancy Clutter. Ele limitara-se apenas at ento a lanar-lhe uma vista de olhos e 
dispunha-se agora a ler com ateno as notas referentes a cada dia, as quais principiavam naquele em que ela completara treze anos, e terminavam dois meses antes 
de fazer dezassete; tratava-se das confidncias comezinhas de uma criana inteligente, que adorava animais, gostava de ler, de cozinhar, de coser, de danar, de 
montar a cavalo, uma rapariga que todos apreciavam, bonita, pura, que achava "divertido namorar", mas que, na verdade, "s gostava a valer de Bobby". Dewey comeou 
por ler a ltima pgina. Constava de trs linhas, escritas uma ou duas horas antes de morrer: "A Jolene K. Veio c e eu ensinei-a a fazer uma torta de cereja. Estudei 
com a Roxie. Esteve c o Bobby e vimos televiso.
Foi-se embora s onze."
O jovem Rupp, a ltima pessoa que se sabia ter estado junto da famlia ainda com vida, fora j submetido a um demorado interrogatrio e, muito embora tivesse declarado 
espontaneamente ter passado com eles "um sero como qualquer outro,", foi-lhe marcado segundo interrogatrio, durante o qual teria de fazer declaraes por escrito. 
A verdade  que a Polcia no estava disposta, para j, a abdicar dele como suspeito. O prprio Dewey se convencera de que o rapaz "nada tinha a ver com aquilo". 
No entanto, no ponto em que estavam as investigaes, Bobby era a nica pessoa a quem se podia atribuir um mbil, muito embora remoto. Num ou noutro ponto do dirio 
Nancy referia-se por alto  situao que poderia dar lugar a esse mbil: a insistncia do pai no sentido de ela "cortar com o Bobby", em que "deixassem de andar 
juntos", com o pretexto de que os Clutters eram metodistas e os Rupps catlicos, circunstncia esta que, no seu entender, 84
tirava aos jovens todas as probabilidades de virem a casar um dia. Porm a pgina do dirio que mais
interessava Dewey no dizia respeito ao problema entre Clutters e Rupps, a catlicos ou metodistas. Referiase,
sim, a um gato,  morte misteriosa do bichano favorito de Nancy, Boohs, o qual, segundo ela dizia numas
linhas escritas duas semanas antes de morrer, fora encontrado "morto no telheiro", vtima, na opinio dela
(sem que dissesse porqu ), de envenenamento: "Pobre Boohs, Enterrei-o num stio especial." Ao ler isto
Dewey achou que o facto podia ser "muito importante ". Se o gato tivesse sido envenenado no seria este
pequeno acto o malicioso preldio dos outros crimes? Resolveu pois, descobrir esse tal "stio especial", onde
Nancy sepultara o bichano, ainda que para isso necessrio se tornasse passar a pente fino toda a quinta de
River Valley.
Enquanto Dewey se entregava  leitura do dirio, os seus assistentes primcipais, os agentes Church, Duntz e
Nye, percorriam a regio, conversando, segundo dizia Duntz, "com toda a gente capaz, de nos dizer seja o que
for": os professores do Colgio de Holcomb, onde tanto Nancy como Kenyon haviam ocupado o quadro de
honra; os trabalhadores da quinta de River Valley (que na Primavera e no Vero chegavam, por vezes, a ser
em nmero de dezoito, mas que de momento se compunham apenas de Gerald Van Vleet e de trs trabalhadores, alm de Mrs. Helm; os amigos das vtimas; os vizinhos e, 
muito particularmente, os parentes.
De perto ou de longe, tinham vindo uns vinte para assistir ao enterro, que teria lugar na quarca-feira de manh.
O mais novo dos agentes do F.B.I., Harold Nye, um homenzinho azougado, de trinta e quatro anos, com uns
olhos irrequietos e desconfiados, nariz e queixo pontiagudos e inteligncia arguta, fora destacado para a tarefa
"difcil como o raio" de entrevistar os parentes: "Torna-se doloroso para eles e para quem os interroga.
Quando se trata de crime no pode haver respeito pela dr alheia. Nem pela intimidade ou pelos sentimentos
de cada um.  preciso fazer perguntas. Algumas bastante duras. Porm nenhuma das pessoas interrogadas
nem qualquer das perguntas formuladas produziu resultado. Explorei a questo sentimental. Pensei que
poderia haver outra mulher metida nisto, o tal tringulo Vejamos: Mr. Clutter era um homem ainda novo,
bastante saudvel, mas a mulher estava semi-invlida e dormiam em quartos separados... Nem as prprias
filhas que restavam sugeriram um pretexto para o crime. Numa palavra, Nye apurou apenas isto: "De todas as
pessoas da cidade, os Clutter" eram quem menos probabilidades tinham de serem assassinados".
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No fim do dia, quando os trs agentes se reuniram no gabinete de Dewey, chegou-se  concluso de que Duntz
e Church haviam sido mais felizes do que Nye - o irmo Nyc, como lhe chamavam. (Os membros do F.B.I.
So muito dados a pr alcunhas uns aos outros; Duntz  conhecido pelo "Velhote", o que  injusto, visto no
ter ainda cinquenta anos e ser um sujeito entroncado, muito embora fosse gil, com uma cara larga que lembra
um gato; e Church, que deve andar pelos sessenta anos, corado e com um ar professoral, mas duro, na opinio
dos colegas, considerado "o osso mais duro de roer do Kansas", tem por alcunha o "Carapinha, por ter pouco
cabelo.) Ambos, no decorrer das investigaes, haviam recolhido "indcios prometedores". A histria de
Duntz dizia respeito a um pai e a um filho a quem designaremos aqui por John Pai e John Filho. Alguns anos
atrs, John Pai tivera com Mr. Clutter uns certos negcios cujos resultados o haviam aborrecido, afirmando
depois que ele lhe tinha "enfiado um barrete". Tanto o pai como o filho eram uns bbedos e o ltimo fora at
muitas vezes preso por alcoolismo. Certo dia, pai e filho, cheios da coragem dada pelo whisky, haviam
aparecido em casa dos Clutter, resolvidos a "ajustar contas com o Herb". No tiveram sorte nenhuma, pois Mr.
Clutter, que odiava o lcool e no suportava bbedos, pegou na espingarda e p-los fora da propriedade. Os
dois Johns nunca lhe perdoaram este desaire; e ainda no havia um ms, John Pai afirmara a um seu conhecido: "Todas as vezes que penso naquele filho-da-me fico 
com as mos a tremer. S me apetece estrangul-lo."
A descoberta de Church era do mesmo gnero. Tambm ele soubera de algum que se declarava hostil a Mr.
Clutter: tratava-se de um certo Mr. Smith (muito embora no seja este o seu verdadeiro nome) que julgava ter
sido o dono da quinta de River Valley quem lhe matara a tiro um co de caa. Church revistara a quinta de
Smith e descobrira, pendente de uma trave do telheiro, uma corda com um n semelhante ao que fora utilizado
para amarrar os Clutters.
Devvey declarou:
Um destes talvez seja o nosso homem. Talvez se trate de uma rixa pessoal, uma m vontade que se avolumou.
        A no ser que o mbil seja o roubo - retorquiu Nye, muito embora essa questo tivesse sido muito discutida e
finalmente posta de parte. Os argumentos contra a hiptese eram slidos, sendo o principal de todos o facto de
ningum ignorar no condado a averso que Mr. Clutter nutria pelo dinheiro em notas; no possua nenhum no
cofre em casa nem trazia consigo grandes somas. Alem disso, se se tratasse de roubo, por que motivo no
tinha
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o criminoso tirado as jias da senhora Clutter, uma aliana de ouro e um anel com um diamante? Contudo Nye
ficava na sua:
        Tudo isto me cheira a roubo. Ento e a carteira de Clutter? Algum a deixou aberta e vazia sobre a cama e
no me parece que fosse o dono. E a carteira de Nancy? Estava cada no cho da cozinha. Como foi ali parar?
E em toda a casa no havia um centavo. Sim, ao todo dois dlares. Encontraram-se num sobrescrito na
secretria da Nancy. E sabe-se que o Clutter tinha recebido um cheque de sessenta dlares precisamente na
vspera. Pelo meno cinquenta deviam existir ainda. Podem-me dizer: "Ningum mata gente por causa de
sessenta dlares." Ou ento: "Talvez o ladro levasse esse dinheiro s para despistar." Sabe-se l! Quando chegou a noite, Dewey interrompeu a conferncia para telefonar 
 mulher, avisando-a de que no iria jantar. Ela respondeu:
        Est bem, Alvn. - Mas o marido notou-lhe na voz um tom de desusada ansiedade.
Os Dewey tinham dois filhos, estavam casados havia dezassete anos, e Marie, nascida na Louisiana, antiga
estengrafa do F. B. I, que ele conhecera enquanto estagiava em Nova Orlees, no se ofuscava com os
incmodos da profisso do marido: as horas estranhas, as sbitas chamadas para pontos distantes do estado.
Ele inquiriu:
        H alguma novidade?
        Nada - retorquiu ela. - S te aviso de que, quando vieres para casa, logo, ters de tocar a campainha. Mandei
substituir todas as fechaduras.
Ele ento compreendeu e retorquiu:
No te aflijas, querida. Fecha bem tudo e acende a luz da entrada.
Quando ele desligou, um dos colegas inquiriu:
        Que  que se passa? A Marie est com medo?
        Parece que sim. Cos diabos, no  s ela, mas sim toda a gente.
Toda a gente, no. Quem no estava assustada era a viva, empregada dos Correios, a intrpida senhora
Myrtle Clarc, que desprezava os seus concidados, considerando-os "uns mariquinhas, que tremiam como
varas verdes e no se atreviam a fechar os olhos. E afirmava acerca da sua prpria pessoa:
        C a velhota dorme que  um regalo! Quem se quiser meter comigo que experimente! 87
(Dali a onze meses uma quadrilha de bandidos mascarados e armados de pistolas tomaram as suas palavras 
letra e invadiram-lhe o escritrio dos correios, subtraindo-lhe novecentos e cinquenta dlares.) Como sempre, as opinies da senhora Clarc eram muito diferentes 
das do resto da populao.
        C por estas bandas - afirmava o proprietrio de uma loja de ferragens de Garden City -, o artigo que melhor
se vende so fechaduras e ferrolhos. As criaturas nem querem saber da marca. O que pretendem  que seja
coisa segura!
A imaginao, claro, abre todas as portas. D a volta  chave e deixa entrar o terror. Na tera-feira de
madrugada, alguns caadores de faises do Colorado - estrangeiros que desconheciam o desastre ocorrido na
terra - ficaram admirados com o que viram ao atravessar a plancie e quando passaram por Holcomb: as
janelas quase todas iluminadas na maioria das casas e, l dentro, a famlia, completamente vestida, sentada,
durante a noite inteira,  espera,  escuta. De que tinham medo essas pessoas? "A coisa pode repetir-se", era a resposta quase invarivel. No entanto, uma professora 
fez a seguinte observao:
        Isto no seria tomado tanto a peito se se tratasse de outra gente e no dos Clutters. De algum menos
estimado. De uma famlia menos prspera e segura. Mas essa gente representava tudo o que aqui nas
redondezas se aprecia e respeita. E que semelhante catstrofe lhes tenha sucedido a eles... bem,  como se nos
dissessem que no havia Deus! Faz-nos sentir desamparados. Tenho a certeza de que as pessoas se sentem
muito menos Assustadas do que desorientadas.
Outra razo, mais simples e mais repugnante, era que aquela sociedade at ento pacfica, constituda por
amigos e vizinhos, estava a sofrer a experincia nica de desconfiarem uns dos outros". como era lgico,
pensavam que o assassino devia encontrar-se entre eles e, sem excepo todos partilhavam a opinio expressa
por Arthur Clutter, irmo do falecido, que afirmara, ao conversar com um jornalista no trio de um hotel de
Garden City, a 17 de Novembro:
        Quando se descobrir o criminoso, aposto que se trata de algum que no vivia a mais de dez milhas do lugar
onde agora estamos.
A cerca de quatrocentas milhas a leste do lugar onde naquele momento se encontrava Arthur Clutter estavam
dois rapazes a comer num reservado do Eagle Buffet, de Kansas City. Um, de rosto magro, com um gato tatuado nas costas da mo direita, havia devorado j vrias sanduches 
de galinha com salada e olhava agora para o jantar do companheiro: um bife picado em que ele ainda no tocara e um copo de cerveja onde se dissolviam trs comprimidos 
de aspirina.
        Ento, Perry, que  isso, rapaz? No queres o bife? Se assim  como-o eu.
Perry empurrou o prato na direco do amigo:
        Santo Deus! Porque no me deixas concentrar?
        No precisas de ler isso cinquenta vezes!
Referiam-se a um artigo de primeira pgina publicado no Star, de Kansas City, no dia 17 de Novembro, com o
ttulo: FRACOS INDCIOS NO QUDRUPLO ASSASSNIO, onde se prosseguia nas notcias da vspera
acerca do crime, e terminava com o pargrafo seguinte: Os investigadores procuram o assassino ou os assassinos, cuja esperteza  evidente, muito embora, o seu mbil 
se mantenha oculto, visto que ele ou eles tiveram o cuidado de: 1. Cortar os fios dos dois telefones da casa; 2. Amordaar e amarrar habilmente as vtimas sem que 
se notem vestgios de luta; 3. No retirar nada da casa nem deixar indcios de terem procurado fosse o que fosse, com excepo, possivelmente, da carteira de Clutter; 
4. De matar a tiro quatro pessoas em diversos pontos da casa, tendo o cuidado de recolher os cartuchos vazios; 5. Entrar e sair da casa, levando provavelmente consigo 
a arma do crime, sem serem vistos por ningum; 6. Agirem sem motivo, se no quisermos ter em conta uma tentativa falhada de roubo, o que  a opinio geral.
Perry leu alto:
        "Este assassino ou assassinos", aqui est um erro de gramtica. Deviam dizer "este assassino, ou estes
assassinos". - Enquanto sorvia a cerveja com a aspirina, prosseguiu: - Seja como for no acredito nisto. Nem
tu, Dick, confessa l! S honesto! Tu no acreditas que no haja nenhum indcio! Na vspera, depois de haver lido atentamente os jornais, Perry formulara a mesma 
pergunta a Dick (o qual pensava ter arrumado o assunto ao responder: "Escuta l! Se esses estpidos vaqueiros tivessem descoberto a mnima relao connosco, ouviramos 
logo o barulho das patas dos cavalos a uma distncia de cem milhas!").
Agora ficou aborrecido ao ouvir repetir o mesmo. Demasiado aborrecido para protestar quando Perry
prosseguiu no mesmo tema:
        Eu c sempre fiz caso dos pressentimentos, e  por isso que 89
ainda estou vivo. Conheces o Willie-Jay? Afirmava que eu era um esplndido "mdium", e ele percebia muito
desses assuntos e mteressava-se por eles. Dizia que eu tinha no mais alto grau uma "percepo extrasensorial".
Uma espcie de radar interior, a faculdade de ver as coisas antes de as ver. De vislumbrar o esquema dos acontecimentos futuros. Olha, queres saber o que se passou 
com o meu irmo, o Jimmy, e a mulher? Eles gostavam estupidamente um do outro, mas ele era ciumento como o diabo e fazia-lhe a vida negra, sempre desconfiado de 
que ela o enganava s escondidas. A ponto que ela acabou por dar um tiro na cabea e no dia seguinte ele fazia o mesmo. Quando isso aconteceu, em 1949, estava eu 
no Alasca com o pai, perto de Circle City, e eu disse ao pai: "O Jimmy morreu." Dali a uma semana recebemos a notcia. To certo como eu estar aqui. De outra vez, 
l no Japo, estava eu a descarregar um navio juntamente com outros, e sentei-me a descansar um bocado. De repente, ouvi uma voz c dentro que me dizia: "Salta!" 
Dei um salto, cerca de uns quatro metros, e precisamente no stio onde eu estivera veio cair um peso de uma tonelada. Podia contar-te uma centena de casos como este. 
No me interessa que acredites ou no. Por exemplo, pouco antes de ter o desastre na mota, vi como tudo iria acontecer: vi-o na minha cabea: a chuva, as marcas 
da derrapagem, eu cado no cho coberto de sangue e com as pernas partidas.  isso mesmo que me est a suceder agora. Um pr-aviso. Qualquer coisa a dizer-me que 
isto  uma armadilha. - Bateu com a mo no jornal: - Fizemos muita asneira.
Dick mandou vir outro bife. Nos ltimos dias sentia uma fome que nada conseguiria satisfazer: nem trs bifes
de seguida, ou uma dzia de barras de chocolate ou meia libra de rebuados. Perry, pelo contrrio, no sentia
apetite; sustentava-se de cerveja, aspirina e cigarros.
        Assim no admira que vejas coisas - declarou Dick. - Deixa-te disso, rapaz! Acaba l com esses terrores. Ns
combinmos tudo bem combinado e no havia uma falha.
        Em vista dos factos, estou admirado de te ouvir dizer isso retorquiu Perry. A calma do seu tom acentuava a
ironia da resposta. Porm Dick no reagiu. Ps-se at a sorrir e o seu sorriso equivalia a uma hbil proposta.
Com aquela expresso infantil mostrava ser um tipo fixe, direito, afvel, um sujeito em quem se podia confiar:
        O. K. - respondeu. - Concordo que fui mal informado. -Aleluia!
        Mas tudo correu na perfeio. E no deixmos o menor indcio.
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        Estou a pensar num. - Perry fora longe demais. Mas prosseguiu: - Lembras-te do Floyd? - Era um golpe
traioeiro, mas Dick merecia-o, a confiana que tinha em si prprio era como um papagaio de papel a que se
tivesse dado demasiada guita. No entanto Perry observou com certo receio os sintomas da raiva a transparecerem-lhe na expresso: a maxila, os lbios, todo o rosto 
s alterou: nos cantos dos lbios surgiu uma espuma de saliva. Bem, se aquilo acabasse numa cena de pancada entre os dois, Perry saberia defender-se. Era baixo, 
uns poucos de centmetros mais baixo do que Dick, e as suas pernas cambadas e doentes no valiam grande coisa, mas pesava mais do que o amigo, era mais entroncado, 
possua uns braos capazes de dominar um urso. No entanto, provocar uma cena de pugilato para o provar no era nada aconselhvel. Quer estimasse ou no Dick (e no 
desgostava dele, muito embora tivesse havido um tempo em que o estimara e respeitara mais do que hoje, era evidente que no seria til separarem-se. Neste ponto 
estavam ambos de acordo, porque Dick afirmara: "Se formos apanhados mais vale estarmos juntos. Podemos aguentar-nos um ao outro, quando eles comearem a querer extorquir-nos 
uma confisso, afirmando que tu disseste ou que eu disse isto e aquilo". Alm de que, se acaso cortasse com Dick, isso significaria o fim de certos planos que ainda 
o atraam e que, apesar dos ltimos reveses, ainda se afiguravam a ambos realizveis: passarem o resto da vida a mergulhar, na caa ao tesouro, nas ilhas distantes 
ou ao longo das costas ao sul da fronteira.
Dick observou:
        Caramba! Ainda queria ver isso. Nesse caso dava dinheiro para voltar l para dentro! - Espetou o garfo na
mesa, com violncia: - At lhe furava o corao!
        No digo que ele seja capaz de tal coisa - afirmou, desejoso de aplacar o nimo do amigo, agora que a clera
deste se desviara da sua cabea para se concentrar no outro. - Acho que no teria coragem para tanto.
        pois decerto - concordou Dick. - Decerto. Havia de ter medo. - Era espantosa a maneira como Dick mudava
rapidamente de disposio: num abrir e fechar de olhos todos os vestgios de fria e ressentimento se haviam
evaporado. E prosseguiu: Quanto a essa histria dos pressentimentos... diz-me c uma coisa: j que estavas to
certo de ires ter um desastre porque no o evitaste? A coisa nunca teria acontecido se no continuasses a an dar
de moto! E ou no  verdade?
A estava uma observao que Perry j apresentara a si prprio. Julgara ter-lhe respondido, mas a soluo,
muito embora simples, no deixava de ser um pouco vaga: 91
        No, porque quando uma coisa tem de acontecer, o mais que podemos fazer  desejar que ela no acontea,
ou o contrrio, conforme. Enquanto vivemos temos sempre algo prestes a acontecer-nos e ainda que saibamos
tratar-se de uma coisa m no podemos fugir-lhe. Que devemos fazer? E impossvel parar i vida.  tal e qual o
meu sonho. Desde pequeno tenho um sonho. Julgo que estou em frica, na selva. Caminho por entre as
rvores em direco a uma que est isolada. Meu Deus, como ela cheira mal: at enjoa, aquele fedor. Mas 
muito bonita, as folhas so azuis e tem diamantes pendurados por todos os lados. Diamantes do tamanho de
laranjas.  por isso que ali estou, para apanhar um cesto de diamantes. Eu sei que, no momento em que quiser
agarrar algum, cai-me em cima uma cobra. Uma cobra que est de guarda  rvore.  muito gorda, a maldita,
e vive entre os ramos. Eu sei tudo isto, percebes? E ignoro como  que hei-de vencer a cobra. Mas arrisco-me,
pronto! O que acontece  que o meu desejo de apanhar os diamantes  mais forte do que o medo da cobra. Por
isso trato de agarrar um, tenho-o na mo, puxo por ele, e nesta altura a cobra cai-me em cima. Lutamos os
dois, mas a filha-da-me  escorregadia, no tem por onde se lhe pegue, est a esmagar-me, j sinto as pernas
a estalar. Vem depois a parte que me faz suar s de pensar nisso. Imagina que ela comea a engolir-me.
Principia pelos ps.  como quem se enterra na areiamovedia. - Perry hesitou. No podia deixar de ver que
Dick, muito entretido a limpar as unhas com um dente do garfo, estava desinteressado do sonho. Mas
perguntou:
        E ento? A cobra acaba por te engolir, ou qu?
        No interessa. No tem importncia .
Mas tinha! A parte final era de grande interesse, constitua uma fonte de perptuo prazer. Contara-o um dia ao
seu amigo Wille-Jay; descrevera-lhe o grande pssaro amarelo, "uma espcie de papagaio". Claro que o
Willie-Jay era diferente, um crebro delicado, um "santo". Esse compreendia. Mas o Dick... O Dick iria rir-se
dele. E isso no poderia Perry supoitar - que algum metesse a ridculo o seu papagaio, que vira pela primeira
vez a voar em sonhos quando contava apenas sete anos e no passava de uma criana mestia, desprezada, que
vivia num orfanato da Califrnia dirigido por freiras - grandes educadoras vestidas de hbito que lhe batiam
por ele molhar a cama. Foi a seguir a uma dessas tareias que ele nunca poderia esquecer ("Ela acordou-me.
Trazia na mo uma lanterna elctrica e bateu-me com ela repetidas vezes. Finalmente acabou por quebr-la e
continuou a bater-me s escuras".) Nesta altura surgiu o pssaro, enquanto ele dormia, "mais alto do que Jesus,
amarelo como um
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girassol", qual anjo-guerreiro que viesse para cegar as freiras com o seu bico, comer-lhes os olhos, mat-las a todas enquanto "pediam misericrdia", e depois o 
erguia a ele nos ares, o envolvia nas asas e o conduzia "ao Paraso".
 medida que os anos iam passando, os tormentos de que o pssaro vinha livr-lo variavam: as freiras eram substitudas por diversas pessoas: outras crianas mais 
velhas, o pai, uma namorada infiel, um sargento que conhecera no exrcito... porm o papagaio era sempre o mesmo, uma ave vingadora. Desta forma, a cobra que vinha 
para o devorar nunca o conseguia, mas era ela prpria devorada. E em seguida vinha aquela maravilhosa ascenso! Uma ascenso para um paraso que, em certas ocasies, 
no passava de uma "sensao", um sentimento de fora, de superioridade invencvel, mas que de outras vezes se traduzia por um "determinado lugar. Tal como no cinema.
Talvez fosse de l que eu me lembrasse daquilo. De contrrio onde poderia eu ter visto um jardim daqueles? Com escadas de mrmore, fontes, e l ao fundo, quando 
a gente se debruava na balaustrada, avistava-se o oceano. Uma maravilha! Tal como em Carmel, na Califrnia. O melhor de tudo, no entanto, era uma mesa muito comprida. 
A comida era tanta que no se pode imaginar.
Ostras, perus, cachorros quentes, milhares de taas de salada de fruta. E calculem, tudo aquilo de graa! Quero dizer que no se devia ter medo de lhe tocar. Eu 
podia comer tudo o que quisesse sem gastar um real. Era isso o que me fazia acreditar que estava no paraso!" Dick respondeu:
        Eu c sou um ser normal. Quando sonho  sempre com garotas louras. A propsito, j ouviste falar no pesadelo da cabra'
L vinha o Dick com as suas anedotas obscenas a propsito de tudo. Mas contava-as bem, e Perry, muito embora fosse um bocado puritano, no pde deixar de rir, como 
sempre.
Ao falar da sua amizade com Nancy Clutter, Susan Kidwell afirmou:
        Ns ramos como duas irms, pelo menos era assim que eu sentia em relao a ela: uma verdadeira irm. Sentia-me incapaz de ir s aulas, pelo menos naqueles 
dias mais chegados. Faltei at ao dia do enterro. O Bobby Rupp fez o mesmo. Nos primeiros momentos estivemos sempre juntos. Ele  um esplndido rapaz, tem um corao 
de ouro e nunca lhe acontecera uma coisa assim to horrvel, perder aquela que amava. E ainda por cima ter de se sujeitar  prova do detector de mentiras. No quero 
dizer que ele
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se revoltasse com isso: compreendia que a Polcia tinha de fazer a sua obrigao. Eu, por mim, j sofri alguns
desgostos, mas ele no. Para ele foi uma revelao descobrir que a vida no  apenas uma espcie de desafio
de basquetebol prolongado. A maior parte do tempo passvamo-lo a vaguear no velho Ford, na auto-estrada,
para baixo e para cima, amos at ao aeroporto, ou ento entrvamos no Cree-Mee - e um parque automvel -,
e sentavamo-nos a ouvir o rdio e mandvamos vir uma Coca-Cola. Tnhamos sempre a telefonia ligada, no
havia nada para dizermos um ao outro. De vez em quando o Bobby  que falava, para dizer quanto amara
Nancy e que nunca mais se interessaria por outra rapariga. Bem, eu tenho a certeza de que Nancy no quereria
uma coisa dessas e tratei de lho dizer. Recordo-me... creio que foi na segunda-feira - fomos at ao rio.
Parmos sobre a ponte. Dali v-se a casa, a casa dos Clutters. E parte da quinta, o pomar de Mr. Clutter e os
campos de trigo a perder de vista. Num dos prados ardia uma fogueira; estavam a queimar as coisas l de casa.
Para onde quer que se olhasse havia sempre algo que nos trazia recordaes. Andavam homens com paus e
redes a pescar nas margens do rio. Mas no era peixe o que eles procuravam, Bobby declarou que andavam a
ver se encontravam as armas. A faca ou a carabina. "A Nancy gostava muito do rio. Nas noites de Vero
costumvamos montar as duas na Babe, aquela gua baia, velha e gorda, sabe? amos at  parte mais baixa
enquanto ns tocvamos flauta e cantvamos. Acabvamos por ficar com frio. Meu Deus, passo a vida a
perguntar o que vir a ser dela, da BaBe? Houve uma senhora em Garden City que quis o co do Kenyon.
Ficou com o Tcddy, Ele fugiu e voltou para Holcomb, mas ela veio c busc-lo outra vez. Eu tenho comigo o
gato da Nancy, o Evinrude. Mas a Babe... Calculo que a vo vender, A Nancy, se soubesse, ficaria desolada.
Ou at furiosa! Outro dia, na vspera do enterro, eu e o Bobby estivemos sentados na linha a ver passar os
comboios. Era uma estupidez, parecamos carneiros no meio de uma tempestade de neve. At que, de repente,
Bobby acordou e disse-me: "Temos de ir ver a Nancy. Temos de ir fazer-lhe companhia." por isso dirigimonos
a Garden City e fomos at  Casa Morturia Phillip, que fica na rua principal. Parece-me que o irmo mais
novo, do Bobby, ia connosco. Sim, tenho a certeza, fomos busc-lo  sada do colgio. E lembro-me de ele ter
dito que no haveria aulas no dia seguinte, para que todas as crianas de Holcomb pudessem assistir ao
enterro. E foi-nos contado o que os outros meninos pensavam. Disse estarem todos convencidos de que se
tratava de um "assassino a soldo". EM no quis acreditar. So tudo ditos e mexericos e a Nancy aborrecia tudo
isso.
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Seja como for no me interessa muito saber quem o fez. De certo modo acho que a minha amiga desapareceu.
O facto de se saber quem a matou no lhe restitui a vida. Que importa o resto? "No nos deixaram entrar. Na casa morturia, quero eu dizer. Declararam que ningum 
podia ver "aquela famlia". A no ser os parentes. Mas o Bobby insistiu e finalmente o encarregado ele conhecia o Bobby e provavelmente teve pena dele - disse que 
sim senhor, se no fizssemos barulho, podamos entrar. Depois arrependi-me. "
Os quatro caixes, que enchiam por completo a pequena sala coberta de flores, iriam ser fechados durante os
ofcios fnebres, pois, apesar de todos os cuidados que houvera com a aparncia das vtimas, o resultado no
era nada satisfatrio. Nancy envergava o seu vestido de veludo cor de cereja, o irmo uma camisa escocesa; os
pais vestiam fatos mais discretos: Mr. Clutter, de flanela azul-escura, e a mulher, um de crepe da mesma cor;
e..., provavelmente era isto que tornava a cena to macabra, a cabea de cada um encontrava-se por completo
envolta em algodo em rama, lembrava um casulo duas vezes maior do que um balo vulgar. O algodo fora
embebido em qualquer substncia gomosa e por isso brilhava como a falsa neve das rvores de Natal.
Susan saiu imediatamente.
        Fui l para fora esperar no automvel - recorda ela. - Do outro lado da rua andava um homem a varrer as
folhas secas. Fiquei-me a olhar para ele porque no queria fechar os olhos. Penso que se o fizesse teria
desmaiado. Por isso continuei a v-lo varrer as folhas e depois queim-las. Olhava-o sem ver. S tinha diante
dos olhos aquele vestido. Conhecia-o to bem. Fora eu quem a ajudara a escolher o tecido. Ela  que o
desenhara e cosera. Recordo-me do seu entusiasmo a primeira vez que o vestiu. Foi numa festa. No me saa
da ideia o vestido de veludo vermelho da Nancy. E ela com ele, a danar...
O jornal Star, de Kansas City, publicou um extenso relato do enterro dos Clutter, porm s dali a dois dias 
que Perry, na cama de um quarto de hotel, conseguiu l-lo. Mesmo assim limitou-se a passar-lhe a vista por
alto, saltando alguns pargrafos: "Mil pessoas, a maior multido que at ali tinha acorrido  Igreja Metodista
nos cinco anos da sua existncia... Algumas colegas de Nancy, do Colgio de Holcomb, derramaram lgrimas
quando o reverendo Leonard Cowan disse: "Deus d-nos a coragem, o amor e a esperana, mesmo enquanto
andamos a percorrer este vale de lgrimas. Tenho a certeza de que Ele os no abandonou 95
nos seus ltimos momentos. Jesus nunca nos prometeu que no sofreramos dores e desgostos, mas prometeu
estar connosco para nos ajudar a suport-los, ." Naquele dia excepcionalmente tpido, cerca de seiscentas
pessoas dirigiram-se ao cemitrio de Valley Viwo, que fica ao norte da cidade. Todos acompanharam as
oraes fnebres. As suas vozes surdas enchiam o cemitrio.* Mil pessoas! Perry estava impressionado. Fazia clculos de quanto teria custado o enterro. O dinheiro, 
para ele, era uma grande preocupao. No to importante como tinha sido de manh. Aquele dia comeara para eles sem que dispusessem de dinheiro "para mandar cantar 
um cego". Mas de ento para c a situao melhorara; graas a Dick, ambos possuam agora "um bom p-de-meia", o suficiente para irem at ao Mxico.
O Dick. Um tipo hbil, que no fazia barulho. Era preciso ter cuidado com ele. Santo Deus, parecia incrvel
como "enrolava um sujeito". Como aquele caixeiro na loja de fatos, em Kansas City, no Missouri, o primeiro
stio onde Dick decidira "operar". Quanto a Perry, nunca tentou "passar um cheque". Sentia-se nervoso, mas
Dick dissera-lhe:
        S quero que estejas ao p de mim. No te rias nem te admires com qualquer coisa que eu diga ou faa. Isto
tem de ser de improviso.
Dick parecia ter o paleio adequado. Entrou por ali dentro com desembarao e apresentou vivamente Perry ao
caixeiro como sendo "um amigo meu que se vai casar". E prosseguiu: Eu sou o padrinho. Ando a ver se o ajudo a escolher as roupas. Ah, ah! Aquilo a que vulgarmente 
se chama o enxoval. Ah, ah!
O caixeiro "engoliu tudo" e no tardou que Perry, despojado das calas de cotim, estivesse a provar um fato
escuro que o caixeiro considerava "ideal para uma cerimnia ntima". Depois de comentar as propores
estranhas do corpo do cliente, um tronco desmedidamente grande para as pernas curtas e finas, acrescentou:
        Receio bem que no haja aqui nada que lhe sirva sem ser preciso adaptar.
Dick exclamou que no fazia diferena, havia muito tempo, o casamento era s "dali a oito dias! Resolvido aquele assunto, escolheram depois uma srie de calas e 
casacos vistosos, considerados prprios, na opinio de Dick, para uma lua-de-mel na Florida.
        Conhece den Rock? - perguntou ele ao caixeiro. - Em Miam1 Beach? Tem l quartos marcados. Foi o
presente da famlia,
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duas semanas a quarenta dlares por dia! Que me diz a isto? Um feiarro desengonado como ele tem a sorte
que se v! Ao passo que tipos escorreitos e bem parecidos como eu e voc...
O caixeiro apresentou a conta. Dick procurou a carteira no bolso das calas, franziu o sobrolho, deu um estalo
com os dedos e exclamou:
        Oh, diabo! Esqueci-me da carteira!
O companheiro achou aquela parte to mal feita que nem "uma criancinha de colo" se deixaria iludir por ela.
No entanto no foi essa a opinio do empregado, pelos vistos, pois apressou-se logo a ir buscar um cheque em
branco. E quando Dick escreveu nele oitenta dlares, quantia esta superior  importncia das compras, trouxe
imediatamente o troco em notas.
L fora Dick observou:
        Com que ento vais-te casar para a semana? Nesse caso precisas de uma aliana.
Dali a momentos, sentados no velho Chevrolet de Dick, paravam em frente de uma ourivesaria chamada Best
Jewelry. Depois de haverem comprado, por cheque, um anel de pedido de casamento com um diamante, e uma
aliana larga de ouro, dirigiram-se a uma casa de penhores para empenharem ambas as jias. Perry separou-se
delas com desgosto. Estava j quase a acreditar naquela noiva inventada, muito embora na sua imaginao, ao
contrrio da de Dick, ela no fosse nem rica nem bonita, mas sim bem arranjada, com boas maneiras e
provavelmente com um "curso universitrio" ou pelo menos do tipo "bastante intelectual" - aquela espcie de
rapariga com que sempre sonhara mas que nunca conhecera, salvo essa tal Cookie, a enfermeira que o tratara
quando estivera hospitalizado em consequncia do acidente de mota.
Uma rapariga formidvel, a Cookie, que o estimava, tinha pena dele, o acarinhava, fazia que ele lesse "livros
srios", tais como Gone with th e Wmd e This Is My Beloved. Tiveram relaes sexuais, de natureza estranha e
fortuita, haviam falado de amor e de casamento, mas no fim, depois de curadas as leses, ele despedira-se,
oferecendo-lhe,  laia de explicao, um poema que afirmava ter escrito: Existe uma raa, de homens, que se no adaptam
Nem podem estar quietos:
por isso rebentam todas as amarras
E vo correr mundo.
Cultivam os campos e dominam as cheias,
Trepam ao alto das montanhas;
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Mas trazem consigo a sina de um sangue vagabundo Que os no deixa parar.
Se caminhassem em frente iriam muito longe,
pois so fortes, valentes e leais;
Mas fartam-se logo daquilo que tm;
Querem sempre mais.
Nunca mais a vira nem tivera notcias dela, no entanto, volvidos alguns anos, mandou tatuar o seu nome num
brao e, quando Dick lhe perguntou quem era a "Cookie", ele respondeu:
        Ningum. Uma rapariga com quem estive para casar. (Invejava Dick por haver sido casado - por duas vezes -
e ter
trs filhos. Uma mulher e filhos eram experincias que "um homem devia possuir", mesmo quando, como no
caso de Dick, "o no tivessem feito feliz nem lhe houvessem trazido qualquer benefcio".) Empenharam os anis por cento e cinquenta dlares. Entraram noutra ourivesaria, 
o Goldman, onde conseguiram obter um relgio de ouro para homem. Na loja a seguir, um armazm de artigos fotogrficos Elko, "compraram" uma complicada mquina de 
filmar.
        Estas mquinas so um esplndido investimento - declarou Dick a Perry. - No h nada mais fcil de pr no
prego ou vender. Mquinas fotogrficas e aparelhos de televiso.
Sendo assim, resolveram arranjar alguns destes e, tendo-o conseguido, assaltaram ainda vrios armazns de
vesturio - o Sheperd & Foster, o Rothschild e o Shopper's Paradise. Ao cair da noite, estavam as lojas para
fechar, achavam-se com os bolsos atulhados de dinheiro o carro carregado de mercadoria vendvel ou fcil de
empenhar. Ao contemplarem a reserva de camisas de homem, de isqueiros, de mquinas caras, de botes de
punhos baratos, Perry sentia-se eufrico - em breve iriam para o Mxico, viver "uma verdadeira vida", com
novas oportunidades. Dick, porm, parecia deprimido. Encolhia os ombros ao ouvir os elogios de Perry.
"Estou a falar a srio, Dick. Tu foste formidvel. At eu estava quase a acreditar-te, a maioria das vezes!" E
Perry sentia-se intrigado; no compreendia por que motivo Dick, habitualmente to vaidoso, agora que tinha
razo para o estar, se mostrava subitamente triste e cado. E disse-lhe:
        O que tu precisas  de beber qualquer coisa.
Pararam num bar. Dick bebeu trs cocktails. No fim do terceiro, inquiriu abruptamente
        Que diria a isto o meu pai? Penso que... Oh, meu Deus. Ele  um tipo to bom. E a minha me... bem, tu
viste-a. Que diriam
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eles? Eu, por mim, vou para o Mxico, ou sabe-se l para onde. Mas eles estaro aqui quando todos estes
cheques comearem a ser protestados. Eu conheo o meu pai. Vai querer pag-los do primeiro ao ltimo. Tal
como da outra vez. E no pode. Est velho e doente e no tem um centavo.
        Compreendo-te perfeitamente - respondeu Perry, pensativo. Sem ser amvel, era sentimental e a afeio de
Dick pelos pais, as preocupaes que sentia a seu respeito, comoviam-no de verdade. - Mas que diabo, Dick -
observou - Ns podemos pagar estes cheques. Uma vez no Mxico, desde que estejamos a instalados,
podemos ganhar dinheiro. Quanto quisermos.
        Como?
        Como? - Que quereria Dick significar com aquilo? A pergunta intrigou Perry. Afinal eles tinham discutido
juntos uma poro de hipteses, qual delas a mais tentadora. Pesquisa de ouro, caa ao tesouro debaixo do
mar, eis apenas dois dos projectos que Perry propusera com ardor. E havia ainda outros. Por exemplo, o barco.
Tinham conversado muitas vezes acerca de um barco para pesca em profundidade que comprariam e que eles
prprios manejariam para alugar durante as frias - muito embora nenhum deles tivesse sequer tripulado
alguma vez uma canoa ou pescado um simples barbo  linha. Podiam tambm guiar carros roubados, fazendoos
passar as fronteiras com a Amrica do Sul. ("Ganhavam-se 500 dlares por viagem", segundo Perri lera
algures.) Mas, de todas as respostas que poderia dar, ele escolheu recordar a Dick a fortuna que os esperava
nas ilhas dos Cocos, numa certa zona da Costa Rica:
        Isto no so fantasias, Dick.  autntico. Tenho aqui um mapa. Sei a histria toda. O tesouro est l
enterrado desde 1812
        um galeo peruano, carregado de jias. Sessenta milhes de dlares,  quanto dizem que ele vale. Ainda que
o no consigamos encontrar todo, ao menos uma parte... Vais nisso, Dick? At ali, Dick sempre o encorajara, sempre escutara atentamente a conversa dele acerca de 
mapas, as suas histrias de tesouros, mas desta vez - nunca pensara nisso antes - perguntava a si prprio se Dick no teria andado sempre a fingir, a chuchar com 
ele.
Este pensamento, doloroso ao mximo, dissipou-se num instante, pois Dick, com uma piscadela de olho e uma
cotovelada a brincar, respondeu:
        pois claro, meu velho! Ento no havia de ir? Contigo vou at ao fim do mundo! 99
Eram trs da manh quando o telefone tocou de novo. No que a hora tivesse a mnima importncia . Al
Dewey estava bem acordado, assim como a mulher e os dois filhos, o Paul de nove anos e o Alvin Adams
Dewey Jr. De doze. Quem poderia dormir naquela casa - uma casinha modesta, de um s andar, onde o
telefone tocava a todo o momento? Enquanto saltava da cama, Dewey prometeu  mulher:
        Desta vez vou deix-lo desligado.
Mas no era promessa que ele fosse capaz de cumprir.  certo que grande parte das chamadas partiam de
jornalistas  cata de notcias ou ento de pseudo-humoristas ou tericos. (" o Al? Escuta, p. J descobri
tudo. Trata-se de um assassnio seguido de suicdio. Sei, por acaso, que o Herb estava nas lonas, financeiramente falando. Ento que faz ele? Preenche aquela importante 
aplice de seguros, mata a mulher e os filhos, e por fim suicida-se com uma bomba. Uma granada cheiade cartuchos de caa"), ou pessoas annimas, mal-intencionadas: 
("Conhece os Fulanos? Estrangeiros... no trabalham... do festas... oferecem cocktails... Donde lhes vem o dinheiro? No me admiraria nada que estivessem por detrs 
deste caso dos Clutters!") ou ento senhoras histricas, alarmadas pelos ditos sem ps nem cabea que ferviam  sua roda: ("Alvin, por favor, eu conheo-te desde 
criana! Quero que me digas com toda a franqueza se isto  verdade! Eu estimava e respeitava o senhor Clutter e custa-me a acreditar que esse homem, esse bom cristo, 
andasse atrs das mulheres... ").
Porm a maioria das pessoas que telefonavam eram cidados respeitveis que pretendiam ajudar: ("No sei se
o senhor j se lembrou de entrevistar a amiga de Nancy, a Suse Kidwell? Estive a falar com essa pequena e
ouvi-lhe uma coisa que me impressionou. Afirmou-me que, da ltima vez que falara com a Nancy, esta lhe
confessara que o pai andava realmente muito maldisposto. Isto durava havia trs semanas. Ela pensava que ele
andasse preocupado com qualquer coisa, to preocupado que comeara a fumar!...") Ou eram informadores
deste gnero ou ento pessoas com funes oficiais - funcionrios da justia e xerifes de outras regies do
estado ("Isto pode ter importncia ou pode no ter nenhuma, no entanto um tabemeiro daqui ouviu dois tipos a
discutirem o caso nuns termos que dava a impresso de estarem bastante dentro do assunto... "). E, muito
embora nenhuma destas conversas tivesse, at  data, feito mais do que dar trabalho escusado aos investigadores, era sempre possvel que a seguinte, segundo dizia 
Dewey, "viesse fazer luz sobre o caso".
100
Ao responder a esta ltima chamada. Dewev ouviu imediatamente a seguinte frase:
        Desejo confessar tudo.
        Diga-me com quem estou a falar, por favor?
O seu interlocutor, que era um homem, repetiu a afirmao inicial, acrescentando:
        Fui eu. Matei-os a todos.
        Est bem - retorquiu Dewey. - Faa favor de me dizer o seu nome e endereo...
        Oh, isso no - replicou o outro com a voz pastosa de bbeda indignao. - No vou fazer isso sem mais nem
menos. Primeiro quero receber a recompensa. Mande-a para c e depois lhe direi quem sou. No transijo.
Dewey voltou para a cama:
        No era nada, minha querida - explicou. - Nada de importante. Mais um bbedo.
        Que queria ele?
        Confessar o crime. Desde que lhe mandssemos antes a recompensa. - (Um jornal do Kansas, o Neivs, de
Hutchin"on, oferecera mil dlares em troca de qualquer informao capaz de conduzir  descoberta do
criminoso.)
        Alvin, vais acender outro cigarro! Na verdade, Alvin, no poderias ao menos tentar dormir? Ele sentia-se demasiado contrado para poder dormir, ainda que 
o telefone se calasse; demasiado preocupado e com um sentimento de frustrao. Nenhum daqueles indcios o conduzira fosse onde fosse, a no ser a um beco sem sada. 
Bobby Rupp? A mquina detectora de mentiras eliminara Bobby. E Mr. Smith, o lavrador que sabia dar ns idnticos queles usados pelo assassino - tambm ele fora 
posto de parte, por se haver provado que, na noite do crime, "estivera ausente em Oklahoma". Restavam pois os Johns, pai e filho, mas tambm esses haviam apresentado 
alibis fceis de comprovar.
        Desta forma ficmos reduzidos a um nmero redondo: zero! - comentara Harold Nye.
At a busca da sepultura do gato de Nancy talhara.
No entanto haviam surgido um ou dois pontos interessantes. Primeiro, ao dar volta aos fatos de Nancy, a tia
desta, Mrs. Elaine Selsor, encontrou um relgio de ouro escondido dentro da biqueira de um sapato. Segundo,
Mrs. Helm, acompanhada por um agente do F. B. I, explorara todos os compartimentos da casa em busca de
qualquer coisa fora do lugar ou de alguma falta, e entrou no quarto de Kenyon. Mrs. Helm olhou para tudo e
tornou a olhar em volta, de lbios apertados, tocando nisto e naquilo: 101
a velha luva de beisebol de Kenyon, as suas botas de trabalho enlameadas, os culos tristemente abandonados.
E durante todo o tempo ia murmurando:
        Falta aqui qualquer coisa, tenho a certeza absoluta, no h dvida nenhuma, mas no sei o que . - E de
repente descobriu'
        Onde est o rdio? O rdio pequeno do Kenyon? Estas duas descobertas juntas levaram Dewey a considerar de novo a possibilidade do "roubo puro e simples" 
como mbil. Certamente que o relgio no fora cair por acaso dentro do sapato de Nancy! Na cama, s escuras, ela devia ter ouvido rudos, passos leves, talvez vozes, 
que a levaram a supor haver ladres dentro de casa, e em vista disso devia ter corrido a esconder o relgio, que era uma prenda do pai e que ela muito estimava. 
Quanto ao rdio, um modelo porttil, cinzento, marca Zenith, no havia dvida de que fora levado.
Mesmo assim, Dewey no podia admitir que uma famlia inteira tivesse sido assassinada por um valor to
mesquinho: "mera dzia de dlares e um rdio". A aceitao deste facto desmentia a ideia que ele fazia do
criminoso, ou melhor, dos criminosos. Ele e os seus colaboradores haviam optado pelo plural. A hbil
execuo dos crimes provava bem que, pelo menos, um dos assassinos, calmo e muito esperto, era - no podia
deixar de ser - uma criatura demasiado inteligente para ter levado a efeito semelhante proeza sem um motivo
bem determinado. Nesta altura Dewey descobriu ainda uma poro de pormenores que vieram reforar a sua
convico de que, pelo menos, um dos assassinos se havia comovido com a sorte das vtimas e sentira por elas,
embora aniquilando-as, uma certa dose de estranha ternura. De contrrio, como explicar a caixa do colcho?
Este caso da caixa do colcho era uma das coisas que mais intrigava Dewey. Porque teriam os assassinos tido
o incmodo de a ir buscar ao fundo da cave, colocando-a em frente da fornalha, a no ser com a inteno de
dar um certo conforto a M r. Clutter, de lhe fornecer uma cama menos dura do que o cimento, enquanto
esperava que lhe cortassem o pescoo com a faca? E, ao estudar as fotografias daquela cena de morte,
descobrira outros pormenores que pareciam confirmar esta sua teoria de um assassino sujeito de quando em
quando a certos impulsos emocionais.
"- Ou ento... - no conseguia encontrar a palavra desejada um tipo complicado. Terno. Haja em vista as
cobertas das camas. Que espcie de pessoa  capaz de amarrar duas mulheres, como ele fizera a Bonnie e a
Nancy, e depois puxar para cima a roupa, ental-la bem, como quem lhes d as boas-noites com desejos de
belos sonhos! E a almofada debaixo da cabea de Kenyon.
102
A princpio supus que ele a tinha colocado ali para tornar o alvo mais fcil de atingir. Agora penso: No, ele
fez issso por motivo idntico ao da caixa do colcho: a fim de dar mais conforto  vtima." porm as especulaes deste gnero, muito embora absorvessem Dewey, no 
o animavam nem lhe davam a sensao de ter "descoberto qualquer coisa". Raramente se conseguia descobrir um caso com o auxlio de "teorias fantasistas"; ele acreditava 
apenas em factos "nus e crus". A quantidade de factos que seria preciso descobrir e seleccionar, os planos para o conseguir, tudo isso prometia um trabalho exaustivo, 
pois significava seguir a pista e "controlar" centenas de pessoas, entre estas os antigos trabalhadores de River Valley, amigos da famlia, todo e qualquer indivduo 
que houvesse mantido de perto ou de longe relaes de negcios com Mr. Clutter - enfim, seria como que marcar passo na investigao do passado. Pois, segundo Dewey 
afirmara aos seus homens:
        Teremos de investigar at acabarmos por conhecer os Clutter to bem ou melhor do que eles se conheciam a
si prprios. At podermos encontrar uma relao entre o que sucedeu na manh de domingo passado e um
facto qualquer ocorrido talvez, h cinco anos ou mais. Descobrir uma ligao.  o que temos a fazer, d l por
onde der!
A mulher de Dewey passou pelo sono mas acordou ao senti-lo saltar da cama para atender mais uma vez o
telefone. Ouviu tambm, no quarto onde dormiam os filhos, os soluos de um dos rapazinhos que chorava.
"Seria o Paul?" Ele no era rabugento nem choro, nunca! Estava sempre entretido a cavar tneis no quintal
ou ento a praticar para vir a ser "campeo de corridas do condado de Finney". porm, nesse dia ao almoo
desatara em soluos. A me no precisara de lhe perguntar a razo; sabia que, muito embora ele compreendesse vagamente o motivo de toda aquela confuso  sua volta, 
sentia-se inseguro ante as enervantes chamadas telefnicas, os estranhos que entravam em casa, os olhos fatigados e cheios de preocupao do pai.
A me levantou-se para o ir consolar. O irmo, mais velho trs anos, deu tambm a sua ajuda:
        Est calado, Paul. No te apoquentes, que eu amanh ensino-te a jogar opoker.
Dewey estava na cozinha: ao procur-lo, Mane encontrou-o  espera que o caf acabasse de coar, com as
fotografias da cena do crime espalhadas na sua frente sobre a mesa: manchas negras a macularem o colorido
do plstico com desenhos de frutos. (Ele quisera um dia que ela visse as fotografias mas ela recusara, dizendo:
103
(Quero recordar-me da Bonnie e de todos eles tal como eram") O marido alvitrou:
        No seria mau os rapazes irem estar uns tempos com a minha me.
A me dele, uma senhora viva, habitava perto dali, numa casa que ela considerava demasiado grande e
silenciosa; apreciava muito a companhia dos netos.
        S por uns dias, at... Bem, at daqui a algum tempo.
Alvin, achas que voltaremos a ter uma vida normal? Inquiriu Mrs. Dewey.
A vida normal deles era esta: trabalhavam ambos, Mrs. Dewey como secretria num escritrio, e dividiam
entre os dois os trabalhos domsticos, cozinhando e lavando a loua  vez. ("Quando o Alvin era xerife, sei
que alguns dos amigos costumavam meter-se com ele de brincadeira. Dizendo: Olhem, l vem o xerife Dewey!
 um teso, sabe manejar um revlver de dez tiros! Mas assim que chega a casa, larga o revlver e pe o
avental!") Nessa altura andavam eles a economizar para poderem construir uma casa numa quinta que Dewey
comprara em 1951 - duzentos e quarenta hectares, umas milhas apenas ao norte de Garden City. Quando fazia
bom tempo, especialmente na altura dos trigais estarem maduros, ele gostava de ir at l treinar a pontaria
atirava aos corvos, a latas de conserva - ou ento, em pensamento, percorria a casa que havia de possuir um
dia, o jardim que estava ainda por plantar, e via as rvores ainda por nascer, Tinha a certeza absoluta de que
um dia o seu osis de lamos e carvalhos se havia de erguer no meio daquela plancie sem sombras: "Um dia,
se Deus quiser!..."
Esta crena em Deus e os rituais que lhe estavam ligados, a ida  igreja aos domingos, a orao antes das
refeies, bem como ao deitar, faziam parte integrante, da existncia de Dewey.
        No compreendo como h gente que se senta a comer sem pedir a Deus que lhe abenoe a comida -
declarara, uma vez, a Mrs. Dewey. - As vezes, quando chego a casa... bem, venho cansada. Mas encontro
sempre caf feito sobre o fogo e at um bife no frigorfico. Os rapazes acendem o lume para eu fazer o bife e
ficamos a conversar, contando uns aos outros o que foi o nosso dia. E quando chega a hora do jantar reconheo
que temos razes para nos sentirmos felizes e agradecidos. Por isso digo: "Obrigada, Senhor." E no fao isto
por obrigao, mas porque o sinto. Neste momento Mrs. Dewey repetiu: - Diz-me, Alvin. Achas que voltaremos a ter uma vida normal? Ele ia para responder, mas o telefone 
interrompeu-o.
104
O velho Chevrolet deixou Kansas City a 21 de Novembro, num sbado  noite. A bagagem ia atada com correias e cordas ao porta-bagagem do tejadilho; a mala estava 
to cheiaque no se podia fechar: l dentro, no banco traseiro levavam dois aparelhos de televiso, um em cima do outro. Era uma viagem incmoda para os dois ocupantes 
do carro, Dick ao volante e Perry a seu lado, segurando ao colo a guitarra Gibson, o seu bem mais precioso. Quanto aos outros pertences de Perry - uma mala de carto, 
um rdio porttil marca Zenith de cor cinzenta, um bido de um galo contendo cerveja (receava no ter possibilidades de comprar no Mxico a sua bebida preferida), 
e duas enormes caixas contendo livros, manuscritos, recordaes queridas (o Dick pintara o caneco! Praguejara, dera pontaps nas caixas, chamando-lhes "toneladas 
de porcarias!") - tudo isto seguia no interior do carro.
Perto da meia-noite atravessaram a fronteira. Perry, satisfeito por estar fora do Kansas, descontraiu-se finalmente. Agora era certo, iam a caminho. A caminho da 
sua aventura, para nunca mais voltarem. Sem saudades, pelo menos no que lhe dizia respeito, pois nada deixava atrs de si, nem ningum que se interessasse pelo seu 
desaparecimento. J Dick no podia dizer o mesmo.
Esse tinha algum a quem dizia amar: trs filhos, a me, o pai, um irmo - pessoas s quais ele no se atrevera a confiar os seus planos, de quem se no despedira, 
muito embora no contasse voltar a v-los. Nunca mais na vida.
"CASAMENTO ELEGANTE, REALIZADO NO SBADO", etc... Este cabealho, publicado na pgina mundana do Telegram, de Garden City, a 23 de Novembro, surpreendeu muitos dos 
leitores.
Pelos vistos, Beverly, a segunda filha de Mr. Clutter, casara com Mr. Vere Edward English, jovem estudante de biologia, de quem h muito estava noiva. Miss Clutter 
ia de branco e o casamento, em grande estado ("Mrs. Leonard Cowan fora solista e Mrs. Howard Blanchard organista"), tinha sido "celebrado na Primeira Igreja Metodista", 
a mesma em que, trs dias antes, a noiva assistira ao enterro dos pais, do irmo e da irm mais nova. No entanto, segundo o relato do Telegram: "Vere e Beverly haviam 
combinado casar-se pelo Natal. Os convites estavam j impressos e o pai marcara vez na igreja para essa data. Em face da inesperada tragdia e da presena dos parentes 
vindos de pontos distantes, o jovem par resolveu casar-se no sbado." Depois do casamento, a famlia Clutter dispersou. Na segunda-feira, 105
no dia em que o ltimo abandonava Garden City, o Telegram publicava na primeira pgina uma carta escrita
por Mr. Howard Fox, de Oregon, Ilinis, irmo de Bonnie Clutter. A carta depois de exprimir a sua gratido s
pessoas da cidade por terem aberto as suas ""portas e os seus coraes"  famlia enlutada, constitua um
apelo: "Existe grande dose de ressentimento nesta comunidade (isto , Garden City)", escrevia Mr. Fox. "Ouvi
mesmo afirmar, mais do que uma vez, que o criminoso, quando fosse apanhado, deveria ser logo enforcado na
primeira rvore. No devemos pensar assim. O mal est feito e o facto de se suprimir mais uma vida nada
modificava. Em vez disso tratemos de perdoar, como  da vontade de Deus. No  bom albergar dio no
corao. O autor deste crime vai achar muito difcil viver com o remorso. S encontrar a paz quando alcanar
o perdo de Deus. Que no sirvamos ns de estorvo a isso. Mas, antes, oremos para que encontre a paz."
O carro estacionava num promontrio onde Perry e Dick haviam parado para comer uma merenda. Era meiodia.
Dick perscrutava o horizonte com um binculo. Tudo montanhas. Os corvos pairavam, descrevendo crculos no cu branco. Distinguia uma estrada toda em curvas, que 
ia dar a uma aldeiapoeirenta. Era o segundo dia que passavam no Mxico e, at ali, gostara de tudo aquilo, mesmo da comida. (Neste momento estava a devorar uma tortilha 
fria e azeitada.) Haviam atravessado a fronteira em Laredo, no Texas, na manh de 23 de Novembro, e passado a noite num bordel de San Luis de Potos. Encontravam-se 
agora a trezentas milhas ao norte do seu prximo destino, a Cidade do Mxico.
        Sabes o que estou a pensar? - disse Perry. - Acho que devemos ter qualquer anormalidade, ns os dois, para
fazermos aquilo que fizemos.
        Que queres dizer?
        O que fizemos l...
Dick meteu o binculo numa caixa de cabedal, um estojo de luxo marcado com as iniciais H. W. C. Sentia-se
aborrecido, mal-disposto como o raio. Porque diabo no se calaria o Perry? Que diabo, qual seria o interesse
de estar sempre a remexer na mesma coisa? Tornava-se realmente chato! Sobretudo depois de haverem
assentado em que, de um modo geral, no voltariam a falar no assunto. Tratariam de esquecer tudo.
        Quem faz uma coisa destas por certo no  normal - disse Perri.
106
        Deixa me em paz, criana - retorquiu Dick - Eu ca sou um ser normal - E Dick estava convencido do que afirmava. Achava-se to equilibrado e so de esprito 
como qualquer outra pessoa - talvez um pouco mais esperto do que o vulgo, e pronto porm, estava certo de haver qualquer coisa de anormal no Perry Isso, pelo menos 
Na Primavera anterior, quando estavam presos na mesma cela da penitenciria do estado do Kansas, ficara conhecendo a maior parte das excentricidades de Perry. Por 
vezes parecia uma "criancinha", sempre a fazer chichi na cama e a chorar enquanto dormia ("Pap, onde ests tu, t enho-te procurado por toda a parte'") e, muitas 
vezes, Dick tinha-o visto "ficar sentado durante horas a chuchar no dedo e a contemplar aqueles estpidos mapas dos tesouros escondidos" Este era um dos aspectos, 
porque havia outros De certo modo, o maroto do Perry conseguia ser -. esquisito como o diabo" Vejamos, por exemplo, o seu mau gnio Acontecia lhe ter frias "piores 
do que duzentos ndios juntos" I sem ningum saber quando "Era capaz de matar e esfolar uma pessoa, sem se perceber quando nem porqu ", afirmara Dick certa vez 
porque embora l por dentro a sua raiva atingisse os maiores extremos, exteriormente Peiry permanecia um jovem bandido de aspecto frio, olhos serenos e um ar ligeiramente 
sonolento Noutros tempos Dick julgara ainda poder controlar, regular a temperatura desses sbitos ataques de raiva fria que queimavam e gelavam o seu amigo. Enganara 
se e depois de o descobrir sentira-se bastante duvidoso a respeito de Perry, sem saber o que pensar, a no ser que deveria rece-lo e perguntando a si prprio por 
que motivo tal no acontecia.
Perry prosseguia.
        la muito, muito no fundo, nunca pensei ser capaz de o fazer. Uma coisa assim'
        Ento e esse tal preto? - inquiriu Dick. Silncio. Dick percebeu que Perry o fitava Uma semana antes, em Kansas City, Perry comprara um par de culos escuros, 
de fantasia, com vidros di espelho e aros prateados. Dick no gostara deles disse a Perry que tinha vergonha de ser visto na "companhia de uma pessoa que usasse 
aquela porcaria". Na realidade o que o irritava eram aqueles vidros de espelho tornava se muito desagradvel saber os olhos de Perry escondidos atrs da cortina 
daquela superfcie colorida e espelhante.
Mas um preto  diferente - objectou Perry. Este comentrio e a relutncia com que fora proferido levaram Dick a interrogar:
        Ou era peta?! Foi certo tu mat-lo como me afirmaste? 107
        A pergunta era importante, visto que o princpio do seu interesse por Perry, o conhecimento do carcter e
das possibilidades do rapaz, baseava-se na histria que este um dia lhe contara de haver morto  pancada um
homem de cor.
        pois claro que o matei. Mas no passava de um preto. No  a mesma coisa. - Depois acrescentou: - Sabes o
que na verdade me preocupa? A respeito daquilo?  no acreditar que algum possa escapar depois de uma
coisa daquelas. No me parece possvel, depois do que fizemos. Lembras-te que apenas uma pequena
percentagem de pessoas consegue escapar-se. Quero dizer, aquilo que me preocupa ... No consigo tirar da
ideia que vai acontecer qualquer coisa.
Muito embora quando criana tivesse frequentado a igreja, Dick nunca tivera uma verdadeira crena em Deus;
nem as supersties o perturbavam. Ao contrrio de Perry, no estava convencido de que um espelho quebrado
significasse sete anos de infortnio ou que a Lua Nova vista atravs de um vidro desse azar. Contudo, Perry
com as suas intuies subtis, acertara em cheio na nica dvida que restava a Dick. Tambm ele tinha
momentos em que a mesma pergunta lhe girava sem parana no crebro: "Seria possvel... iriam eles, de
verdade, escapar, depois de haverem praticado semelhante crime?" De sbito declarou a Perry:
        Cala-te l com isso!
Depois ligou o motor e fez recuar o carro, saindo do promontrio.  sua frente, sobre a estrada coberta de p,
viu um co que se aproximava correndo ao sol.
Montanhas. Corvos pairando num cu branco.
Quando Perry perguntara a Dick: "Sabes o que estou a pensar?" tinha a certeza absoluta de dar incio a uma
conversa que desagradaria a Dick e que, por esse motivo, ele devia evitar. Concordava com o amigo: porque
haviam de voltar a. Falar no caso? Mas nem sempre conseguia impedir-se de o fazer. Vinham-lhe acessos de
desnimo, momentos em que "se lembrava de coisas"
        uma luz azul a explodir num quarto escuro, os olhos de vidro de um grande urso de pelcia - e a ouvir vozes
que, particularmente ao pronunciarem certas palavras, lhe martelavam o crebro: " Oh, no! Por favor, no,
no! No! No! No faa isso! Pelo amor de Deus no faa isso!" E voltava a ouvir certos rudos: um dlar de
prata a rolar pelo cho, passos de botas numa escada de madeira nua, o som de uma respirao, de um arquejo,
o aspirar ofegante de um homem com a garganta cortada.
108
Quando Perry afirmara "devemos ter algo de anormal", acabava ele de admitir uma coisa que "muito lhe custava a roer". Ao cabo e ao resto, era "doloroso" um homem 
chegar  concluso de que no regulava bem" - sobretudo se essa talha no era culpa nossa, mas antes "uma coisa de nascena. Era s ver a sua famlia! O que lhes 
sucedera a todos? A me, uma bbeda, morrera asfixiada com os prprios vmitos. Dos filhos, dois rapazes e duas raparigas, apenas a mais nova, a Brbara, seguira 
uma vida normal, casara e j tinha filhos. Fem, a outra irm, atirara-se de uma janela abaixo num hotel de So Francisco. Perry teimara sempre em acreditar "que 
ela escorregara", porque gostava muito da Fem. Era "um amor", possua um "temperamento artstico", danava "bestialmente bem" e sabia cantar.
"Se tivesse tido sorte, bonita como era, poderia ter ido longe e sido algum." Era triste imagin-la a subir para cima de um parapeito e a cair de uma altura de 
quinze andares. E havia ainda o Jimmy, o patife do Jinmy, que levara a mulher a suicidar-se, matando-se ele em seguida.
Nisto ouviu Dick declarar:
        No me incluas nesse nmero. Eu c sou normal! No era que aquilo parecia um relincho de cavalo? Mas no interessava, era melhor deixar passar.
        La muito, muito no fundo, nunca pensei que fosse capaz de fazer uma coisa assim. - Mas logo reconheceu o seu erro. Dick no podia deixar de inquirir ento:
        E esse tal preto?
Quando contara a Dick aquela histria era porque desejava alcanar a amizade do companheiro, queria que Dick o "respeitasse", o julgasse "um valente., um "tipo msculo", 
como ele prprio imaginava Dick. Por isso um dia, depois de terem estado ambos a ler e enquanto discutiam um artigo do Reader's Digest intitulado "Que espcie de 
qualidades de detective possui voc?" (Ao esperar num dentista ou numa estao de caminho-de-ferro, tente observar os pormenores significativos nas pessoas que o 
rodeiam. Repare na maneira como andam, por exemplo. Um caminhar rgido pode indicar um carcter recto, uma personalidade indomvel; um andar gingo, falta de vontade") 
e Perry afirmara:
Eu sempre tive qualidades de detective, de contrrio teria j morrido a estas horas. Refiro-me s ocasies em que conhecia que no podia confiar em certas pessoas. 
Isso  moeda corrente. Mas em ti, confio, Dick. Vais ver que  verdade porque vou entregar-me nas tuas mos. Vou contar te uma coisa que nunca contei a ningum. 
Nem mesmo ao Willie-Jay. Vou Falar-te daquela 109
vez que liquidei um tipo. - E Perry percebia,  medida que ia falando, que Dick se estava a interessar pelo
assunto. Escutava com ateno. - Foi aqui h dois anos, em Las Vegas. Eu vivia nessa altura numa velha
penso; outrora fora um bordel. Mas todo o luxo desaparecera. Uma barraca que devia ter sido demolida dez
anos atrs; de qualquer modo eu andava ento na m de baixo. Os quartos mais baratos ficavam no sto e era
ali que vivia, assim como esse tal preto. Chamava-se King e era hspede de passagem. Estvamos s ns l
em cima. Ns e um milho de baratas. O King j no era novo, mas tinha trabalhado nas estradas e feito vida
ao ar livre, por isso era bem constitudo. Usava culos e lia muito. Nunca fechava a porta do quarto. Sempre
que eu por ali passava, via-o, nu em plo, deitado a ler. Estava desempregado e dissera-me que tinha ainda
alguns dlares que economizara do ltimo emprego e que, durante uns tempos, s queria estar deitado a ler, a
abanar-se e a beber cerveja. O que ele lia eram s porcarias - livros de quadradinhos e histrias de cowboys.
Parecia um tipo fixe. As vezes bebamos juntos uma cerveja e houve um dia em que me emprestou dez
dlares. Eu no tinha motivo nenhum para lhe fazer mal. Porm, certa noite, estvamos no sto e fazia tanto
calor que no se podia dormir. Eu ento disse: "Vem da, King, dar uma volta." Eu tinha um carro velho que
desmanchara, modificara e pintara de prateado. Chamava-lhe o Fantasma de Prata. Demos um longo passeio e
internmo-nos no deserto. A fazia fresco. Parmos e bebemos mais umas cervejas. O King saiu do carro e eu
fui atrs dele. Ele no me viu pegar na corrente. Era uma corrente de bicicleta que eu trazia debaixo do
assento. A verdade  que no fazia antecipadamente a menor teno de fazer o que fiz. Bati-lhe na cara e partilhe
os culos. Continuei a bater e no fim no sentia nada. Deixei-o l ficar e nunca mais ouvi falar nele. Talvez
nunca ningum o descobrisse, a no ser os abutres.
Nesta histria havia algo de verdade. Perry conhecera, nas circunstncias atrs mencionadas, um negro
chamado King. Mas, se acaso hoje estava morto, Perry no tinha nada a ver com isso, nunca levantara a mo
para ele. Ignorava-lhe o paradeiro, mas o homem podia ainda hoje estar vivo, hospedado algures, a abanar-se e
a beber cerveja.
        Foi verdade? Mataste-o tal como disseste? - perguntou Dick.
Perry no tinha grande jeito para mentir, pelo menos com volubilidade: no entanto, quando inventava uma
patranha, geralmente mantinha o que dizia.
        pois claro que matei. Mas no passava de um preto. No  a 110
mesma coisa. - por fim disse: - Sabes o que me preocupa, acerca daquilo?  eu no acreditar que algum possa
sair impune de uma coisa assim. - E desconfiava que Dick sentia o mesmo. Porque Dick estava, pelo menos
em parte, obcecado pelas apreenses mstico-morais de Perry. E da o ter exclamado:
        Cala-te l com isso!
O carro rodava j na estrada. Trinta metros adiante um co seguia pela berma. Dick guinou sobre ele. Tratavase
de um cachorro a cair de velho, uma carga de ossos, e o choque, quando o carro lhe bateu, pouco mais
barulho fez do que se se tratasse de um passarinho. Mas Dick ficou satisfeito:
        Ena p! - era sempre isso o que ele exclamava depois de haver esborrachado um co, o que invariavelmente
fazia quando se lhe apresentava o ensejo. - Ena p! Foi mesmo em cheio! Depois do Dia de Aco de Graas, terminou a estao da caa aos faises, porm aquele belo 
Vero de S.
Martinho continuou, com a sua sequncia de dias maravilhosos. O ltimo dos jornalistas de fora, convencido
de que o caso no ia ter soluo, abandonou a cidade de Garden City. Mas este estava longe de se poder
considerar encerrado, para as pessoas do condado de Finney, pelo menos para os frequentadores do centro de
reunio mais popular de Holcomb, o Hartman's Caf.
        Desde que isto comeou temos feito um negcio extraordinrio - confessava Mrs. Hartman, olhando em
volta do seu confortvel domnio, do qual todos os espaos utilizveis estavam ocupados por lavradores,
jornaleiros e vaqueiros que cheiravam a caf e a tabaco e se encontravam sentados, de p ou reclinados por
todos os cantos.
        No passam de um bando de bisbilhoteiros - comentava a prima de Mrs. Hartman, Mrs. Clarc dos Correios,
que por acaso acertava. - Se estivssemos na Primavera e houvesse trabalho  espera eles no se encontrariam
ali. Mas o trigo est recolhido, o Inverno no tarda e eles nada mais tm a fazer do que juntar-se e assustar-se
uns aos outros. Conhecem o Bill Brown, o do Telegram~i Leram o artigo dele, intitulado "Outro Crime?" Diz
l: " tempo de fazer calar as ms-lnguas", porque tambm  um crime andar para a a dizer mentiras. Mas
tambm no se pode esperar outra coisa. Olhemos em volta. So todos umas vboras, uns vermes. Lnguas
danadas. Haver algum que o no seja? Hem? - aposto que no se encontra uma excepo! Surgiu um boato no Hartman's Caf que visava Taylor Jones, um rancheiro cuja 
propriedade confinava com a quinta de
111
River Valiey. Segundo a. Opinio de grande parte da clientela do caf, era Mr. Jones com a sua famlia e no
os Clutters as vtimas designadas pelo assassino.
Isso faz mais sentido afirmava um dos partidrios desse ponto de vista. - O Taylor Jones  mais rico do que
qualquer outro vizinho. Imagine-se que o criminoso era apenas uma pessoa contratada e que s sabia por
informaes a maneira de entrar dentro da casa. Ento, seria faclimo cometer um erro voltar para o lado
oposto da estrada e ir ter  quinta dos Clutters em lugar de  dos Taylors, A "teoria dos Jones" era largamente
repetida, sobretudo aos prprios, uma famlia equilibrada, que se recusava a ter medo.
Um balco, algumas mesas, uma alcova que albergava um grelhador, um frigorfico e um aparelho de rdio,
era tudo quanto constitua o Hartman's Caf.
        Mas os fregueses gostam disto - afirmava a proprietria. Esto acostumados. No querem outra coisa. "Vale
mais do que caminhar sete milhas numa direco ou quinze na outra." Seja como for, a nossa casa  simptica,
e o caf  bom, pelo menos desde que a Mabel veio para c trabalhar"; Mabel era Mrs. Helm.
        Depois da tragdia, eu disse-lhe: "Mabel, agora que ficaste desempregada vem ajudar-me no caf." Ela
cozinha qualquer coisa e d-me uma ajuda no balco. O pior  que toda a gente aqui a massacra com perguntas
acerca da tragdia. A Mabel no  como a minha prima Myrt. Nem como eu.  envergonhada, alm disso nada
sabe de especial, a mais do que as outras pessoas.
Mas ao cabo e ao resto toda a clientela dos Hartmans estava convencida de que Mabel Helm sabia umas coisas
mais do que confessava. E no se enganava. Dewey tivera com ela vrias conversas e intimara-a a guardar
segredo de tudo quanto sabia. Particularmente no devia falar na falta do rdio nem no relgio encontrado na
biqueira do sapato de Nancy. Por isso  que ela afirmava a Mrs. Archibald William Warren-Browne:
        Quem l os jornais sabe mais do que eu. Nunca lhes pego. Baixa, atarracada, com uma pronncia estranhamente erudita, Mrs. Archibald William Warren-Browne 
era uma senhora inglesa que em nada se parecia com os outros frequentadores do caf e que lembrava, naquele meio, um pavo rodeado por um bando de perus. Certo dia, 
a explicar a algum seu conhecido por que motivo ela e o marido haviam abandonado "as suas propriedades de famlia no Norte da Inglaterra", trocando-as por uma herdade 
velha e sem graa no Kansas ocidental, Mrs. Warren-Browne declarara:
        Foram os impostos, minha cara amiga. As contribuies.
112
Enormes! Criminosamente elevadas! Foram elas que nos puseram fora da Inglaterra. Sim senhor, viemos de l deve haver um ano. E no temos saudades nenhumas! Gostamos 
disto aqui. Adorvel! Muito embora seja diferente da vida a que estvamos habituados. A vida que sempre fizemos.
Paris, Roma, Monte Carlo, Londres. As vezes, muito raramente, penso em Londres. No tenho realmente saudades: aquele frenesim, sem se arranjar nunca um txi, e a 
preocupao de andar bem vestida. Saudades, nem por sombras! Gostamos disto. H por a muita gente, conhecendo o nosso passado, que pergunta se no nos sentimos 
um bocado isolados no meio destes campos de trigo.
Onde tencionvamos fixar-nos era propriamente no Oeste. Wyoming, ou Nevada - Ia vraie chose.
Pensvamos que nos seria possvel juntar a uns patacos. Mas, de passagem, parmos para visitar uns amigos em Garden City. Amigos de uns amigos nossos, para dizer 
a verdade! Mas eles no podiam ter sido mais amveis. Insistiram tanto para que nos demorssemos, que pensmos: E porque no? Porque no havemos de alugar uns palmos 
de terra e criar gado? Ou tentar a agricultura. Nesse captulo ainda no tommos uma deciso. Se havemos de criar gado ou cultivar as terras. O doutor Austin perguntou-nos 
se achvamos isto muito silencioso. Verdadeiramente, no. Verdadeiramente nunca ouvi tanto banz. Isto  mais barulhento do que um ataque areo.
Apitos de comboios! Cowtes! Bichos que uivam durante a noite! Um chinfrim horroroso! E depois destes crimes a coisa assusta-me mais. Tudo me assusta! A nossa casa... 
no faz ideia dos estalidos que d! Note que no estou a dizer mal disto! A casa realmente  muito cmoda, tem todo o conforto moderno, etc. Mas range e suspira 
que no  brincadeira. E quando a noite desce e o vento comea a soprar, aquele horrvel vento da plancie, ouvimos os mais estranhos gemidos. Isto , quando se 
est um bocado nervosa, uma pessoa no pode deixar de imaginar coisas... coisas estpidas! Santo Deus! Aquela pobre famlia! No, eu no os conhecia. Vi uma vez 
o Mr. Clutter.
Foi no correio.
Nos princpios de Dezembro, numa s tarde, dois dos mais assduos fregueses do caf anunciaram a sua resoluo de partir, no s de Finney County, mas tambm do 
estado. O primeiro foi um lavrador que trabalhava para Lester MacCoy, conhecido proprietrio e negociante do Kansas ocidental. Declarou ele:
Tive uma conversa com Mr. MacCoy. Fiz-lhe ver como esto as coisas aqui em Holcomb. Uma pessoa no consegue dormir. A minha mulher no dorme nem me deixa dormir 
a 113
mim. Por isso deClarei a Mr. MacCoy que gostava muito disto, mas era melhor ele procurar outro homem. A
gente vai-se embora. Para o Leste do Colorado. Talvez a haja sossego.
A segunda declarao foi feita por Mrs. Hideo Ashida, que parou  porta do caf acompanhada por trs dos
seus filhos de faces coradas. Colocou-os em fila junto ao balco e disse a Mrs. Hartman:
        D ao Bruce um pacote de bolachas. O Bobby quer uma coca-cola. E tu, Bonnie Jean? Bem sei o que te
apoquenta, mas come alguma coisa - a pequena sacudiu a cabea e Mrs. Ashida prosseguiu: - A Bonnie Jean
anda com a neura. No quer ir embora daqui. Por causa da escola, onde tem todas as suas amigas.
        Ento! - inquiriu Mrs. Hartman, sorrindo para Bonnie Jean. - No  caso para estares triste. Mudas de
Holcomb para Garden City, onde h muito mais rapazes...
Bonnie Jean replicou:
        A senhora no percebe. O pai quer levar-nos daqui para fora, para o Nebrasca.
Bess Hartman olhou para a me da pequena, como se esperasse que esta a desmentisse.
         verdade, Bess - retorquiu Mrs. Ashida.
        Tu no sabes o que ests a dizer! - exclamou Mrs. Hartman com uma voz de espanto e indignao, mas
tambm de desespero. Os Ashidas faziam parte da comunidade de Holcomb e toda a gente os apreciava - uma
famlia simptica, corajosa, trabalhadora, bons vizinhos, generosos, muito embora no tivessem muitos meios
para isso.
Mrs. Ashida declarou:
        Andvamos h muito com esta mania. O Hideo pensa que arranjar melhor vida noutra terra.
        E quando pensam ir embora?
        Logo que se venda a quinta. Mas nunca antes do Natal. Por causa do contrato que fizemos com o dentista,
acerca do presente de Natal do Hideo. Eu e as crianas vamos oferecer-lhe trs dentes de ouro.  a nossa
prenda.
Mrs. Hartman suspirou:
        No sei que te diga. A no ser que desejaria que isso no fosse por diante. Deixarem-nos assim!... - Suspirou
de novo. Parece que toda a gente nos quer abandonar. De uma forma ou de outra.
        Cos diabos! Achas que eu vou de vontade? - inquiriu Mrs. Ashida. - por mais que a gente procure nunca
encontraremos terra to boa como esta. Foi a melhor onde vivemos at hoje. Mas o Hideo  que manda, ele  o
homem da casa, e diz que, l
114
no Nebrasca, pode arranjar uma herdade superior  que aqui temos. E sempre te quero dizer uma coisa, Bess. -
E Mrs. Ashida tentava cerrar as sobrancelhas, muito embora o seu rosto redondo no se acomodasse muito
bem a essa expresso. Ns costumvamos discutir acerca desse assunto. At que uma bela noite eu disse:
"Pronto, tu  que mandas, vamos l embora." Depois do que aconteceu ao Herb e a famlia pensei que isto
tudo j no voltava a ser o que era. Pelo menos paramim. Por isso deixei de me opor. L disse, pronto, vamos
l! - Meteu a mo no pacote de bolachas do Bruce: - Meu Deus, parece que nem quero crer! No me sai isto
da ideia! Eu estimava muito o Herb. Sabes que fui eu a ltima pessoa a estar com ele antes de morrer? Humhum!
Eu e as crianas. Tnhamos ido  reunio dos 4-HH em Garden City e ele deu-nos boleia para casa. A
ltima coisa que eu lhe disse foi que no estava a v-lo a ter medo de nada. Fosse qual fosse a situao em que
se visse, ele saberia sempre desembaraar-se. Ficou-se pensativa, a trincar a bolacha, depois bebeu um gole
da coca-cola do Bobby e prosseguiu: - Tem graa! Mas sabes tu, Bess? Aposto que ele no teve medo. Fosse o
que fosse que lhe aconteceu, aposto a minha cabea em como ele, at ao fim, no quis crer. Na. No era
homem para isso.
O sol escaldava. Um pequeno barco balouava-se, preso  ncora, no mar calmo: o Estrelita, tendo a bordo
quatro pessoas Dick, Perry, um jovem mexicano, e Otto, um alemo rico e de meia-idade
        Outra vez, fazes favor - disse Otto.
E Perry, depois de afinar a guitarra, cantou, numa voz doce e velada, uma cano das montanhas Smoky:
Enquanto vivemos neste mundo
h quem diga de ns o pior,
Mas quando estivermos mortos no caixo
Ho de vir pr-nos uma flor na mo;
porque no me ds flores enquanto estou vivo?
Aps uma semana na Cidade do Mxico, Dick e Perry haviam seguido para o sul - Cuernavaca, Taxco,
Acapulco. E foi a, em frente de uma casa de jogo "rasca", que eles conheceram Otto, de pernas peludas e cara
alegre. Dick "deitara-lhe logo o gancho". porm o cavalheiro, que era um advogado de Hamburgo em gozo de
frias, trazia j atrelado "um amigo um jovem
115
natural de Acapulco que se intitulava a si prprio o "Cowboy". Este revelou-se um "tipo s direitas" - afirmou
uma vez Perry, falando do "Cowboy". "Ganancioso como Judas, mas tinha um piado, o diabo do rapaz. O
Dick tambm gostava dele e entendamo-nos s mil maravilhas." O "Cowboy" tratou de arranjar alojamento em casa de um tio para aqueles dois vagabundos tatuados, comeou 
a dar lies de espanhol a Perry e dividiu com eles o lucro daquela liaison com o estrangeiro de Hamburgo, em companhia e  custa do qual bebiam, comiam e pagavam 
a mulheres. O anfitrio parecia dar por bem empregue o seu dinheiro, quanto mais no fosse por causa das piadas de Dick. Alugava todos os dias o Estrellita, um barco 
para pesca no mar alto, e os quatro amigos l embarcavam para percorrerem a costa. O "Cowboy" manejava o barco; Otto desenhava e pescava; Perry iscava os anzis, 
sonhava e cantava, e por vezes pescava tambm; Dick no fazia nada, apenas gemia, queixava-se do balano, e ficava deitado, alheio a tudo, embriagado de sol, como 
um lagarto. Mas Perry dizia-lhe:
        Isto  que  vida. Isto, sim!
Mas ele sabia que aquilo no podia continuar, que estava de facto destinado a acabar em breve. Otto regressaria no dia imediato  Alemanha, Perry e Dick seguiriam 
de automvel de volta  Cidade do Mxico, segundo era desejo de Dick:
        Est tudo muito certo, meu filho - declarara ele quando discutiam o assunto. - Isto  muito bonito, passar a
vida ao sol. Mas a massa acabou-se. E, depois de termos vendido o carro, que  que nos resta? A verdade  que lhes restava muito pouco, pois nesta altura j se haviam 
desfeito de quase todo o material angariado naquele dia das operaes de cheques em Kansas City: a mquina de filmar, os aparelhos de televiso e os botes de punho. 
Haviam vendido igualmente, a um polcia da Cidade do Mxico com quem Dick encetara relaes, o rdio porttil cinzento marca Zenith e um binculo.
O melhor que temos a fazer  voltar para o Mxico, vender o carro e talvez eu consiga arranjar emprego numa
garagem. De qualquer forma  mais acertado ir para l. Teremos assim outras oportunidades. Caramba, estou
certo que ainda poderei tirar mais alguma coisa da Ins! Ins era uma prostituta que se abeirara de Dick nas escadas do Palcio das Belas-Artes na Cidade do Mxico 
(esta visita fazia parte de uma volta turstica realizada a pedido de Perry). A rapariga tinha dezoito anos e Dick prometera casar com ela. Mas fizera igual promessa 
a Mary, uma mulher de cinquenta anos, 116
"viva de um importante banqueiro mexicano". Haviam-se conhecido num bar e, na manh seguinte, ela
pagara-lhe o equivalente a sete dlares.
        Que dizes a isto? Vendemos o calhambeque, arranjamos emprego, poupamos a massa e esperamos os
acontecimentos. Como se Perry no previsse desde j o que ia suceder! Suponhamos que faziam duzentos ou
trezentos dlares no Chevrolet. Dick, segundo o que observara, e neste momento conhecia-o j como s suas
mos, iria imediatamente gastar tudo em vodka. E mulheres.
Enquanto Perry cantava, Otto ia-o desenhando no seu caderno de esboos. Estava razoavelmente parecido e o
artista captara uma expresso rara no modelo - a sua ironia, uma malcia infantil e gaiata, que lembrava o rosto
de um cupido a disparar setas emvenenadas. Estava nu at  cintura. (Perry "tinha vergonha" de despir as
calas, "tinha vergonha" de usar cales de banho, receando que o espectculo das suas, pernas aleijadas
"causasse repugnncia s pessoas". E por isso, a despeito de todos os seus projectos aquticos e todas as
conversas que mantivera acerca de mergulhos, nem uma s vez se metera na agua.) Otto reproduziu um certo
nmero de tatuagens que ornamentavam o peito supermusculoso do rapaz, dos seus braos e das suas mos
calosas mas infantis. Aquele caderno de esboos que Otto estendia a Perry era em parte um presente de
despedida e continha alguns retratos de Dick e tambm alguns "estudos do nu".
Otto fechou o caderno, Perry pousou a guitarra e o "Cowboy" puxou a ncora, ps o motor a trabalhar. Era
tempo de partirem. Estavam a dez milhas de terra e a gua escurecia a olhos vistos.
Perry incitou Dick a que pescasse:
        No voltaremos talvez a ter outra oportunidade - disse ele.
        Oportunidade de qu?
        De pescar um peixe taludo?
        Bolas! Estou outra vez com aquela maldita coisa - observou Dick - Sinto-me enjoado. Dick sofria muitas
vezes de dores de cabea, tipo enxaqueca, "aquela maldita coisa". -Julgava ser causada pelo desastre de
automvel que sofrera em tempos. - Vamos, p. Vamos embora muito devagarinho.
Mas dali a momentos Dick esquecera a dor. Pusera-se de p e gritava de excitao. Otto e o "Cowboy"
gritavam tambm, Perry pescara "um dos taludos". Uma espcie de peixe-cspada enorme, que saltava, se
debatia, mergulhava e se arqueava como um arco-ris, preso  linha, aos saces, a cair e a levantar-se ao ar.
Foi precisa uma hora e grande parte de outra para que os pescadores, 117
estafados e cobertos de suor, conseguissem i-lo para dentro do barco.
Andava um velho fotgrafo a rondar o porto de Acapulco com a sua antiga mquina de madeira e quando o
Estrelita entrou na doca Otto encomendou-lhe seis retratos de Perry junto da sua presa. Do ponto de vista
tcnico, o trabalho do velhote era um desastre, tudo escuro e manchado. Mas no entanto nem por isso deixava
de ser uma fotografia notvel e isso devia-se  expresso de Perry, ao seu ar de triunfo completo, de beatitude
plena, como se finalmente, tal comono sonho, o grande pssaro amarelo o tivesse vindo buscar para o levar ao
Paraso
Certa tarde de Dezembro, Paul Helm estava a limpar as ruas entre os canteiros que haviam possibilitado a
Bonnie Clutter tornar-se scia do Club de jardinagem de Garden City. Era uma tarefa melanclica, pois
recordava-lhe aquele outro dia em que se dedicara ao mesmo trabalho. Nesse dia Kenyon ajudara-o e fora essa
a ltima vez que ele vira Kenyon vivo, bem comoNancy e os outros. As ltimas semanas haviam sido difceis
para Mr. Helm. Sentia-se "adoentado" (pior do que imaginava, pois s lhe restavam quatro meses de vida) e
preocupavam-no certas coisas. Por exemplo, o seu emprego. Calculava que este no durasse muito. Ningum
ainda parecia estar ao corrente, mas ele percebera que "as raparigas", Beverly e Eveanna, tencionavam vender
a propriedade, muito embora, segundo ouvira afirmar a um tipo no caf, "quem  que havia de querer comprar
aquilo, pelo menos enquanto durasse o mistrio". Nem "queria pensar" em ver ali gente estranha, a "amanhar
a nossa terra". Mr. Helm revoltava-se com essa ideia, em ateno a Herb. Isto era uma terra - afirmava ele -
"que devia ser conservada na famlia". Certo dia Herb dissera-lhe: "Espero que haja sempre aqui um Clutter, e tambm um Helm." Santo Deus! Que iria ele fazer se 
vendessem a quinta? Sentia-se demasiado velho para se adaptar a outros lugares.
Apesar disso era obrigado a trabalhar, e desejava faz-lo. No tinha feitio para arrumar as botas e sentar-se ao
canto da lareira. No entanto era uma verdade que a quinta presentemente lhe causava mal-estar: a casa
fechada, a gua de Nancy a pastar tristemente no prado, o cheiro a mas podres debaixo das rvores e a
ausncia de vozes: Kenyon a chamar Nancy para vir ao telefone, Herb a assobiar, ou a exclamar alegremente:
"Bom dia, Paul!" Ele e Herb entendiam-se s "mil maravilhas", nunca haviam trocado uma palavra mais
spera. Por que motivo continuavam os
118
homens do xerife a interrog-lo constantemente? A no ser que o julgassem capaz de estar "a esconder qualquer coisa"!? Talvez ele nunca devesse ter falado nos mexicanos. 
Informara Al Dewey que cerca das quatro da tarde, no sbado, 19 de Novembro, dia do crime, um par de mexicanos, um deles de bigode e outro marcado das bexigas, haviam 
aparecido em River Valley.
Mr. Helm vira-os bater  porta "do escritrio". Herb sara c para fora e estivera a falar com eles no relvado. Dali a coisa de dez minutos, vira-os ir embora, "de 
orelha murcha". Mr. Hehn calculava que deviam ter pedido trabalho e que Herb lhes respondera no ter nenhum para lhes dar.
Infelizmente, muito embora tivesse sido convocado muitas vezes para contar e recontar o que sabia, nunca este incidente lhe ocorrera seno duas semanas depois do 
crime, porque, segundo explicara a Dewey, "s naquele momento lhe viera  ideia. Porm Dewey, bem como alguns dos investigadores, pareciam no dar crdito  histria 
e procediam como se considerassem aquilo uma inveno sua para os despistar. Preferiam acreditar em Bob Johnson, o agente de seguros, que passara toda a tarde de 
sbado em conferncia com Mr. Clutter no escritrio deste e declarava "categoricamente" ter sido ele, das duas at s seis, o nico visitante de Mr. Clutter. Mr. 
Helm mostrava-se igualmente categrico: mexicanos, com bigodes e marcas de bexigas, s quatro horas.
Herb ter-lhes-ia dito que quem falava verdade era ele, Paul Helm, um homem que rezava as suas oraes e ganhava honestamente o seu po. Mas Herb j no existia.
Morrera. E Bonnie tambm. A janela do seu quarto deitava para o jardim e, de vez em quando, sempre que "estava pior", Mr. Helm vira-a passar horas a contemplar o 
jardim. ("Quando eu era rapariguita", confessara ela um dia a uma amiga, "tinha a certeza absoluta de que as rvores e as flores eram como as pessoas e os animais. 
Pensavam coisas e conversavam umas com as outras.
Bastaria que ns consegussemos esvaziar a cabea dos outros sons, que ficssemos quietos e prestssemos muita ateno. Por vezes ainda creio nisso. Mas nunca conseguimos 
fazer um silncio absoluto...")
Ao recordar-se de Bonnie  janela, Mr. Helm ergueu os olhos, como se esperasse v-la ainda ali, um fantasma por detrs dos vidros. Se tal sucedesse, esse facto nunca 
o teria admirado mais do que aquilo que viu naquele momento: uma mo a afastar a cortina e uns olhos. "Mas o sol dava daquele lado na casa", explicou ele depois, 
e fazia cintilar e ondular o vidro da janela, e quando Mr. Helm voltou a firmar a vista, com a mo a servir de pala, as cortinas tinham baixado e a janela estava 
deserta.
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        Os meus olhos no valem grande coisa e no sei se me teriam pregado uma partida daquela vez - refere ele.
        Mas estou certo de que no. E de outra coisa estou certo.  que no era nenhum fantasma. Eu c no acredito
em fantasmas. Nesse caso quem seria? Quem andaria por ali a meter o nariz? Ningum tem o direito de ali
entrar. Com tudo bem aferrolhado, pois o rdio tem avisado que podem surgir tornados. Isso  que eu no sei!
Mas nunca julguei ser capaz de descobrir o que era, assim sozinho, larguei o que estava a fazer e corri a
Holcomb. Mal l cheguei, telefonei ao xerife Robinson. Expliquei que havia gente a rondar dentro da casa dos
Cluters. Eles ento apresentaram-se logo ali. Polcias do Estado, o xerife e toda a malta. Vieram tambm os
tipos do F B I , I, e o Al Dewey. Precisamente quando se encontravam todos formados em volta da casa, como
quem esta pronto a entrar em aco, abre-se a porta da frente! Saiu de l um sujeito que nenhum dos presentes at ento tinha visto, um homem de trinta e tal anos, 
com um revlver calibre 38 num coldre a tiracolo.
        Acho que tivemos todos a mesma ideia: c est ele! O que os matou a todos! - prosseguiu Mr. Helm. - O
sujeito nem se mexeu. Ficou quieto. Com os olhos a modos piscos. Tiraram-lhe o revlver e comearam a
fazer-lhe perguntas.
O nome do homem era Adrian - Jonathan Daniel Adrian. Ia a caminho do Novo Mxico e naquele momento
no tinha morada certa. Por isso introduzira-se em casa dos Clutter. E como o conseguira? Ele mostrou.
(Erguera a tampa de uma cisterna e metera-se pelo cano que ia dar  cave.) Quanto s razes por que o fizera,
tinha lido a notcia nos jornais e ficara cheio de curiosidade de ver como era aquilo.
        E depois - prossegue Mr. Helm, na sua narrativa do episdio - algum lhe perguntou se ele andava  boleia.
Se ia de boleia para o Novo Mxico? No, seguia no seu prprio carro. E l estava ele parado na viela, ali
perto. Toda a gente foi ento observar o automvel. E quando viram o que l estava dentro, um dos homens -
talvez fosse Al Dewey - declarou-lhe, a esse tal Jonathan Daniel Adrian: "Muito bem, meu caro amigo, parece
que temos de conversar um bocado!"  que dentro do carro encontraram uma pistola calibre 12 e uma faca de
mato.
Um quarto num hotel da Cidade do Mxico. Dentro deste quarto uma feia secretria moderna, com um espelho
de tom alfazema e, enfiado num canto deste, um aviso da direco que dizia120 SU DIA TERMINA A Las 2 P . M. O SEU DIA TERMINA AS 2 P. M.
Numa palavra, os hspedes deviam deixar o quarto  hora fixada, de contrrio teriam de pagar outra diria luxo este que os actuais ocupantes no podiam admitir sequer. 
Cogitavam antes na maneira de pagar a conta que j deviam. Porque na realidade tudo acontecera segundo Perry calculara: Dick vendera o carro, e dali a trs dias 
o dinheiro, pouco mais de duzentos dlares, desaparecera quase por completo. No quarto dia, Dick partira em busca de trabalho honesto e nessa noite anunciou a Perry:
        Esto parvos! Sabes quanto eles pagam, qual  o ordenado de um mecnico especializado? Dois dlares por dia! O Mxico, meu querido? Estou farto dele at 
s orelhas! Temos de sair daqui para fora. Regressar aos Estados Unidos. No! Desta vez no quero saber de nada que tu digas! Diamantes! Tesouros escondidos? Acorda, 
meu filho! J no h arcas de libras! Nem galeras afundadas! E ainda que houvesse, que diabo! Tu nem sequer sabes nadar...
E assim, no dia seguinte, depois de ter pedido emprestado o dinheiro  mais rica das suas noivas, a viva do banqueiro, Dick comprou bilhetes para o autocarro que 
os levaria, por San Diego, at Barstow, na Califrnia.
        Dali em diante - declarou ele - seguiremos a p.
Claro, Perry podia ter-se desligado, ficado no Mxico, deixando Dick seguir para onde muito bem lhe apetecesse. Porque no? No tinha ele sido sempre um "solitrio"? 
Sem nenhum amigo (a no ser o tal Willie-Jay, o dos cabelos e olhos cinzentos e inteligncia arguta?). Mas receava separar-se de Dick; considerava simplesmente que 
isso o deixaria por assim dizer "doente", como se estivesse a ganhar coragem para se "atirar de um comboio a noventa milhas  hora". O motivo do seu pavor, pelo 
menos assim o julgava, era uma certeza supersticiosa que h pouco lhe viera de que "aquilo que tinha de acontecer no aconteceria" enquanto ele e Dick "se mantivessem 
fixes um para o outro". Alm disso, a severidade do discurso com que o "chamou  ordem", a agressividade que manifestara ao proclamar o seu desprezo em face dos 
sonhos e esperanas de Perry, tudo isto atraa a perversidade de Perry, o feria e chocava, mas ao mesmo tempo o encantava, quase lhe restitua a f naquele Dick 
"totalmente masculino", pragmtico e decidido, sob cujas ordens um dia se 121
colocara. E por isso, desde o romper do dia, num quarto gelado de hotel na Cidade do Mxico, Perry andara
atarefado a fazer as malas, arrumando s escondidas as suas coisas, no fosse qualquer rudo acordar as duas
figuras estendidas num dos leitos gmeos: Dick e a sua noiva mais jovem, Ins.
Dos seus objectos pessoais havia um que deixara de lhe causar preocupaes. Na ltima noite que haviam
passado em Acapulco, um ladro roubara-lhe a guitarra Gibson, num caf do cais onde ele, Dick, Otto e o
"Cowboy" haviam estado a celebrar uma reunio de despedida altamente alcoolizada. E Perry experimentava
um desgosto amargo com isso. Sentia-se, segundo explicou mais tarde, "realmente furioso e deprimido",
declarando:
        Quando se tem uma guitarra assim, que se costuma encerar e polir, que se adapta  nossa voz, que se trata
como a uma rapariga a quem realmente se quer... bem,  como uma coisa sagrada.
Mas se bem que a guitarra perdida no representasse j para o seu dono o mnimo problema, o mesmo se no
dava com os outros objectos. Visto que tanto ele como Dick iriam, dali em diante, viajar a p ou de boleia,
tornava-se evidente que no poderiam transportar consigo mais do que umas tantas camisas e algumas pegas.
O resto do vesturio seguiria por mar, e na realidade Perry encheiaj uma caixa de papelo (metendo-lhe
dentro, junto com alguma roupa suja, dois pares de botas, umas cujas solas haviam deixado certas marcas do
calcanhar e de uma sola com cinco salincias, outras um desenho em estrela), endereando-as a si prprio, ao
Depsito Geral de Las Vegas, Nevada.
Porm o principal problema, a maior fonte de inquietao, era saber que destino dar s suas recordaes bemamadas
duas enormes caixas a abarrotar de livros e mapas, cartas amarelecidas, canes lricas, poemas e estranhas lembranas (suspensrios e um cinto fabricado com a pele 
de cobras cascavis do Nebrasca, que ele prprio matara; um netsuke, comprado em Kyoto; uma rvore an petrificada que trouxera do Japo; a pata de um urso do Alasca). 
Provavelmente, a melhor soluo pelo menos a melhor que Perry conseguira encontrar - era deixar tudo aquilo "ao Jesus". O "Jesus" que ele tinha em vista servia num 
caf em frente do hotel, e, na opinio de Perry, era muy simptico, sem dvida uma pessoa a quem se podiam confiar os caixotes.
(Tencionava mand-los pedir logo que tivesse "fixado residncia".) No entanto, havia algumas coisas demasiado preciosas para que se arriscasse a perd-las, por isso, 
enquanto os amantes dormiam e o tempo voava, aproximando-se as duas da manh, Perry 122
percorria velhas cartas, fotografias, recortes, escolhendo aqueles que desejava levar consigo. Entre eles havia
uma composio escrita  mquina, cheia de erros, intitulada: "Histria da vida do meu filho". O autor deste
manuscrito era o pai de Perry, o qual, num esforo para obter a fiana do rapaz na penitenciria do estado do
Kansas, o redigira no ms de Dezembro anterior, dirigindo-o para o Gabinete de Finanas do Estado do
Kansas. Tratava-se de um documento que Perry lera pelo menos uma centena de vezes, e nunca com indiferena:
INFNCIA - Sinto prazer em afirmar que, na minha opinio, foi boa e m. Sim, o nascimento de Perry foi
normal. Saudvel e normal. Cuidei dele decentemente, enquanto a minha mulher se transformava numa
desgraada bria, com os filhos ainda na idade escolar. Tinha boa disposio? Sim e no, tornava-se difcil se
o maltratavam e nunca mais se esquecia disso. Sempre cumpri as minhas promessas e obrigava-o a fazer o
mesmo, J a minha mulher era diferente. Ns vivamos no campo. Somos todos verdadeiros adeptos da vida ao
ar livre. Ensinei aos meus filhos a Regra de Ouro. Viver e deixar viver, e em muitos casos os meus filhos
sabiam dizer uns aos outros quando estavam a proceder mal e o culpado admitia sempre o seu erro e vinha
espontaneamente apresentar-se ao castigo. E prometia ser bom, e fazer sempre o seu trabalho depressa para
poder ir brincar livremente. A primeira coisa que sempre faziam pela manh era lavarem-se, vestirem roupa
limpa. Eu era muito severo nisso e com a questo de fazerem mal uns aos outros e quando algum companheiro
lhes fazia mal a eles eu ordenava-lhes que no brincassem mais com ele. Os nossos filhos nunca nos deram
complicaes enquanto estivemos juntos, tudo comeou quando a minha mulher quis ir para a cidade fazer
uma vida  solta e para isso fugiu de casa. Eu deixei-a ir quando ela se despediu de mim e pegou no carro,
deixando-me s (isto foi durante a crise). Os meus filhos fizeram todos um berreiro infernal. Ela amaldioavaos
dizendo-lhes que eles mais tarde haviam de fugir para virem ter comigo. Enfurecia-se e afirmava que havia
de conseguir com que os meus filhos me detestassem. E conseguiu-o, com excepo do Perry. Por amor dos
meus filhos, fui procur-los ao cabo de alguns meses, conseguindo localiz-los em S. Francisco, sem a minha
mulher saber. Tentei v-los na escola. A minha mulher dera ordens ao professor para que eu no os pudesse
encontrar. No entanto consegui v-los enquanto brincavam no recreio e fiquei surpreendido quando eles me
disseram; "A me recomendou-nos
123
que te no falssemos". Todos, menos o Perry. Esse era diferente. Deitou-me os braos ao pescoo e quis fugir
comigo imediatamente. Eu disse-lhe que no. Mas logo que a escola terminou ele deitou a fugir para o
escritrio do meu advogado, o senhor Rinso Turco. Fui lev-lo outra vez  me e deixei a cidade. Perry
confessou-me mais tarde que a me o tinha mandado procurar outra casa. Enquanto os meus filhos estiveram
com a me, andavam perfeitamente  rdea solta e vim a saber que o Perry se tinha metido em sarilhos. Eu
queria que ela pedisse o divrcio e ela acedeu dali a um ano. A bebedice dela era notria e estava a viver com
um rapaz. Eu contestei o divrcio e deram-me a guarda dos filhos. Levei o Perry para casa a fim de viver
comigo. Os outros foram colocados em vrias casas, uma vez que eu no tinha posses para os manter a todos e
como eram de sangue ndio a Assistncia tomou conta deles a meu pedido.
Isto aconteceu durante a crise. Eu trabalhava na W. P. A.1 e ganhava um ordenado muito baixo. Eu tinha
alguma coisa de meu, nessa altura uma pequena casa. Eu e Perry vivamos os dois em paz. Sentia-me infeliz,
pois ainda estimava os meus outros filhos. Comecei a andar de um lado para o outro, a fim de esquecer. Tratei
de ganhar para ns ambos. Vendi o que era meu e passmos a viver numa roulotte. O Perry ia  escola sempre
que era possvel. No gostava muito de l andar. Aprendia depressa e nunca se deu mal com um companheiro.
S quando o Bully Kid se meteu com ele. Era baixo e entroncado e andava h pouco naquela escola, de modo
que os outros tentaram maltrat-lo. Ele mostrou-se capaz de defender os seus direitos. Foi assim que ensinei
aos meus filhos. Que nunca dessem origem a uma bulha. Se tal fizessem e eu o descobrisse apanhavam uma
tosa. Mas se era outro a comear ento que se defendessem com unhas e dentes. Certo dia um rapaz, com o
dobro do corpo dele, atacou-o na escola. Com grande surpresa dele, o Perry derrubou-o e venceu-o. Eu tinhalhe
dado umas certas instrues quanto  maneira de se bater. Como quando me dedicava ao boxe e  luta. A
directora da escola e todos os camaradas assistiram a essa bulha. A directora estimava o rapaz mais velho.
Aquilo de o ver derrotado pelo meu rapaz fez-lhe mal. No fim disto o Perry ficou sendo o rei dos garotos l na
escola. Se um dos maiores tentava fazer mal a algum dos pequenos, Perry encarregava-se logo de resolver o
assunto. At o Big Bully tinha medo do Perry e passara a portar-se na linha. Mas isso tornava-se insuportvel
para a directora que veio ter comigo a fazer me queixas de o Perry jogar  pancada na escola.
1.        Works Project Adminmrauon. (N. Da T)
124
Eu disse-lhe que estava ao par de tudo e que no me agradava nada que o meu filho fosse espancado por rapazes duas vezes mais fortes do que ele. Perguntei-lhe por 
que motivo ela deixava o Bully Kid bater nos outros meninos. Disse-lhe que Perry tinha o direito de se defender. O Perry nunca tomava a iniciativa e que eu prprio 
iria interferir no caso. Disse-lhe que o meu filho era estimado por todos os meus vizinhos e pelos filhos destes. Tambm a informei de que ia tirar o Perry da escola 
dela dentro em breve e mudar-me para outro estado. E foi o que fiz. O Perry no  nenhum anjo, tem procedido mal muitas vezes como qualquer outra criana. O que 
 bem  bem e o que  mal  mal. No aprovo as asneiras que ele tenha feito. Quando procede mal tem de pagar com lngua de palmo. Ningum pode nada contra a lei 
e a estas horas ele j o aprendeu  sua custa, JUVENTUDL Perry alistou-sc nos fuzileiros navais na Segunda Guerra Mundial. Eu fui para o Alasca e ele veio ter comigo 
mais tarde. Eu era caador de peles e Perry arranjou trabalho na Comisso de Estradas do Alasca no primeiro Inverno, depois empregou-se no caminho-de-ferro durante 
algum tempo. No conseguiu arranjar um emprego de que gostasse. Sim, dava-me dinheiro de vez em quando, sempre que o tinha. Mandava-me tambm 30 dlares por ms 
durante a guerra na Coreia, quando estava a combater, e f-lo desde o princpio at ao fim e foi desmobilizado em Seattle, Washington. Combateu com honra, pelo que 
me consta. Tem queda para as mecnicas.
Bulldozers, dragas, escavadoras, carros pesados, tudo isso  a sua especialidade. Com a experincia que adquiriu tornou-se realmente um bom mecnico. At certo ponto 
com a mania das velocidades, maluco com motocicletas e carros ligeiios. Mas assim que experimentou o que resulta das velocidades e ficou com as duas pernas e a bacia 
quebradas, j anda mais devagar, tenho a certeza.
DIVERTIMENTOS - INTERESSES. Sim, ele teve vrias namoradas, mas assim que uma rapariga o tratava mal ou o enganava deixava-a imediatamente. Nunca se casou, que eu 
saiba. Os sarilhos que eu tive com a me dele fizeram-no de certo modo apanhar medo ao casamento. Eu sou um homem Sbrio, e tanto quanto me  dado saber o Perry 
tambm no se mete em bebidas. O Perry  muito parecido comigo. Gosto de conviver com pessoas decentes, gente que viva ao ar livre; tal como eu aprecio estar s, 
ele tambm prefere trabalhar sozinho. Eu tambm sou assim. Sou uma espcie de faz-tudo e o Perry  a mesma coisa. Ensinei-lhe como se ganha a vida na caa das peles, 
na prospeco de minas, como carpinteiro, lenhador, criador de cavalos, etc. Eu sei cozinhar e ele tambm, no  um cozinheiro profissional,
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sabe apenas o trivial que chega para ele. Coze o po e tudo, sabe caar, pescar, fazer armadilhas e quase tudo
o mais que  preciso. J disse antes que Perry gosta de trabalhar por conta prpria e se acaso tivesse a sorte de
encontrar um emprego de que gostasse e lhe dissessem como queriam o trabalho feito e em seguida o
deixassem sozinho ele sentiria grande orgulho em o fazer bem feito. Quando v que um patro aprecia o seu
trabalho no sabe que mais h-de fazer para lhe agradar. Mas que ningum se mostre teso para com ele.
Digam-lhe com bons modos que querem a coisa feita. Ele  muito melindroso, ofende-se com facilidade, tal
como eu. Larguei muitos empregos, e o mesmo sucedeu com ele, por culpa dos patres autoritrios. O Perry
no teve grandes estudos, assim como eu, que s fiz a instruo primria. Mas por isto no imaginem que no
somos espertos. Eu sou um autodidacta. Tal como o meu filho. Um emprego engravatado no serviria para ns.
S gostamos de trabalhos ao ar livre e se no os sabemos fazer basta que nos ensinem e dentro de um ou dois
dias ficamos mestres. No precisamos de livros. Mas a experincia, essa adquirimo-la imediatamente, caso o
trabalho nos agrade. Isso  o principal. Mas ele agora est meio paralisado,  quase um homem de meia-idade.
O Perry sabe que hoje ningum deseja contrat-lo. Comeou a compreender isso e a adoptar uma maneira
mais fcil de ganhar a vida, dentro do meu estilo. Eu tenho a certeza de ser um tipo as direitas. Tambm estou
certo de que ele perdeu a mania das velocidades. Notei isso nas cartas que me escreveu. Ele diz-me: - "Tenha,
cautela, pai, no guie o carro quando estiver com sono, o melhor  parar e encostar  berma."' Eram estas as
palavras que eu costumava usar para ele. Agora  ele quem mas diz. Aprendeu a lio.
Segundo parece, o Perry aprendeu uma lio que nunca esquecer. A liberdade para ele  tudo, por isso estou
certo de que nunca mais ningum o ver atrs das grades. Tenho a certeza do que estou a dizer. Noto uma
grande diferena na sua maneira de falar. Disse-me que lamenta muito o seu erro. Sei tambm que se
envergonha de encontrar pessoas conhecidas e que nunca lhes dir que esteve preso. Recomendou-me que
nada confessasse aos seus amigos. Quando ele me escreveu a participar que estava preso eu mandei-lhe dizer
que aproveitasse a lio e que estava satisfeito por as coisas terem corrido assim, porque podia ter sido muito
pior, se acaso algum lhe tivesse dado um tiro. Tambm lhe recomendei que aceitasse a coisa com um sorriso
porque o culpado era s ele. Mais ningum. Eu no o criei a roubar o que era dos outros, por isso que no
venha agora fazer-me queixa de que se est mal na priso. Disse-lhe que se portasse bem e ele 126
prometeu que sim. Espero que ele seja um bom prisioneiro. Tenho a certeza de que nunca mais querer ouvir falar em roubar nada a ningum. A lei  a lei e ele bem 
o sabe. Ele aprecia a liberdade.
Sei melhor que ningum como o Perry tem bom corao, desde que o tratem com justia. Se lhe fizerem uma partida  pior do que um urso feroz. Quando um amigo lhe 
confiar dinheiro pode ter a certeza de que ele o respeita. No gastar nem um tosto. Pelo menos ele era assim antes de isto acontecer e podemos ter a certeza de 
que voltar a ser um homem honesto at ao fim da vida.
Quando era garoto aconteceu um dia ele roubar qualquer coisa em companhia de uns amigos.
Perguntem-lhe s se eu fui bom pai para ele e se a me era boa para ele em S. Francisco. Perry bem sabe reconhecer quem  bom. Basta apanhar uma vez. Sabe quando 
deve parar. No  nenhum estpido. No ignora que a vida  curta e boa demais para se desperdiar atrs de umas grades.
FAMLIA - Tem uma irm, casada, a Bobo, e eu, que sou o pai. A Bobo e o marido ganham para viver. Tm a sua casa e eu estou capaz e activo para ganhar a minha vida 
tambm. H dois anos que vendi a minha cabana no Alasca. Tencionava arranjar um buraco qualquer no prximo ano.
Aluguei algumas exploraes mineiras e espero tirar dali alguma coisa. Alm disso ainda no abandonei a prospeco. Tambm me pediram para escrever um livro acerca 
da escultura em madeira e sobre a cabana que constru no Alasca, a famosa "Toca dos Caadores de Peles", que foi durante algum tempo a minha morada, conhecida por 
todos os turistas que iam de carro at Anchorage. Talvez o venha a escrever. Partilharei com o Perry tudo o que tenho. O que eu comer come ele, enquanto for vivo. 
E quando morrer deixo um seguro de vida a favor dele, de modo a que possa comear vida nova quando sair da priso. Isto no caso de eu j ter morrido nessa altura.
Esta biografia despertava sempre em Perry uma cadeia de emoes. Em primeiro lugar de amargura, em seguida um sentimento de amor e dio simultneos, at que triunfava 
o ltimo. E a maioria das recordaes que esta leitura lhe trazia eram indesejveis, muito embora nem todas. De facto, a primeira parte da vida que Perry recordava 
era aprecivel, faziam parte dela a estima e o bem-estar. Tinha talvez trs anos e estava sentado com as irms e o irmo mais velho na bancada principal de um rodeo 
ao ar livre; na arena, uma esbelta rapariga de raa cherokee montava 127
um cavalo selvagem, "que dava cangochas", e o seu cabelo solto oscilava para trs e para diante como o de
uma bailarina de flamenco. Chamava-se Fio Buckskin e era artista profissional de rodeo, "campe de
cangochas", tal como o marido, Ted John Smith. Fora durante uma tourne nos rodeos do Oeste que a bela
ndia e o simptico cowboy irlands se haviam conhecido, casado e produzido aqueles quatro filhos que se
achavam naquele momento sentados na bancada. (E Perry recordava-se de muitos outros espectculos de
rodeo, parecia lhe estar a ver o pai saltando no meio de uma sarabanda de lassos, ou a me fazendo habilidades
com uma srie de argolas azuis e prateadas que lhe tilintavam nos pulsos, enquanto cavalgava a uma
velocidade espantosa que deliciava o filho mais novo e arrancava  multido em p gritos de entusiasmo, em
todas as cidades desde o Texas ao Orcgon.)
At Perry contar cinco anos, a parelha 'Tex & Fio" continuou a actuar nas arenas dos rodeos. Como estilo de
vida, "aquilo no era nenhum mar de rosas", recordava Perry. "ramos seis a viajar num velho camio, onde
por vezes tambm dormamos, sustentados a bolachas e leite condensado. Leite Hawks Brand, era a marca, e
foi o que me deu cabo dos rins - o acar que ele continha - era por isso que eu passava a vida a molhar a
cama." Contudo no se podia considerar uma existncia infeliz, especialmente para o rapazinho que se
orgulhava dos mais, admirava a sua desenvoltura e coragem; enfim, uma vida sem dvida prefervel quela
que se lhe seguiu. Porque tanto Tex como Fio, obrigados por motivo de doena a abandonar o seu modo de
vida, foram instalar-se perto do Reno, no Nevada. Entendiam-se mal, Fio "deu em beber whisky, e ento, tinha
Perry seis anos, ela partiu para S. Francisco levando consigo as crianas. Foi tudo tal como o velhote
escrevera: "Eu deixei-a ir quando ela pegou no carro e se despediu de mim, deixando-me s (isto passou-se
durante a crise). Os meus filhos fizeram todos um berreiro infernal. Ela irritava-os mais ainda dizendo-lhes
que eles mais tarde haviam de fugir para virem ter comigo." Na verdade, no decurso dos trs anos seguintes,
Perry fugiu por vrias vezes, resolvido a ir ao encontro do pai que perdera, pois com a me tambm no
contava, aprendera a "desprez-la"; o lcool deformara-lhe o rosto, empastara a figura dessa outrora esbelta e
elegante jovem cherokee, "azedara-lhe o esprito", envenenara-lhe a lngua ao mximo, destrura-lhe o
respeito por si prpria ao ponto de nem sequer perguntar o nome dos estivadores e motoristas de autocarros
que aceitavam aquilo que ela oferecia de graa (exceptuando a exigncia de beberem primeiro na companhia
dela e danarem ao som de uma grafonola de corda).
128
Por isso, recordava Perry, "Eu passava a vida com saudades do pai, esperando que ele me viesse buscar, e
lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que voltei a v-lo. Estava de p no ptio da escola. Foi como
quando a bola bate em cheio no basto. Estilo Di Maggio. Mas o pai recusou-se a ajudar-me. Disse que me
portasse bem, abraou-me e foi-se embora. Pouco depois disto a minha me internou-me num orfanato
catlico. A as freiras estavam sempre em cima de mim, a bater-me. Eu urinava na cama. Por isso ainda hoje
tenho raiva s freiras. E tambm a Deus. E  religio. Mais tarde descobri que havia gente ainda pior do que
elas. Porque ao cabo de dois meses expulsaram-me do orfanato e ela (a me) levou-me para um lugar mais
horrvel. Um asilo de crianas dirigido pelo Exrcito da Salvao. A tambm me odiavam, por eu molhar a
cama. E por ser meio ndio. Havia l uma enfermeira que me chamava o "preto" e afirmava no haver
diferena nenhuma entre pretos e ndios. Oh, meu Deus! Que grande filha-da-me! Sabem o que ela fazia?
Enchia uma banheira com gua gelada e metia-me l dentro, ficando a segurar-me at eu ficar roxo. Apanhei
uma pneumonia. Ia batendo a bota! Estive dois meses no hospital. Foi durante essa doena que o meu pai
apareceu. Quando melhorei, levou-me consigo."
Durante cerca de um ano, pai e filho viveram juntos numa casa perto de Reno, e Perry comeou a frequentar a
escola.
        Fiz a instruo primria - recorda Perry - e foi tudo. Nunca mais voltei a estudar. Porque nesse Vero o meu
pai construiu uma espcie de atrelado, a que ele chamava "uma roulotte". Continha dois beliches e uma
pequena cozinha. O fogo era bom. Podia-se cozinhar ali tudo. At cozer po. Eu costumava arranjar
conservas: mas em calda, geleia, etc. Desta forma, durante seis anos, percorremos o pas de um lado para o
outro. Nunca estvamos muito tempo num lugar. Quando nos demorvamos mais numa terra, as pessoas
comeavam a olhar para o meu pai como se ele fosse um tipo extico e eu detestava isso, magoava-me, porque
era muito amigo do meu pai. Mesmo apesar de ele s vezes ser duro para comigo. Era muito autoritrio. Mas
eu ento gostava dele. Por isso ficava sempre contente quando nos mudvamos.
Andaram pelo Wyoming, pelo Oregon, pelo Idaho, e finalmente o Alasca. No Alasca, Tex ensinou ao filho a
sonhar com o ouro, a procur-lo nas margens arenosas dos riachos de neve, e foi tambm a que Perry
aprendeu a servir-se de uma espingarda, a esfolar um urso, a caar lobos e coras.
        Meu Deus, que frio! - recorda Perry. - Eu e o pai dormamos abraados um ao outro, enrolados em cobertores e peles de
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urso. De manh, ainda escuro, eu preparava o almoo, biscoitos e compota com carne frita, e l amos ns
fazer pela vida. Tudo estaria muito certo se eu no tivesse crescido; quanto mais o tempo passava, menos eu
era capaz de admirar o meu pai. Havia coisas acerca das quais ele sabia tudo, mas de outras no percebia
mesmo nada. Ignorava certas facetas da minha pessoa, estava literalmente em branco. No percebia patavina.
Como isto, por exemplo, o facto de eu ser capaz de tocar harmnica logo da primeira vez que peguei numa. E
guitarra tambm. Eu possua essa grande habilidade natural. Mas o meu pai nunca o quis reconhecer. Nem
fazia caso disso. Eu tambm gostava de ler. De aumentar o meu vocabulrio. De fazer canes. E alm disso
desenhava. Mas nunca tive dele uma palavra de estmulo. Nem dele nem de ningum. De noite, ficava
acordado, a tentar controlar a bexiga, em parte porque no podia deixar de ficar pensando coisas. Sempre que
fazia frio a ponto de quase se no poder respirar, eu lembrava-me de Hawai, de um filme que vira, com a
Dorothy Lamour. Desejava estar l, onde houvesse sol, vestido apenas de ervas e flores.
Vestido com muito mais roupa do que isto, Perry encontrou-se um dia dentro de uma sala de tatuagem de
Honolulu, enquanto lhe faziam um desenho, por meio de infiltrao, no brao esquerdo. A sua vinda para ali
devia-se ao seguinte: uma discusso com o pai, uma viagem  boleia desde Anchorage at Seattle, uma visita
ao escritrio de alistamento na Marinha Mercante.
        Mas nunca me teria alistado se soubesse o que me esperava
        declarou Perry um dia mais tarde. - No era o trabalho que me afligia e gostava da vida de marinheiro, dos
portos de mar e de tudo o resto. S os "maricas" do navio  que me no deixavam em paz. Aos dezasseis anos
uma pessoa  ainda criana. Eu sabia defender-me,  claro. Mas o pior  que h muito homem desse tipo que
no  efeminado. Caramba, tm fora para atirar pela janela fora uma mesa de bilhar. E tambm o piano, se
for preciso. Essa gente faz-nos passar um mau bocado, especialmente quando se juntam dois, porque ento
formam uma parelha contra um "gajo" que afinal  ainda uma criana.  de endoidecer. Alguns anos mais
tarde, quando fiz parte do exrcito estacionado na Coreia, surgiu o mesmo problema. Eu tinha uma bela folha
de servios; boa a valer. Ganhei a medalha de bronze. Pois bem, nunca fui promovido. Ao fim de quatro anos e
de haver combatido durante toda a guerra, tinha ao menos o direito de sair cabo. Mas nunca o consegui. Sabem
porqu ? Porque o meu sargento era um patife. Porque eu no me quis sujeitar. Caramba, no posso com isso!
Detesto? Porqu ... sei l porqu ! No entanto tenho 130
encontrado alguns tipos esquisitos de quem gosto. Desde o momento que no venham para c com coisas O
maior amigo que tive at hoje, um tipo realmente sensvel e inteligente, por acaso era "maricas".
No intervalo entre  sada da Marinha Mercante e o alistamento no Exrcito, Perry fez as pazes com o pai, o
qual, no momento em que o filho o deixara, tinha ido parar ao Nevada, regressando em seguida ao Alasca. Em
1952, no ano em que Perry terminava o servio militar, o velho estava em vias de resolver a vida no sentido de
acabar com as viagens.
        O pai estava entusiasmadssimo - relatava Perry. - Escreveu-me a dizer que comprara um bocado de terra na
auto-estrada que seguia para Anchorage. E que ia fazer ali uma pousada de caa, um notei para turistas. "A
Toca dos Caadores de Peles", iria chamar-se aquilo. E pedia me que fosse depressa ter com ele para o ajudar
na construo. Tinha a certeza de que iria fazer uma fortuna. Nessa altura ainda eu estava no Exrcito, no
quartel de Fort Lewis, em Washington, e comprei uma motocicleta (matactcletas  que se deveria chamarlhes)
e logo que fui desmobilizado parti para o Alasca. S cheguei a Bellmgham. Mesmo na fronteira. Estava a
chover. A minha mquina derrapou."
Essa derrapagem retardou um ano o encontro entre o pai e o filho. Operao e internamento durante seis meses
e o resto do tempo passado a convalescer numa casa na floresta, perto de Beilingham, que pertencia a um
lenhador e pescador ndio.
        Chamava-se Joe James. Ele e a mulher trataram-me muito bem. Fazamos apenas uma diferena de idade de
dois ou trs anos, mas eles levaram-me para casa e cuidaram de mim como se fosse seu filho. O que quer
dizer que no podiam tratar-me melhor. Porque eles estimavam muito os filhos e cuidavam bem deles. Nessa
altura tinham quatro; acabaram por ser sete. Foram todos muito bons para mim, tanto o Joe como a famlia. Eu
andava ento de muletas e no podia fazer nada. Passava o tempo sentado. Portanto, para me tornar til e ter
alguma coisa em que me entreter, comecei a dar-lhes uma espcie de aula. Os alunos eram os filhos do Joe e
alguns vizinhos e dvamos as lies na sala. Eu ensinava-lhes a tocar harmnica e guitarra. Desenho e
caligrafia. Toda a gente achou sempre que eu tinha uma letra bonita. E  verdade, mas a razo disso  eu ter
comprado um dia um livro sobre o assunto e praticado at saber escrever to bem como vinha no livro.
Costumvamos tambm ler histrias, isto , as crianas  que liam, cada uma por sua vez, e eu ia-as corrigindo. Era divertido. Gosto de crianas. Crianas pequenas. 
Foi uma bela poca, aquela. Mas depois veio a Primavera. Ainda me
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custava a andar, mas j era capaz de o fazer. E o meu pai estava  minha espera.
 espera, mas no ocioso. Quando Perry chegou ao local da futura pousada de caa, o pai, trabalhando
sozinho, havia terminado j as tarefas mais difceis: aplanado o cho, cortado a madeira necessria, arrancado
e partido muitas carradas de pedra da regio.
        Mas s comeou a construo quando eu cheguei. Fomos ns que fizemos tudo sozinhos. S com um
ajudante ndio de vez em quando. O pai trabalhava como um louco. No queria saber de mais nada: trovoadas,
neves, vento capaz de arrancar rvores, e ns sem arredarmos p dali. No dia em que cobrimos o telhado, o
meu pai danou, gritou e riu, foi um verdadeiro espectculo. Bem, a coisa ficou excepcional. Podia albergar
vinte pessoas. Tinha uma grande lareira na sala de jantar. O Salo de Cocktails do Totem Post. Era a que eu
devia divertir os hspedes, a tocar e a cantar. Abrimos ao pblico em fins de 1953.
porm os esperados caadores nunca apareceram e, muito embora os turistas vulgares, os raros que passavam
pela auto-estrada, parassem para fotografar a rusticidade incrvel da fachada da Toca dos Caadores de Peles,
poucas vezes se hospedavam para passar ali a noite.
        Durante algum tempo ainda nos iludimos, pensando que a coisa iria pegar. O pai tentou embelezar aquilo.
Fez um jardim de recordaes. Um Poo dos Desejos. Colocou anncios pintados ao longo da auto-estrada.
Mas nada disso lhe trouxe nem um centavo de lucro. Quando o meu pai percebeu... se convenceu de que nada
mais tnhamos conseguido do que perder o nosso tempo e o nosso dinheiro, comeou a voltar-se contra mim.
A tratar-me rispidamente. Com desprezo. A dizer que eu no cumpria a minha obrigao. A culpa era tanto
dele como minha. Numa situao como aquela, sem lucros e com o peclio a diminuir a olhos vistos, era fatal
que comessemos a implicar um com o outro. O caso  que acabmos por passar fome. Fome a valer. A coisa
comeou por causa de uma bolacha. O pai tirou-me a bolacha da mo, dizendo que eu comia de mais, que era
um comilo, um egosta, porque no me ia eu embora dali, que j no me podia ver  sua frente. Foi dizendo
por ali fora at eu j no poder mais ouvi-lo. Deitei-lhe as mos ao pescoo. Estas mos... mas no consegui
dominar-me. S me apetecia estrangul-lo. O meu pai contudo conseguiu escapar-se, ele  um bom lutador.
Libertou-se de mim e entrou em casa a correr para ir buscar a espingarda. Depois apontou-ma e disse: "Olha
para mim, Perry. Eu sou a ltima coisa que vs antes de morrer!" Eu no sa donde estava.
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Ele ento percebeu que a espingarda nem sequer estava carregada e desatou a chorar. Sentou-se e berrou como uma criana. Por fim eu vi que j no estava nada zangado 
com ele. S me fazia pena.
Sentia pena de ns dois. Mas isso de nada valia, no havia nada que eu pudesse dizer naquele momento. Fui dar uma volta. Estvamos em Abril, mas a floresta encontrava-se 
ainda coberta de neve. Caminhei at quase  noite. Quando regressei, a pousada estava deserta e todas as portas aferrolhadas. As minhas coisas encontravam-se ali 
no cho sobre a neve, para onde o meu pai as atirara. Livros, roupas!... Deixei l tudo. Menos a guitarra. Peguei nesta e comecei a caminhar pela auto-estrada. No 
tinha um cntimo no bolso. Pela meia-noite passou um camio que me deu uma boleia. O motorista perguntou-me para onde  que eu ia e respondi-lhe: "Para onde quer 
que voc v,  esse o meu destino."
Algumas semanas mais tarde, depois de ter estado de novo hospedado em casa dos James, Perry decidiu tomar novo rumo: Worcester, no Massachusetts, terra natal daquele 
"companheiro de caserna" que ele esperava o acolhesse e ajudasse a encontrar um "emprego bem pago". Vrios contratempos demoraram esta viagem para leste; durante 
ela lavou pratos num restaurante de Omaha, serviu numa bomba de gasolina em Oklahoma, trabalhou um ms num rancho do Texas.
Em Julho de 1955, quando se dirigia a Worcester, encontrou numa pequena cidade do Kansas, Phillipsbourg, o "destino", sob a forma de uma "m companhia".
        O apelido dele era Smith, tal como o meu - recorda Perry. Nem sequer me lembro do nome prprio. Encontrei-o algures, ele tinha um carro e disse que me daria 
boleia at Chicago. Depois de atravessarmos o Kansas, acabmos por chegar a essa pequena cidade, Phillipsbourg, e parmos para consultar o mapa. Julgo que era domingo. 
As lojas estavam fechadas e as ruas silenciosas.
Ento o meu amigo, diabos o levem, "teve uma ideia".
Essa ideia era assaltarem um edifcio ali perto, o Chandler Sales Company. Perry concordou, arrombaram o edifcio deserto e roubaram grande quantidade de material 
de escritrio (mquinas de escrever e de calcular). A coisa teria ficado por ali, se acaso dias depois os dois ladres no houvessem desobedecido a um sinal de trnsito 
na cidade de So Jos, no Missoun.
        Aquela trapalhada toda encontrava-se ainda no carro. O tipo que nos obrigou a parar quis saber donde vinha aquilo. Fizeram uma pequena investigao e, no 
diver deles, recambiaram-nos "para Philipsbourg, no Kansas. Ali h uma bela cadeia. Para quem gostar de cadeias".
Dentro de quarenta e oito horas, Perry e o companheiro haviam 133
descoberto uma janela aberta. Saltaram por ela, roubaram um carro e dirigiram-se para noroeste, at MacCook, no Nebrasca.
        No tardou que nos separssemos, eu e Mr, Smith, Nunca soube o que foi feito dele. Ambos ficmos a fazer
parte dos sujeitos procurados pelo F. B. I. Mas que eu saiba nunca o apanharam.
Numa tarde hmida do ms de Novembro seguinte, um autocarro Greyhound deixara Perry em Worcester,
uma cidade fabril do Massachusetts, de ruas ngremes, que, mesmo com o melhor dos tempos, tinha um
aspecto hostil e desanimador.
        Fui ter  casa onde julgava habitar o meu amigo. O tal que eu conhecera no exrcito da Coreia. Porm as
pessoas que l viviam declararam-me que ele se mudara havia seis meses e no faziam ideia para onde fora.
Fiquei desolado, era uma desgraa, o fim do mundo, etc., etc. Dirigi-me portanto a uma taberna, comprei
meio galo de vinho tinto e voltei para a estao dos autocarros para beber o vinho o aquecer-me um pouco.
Estava realmente a sentir-me bem quando chegou um tipo que me prendeu por vagabundagem.
A Polcia condenou-o sob o nome de "Bob Tumer", que ele adoptara em virtude de ser procurado pelo F.B.I.
Passou catorze dias na cadeia, foi multado em dez dlares e partiu de Worcester noutra tarde chuvosa de
Novembro.
        Dirigi-me a Nova Iorque e arranjei quarto num hotel da Oitava Avenida - declara Perry. - Perto da Rua
Quarenta e Dois. Consegui finalmente um emprego nocturno, a fazer recados a um penny por quarteiro, mais
ou menos. Mesmo ali na Rua Quarenta e Dois, a seguir a um Restaurante Automtico, que era onde eu
comia... quando comia. Durante trs meses no sa praticamente da rea da Broadway. Erri primeiro lugar
porque no tinha fato capaz. Apenas um traje do Oeste, calas de ganga e botas. Mas ali, na Rua Quarenta e
Dois, ningum repara nisso, tudo serve, seja o que for. Nunca na minha vida encontrei tanta gente esquisita.
Viveu um Inverno inteiro naquela zona horrorosa, iluminada a non., cuja atmosfera cheirava a milho frito, a
cachorros-quentes e a laranjada. At que numa bela manh de Maro, recorda ele, "vieram acordar-me dois
gajos do F. B. I. Foram prender-me ao hotel. Pronto! L fui eu extraditado para o Kansas outra vez. Para
Phillipsbourg, onde havia a tal cadeia jeitosa. Caiu-me tudo em cima: furto, fuga da priso, roubo de automvel. Apanhei de cinco a dez anos em Lansing. Depois de 
l estar h uns tempos escrevi ao meu pai, para lhe dar a notcia. Tambm escrevi  minha irm Brbara. No tinha mais ningum no mundo, ao fim 134
daqueles anos. O Jimmy suicidara-se. A Fem atirara-se da janela abaixo. A minha me morrera, havia oito anos. Tinham desaparecido todos, excepto o pai e Brbara.
Entre a papelada que Perry preferira levar consigo ao deixar a Cidade do Mxico encontrava-se uma carta de Brbara. Esta, escrita numa letra bem legvel e agradvel, 
tinha a data de 28 de Abril de 1958, poca em que o destinatrio se encontrava preso havia mais ou menos dois anos: Meu querido mano Perry
Recebemos a tua segunda carta e peo desculpa de no ter respondido h mais tempo. O tempo aqui, como
talvez a tambm, est a aquecer e eu devo andar com a moleza prpria do calor, mas vou fazer os possveis
por me emendar. A tua primeira carta causou-nos grande alvoroo, como deves calcular, mas no foi esse o
motivo do meu atraso na resposta.  certo que as crianas me do muito trabalho e torna-se-me difcil
arranjar tempo para me sentar e concentrar-me a escrever uma carta como h tanto desejava. O Donnie
aprendeu a abrir as portas e a trepar s cadeiras e outras peas de moblia e passo a vida num susto com
medo que ele caia.
Por vezes ponho as crianas a brincar no ptio, mas nunca posso deixar ele sair com elas, pois receio que se
magoem sozinhas. Mas nada dura sempre e sei que vou ter saudades quando eles comearem a brincar  volta
do quarteiro, sem eu nunca saber onde param. Aqui te mando algumas medidas para o caso de te interessarem.
Freddie - Altura: 36 polegadas e meia; Peso: 26 libras e meia; Medida dos sapatos: 7 e meio estreito. Baby - Altura: 37 polegadas e meia; Peso: 29 libras e meia; 
Medida dos sapatos: 8 estreito.
Donnie - Altura: 34 polegadas; Peso: 26 libras; Medida dos sapatos: 6 e meio largo.
J vs que o Donnie est um rapago para 15 meses; com os seus 16 dentes e cheio de vida, as pessoas no
podem deixar de o adorar. Usa a mesma medida de roupas que o Freddie e o Baby, mas as calas ficam-lhe
ainda um bocado compridas.
Vou escrever-te uma grande carta e por isso provavelmente terei de a interromper muitas vezes, tal como
agora, pois so horas de dar banho ao Donnie - o Baby e o Freddie Tomaram o seu pela manh e como est
muito frio mantive-os todo o dia c dentro de casa. At daqui a pouco.
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A cerca da. Minha dactilografia: primeiro, para te falar com franqueza, no sei escrever a mquina. Tanto me
sirvo dos cinco dedos como de um s e muito embora c me arranje e por vezes ajude o meu marido nos
negcios, aquilo que me leva uma hora a escrever provavelmente demoraria uns quinze minutos a quem
souber. A verdade  que no tenho tempo nem pacincia para aprender a srio. Mas acho estupenda a
maneira como tu escreves, pois tornaste-te um excelente dactilgrafo. Estou convencida de que todos ns
ramos muito habilidosos (ojimmy, a Fem, tu e eu) e todos, ramos dotados de um certo temperamento
artstico. At a nossa me e o nosso pai eram artistas.
Estou convencida de que nenhum de ns pode deitar as culpas seja a quem for daquilo que lhe sucedeu. Est
provado que, na idade de sete anos, a maioria das pessoas atinge o uso da razo - o que significa que, nessa
idade, compreendemos e sabemos ver a diferena entre o bem e o mal! Claro que o meio desempenha um
papel importantssimo nas nossas vidas, como aconteceu no meu caso com o colgio e dou graas a Deus por
essa influncia. Quanto ao Jimmy, ele era o mais forte de todos ns. Lembro-me da maneira como trabalhava
e ia para a escola sem ningum lhe mandar, s porque queria vir a ser ALGUM. Nenhum de ns conhece as
razes daquilo que lhe sucedeu mais tarde, porque teria ele feito aquilo, mas ainda hoje me sinto mal ao
pensar nisso. Foi uma pena! Mas ns temos muito pouco domnio sobre a nossa natureza humana e isto
aplica-se tambm  Fem e a centenas de milhares de outras pessoas incluindo ns prprios, pois todos temos
as nossas fraquezas. No teu caso no sei qual foi essa fraqueza, mas acho que NO  VERGONHA NENHUMA SUJAR A CARA, VERGONHA  FICAR COM ELA SUJA.
Em boa verdade e com todo o amor que te dedico, visto seres o meu nico irmo vivo e o tio dos meus filhos,
declaro-te que no considero justa a tua atitude para com o nosso pai, nem perante o facto de estares preso.
Se vais reagir comigo o melhor  acalmares, pois compreendo que nenhum de ns aceita bem as crticas e por
isso estou preparada para, de duas uma: ou que no me respondas mais, ou que me escrevas uma carta a
dizer tudo o que pensas a meu respeito.
Espero que me engane e desejo sinceramente que esta minha carta te faa reflectir e compreender comoas
outras pessoas vem as coisas. Peo-te que compreendas que eu no me considero autoridade nem me 'gabo
de ter grande inteligncia ou instruo, mas julgo-me um ser normal com uma capacidade 136
vulgar de raciocnio e o desejo de viver a minha vida segundo a lei de Deus e dos homens. Tambm  certo
que tenho falhado por vezes, como  de esperar. S  mal ter a cara suja quando no queremos lav-la.
Ningum repara mais, nos meus erros e deficincias do que eu prpria, por isso no te enfado mais.
Agora vamos ao mais importante : o pai no  responsvel pelas tuas boas ou ms aces. Aquilo que fizeste,
o bem e o mal,  l contigo. Segundo creio, viveste a tua vida, como muito bem entendeste, sem te preocupares
com as circunstncias nem com as pessoas que te estimavam e a quem poderias ofender. Quer compreendas
isto ou no, o facto de te encontrares hoje preso confunde-me, tanto a mim como ao pai, no por causa do que
fizeste, mas pelo facto de no dares mostra de arrependimento sincero nem respeito por qualquer lei, pessoa
ou coisa. Da tua carta depreende-se que o culpado de todos os teus problemas foi toda a gente menos tu.
Admito que tu s inteligente e que tens um magnfico vocabulrio e sei que s capaz de fazer tudo o que
desejares, e bem. Mas o que  realmente que tu desejas fazer, queres trabalhar e tentar um esforo honesto
para alcanares os teus desejos? Nada nos vem parar s mos de graa e estou certa de que ouviste j esta
afirmao muitas vezes, mas se a ouvires mais uma vez no te faz mal nenhum.
Caso te interesse saber a verdade acerca do pai, sempre te digo que est cheio de desgosto por tua causa.
Faria tudo para te libertar e ter de novo o filho consigo, mas receio, se tal se desse, que continuasses a
desgost-lo. Ele no est bem de sade e vai ficando velho; como  uso dizer-se, j "no  o que era dantes".
Nem sempre procedeu bem,  ele o primeiro a concordar, mas levou-te sempre consigo e partilhou tudo
quanto tinha, contigo, o que no sucedeu com qualquer de ns. No quero dizer com isto que lhe devas eterna
gratido ou que lhe pagues com a vida, mas deves-lhe RESPEITO E CONSIDERAO. Pela parte que me
toca, orgulho-me dopai.. Amo-o e respeito-o como sendo meu pai e s lamento que ele queira ser um lobo
solitrio, tal como o filho, em lugar de querer viver connosco, partilhando a nossa amizade, em lugar de viver
na sua roulotte a suspirar e a esperar por ti, o seu nico filho. Preocupo-me com ele e, quando digo eu, quero
dizer ns, isto , o meu marido tambm, porque ele igualmente respeita o nosso pai. Porque ele  um homem.
 certo que o pai no tem uma instruo muito vasta, mas na escola s nos ensinam a reconhecer as palavras
e a escrev-las correctamente, porm a
137
aplicao dessas palavras  vida real  outra coisa que s a EXPERINCIA VIVIDA nos pode dar. O pai foi
um homem que viveu e tu mostras ignorncia ao consider-lo pouco educado e incapaz de compreender "o
significado cientfico, etc." dos problemas da vida. S uma me sabe dar um beijo num "di-di" e com isso
cur-lo - vai l explicar isso cientificamente.
Peo desculpa de te falar duramente, mas acho que tenho obrigao de o fazer. Lamento que esta carta tenha
de ser censurada (pelas autoridades da priso) e espero sinceramente que ela te no cause qualquer prejuzo
na tua futura libertao, mas acho que devias saber todo o desgosto que causaste. O pai  quem eu considero
mais importante, visto que me dedico  minha famlia, mas s a ti  que ele estima, numa palavra, s tu s "a
sua famlia". Ele no ignora que eu o estimo, claro, mas no existe entre ns a menor intimidade, como muito
bem sabes.
A tua priso no  motivo de orgulho e tu ters de te conformar com ela e cumpri-la visto no haver remdio,
mas no com essa atitude de considerares toda a gente estpida e inculta e sem compreenso. Tu s um ser
humano dotado de livre arbtrio, o que te coloca acima do nvel dos animais. Mas se vives a vida inteira sem
um sentimento de compaixo para com os teus semelhantes ento transformas-te num animal- "olho por olho,
dente por dente" - e no  assim que se atinge a paz de esprito nem a felicidade.
Quando se trata de responsabilidade, nenhum de ns a deseja - mas todos ns somos responsveis pela
comunidade em que vivemos e pelas suas leis. Quando chega a altura de assumir a responsabilidade de um lar
e dos filhos ou de um negcio, esta  a semente que os rapazes recebem dos homens, porque certamente
compreendes que confuso seria o mundo se todos ns dissssemos. "Eu quero ser um indivduo sem
responsabilidades, dizendo o que penso e fazendo o que muito bem me apetecer." Todos ns temos o direito de
dizer o que nos apetece desde que essa liberdade de palavras e actos no prejudique os outros.
Pensa bem nisto, Perry Tu tens uma inteligncia acima do normal, mas de certo modo o teu rraciocnio est
um bocado fora dos eixos. Talvez a causa disso seja a recluso. De qualquer forma lembra-te de que tu e s tu
s o responsvel e a ti e s a ti compete ultrapassar esta poca da tua vida. Esperando em breve as tuas
notcias.
138
com toda a amizade e votos de felicidade
da tua irm e cunhado Brbara e Frederic e Famlia Ao conservar esta carta e ao inclu-la no nmero dos seus objectos mais queridos, Perry no se inspirara na sua 
afeio pela irm. Longe disso. "Desprezava" Brbara e ainda h pouco afirmara a Dick:
        S lamento uma coisa. Que a minha irm no estivesse naquela casa. (Dick desatara a rir e confessara um
desejo idntico: "Tambm tenho pensado muitas vezes que teria piada se l tivesse encontrado a minha
segunda mulher. Ela e toda a sua maldita famlia").
No, ele guardava a carta unicamente porque o seu amigo da cadeia, o "superinteligente" Willie-Jay, lhe
escrevera acerca da carta um comentrio "muito subtil", que preenchia duas pginas escritas  mquina a um
espao, sob o ttulo: "Impresses que colhi da leitura da carta": IMPRESSES QUE COLHI DA LEITURA DA CARTA
1.        Quando ela comeou a carta pretendia que esta fosse uma caridosa demonstrao dos princpios cristos.
Quer dizer que, em resposta  tua carta, que pelos vistos a aborreceu, ela tencionava apresentar a outra face,
esperando desta forma levar-te ao arrependimento daquilo que havias escrito e colocar-te na defensiva.
No entanto poucas pessoas conseguem demonstrar um princpio de tica comum quando a sua inteno 
perturbada pelas suas emoes. A tua irm ilustra esta falncia, pois,  medida que prossegue na carta, o seu
bom-senso d lugar ao mau gnio. So boas as suas intenes e lcidos os produtos da sua inteligncia. Mas o
seu crebro recebe o influxo de uma reaco emocional s antigas recordaes e  frustrao que sente; em
consequncia disto, por mais sensatas que sejam as suas admoestaes, no conseguem inspirar outra
resoluo que no seja a de te vingares na prxima carta que lhe escreveres. Assim se daria incio a um crculo
vicioso que s poderia acarretar mais dios e desgostos.
2.        A carta  estpida, mas deve-se  fraqueza humana.
A tua carta para ela e a resposta dela para ti falharam os seus objectivos. A tua era uma tentativa de explicao
da vida, tal como a entendes, da maneira como tinhas sido afectado por ela.
139
No podia deixar de ser mal compreendida ou tomada demasiado  letra, visto que as tuas ideias so opostas
ao convencionalismo. Que h de mais convencional que uma mulher casada, com trs filhos, que se confessa
"dedicada"  sua famlia??? Nada mais natural do que ela revoltar-se contra uma pessoa inconvencional.
Existe uma hipocrisia considervel no convencionalismo. Toda a pessoa que pense se apercebe deste
paradoxo: mas ao tratar com indivduos convencionais h toda a vantagem em no lhes mostrar que os
consideramos hipcritas. No se trata aqui de fidelidade aos princpios, mas sim de compromisso, de modo a
que possamos continuar a ser um indivduo sem a ameaa constante das presses convencionais. A carta dela
falha porque ela no pode aperceber-se da profundidade do teu problema, no pode suspeitar as presses que
te oprimem vindas do meio ambiente, a tua frustrao intelectual e a tua crescente tendncia para o isolacionismo.
3.        Ela acha que:
a) Tu ests a cair na autocompaixo;
b) s demasiado calculista;
c)        O que precisas  uma carta de oito pginas escrita nos intervalos das suas obrigaes maternais.
4.        Na pgina 3 ela escreve: "Acho sinceramente que nenhum de ns tem nada a censurar-se, etc.", vingando-se
assim de todos aqueles que tiveram influncia nos seus anos de formao. Mas isto ser inteiramente verdade?
Ela  esposa e me. Respeitvel e mais ou menos segura de si. Mas o que sentiria ela se fosse obrigada a andar
pelas ruas para se sustentar? Continuaria a manter a sua atitude de perdo para todos aqueles que faziam parte
do seu passado? Com certeza no. Nada mais natural do que pensar que os outros partilharam das nossas faltas,
visto ser isto uma reaco natural destinada a esquecer os que tomaram parte nos nossos triunfos.
5.        A tua irm respeita o vosso pai. Ressente-se ao mesmo tempo do facto de tu seres o preferido dele. O cime
dela assume, nesta carta, uma forma subtil. Porque nas entrelinhas podemos descortinar a seguinte pergunta:
"Eu estimo o pai e tentei viver uma vida de molde a que ele sentisse orgulho em mim. Mas tive sempre de me
contentar com as migalhas do seu afecto. Porque  a ti que ele prefere. Qual o motivo disto?" Torna-se evidente que o teu pai, por meio das cartas, tem abusado ultimamente 
da natureza sentimental da tua irm. Tem-lhe pintado o seu prprio retrato de molde a justificar a opinio que ela faz a seu respeito - um desgraado que teve a 
pouca sorte
140
de possuir um filho no qual concentrou todo o seu amor e carinho para receber em troca apenas maus tratos.
Na pgina 7 mostra-se contrariada pelo facto de a tua carta ir  censura. Mas isso no  verdade: a tua irm
sente-se satisfeita por ela ir parar s mos de um censor. No seu subconsciente a carta fora escrita para isso
mesmo, esperando dar a impresso de que a famlia Smith era realmente unida: Como quem diz: no nos
julguem a todos pelo Perry!
Essa coisa de a me beijar o "di-di" do filho  uma modalidade de sarcasmo feminino.
6.        Tu escreveste-lhe porque:
a) s amigo dela a tua maneira;
b) Sentias necessidade de contactos com o mundo exterior;
c)        Ela pode vir a ser-te til.
Prognstico: a correspondncia entre vocs os dois no pode representar mais do que uma mera funo social.
Mantm o nvel das tuas cartas em relao  mentalidade dela. No lhe transmitas as tuas concluses mais
ntimas. No a coloques na defensiva nem permitas que ela te faa o mesmo. Respeita as suas limitaes no
que se refere a compreender os teus objectivos e lembra-te de que ela e sensvel s crticas que fazes do pai.
Mostra-te firme nas tuas atitudes para com ela e nada faas que d a impresso de seres um fraco, como ela
julga, no porque te faa falta a sua boa opinio a teu respeito, mas porque isso te traria mais cartas no estilo
desta e elas s serviriam para acirrar os teus instintos anti-sociais que j se tornam perigosos.
 medida que Perry escolhia as coisas de que no queria separar-se, a pilha ia atingindo uma altura astronmica. Mas, que avia ele de fazer? No podia arriscar-se 
a perder a medalha de bronze ganha na Coreia, nem o seu diploma universitrio (concedido pela Escola Educacional Leavenworth, como resultado de ele, na priso, haver 
retomado os estudos h muito interrompidos.) Nem queria perder a carteira a abarrotar de fotografias: primeiro dele prprio na Marinha Mercante, um rapazinho bonito 
(e nas costas das quais escrevera: "16 anos, jovem, despreocupado e inocente"), at quelas que tirara recentemente em Acapulco.
Havia ainda mais meia centena de outras que ele resolvera levar tambm consigo no meio dos mapas dos
tesouros, do livro de esboos do Otto e de dois grossos livros de apontamentos, o mais volumoso dos quais
representava o seu dicionrio particular, uma lista misturada sem ser por ordem alfabtica, 141
composta de palavras que ele considerava "belas" ou "teis" ou pelo menos "que valia a pena recordar". (Aqui
est uma pgina, por exemplo: "Tanatoide = semelhante  morte; Omnilingue = versado em vrias lnguas:
Coima = multa; Nscio = ignorante. Facnora - muito malvado: Hagiofobia - terror mrbido das coisas e dos
lugares santos; Lapidcola = que vive debaixo das pedras tal como certos escaravelhos cegos; Esquipada =
esquisitice; Omofagia = hbito de comer carne e peixe cru, prprio de certas tribos selvagens: Afrodisaco =
que excita os desejos sexuais: Megalodactilo = que tem dedos anormalmente grandes; Mirtofobia = me do da
noite e da escurido.")
Na capa do segundo livro de apontamentos, de cuja caligrafia ele tanto se orgulhava, caligrafia esta muito
abundante em floreados e curvas, arvorava o ttulo de "Dirio Particular de Perry Edward Smith". - No se
tratava de forma alguma de um dirio, era antes uma descrio incompleta, ou melhor, uma espcie de
antologia composta de factos obscuros ("H uma vez, de quinze em quinze anos, em que Marte se aproxima
da Terra. 1958  um desses anos") poemas e citaes literrias ("O Homem no  uma ilha, Ele  um todo") e
trechos de jornais e livros copiados ou ento citaes. Por exemplo: "Tenho muitas pessoas conhecidas, poucas que sejam amigas; e menos ainda que me conheam bem." 
Ouvi falar num novo veneno para ratos que foi posto  venda. Extremamente forte, inodoro, inspido,  absorvido de tal maneira pelo corpo que no deixa o menor vestgio 
num cadver.
Se me pedirem que faa um discurso, direi: "No consigo de maneira nenhuma lembrar-me do que queria
dizer. Creio que nunca, em toda a minha vida, devi a tanta gente o facto de estar to satisfeito. Este  um
momento maravilhoso, raro e sinto-me muitssimo grato a todos. Obrigado!" Li um artigo interessantssimo no nmero de Fevereiro do Man to Man: "Abri caminho  faca 
para um poo de diamantes."
" quase impossvel para um homem que aprecie a liberdade com todas as suas prerrogativas compreender o
que significa estar privado dessa liberdade", diz Erie Stanley Gardner.
"O que  a vida? O brilho de um pirilampo na noite. O bafo de um bfalo no Inverno. A sombra minscula que
desliza na relva e se perde no crepsculo", disse o chefe P de Corvo, dos ndios Blackfeet.
Esta ltima tirada estava escrita a vermelho e decorada com uma cercadura de estrelas a tinta verde; o
compilador desejava acentuar o seu "significado pessoal". "O bafo de um bfalo no Inverno" evocava
precisamente o seu conceito da vida. Para qu
142
preocupaes? Porque havamos de nos esfalfar? O homem no  nada, uma nvoa, uma sombra engolida
pelas sombras.
Mas que diabo, uma pessoa andava sempre a ralar-se, a fazer planos, a consumir-se por causa dos avisos da
direco nos hotis: "SU DIA TERMINA A Las 2 P. M.".
        Dick! Ests a ouvir? - chamou ele. -  quase uma hora. Dick estava acordado. Mais do que isso; ele e Ins
estavam a
fazer amor. Como quem recita uma orao, Dick murmurava continuamente; " bom, querida?  bom?" Mas
Ins, que fumava um cigarro, no respondia. Na noite anterior, quando Dick a trouxera para ali e dissera a
Perry que ela ia l dormir, este, ainda que de m vontade, concordara, mas se eles imaginavam que o seu
procedimento o estimulava ou o fazia sentir-se "demais ali", enganavam-se redondamente. No entanto Perry
tinha pena de Ins. Que "estpida pequena". Acreditava realmente que Dick iria casar com ela e nem lhe
passava pela cabea que ele tencionasse abandonar o Mxico naquela mesma tarde.
         bom, querida?  bom? Perry exclamou:
        Pelo amor de Deus, Dick! Despacha-te l com isso? A nossa diria termina s duas da tarde! Era um sbado, o Natal estava  porta e o movimento era grande 
ao longo da rua principal. Dewey, retardado pela afluncia de trnsito, olhou para as grinaldas que enfeitavam as ruas, festes de verdura entremeados de campainhas 
de papel vermelho, e recordou-se de que ainda no tinha comprado nenhum presente para a mulher nem para os filhos. O seu crebro repelia automaticamente qualquer 
problema no relacionado com o caso Clutter. Marie e alguns dos seus amigos haviam comeado a duvidar do bom estado das suas faculdades mentais.
Um amigo ntimo, o jovem advogado Clifford R. Hope, dissera-lhe claramente:
        Sabes o que est a acontecer contigo, Al? J reparaste que no falas de outro assunto?
         certo - replicara ele. - Tambm no penso noutra coisa. E pode ser que, enquanto falo disto descubra algo
em que ainda no tivesse pensado. Um novo aspecto. Ou talvez sejas tu a descobrir. Que diabo, Clifford! Que
julgas tu que seria a minha vida se acaso este crime ficasse no ficheiro dos insolveis? Daqui a muitos anos
ainda eu andava a correr atrs de indcios e, de todas as vezes que surgisse na regio um assassnio, l ia eu a
correr para ver se encontrava nele alguma semelhana com este. Mas 143
no  s isto. O caso  que acabei por ter a impresso de que conheo agora melhor o Herb e a famlia do que
eles talvez se conhecessem a si prprios. Estou obcecado por eles. E acho que isto no me passa at descobrir
o que aconteceu.
A obcesso de Dewey pelo enigma resultara nesta distraco vaga. Ainda nessa manh a Marie lhe dissera que
se no esquecesse... pelo amor de Deus, no se esquecesse de... Mas no se lembrava de qu. Pelo menos no
conseguiu lembrar-se at ao momento em que, livre j do engarrafamento do trnsito, percorria a Rua 50, a
caminho de Holcomb, e passou em frente do consultrio do doutor I. E. Dale, veterinrio. Claro! A mulher
pedira-lhe que fosse buscar o gato l de casa, Pere, um tigre listrado que pesava quinze libras, conhecido em
toda a Garden City, clebre pela sua ferocidade nas lutas, que o obrigavam constantemente a ser hospitalizado;
uma bulha que tivera contra um buldogue deixara-o cheio de feridas que foi preciso coser e tratar com
antibiticos. Depois de o doutor Dale lhe dar alta, Pere instalara-se no banco da frente do automvel do dono,
fazendo rom-rom durante todo o caminho at Holcomb.
O destino do detective era a quinta de River Valley, mas apeteceu-lhe tomar qualquer coisa quente e por isso
parou no Hartman's Caf.
        Viva quem  uma flor! - exclamou Mrs. Hartman. - Que deseja?
        Apenas um caf.
A mulher serviu-lhe uma chvena.
        E ideia minha ou voc est muito mais magro?
        Um pouco.
De facto, durante as ltimas semanas, Dewey perdera vinte libras de peso. Os fatos danavam-lhe no corpo
como se os tivesse pedido emprestados a um tipo duas vezes mais gordo, e o rosto, que de ordinrio nada
reflectia acerca da sua profisso, agora nem por sombras a deixava adivinhar; dir-se-ia antes um asceta em
busca de ocultos segredos.
        Como se sente?
        ptimo.
        Tem um aspecto pssimo!
A coisa tornava-se evidente. Mas pior ainda andavam os colegas do F. B. I, os agentes Duntz, Church e Nye.
Certamente que ele, Dewey, tinha melhor aspecto do que o Harold Nye, o qual se conservava ao servio
apesar de andar cheio de febre e muito constipado.
Ao todo, os quatro investigadores haviam verificado uns setecentos ditos e boatos. Dewey, por exemplo,
gastara dois dias
144
esfalfantes  procura da fantasmtica parelha de mexicanos que Paul Helm jurava terem ido visitar Mr. Clutter na vspera dos crimes.
        Quer outra chvena, Alvin?
        No quero, no. Obrigado.
Mas a mulher fora j buscar a cafeteira:
        Esta  oferta da casa, xerife. A avaliar pelo seu aspecto, bem precisa dela.
Num canto da sala, dois trabalhadores barbudos jogavam domin. Um deles levantou-se e, aproximando-se do balco onde Dewey estava sentado, inquiriu:
         verdade aquilo que dizem?
        Depende.
        Ao respeito daquele tipo que o senhor prendeu? O que estava metido na casa dos Clutters. Que  ele o culpado. Toda a gente o diz por a.
        Isso no  verdade, meu velho. Pode ter a certeza.
Muito embora o passado de Johanathan Daniel Adrian, neste momento retido na cadeia do condado por porte ilegal de arma, inclusse o internamento numa clnica de 
doenas mentais, o Hospital do Estado em Topeka, os elementos reunidos pela investigao provaram que ele, no caso Clutter, era apenas culpado de uma curiosidade 
que lhe dera gua pela barba.
        Ora bem, se no  aquele o culpado, porque no tratam vocs de o descobrir? O mulheredo, l em casa, j no  capaz de ir sozinho ao quarto de banho! Dewey 
acostumara-se j a este gnero de grosserias; fazia parte da rotina da sua vida. Engoliu a segunda chvena de caf, suspirou e sorriu.
Que diabo, eu estou a falar a srio! Sei o que digo. Porque no prendem algum? Para isso  que vos pagam!
        Cale j essa boca! - exclamou a senhora Hartman. - Este caso interessa a todos ns e o Alvin tem feito o mais que pode.
Dewey piscou-lhe o olho:
        Isso  que  falar. E obrigado pelo caf!
O trabalhador esperou at que a autoridade chegasse  porta e depois desfechou, por despedida:
        Se alguma vez voc voltar a ser xerife no conte com o meu voto porque no o apanha!
        Cale a boca! - repetiu Mrs. Hartman.
A quinta de River Valey distava uma milha do Hartman's Caf. Dewey decidiu caminhar at l.
Gostava de calcorrear os campos de trigo. Normalmente, uma ou duas vezes por semana, costumava dar longos passeios pelas suas terras, aquela sua querida 145
propriedade onde sempre esperara vir a construir uma casa, plantar rvores e mais tarde criar os netos. Era
esse o seu sonho, mas a mulher avisara-o havia pouco de que deixara de o partilhar; afirmara-lhe que nunca
mais seria capaz de ir viver sozinha, "quela distncia no meio do campo". Dewey bem sabia que, mesmo no
caso de ele capturar os criminosos no dia seguinte, ela no mudaria de ideias. Visto que uns amigos que
viviam numa casa isolada haviam tido to triste sorte.
Claro que os Clutter no tinham sido os primeiros a ser assassinados no condado de Finney ou mesmo em
Holcomb. Alguns membros mais velhos da comunidade recordavam-se "de uma coisa terrvel" que acontecera
pouco mais de quarenta anos atrs: o assassnio Hefner. Mrs. Sadie Truitt, a septuagenria mensageira dos
correios, me da empregada Myrth Clarc,  especialista neste caso famoso.
        Sucedeu em Agosto de 1920. Fazia um calor infernal. Havia um tipo chamado Tunif que trabalhava no
rancho Finnup. Era o Walter Tunif. Tinha um automvel que depois se soube ter sido roubado. Apurou-se
tambm que era soldado refractrio, fugido do Fort Bliss, l no Texas. Era um patife, claro, e havia muito
quem desconfiasse dele. Por isso, uma bela noite, o xerife que era nesse tempo o Orlie Hefner, um cantor
extraordinrio, sabe? Deve hoje fazer parte do coro celeste! Uma noite ele foi a cavalo at ao rancho Finnup
para fazer ao Tunif meia dzia de perguntas. Passava-se isto no dia 3 de Agosto. O calor era de matar. O
resultado foi que o tal Walter Tunif deu um tiro no corao do xerife. O pobre Orlie quando chegou ao cho j
ia morto. O malvado ento saltou para um dos cavalos do rancho e fugiu pela margem do rio. A notcia
espalhou-se e muitos homens das redondezas organizaram uma batida. Ao cabo de dois dias agarraram-no, ao
malandro do Tunif. Nem teve tempo de dizer aqui estou eu. Porque os rapazes iam cegos de raiva e trataram
logo de dar ao gatilho.
O primeiro contacto de Dewey com o crime em Finney County teve lugar em 1947. O caso est registado no
seu ficheiro nos seguintes termos: "John Carlyle Polk, um ndio Creek, de 32 anos, residente em Muskogee,
Oklahoma, matou Mary Kay Finley, mulher branca de 40 anos, criada de servir, residente em Garden City.
Polk assassinou-a com o gargalo partido de uma garrafa de cerveja, num quarto do Copeland Hotel, em
Garden City, no Kansas, a 5/9/47. Era uma descrio curta e sucinta de um caso solucionado. Os trs
assassnios que Dewey investigara, dois eram igualmente claros (um par de trabalhadores da linha frrea havia
roubado e assassinado um lavrador velho, em
11/1/52; um marido bbedo espancara a mulher at a deixar 146
morta, em 6/7/56. porm o terceiro caso, tal como foi um dia narrado em conversa por Dewey, no deixou de
apresentar os seus pormenores originais:
"Comeou tudo no Stevens Park, onde h um coreto e debaixo dele um compartimento. Ora um tal homem
chamado Mooney andava a passear no parque. Vinha de algures na Carolina do Norte e era um estranho na
cidade. O certo  que entrou naquele quarto e algum o seguiu, um rapaz dali, chamado Wilmer Lee Stebbins,
de vinte anos. Mais tarde Wilmer Lee declarou que Mr. Mooney lhe fizera uma proposta estranha. E fora por
isso que ele lhe roubara o dinheiro, o derrubara e lhe batera com a cabea no cho de cimento e, no contente
com isso, lhe enfiara a cabea na bacia da retrete e fizera correr a gua at o afogar. Talvez as coisas se
tivessem passado assim. Mas nada explica o procedimento de Wilmet Lee aps o crime. Primeiro, foi enterrar
o corpo a umas duas milhas a nordeste de Garden City. No dia seguinte desenterrou-o e foi sepult-lo a catorze
milhas de distncia na direco oposta. E continuou por ali fora, a enterrar e a desenterrar o corpo. Parecia um
co a brincar com um osso, no havia maneira de deixar Mr. Mooney descansar em paz. Finalmente acabou
por abrir uma cova a mais, pois foi visto por algum".
Antes do mistrio Clutter, os quatro casos citados constituam a experincia de Dewey no que respeita a
homicdios, e, em comparao com aquele, eram como que as rajadas de vento que precedem o ciclone.
Dewey meteu a chave na porta da casa dos Clutters. L dentro fazia calor, pois no haviam apagado o
aquecimento e os compartimentos de soalho polido a cheirar a cera perfumada com limo pareciam desocupados apenas temporariamente; era como se aquele dia fosse domingo 
e a famlia estivesse para chegar da igreja. As herdeiras, Mrs. English e Mrs. Jarchow, haviam levado j um carregamento de roupas e moblia, apesar disso ela nada 
perdera daquela atmosfera prpria de uma casa habitada por seres humanos. Na sala viase uma partitura aberta sobre a estante do piano "Comin Thro the Rye". No vestbulo 
um chapu de feltro cinzento de aba larga com manchas de transpirao, pertencente a Herb, pendia de um cabide. L em cima, no quarto de Kenyon, numa prateleira 
por cima da cama, os culos do rapazinho assassinado reflectiam a luz.
O detective andava de um quarto para o outro. J dera pur vrias vezes a volta  casa; a verdade  que ia l
mesmo todos os dias,
147
e, num certo sentido, podia dizer-se que essa visita lhe agradava. Porque o local, ao contrrio da sua prpria
casa ou do seu gabinete de xerife com a confuso constante que l reinava, era pacfico. Os telefones, com os
fios ainda cortados, mantinham-se calados. Rodeava-o a grande calma das plancies. Podia sentar-se na cadeira
de balouo da sala de Herb e pensar  sua vontade. Algumas das concluses a que chegara eram inabalveis:
estava convencido de que a morte de Herb Clutter fora o principal objectivo dos criminosos, tendo come
motivo um dio psicoptico, possivelmente aliado  ganncia, e achava que o trabalho dos criminosos fora
feito com todos os vagares tendo possivelmente decorrido duas horas ou mais desde o momento da sua entrada
at  partida. (O coroner, o Dr. Robert Fenton, encontrara diferenas apreciveis na temperatura dos corpos
das vtimas e, a partir da, afirmara que a ordem dos assassnios, teoricamente, fora a seguinte: Mrs. Clutter,
Nancy, Kenyon e Mr. Clutter. Partindo deste princpio, era sua convico que os membros da famlia
reconheceram perfeitamente as pessoas que os haviam liquidado.
Durante esta visita, Dewey chegou a uma janela do andar superior, com a ateno presa a qualquer coisa que
se via  distncia: um espantalho no meio do trigo cortado. Esse espantalho arvorava um bon de caador e um
vestido de chita desbotada com um desenho florido. (Talvez um velho vestido de Bonnie Clutter?) O vento
enfunava a saia e fazia oscilar o espantalho, dando-lhe o aspecto de uma pessoa a danar uma dana macabra
no meio dos campos invernais. Ento Dewey lembrou-se do sonho que tivera a sua prpria mulher, Marie.
Numa daquelas manhs servira-lhe um pequeno-almoo intragvel em que o caf vinha salgado e os ovos
traziam acar, dando como desculpa do engano um "estpido sonho que tivera" e que a claridade da manh
no conseguira dissipar.
        Parecia tudo verdade, Alvin, to certo como estar agora a ver a cozinha. E passava-se mesmo aqui, neste
lugar. Eu estava a fazer o jantar e, de repente, a Bonnie entrou pela porta dentro. Trazia uma camisola de
angor azul que lhe ficava muito bem. Eu disse-lhe: "Oh, minha querida Bonnie... No te tinha tornado a ver
desde aquela coisa horrvel que aconteceu." Mas ela no respondeu nada; s olhou para mim com aquele seu
ar envergonhado e eu fiquei sem saber o que dizer, naquelas circunstncias. Por isso exclamei: "Minha
querida, vem ver o que estou fazendo para o jantar do Alvin. Uma panela de gumbo1 com camares
1.        Gumbo, tambm chamada Okra, planta de vagens pontiagudas usada nos Estados do Sul para fazer sopas e guisados. (N. Da T.)
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frescos. Est quase pronto. Vem provar, anda, querida. Mas ela no quis. Ficou  porta a olhar para mim. E depois... nem sei descrever, mas fechou os olhos e comeou 
a abanar lentamente a cabea e a torcer as mos muito devagarinho e a chorar baixinho. Eu no percebia as palavras que dizia.
Mas senti muita pena dela, nunca tive tanta d de ningum e abracei-a: "No chores, no chores, querida Bonnie. Se algum era digno de ir para o Cu serias tu, Bonnie!" 
Mas no conseguia consol-la. Continuava a abanar a cabea e a torcer as mos, e eu ento percebi o que ela dizia: "Morrer assassinada! Morrer assassinada! No, 
no! No pode haver nada pior. Nada pior do que isto. Nada!"
Era meio-dia. No centro do deserto de Mojave, Perry, sentado numa mala de vime, tocava harmnica. Dick encontrava-se de p na berma da estrada de asfalto negro, 
a n.o 66, de olhos fixos na vastido imaculada do deserto, como se a fixidez dos seus olhos fosse capaz de fazer surgir os motoristas. Passavam por ali poucos e 
nenhum deles, at ento, parara para levar os viajantes. Um condutor de camio, com destino a Needles, Califrnia, oferecera boleia, mas Dick recusara. No era aquilo 
que ele e Perry desejavam. Estavam  espera de um viajante solitrio com um carro decente e a carteira a abarrotar de notas. Um estranho que poderiam roubar estrangular 
e atirar para o deserto.
No deserto o som precede muitas vezes a imagem. Dick ouviu as vibraes de um carro que l vinha mas ainda no se avistava. Perry escutou-as tambm; meteu a harmnica 
no bolso, pegou na mala (a abarrotar com o peso da bagagem de ambos: as recordaes de Perry, trs camisas, cinco pares de meias brancas, uma caixa de aspirina, 
uma garrafa de tequilla, uma tesoura, uma gillette e uma lima das unhas; todos os outros objectos que possuam haviam sido empenhados, deixados  guarda do empregado 
de bar no Mxico ou despachados para Las Vegas), e foi juntar se a Dick na berma da estrada. Puseram-se de atalaia. Finalmente o carro apareceu ao longe e foi aumentando 
de volume at se verificar que se tratava de um Dodge azul, com um passageiro apenas, um homem careca e magro. Muito bem! Dick ergueu a mo e fez sinal. O Dodge 
afrouxou a marcha e Dick apresentou ao senhor o seu melhor sorriso. O carro quase parou e o motorista inclinou-se para fora da janela e olhou-os de alto a baixo. 
A impresso que teve foi sem dvida alarmante. (Ao cabo de uma viagem de cinquenta e duas horas de autocarro desde a Cidade do Mxico at Barstow, na Califrnia, 
e meio dia passado  calcorrear o deserto de Moiave, ambos os viajantes apresentavam uma barba hirsuta e um rosto manchado e coberto de p.) O carro deu um saco 
para 149
a frente e partiu  desfilada. Dick ps as mos em concha e gritou-lhe:
        Ests cheeo de sorte!
Depois colocou a. Mala ao ombro e desatou a rir. Nada, realmente, conseguia faz-lo zangar porque, segundo afirmou mais tarde, "se encontrava satisfeitssimo por 
ter regressado aos seus queridos E. U. A." E no tardaria que surgisse outro sujeito num carro.
Perry sacou da harmnica (que adquirira na vspera roubando-a numa loja de Barstow) e tocou os primeiros compassos daquilo que passara a ser "a marcha" deles; a 
cano era uma das preferidas de Perry que ensinara a Dick os cinco versos. Marcando passo e ao lado um do outro, partiram, estrada fora, cantando: "Os meus olhos 
vem a glria da vinda do Senhor, que surge no meio dos campos onde crescem as vinhas da ira." E, no meio do silncio do deserto, as suas vozes fortes e juvenis 
ressoavam: "Glria, Glria, Aleluia! Glria, Glria, Aleluia!" III
A soluo
O nome do rapaz era Floyd Wells. Um tipo baixo, quase sem queixo Tentara vrias profisses: soldado,
trabalhador de rancho, mecnico, ladro, a ltima das quais lhe valera uma sentena de trs a cinco anos na
Penitenciria do Estado de Kansas. Na noite daquela tera-feira, 17 de Novembro de 1959, encontrava se
deitado na cela, com um par de auscultadores aplicados nos ouvidos. Escutava as notcias, porm a rigidez
destas e a monotonia da voz do locutor provocavam-lhe sono' "O chanceler Konrad Adenauer chegou hoje a
Londres a fim de conferenciar com o primeiro-ministro Harold MacMillan. . O presidente Eisenhower dedicou
setenta minutos a conferenciar com o doutor T. Keith Glennan acerca dos problemas do espao e do oramento para a explorao espacial." porm a sonolncia desapareceu-lhe 
por completo ao escutar: "Os funcionrios da Polcia encarregados de investigar o trgico assassnio dos quatro membros da famlia de Herbert Clutter lanaram um 
apelo ao pblico pedindo que lhes seja fornecida qualquer informao que possa ajudar a descobrir este crime revoltante. Clutter, sua mulher e dois filhos adolescentes 
apareceram mortos na sua quinta perto de Garden City, na manh de domingo passado. Cada uma das vtimas, depois de amarrada e amordaada, foi morta com um tiro na 
cabea, disparado por uma carabina de 12 mm. Os investigadores confessam no terem ainda descoberto o mbil do crime, considerado por Logan Sanford, director do 
Kansas Memoreau of Investigation, como o mais cruel da histria do Kansas. Clutter, um importante lavrador e antigo representante de Eisenhower no Banco Federal 
de Crdito Agrcola,.." Wells sentia-se aturdido. Ao descrever mais tarde as suas reaces, confessou que "nem queria acreditar". No entanto tinha boas razes para 
crer, no s por ter conhecido a famlia assassinada, como por no ignorar tambm o nome do assassino.
Tudo isto comeara havia muito tempo, onze anos antes, no Outono de 1948, tinha Wells dezanove anos.
Andava ento "
152
deriva pelo pas, arranjando emprego onde calhava", segundo afirmou.
        J nem sei como, fui parar ali, ao Kansas Ocidental, perto da fronteira com o Colorado. Ao procurar trabalho, disseram-me que talvez me empregassem como 
auxiliar agrcola na quinta de River Valley,  assim que chamam quele lugar, a propriedade do tal Mr. Clutter. O certo  que ele me contratou. Fiquei por l um 
ano, se bem me recordo. Pelo menos esse Inverno. E quando me despedi foi s porque estava farto de estar parado. Queria mudar de terra. No tive questo nenhuma 
com Mr. Clutter. Sempre me tratou muito bem, tal como aos outros trabalhadores; at costumava, sempre que se nos acabava o dinheiro antes do dia do pagamento, adiantar-nos 
uns dez ou vinte dlares. Dava bons ordenados e at boas gorjetas, se via que as merecamos. Na verdade, nunca conheci ningum de quem gostasse tanto como de Mr. 
Clutter. De toda a famlia, alis, tanto da mulher como dos quatro filhos. Quando os conheci, a mais nova das raparigas, aquela que mataram, a Nancy, e o rapaz que 
usava culos, eram ainda catraios, talvez dos seus cinco ou seis anos. As outras duas, uma chamada Beverly, da outra no me lembra o nome, andavam j na universidade. 
Uma famlia simptica, realmente simptica. Sa de l em qualquer altura do ano de 1949. Casei, divorciei-me, fui para a tropa, aconteceram muitas coisas, o tempo 
passou, digamos, at que em 1959, no ms de Junho de
1959, dez anos depois de ter visto pela ltima vez Mr. Clutter, mandaram-me para Lansing. Por ter assaltado aquele armazm de electricidades. Aparelhos elctricos. 
A minha ideia era arranjar umas mquinas de ceifar erva. No para vender. Queria montar um servio de alugar mquinas de aparar relva. Dessa maneira arranjava um 
negcio s meu. Claro, a coisa no deu nada, e apanhei uma pena de trs a cinco anos. Se no fosse isso nunca teria conhecido o Dick, e talvez Mr. Clutter ainda 
estivesse vivo a estas horas. Mas que se h-de fazer. Foi assim. Encontrei-me l com o Dick.
"Ele era o primeiro tipo que eu tinha como companheiro de cela. Acho que estivemos juntos um ms. Junho e parte de Julho. Ele estava a cumprir uma pena de trs a 
cinco anos, com direito a ser solto em liberdade provisria em Agosto. Falava muito daquilo que queria fazer quando sasse c para fora. Pensava ir para o Nevada, 
para uma das bases de msseis, comprar uma farda de oficial aviador para poder gastar  larga. Era a ideia dele. (Eu c nunca achei a coisa vivel. Ele era esperto, 
no o nego, mas no tinha cara de oficial aviador. Nem por sombras!) Outras vezes referiase a esse tal amigo, o Perry. Um tipo atravessado de ndio 153
que tinha sido seu companheiro de cela. E contava-me os projectos grandiosos que tinham ambos para quando
se tornassem a juntar. Eu nunca conheci o Perry. Nunca lhe pus a vista em cima, j tinha sado de Lansing em
liberdade provisria. Mas o Dick afirmava sempre que, no caso de lhe surgir uma oportunidade realmente boa,
podia confiar inteiramente no Perry e dava-lhe sociedade.
"No me lembro exactamente qual foi a primeira vez em que se falou de Mr. Clutter. Devia ter sido quando
discutamos empregos e as diferentes espcies de trabalho que ambos tnhamos executado. Dick era um
mecnico de automveis bastante competente e quase sempre trabalhara na sua especialidade. S uma vez 
que andara a guiar a ambulncia de um hospital. Gabava-se de coisas mirabolantes referentes a essa poca.
Acerca das enfermeiras e do que costumava fazer com elas na parte de trs da ambulncia. Fosse como fosse
informei-o de que trabalhara um ano numa grande plantao de trigo no Oeste do Kansas, ao servio de Mr.
Clutter. Ele quis saber se Mr. Clutter era muito rico. Eu disse-lhe que sim. Era-o, de facto. Sim senhor, um dia
Mr. Clutter tinha-me dito que fizera naquela semana uma despesa de dez mil dlares. Quero dizer que s vezes
os gastos da plantao subiam a dez mil dlares. Depois disto Dick nunca mais parou de me fazer perguntas
acerca daquela famlia. Quantos eram; que idade deviam ter agora os filhos; como  que se entrava para a
casa; qual a disposio desta; se Mr. Clutter tinha um cofre. No nego que lhe disse que sim. Porque tinha
ideia de ter visto uma espcie de cubculo, ou cofre, ou qualquer coisa no gnero, atrs da secretria da sala
que fazia de escritrio do Mr. Clutter. A seguir lembro-me de que ele falou em matar Mr. Clutter. Disse-me
que ele e o Perry haviam de ir l roubar Mr. Clutter, matando todas as testemunhas, os Clutter e toda a gente
que por l aparecesse. Descreveu-me uma dzia de vezes como tencionava fazer as coisas. Que ele e o Perry
iam amarrar as vtimas, matando-as em seguida a tiro. Eu ento disse-lhe: "Dick, tu no s capaz de fazer
isso!" Mas no posso dizer com verdade que tenha tentado persuadi-lo de desistir. Porque nem por um minuto
acreditei que ele estava a falar a srio. Julguei que era s palavreado. Como aquele que se ouve muitas vezes
l na cadeia: o que os tipos vo fazer logo que saiam dali para fora: os assaltos, os roubos, etc. E quase sempre
aquilo no passa de paleio. Ningum os toma a srio. Foi por isso que, quando ouvi nos auscultadores aquilo
que se sabe, bem, nem queria acreditar. No entanto, aconteceu, tal e qual Dick me anunciara.
Era esta a histria de Floyd Wells, muito embora nesse momento 154
ele estivesse ainda longe de a contar. Sentia medo, pois se acaso os outros presidirios soubessem que ele ia
ter conversas com o guarda, a vida dele, segundo a sua prpria expresso, "no valeria um coiote morto".
Passou uma semana. Wells seguia as emisses da rdio e os relatos dos jornais, at que leu num do Kansas, o
News, de Hutchinson, que ofereciam a recompensa de mil dlares em troca de qualquer informao que
conduzisse  captura do criminoso ou criminosos do caso Clutter. A notcia era interessante e quase convenceu
Wells a falar. Mas tinha muito receio e no apenas dos outros prisioneiros. Havia ainda a probabilidade de as
autoridades, o considerarem culpado de conivncia no crime. Afinal de contas fora ele quem orientara Dick
quanto  maneira de entrar na casa de Clutter: podiam afirmar que ele sabia das intenes de Dick. Vista sob
qualquer aspecto, a sua situao era delicada e as suas desculpas discutveis. Por isso nada disse e decorreram
mais dez dias. Dezembro sucedera a Novembro e os investigadores do caso continuavam, segundo afirmavam
as notcias cada vez mais breves dos jornais (a rdio deixara de se referir ao assunto), to desorientados e
carecidos de provas como na manh da trgica descoberta.
Mas ele sabia. At que por fim, torturado pela necessidade de "contar a algum", confessou tudo a outro
prisioneiro. "Um grande amigo, catlico e muito religioso. Ele perguntou-me: Que vais tu fazer agora, Floyd?
Bem, respondi eu. Ainda no resolvi. Que achas tu que faa? Bem, ele era de opinio que devia contar tudo a
quem de direito. Achava que eu no devia viver com um peso daqueles na conscincia. E afirmou-me que eu o
poderia fazer sem que ali dentro ningum o soubesse. Ele arranjaria tudo. Ento, no dia seguinte, mandou
dizer ao chefe dos guardas que eu queria "ser chamado". Informou-o de que, se acaso me chamassem ao
gabinete dele sob um qualquer pretexto, eu lhe diria quem era o assassino dos Clutters. Claro que o guarda
mandou-me logo chamar. Eu ia cheio de medo, mas depois lembrei-me de Mr, Clutter, que nunca me tinha
feito mal nenhum e que no Natal me oferecera uma bolsa com cinquenta dlares. E contei tudo ao chefe dos
guardas. Depois ao prprio director da priso. E mesmo diante de mim, estando eu ainda sentado no gabinete
do guarda-chefe, agarrou no telefone e..."
A pessoa a quem o chefe da priso telefonara era Logan Sanford. Este ouviu, desligou, deu algumas ordens e
depois fez uma chamada pessoal para Alvin Dewey. Nessa noite, ao sair do seu 155
escritrio no tribunal de Garden City, Dewey levava consigo um dossier.
Ao chegar a casa encontrou a mulher na cozinha a fazer o jantar. Mal o viu aparecer, comeou a desfiar um
rosrio de queixas domsticas: o gato bulhara com o cocker dos vizinhos da frente e parece que o deixara
quase cego de um olho; Paul, o filho de nove anos, cara de uma rvore. Fora milagre no ter morrido. O mais
velho, de doze anos e que tinha o nome do pai, lembrara-se de fazer uma fogueira no quintal para queimar lixo
e ia deitando fogo ao quarteiro. Algum chegara mesmo a telefonar para os bombeiros - ela no sabia quem.
Enquanto a mulher lhe relatava estes sarilhos, Dewey ia enchendo duas chvenas de caf. De repente Marie
parou no meio de uma frase, a olhar para ele. Viu-o de faces coradas e teve a certeza de que vinha satisfeito.
Disse-lhe:
Alvin, meu querido, trazes boas notcias?
Ele entregou-lhe, sem comentrios, o dossier. A mulher tinha as mos molhadas. Enxugou-as e sentou-se em
frente da mesa da cozinha, sorveu o caf, abriu a pasta e tirou de l as fotografias de um rapaz louro e de outro
moreno e de cabelos negros, dois retratos antropomtricos tirados na Polcia. Dois dossiers, escritos metade
em cdigo, acompanhavam as fotografias. O do louro rezava assim: Hickock, Richard Eugene (WM) 28. KBI97 093; FBI 859 273. Morada: Edgerton, Kansas. Data do nascimento: 
6-6-31. Naturalidade: K. C, Kans. Altura: 5-10. Peso: 175. Cabelos: louros. Olhos: azuis.
Estatura: forte. Pele: corada. Profisso: pintor de automveis. Crime: burla, roubo, cheques sem cobertura.
Solto sob fiana em 13-8-59. Sul, K. S. K.
A segunda ficha dizia:
Smith, Perry Ediuard (WM) 27-59. Naturalidade: Nevada. Altura: 5-4. Peso: 156. Cabelos: castanho escuro.
Crime: arrombamento e roubo. Preso em: (em branco). por: (em branco). Situao: enviado  KSP em 13-3-
59.
Marie examinou as fotografias de frente e de perfil de Smith: um rosto arrogante, duro, mas no totalmente,
pois notava-se uma certa finura; os lbios e o nariz pareciam bem desenhados e ela achou que os olhos,
hmidos e de expresso sonhadora, eram bastante bonitos e, no gnero teatral, um pouco meigos. Meigos
156
e outra coisa ainda: "maus". Muito embora no to maus como os do Richard Eugene Hickock. Marie,
fascinada pelos olhos de Hickock, recordou-se de um gato bravo que vira um dia apanhado por uma armadilha
e de como, muito embora ela tivesse tido vontade de o soltar, os olhos do animal, cheios de dor e dio, a
haviam feito esquecer a piedade e enchido de terror.
        Quem so eles? - inquiriu ela.
Dewey contou-lhe a histria de Floyd Wells e no fim declarou:
        Tem piada. Nestas ltimas trs semanas temos procurado investigar acerca de toda a gente que trabalhou
para o Clutter. Mas, da maneira como o caso se apresentou, foi uma questo de sorte. Contudo acabaramos
por ir descobrir este Wells, daqui a alguns dias, indo procur-lo  priso. Nessa altura deveramos saber a
verdade. No h dvida nenhuma.
Talvez no seja ainda a verdade - observou Marie. Dewey e os dezoito homens que trabalhavam com ele
haviam seguido dezenas de falsas pistas que a nada conduziam, e ela desejava precav-lo contra novas
desiluses, pois a sade do marido preocupava-a. Andava num estado de esprito horrvel, muito plido e a
fumar sessenta cigarros por dia.
        No, talvez no seja - concordou Dewey. - Mas tenho c um palpite.
O tom dele impressionou-a e olhou de novo as fotografias sobre a mesa.
        Imagina este... - disse ela colocando o dedo sobre o retrato de frente do rapaz louro. - Imagina estes olhos a
aproximarem-se - depois meteu as fotografias no sobrescrito, confessando: Preferia que no mas tivesses
mostrado.
Mais tarde, nessa mesma noite, outra mulher, numa cozinha diferente, pousou a meia que estava cosendo, tirou
os culos de aros de plstico e, apontando com eles para o seu hspede, disse-lhe:
        Espero que o encontre, Mr. Nye. Para bem dele. Ns temos dois filhos e este  o mais velho. Somos muito
amigos dele. Mas... Oh, eu percebi logo. Percebi que ele nunca se teria ido sem levar a mala, no teria fugido
sem uma palavra para ningum, nem ao pai, nem ao irmo, se no estivesse metido nalgum sarilho. Porque
teria ele feito isto? Porqu ? - Olhou para a figura magra, sentada numa cadeira de balouo do outro lado da
pequena sala que o fogo aquecia - Walter Hickock, mando dela e pai de Richard Eugene Era um homem de
olhos desbotados, desiludidos,
157
e mos. Calosas; quando falava parecia que poucas vezes fazia uso da voz.
        O meu filho era perfeitamente normal, M r. Nye - declarou M r. Hickock. - Foi um atleta notvel, sempre na
primeira diviso do colgio. Basquetebol, beisebol, futebol! Dick era sempre o primeiro. E tambm um bom
estudante, com notas altas em vrias disciplinas: histria, desenho de mquinas. Depois de tirar o diploma, em
Junho de 1949, quis seguir para a Universidade estudar para engenheiro. Mas ns no tnhamos posses para
isso. Claro que no dispnhamos do dinheiro necessrio. A nossa quinta mede apenas quarenta e quatro
hectares, mal nos d para comer. Creio que Dick nunca se conformou com isso, com o facto de no ter ido
para a Universidade. O primeiro emprego que teve foi no Caminho-de-Ferro de Santa F, em Kansas Citv.
Ganhava setenta e cinco dlares por semana. Achou que era quanto bastava para se casar e por isso casou-se
com a Carol. Ela tinha s dezasseis anos mas ele j fizera dezanove. Sempre achei que aquilo no daria bom
resultado. Era j a minha opinio.
Mrs. Hickock, uma mulher gorducha, com um rosto liso e macio que uma vida inteira a trabalhar de manh 
noite no conseguira estragar, rebateu:
        Trs meninos encantadores, foi o resultado que aquilo deu, os nossos netos! E a Carol  uma ptima rapariga,
no h nada a censurar-lhe.
Mr. Hickock prosseguiu:
        Ele e a Carol alugaram uma casa de tamanho razovel, compraram um carro vistoso e ficaram logo crivados
de dvidas embora no tardasse que o Dick arranjasse um emprego mais rendoso, a conduzir a ambulncia do
hospital. Mais tarde, a Mark Buick Company, uma grande empresa do Kansas, contratou-o, como mecnico e
pintor de automveis. Mas o pior  que ele e a Carol faziam uma vida grande demais, sempre a comprarem
coisas que no podiam pagar e o Dick a passar constantemente cheques. Eu ainda hoje penso ter sido o
acidente que o levou a fazer falcatruas como esta. Deu uma pancada com a cabea num choque de automveis.
De ento para c nunca mais foi o mesmo rapaz. Passou a jogar e a passar cheques falsos. Coisas que nunca
fazia antes. E foi tambm nessa altura que se meteu com a outra rapariga. Por causa de quem se divorciou da
Carol, a sua primeira mulher.
Mrs. Hickock interrompeu.
        Disso no teve ele culpa nenhuma. Lembra-te de como a Margaret o no largava.
        Mas l porque uma mulher se atira a um homem segue-se 158
que ele se deva deixar prender? - interrogou Mr. Hickock. - pois bem, Mr. Nye, quero que o senhor fique a saber tudo a respeito do nosso rapaz. Sabe por que motivo 
o meteram na priso, durante dezassete meses? Apenas porque foi buscar uma espingarda caadeira a casa de um nosso vizinho.
No era inteno dele roub-la. No acredito em nada do que digam a esse respeito. Mas isso foi a sua runa. Quando voltou de Lansing, no era o mesmo rapaz. No 
se podia falar-lhe. O mundo inteiro era seu inimigo, pensava ele. At a segunda mulher o tinha abandonado, divorciara-se enquanto ele estava na cadeia. Seja como 
for, dali a algum tempo parecia ter querido assentar.
Trabalhava na loja do Bob Sands, em Olathe. Habitava aqui connosco, deitava-se cedo, no transgredia em nada a fiana. Garanto-lhe, Mr. Nye, pouco tempo me resta 
de vida; tenho um cancro, e o Dick sabe-o muito bem; de resto ele sabia que eu andava a passar mal, e ainda no h um ms, pouco antes de ir embora, ele me dizia: 
"Olha, pai, tu tens sido sempre bom para mim.
Nunca mais hei-de fazer nada que te d desgosto." Era sincero. Aquele rapaz tem muita coisa boa.
Se o senhor o visse alguma vez num campo de futebol, se o visse a brincar com os filhos, acreditava no que lhe digo. Meu Deus, s ele  que pode dizer o que lhe 
sucedeu, porque eu no sei!
A mulher objectou:
        Sei eu - voltara a massajar as meias, mas as lgrimas obrigaram-na a interromper o trabalho. - Foi aquele amigo! O que lhe sucedeu foi isso!
O visitante, o agente do F.B.I. Harold Nye, escrevia afanosamente num caderno de estenografia, j razoavelmente preenchido com o resultado das verificaes da histria 
de Floyd Wells. At  data, os factos confirmavam-na plenamente. A 20 de Novembro, o suspeito Richard Eugene Hickock fizera uma incurso pelas lojas de Kansas City, 
durante a qual distribura nada menos do que sete cheques sem cobertura. Nye, fora visitar todas as vtimas que constavam na lista - vendedores de mquinas de filmar, 
de aparelhos de rdio e de televiso, o proprietrio de uma joalharia, um caixeiro de uma loja de fatos feitos, e quando cada um destes vira as fotografias de Hickock 
e de Perry Edward Smith identificara-os imediatamente, o primeiro como sendo o autor do cheque falso e o segundo como o seu silencioso cmplice. (Um dos comerciantes 
burlados afirmara: "Ele (Hickock)  que fazia o trabalho. Tinha um grande palavreado, muito convincente. O outro, pensei que fosse estrangeiro, talvez mexicano, 
e nunca abriu a boca".) Nye dirigira-se depois a uma aldeia suburbana, Olathe, onde 159
entrevistara o ltimo patro de Hickock, o dono da Bob Sands Body Shop.
        Sim, ele esteve aqui empregado - afirmou M r. Sands - desde Agosto at... Bem, no voltei a v-lo depois do
dia 19 de Novembro, ou talvez 20, Foi se embora sem se despedir. Nem uma palavra. No sei para onde foi e
o pai dele tambm nada sabe. Se me admirei com o caso? Admirei, sim. Entendamo-nos muito bem. O Dick
tem um feitio muito especial. Quando quer, sabe fazer- se estimar. De vez em quando costumava ir a minha
casa A verdade  que, uma semana antes de se ir embora, demos uma pequena festa e o Dick esteve l com
aquele seu amigo do Nevada, chamado Perry Smith. Esse tocava muito bem guitarra. Tocou e cantou algumas
canes; ele e o Dick divertiram os meus convidados com uma sesso de levantamento de pesos. O Perry
Smith  baixote, pouco mais de metro e meio de altura, mas tem fora como um cavalo. No, nenhum deles
parecia nervoso. Pareceu-me mesmo que se tinham divertido. Qual a data exacta? Claro que sei. Foi no dia 13.
Sexta-feira, dia 13 de Novembro.
Dali, Nye dirigiu-se no seu carro para as estradas tortuosas do interior. Ao aproximar-se da quinta dos
Hickock, ia parando nas herdades vizinhas, a fim de fazer perguntas sobre o caminho a seguir mas na
realidade pretendia informar-se acerca do suspeito. Uma das mulheres a quem se dirigiu respondeu-lhe-
        O Dick Hickock? Nem me fale nesse tipo!  o diabo em pessoa! Se ele rouba? Era capaz de roubar os olhos
a uma pessoa! Contudo a me, a Eunice,  uma boa criatura. Tem um corao de ouro. E o pai tambm.
Ambos so pessoas simples e honestas. O Dick podia ter sido preso vezes sem conta, mas a gente aqui em
volta nunca quis fazer queixa dele, por respeito para com os pais A noite cara quando Nye bateu  porta de Walter Hickock, uma casa de campo, escurecida pelo tempo, 
composta de quatro compartimentos. Era como se ali esperassem a sua visita. M r. Hickock convidou-o a entrar para a cozinha e Mrs Hickock ofereceu-lhe caf. Talvez 
que se desconfiassem da verdadeira finalidade da visita, o acolhimento tivesse sido menos amvel e mais reservado. Mas eles no sabiam e, durante o tempo que estiveram 
conversando, o nome de Cluter nunca foi mencionado, nem to-pouco a palavra crime. Os pais aceitaram o que Nye dava a entender: que o motivo porque procurava o filho 
era a acusao de fraude e quebra de palavra.
        O Dick trouxe-o (Perry) aqui uma noite e disse tratar-se de um amigo que acabava de desembarcar do
autocarro de Las Vegas. Perguntava se podia demorar-se aqui um pouco e ficar c em 160
casa - disse Mrs. Hickock. - No senhor! Eu no o quis c em casa. Bastou-me olhar para ele. Com aquele
perfume e o cabelo empastado, tornava-se claro como gua o lugar onde Dick o conhecera. Segundo os termos
da fiana, ele no devia acompanhar com ningum que tivesse conhecido l (em Lansing). Eu avisei o Dick,
mas ele no me quis ouvir. Arranjou quarto para o amigo no Hotel Olathe, na cidade, e depois disto andou
sempre com ele durante o tempo que tinha livre. A certa altura foram dar um passeio no fim-de-semana. To
certo como eu estar aqui, Mr. Nye, foi esse tal Perry Smith quem lhe meteu em cabea assinar os cheques
falsos.
Nye fechou o livro de apontamentos, guardou a caneta e meteu as mos nos bolsos, pois sentia que elas lhe
tremiam de excitao.
        E nesse passeio de fim-de-semana, onde foram eles?
        A Fort Scott - informou Mr. Hickock, referindo-se a uma cidade do Kansas com passado histrico. - Pelo que
fiquei a perceber, o Perry Smith tem uma irm que vive l. Parece que devia ao irmo uns dinheiros, falaram
em mil e quinhentos dlares. Era essa a principal razo da vinda dele ao Kansas, receber o dinheiro que a irm
lhe devia. Ento o Dick levou-o l. Demoraram-se s de um dia para o outro. No domingo, s 12 horas,
estavam c. Ainda vieram almoar.
        Compreendo - disse Nye. - S de um dia para o outro. Isso quer dizer que saram daqui no sbado, a uma
hora qualquer. Foi naquele sbado, 14 de Novembro? O velho confirmou.
        E voltaram no domingo, dia 15?
        No domingo ao meio-dia.
Nye ponderou o problema de tempo e ficou animado ao chegar  concluso de que, dentro de um espao de
vinte e quatro horas, os suspeitos poderiam ter feito um percurso de ida e volta de mais de oitocentas milhas,
matando de passagem quatro pessoas.
        Agora, diga-me, Mr. Hickock - pediu Nye. - No domingo, quando o seu filho -voltou, vinha s? Ou Perry
Smith regressou tambm com ele?
        No, vinha s. Disse que o Perry ficara no Hotel Olathe.
Nye, cujo tom de voz normal era seco, nasalado e naturalmente intimidante, fazia neste momento um esforo
para falar num timbre moderado, num estilo tranquilizador e intimo:
        Recorda-se de ter notado no seu filho... qualquer atitude menos normal? Qualquer diferena?
        Em quem?
161
        No seu filho.
        Quando?
        Quando voltou de Fort Scott. Mr. Hickock cogitou e depois disse:
        Pareceu-me na forma do costume. Mal chegou, sentou-se  mesa para almoar. Vinha cheio de fome.
Comeou a encher o prato at s bordas antes de eu acabar a orao. Fiz-lho notar e disse: "Dick, ests a
servir-te  toa. No tencionas deixar nada para ns?"  certo que ele foi sempre um grande comilo. S de
pickles  capaz de comer um frasco de cada vez.
        E no fim do almoo que fez ele?
        Adormeceu - replicou Mr. Hickock, que parecia ele prprio um bocado surpreendido com a sua resposta.
Adormeceu logo. Talvez o senhor ache isto anormal. Tnhamo-nos reunido todos para assistirmos  transmisso pela TV de um jogo de basquetebol. Eu, o Dick e o nosso 
outro filho. No tardou que o Dick ressonasse como uma locomotiva e eu at disse para o irmo: "Santo Deus, nunca julguei possvel ver o Dick a dormir em frente 
de um jogo de basquetebol." Mas foi assim mesmo. Dormiu todo o tempo. S acordou para comer qualquer coisa fria ao jantar e foi logo para a cama.
Mrs. Hickock voltara a enfiar a agulha: o marido balouava-se na cadeira, a chupar num cachimbo apagado.
Os olhos bem treinados do detective vasculhavam a sala modesta e bem limpa. Num canto via-se uma
carabina encostada  parede: ele j reparara nela antes. Ao erguer-se pegou-lhe e inquiriu:
        Vai muito  caa, Mr. Hickock?
        Essa carabina  dele, do Dick. Ele e o David  que vo, de vez em quando,  caa. Sobretudo aos coelhos.
Era de 12 milmetros, modelo 300: tinha como ornamento uma cena de caa ao faiso finamente cinzelada.
        H quanto tempo tem ele esta carabina? A pergunta irritou Mrs. Hickock:
        Esta carabina custou mais de cem dlares. O Dick comprou-a a crdito e agora a loja no a quer receber,
muito embora tenha sido comprada h menos de um ms e fosse usada uma vez apenas no princpio de
Novembro, quando ele e David foram a Grinnel a uma caada ao faiso. Ele serviu-se do nosso nome para a
comprar, o pai deu-lhe licena e agora c estamos ns para ficar responsveis pelos pagamentos; o Walter
assim doente, e ns a precisarmos de tanta coisa, a passarmos sem tudo... - susteve a respirao como quem
quer dominar um ataque de soluos.
        Ento no quer mesmo uma chvena de caf, Mr. Nye? No nos custa nada...
162
O detective encostou a arma  parede, largando-a apesar da certeza de que fora aquela a arma que matara toda
a famlia Clutter.
        Obrigado, mas  tarde e ainda tenho de ir a Topeka - respondeu ele, acrescentando depois de consultar a
agenda: - S quero recapitular isto para ver se est tudo certo. Perry Smith chegou ao Kansas na quinta-feira,
12 de Novembro. O vosso filho declarou que ele viera ca para receber uns dinheiros de uma irm residente em
Fort Scott. Nesse sbado os dois foram de carro a Fort Scott, onde passaram a noite, provavelmente em casa
dessa irm?
Mr. Hickock declarou:
        No, no conseguiram encontr-la Parece que se tinha mudado dali.
Nye, sorriu:
        No importa. Passaram l a noite. E durante a semana que se seguiu, isto , de quinze a vinte e um, Dick
continuou a encontrar-se com o amigo Perry Smith. Fora isto, na vossa opinio, fazia a mesma vida do
costume: vivia aqui em casa e ia para o trabalho todos os dias. No dia vinte e um desapareceu, bem como u
Perry Smith. Desde ento no voltaram a saber dele; Nunca vos escreveu i
        Tem medo - objectou a senhora Hickock. - Tem medo e vergonha.
        Vergonha ?
        Daquilo que fez. De nos ter de novo causado desgostos, tem medo porque julga que ns no lhe perdoamos
como perdomos das outras vezes. Mas o que faremos. O senhor tem filhos, Mr. Nye? O detective acenou que sim.
        Ento sabe como so estas coisas.
        S mais uma pergunta. Os senhores tem alguma ideia, mesmo vaga, acerca do stio onde ele possa encontrarse?
        Abra um mapa respondeu Mr. Hickock Aponte com o dedo e pode ser que acerte.
Estava-se no fim da tarde e o motorista, um caixeiro viajante j de certa idade, a quem chamaremos aqui Mr.
Bell, sentia-se cansado. Desejara parar para dormir um sono No entanto, faltavam-lhe apenas umas cem
milhas para chegar ao seu destino Omaha, no Nebrasca, sede da guinde companhia de carnes enlatadas para a
qual trabalhava. Havia uma regra na companhia que proibia levar gente  boleia, mas Mr. Bell desobedecia
Ihi. Muitas vezes, sobretudo
163
quando se sentia cansado e sonolento, por isso, ao ver os dois rapazes na berma da estrada, travou imediatamente.
Pareceram-lhe "rapazes fixes". O mais alto dos dois, um tipo magro, de cabelos louro-sujo, cortados 
"magala", tinha um sorriso cativante e maneiras delicadas. O "atarracado", que tinha uma harmnica na mo
direita e na outra uma mala de vime a abarrotar, "pareceu-me envergonhado mas bastante simptico". Fosse
como fosse Mr. Bell, que nem por sombras descortinou as intenes dos seus passageiros, que consistiam,
entre outras coisas, em o estrangular com um cinto, abandon-lo, roubar-lhe o carro e o dinheiro, deixando-o
depois a apodrecer num prado, ficou satisfeito por ter companhia, algum com quem falar e que o ajudasse a
manter-se acordado, at chegarem a Omaha.
Apresentou-se e perguntou-lhes os nomes. O mais amvel dos dois, que se sentara junto dele no banco da
frente, disse chamar-se Dick.
E aquele  o Perry disse piscando o olho na direco do amigo, que tomara lugar mesmo atrs do motorista.
        Posso lev-los at Omaha. Dick respondeu:
        Muito obrigado.  mesmo para l que nos dirigimos. Esperamos arranjar a trabalho.
O viajante quis saber que emprego pretendiam, pois talvez pudesse ajud-los. Dick respondeu:
        Eu sou um bom pintor de automveis e tambm mecnico. Estou habituado a ganhar bem. Eu e o meu
companheiro vimos do Mxico. Era nossa inteno ficarmos por l, mas no pagam nada que se veja. Com
aqueles salrios no se pode viver.
Ah, o Mxico? Mr. Bell, contou-lhes que estivera l durante a viagem de npcias, em Cuernavaca.
        Temos sempre desejo de l voltar, mas torna-se difcil viajar quando se tem cinco garotos.
Perry pensou logo, segundo confessou mais tarde: "Cinco filhos! Pouca sorte!" E, ao ouvir a conversa
despreocupada de Dick, que comeara a falar do Mxico e a contar as suas "conquistas amorosas", achou que
ele era um rapaz "estranho", "egomanaco". Imagine-se s, dar-se ao trabalho de impressionar um homem que
ia liquidar dali a pouco, que no teria mais do que dez minutos de vida, se acaso o plano que ambos haviam
elaborado fosse seguido  risca. E porque no? O local era estupendo, precisamente aquilo que procuravam de
h trs dias para c, desde que vinham viajando  boleia da Califrnia at ao Nevada, e dali pelo Wyoming at
ao Nebrasca. Mas por enquanto no haviam
164
encontrado uma nica vtima aceitvel. Mr, Bell era o primeiro viajante solitrio com aspecto prspero a
oferecer-lhes boleia. Os outros haviam sido motoristas ou soldados e um par de negros lutadores profissionais
que viajavam num Cadillac cor de alfazema. Porm este Mr. Bell estava mesmo a calhar. Perry apalpou o
bolso interior do colete de cabedal que trazia vestido. Este bolso encontrava-se a abarrotar com um frasco de
aspirina Bayer, um calhau pontiagudo, do tamanho de um polegar, embrulhado num leno de cowboy de
algodo amarelo. Desapertou o cinto, um cinto Navajo, de fivela de prata e cravejado de pedras azuis: tirou-o,
dobrou-o e colocou-o sobre os joelhos. E esperou. Observava a plancie do Nebrasca que se desenrolava
diante dos seus olhos e ps-se a tocar harmnica,  espera que Dick lhe lanasse o sinal combinado. " Eh,
Perry, passa-me da um fsforo". Nesta altura Dick apossar-se-ia do volante e ele, Perry, empunhando a pedra
embrulhada no leno, atacaria a cabea do viajante, "abrindo-lha". Mais tarde, numa estrada secundria,
entraria em aco o cinto cravejado de pedras azuis.
Entretanto, Dick e o homem condenado  morte contavam um ao outro piadas obscenas. O riso deles irritava
Perry; aborreciam-no especialmente as gargalhadas de Mr. Bell - risadas francas que se assemelhavam muito
as de Tex John Smith, o pai de Perry. A recordao do riso do pai aumentou lhe a tenso nervosa: doa-lhe a
cabea, bem como os joelhos. Chupou trs aspirinas e engoliu-as a seco. Santo Deus! Julgou que vomitava ou
ia desmaiar; achava que Dick estava a prolongar de mais "a coisa". A luz diminua, a estrada seguia a direito,
sem rvores nem casas  vista, nada a no ser a terra escurecida pelo Inverno e negra como uma chapa de
ferro. Era a altura, agora! Olhou para Dick, como para lhe comunicar esta concluso, que este percebera j
mediante uns certos sinais: uma tremura na plpebra, o rosto coberto de gotas de suor - viu que Dick chegara
tambm a mesma concluso
E no entanto, quando falou de novo, foi apenas para largar outra piada:
        Sabe esta? Qual  a semelhana entre uma ida ao quarto de banho e uma ida para o cemitrio? - E ria. - No
adivinha"''
        Desisto.
        Quando temos de ir, temos de ir mesmo! Mr. Bell deu uma gargalhada.
        Eh, Perry, passa da um fsforo!
Porm no momento em que Perry erguia a mo e o calhau estava prestes a descer sobre a cabea da vtima,
aconteceu uma coisa extraordinria, aquilo a que Perry chamou "um milagre 165
diablico". Esse milagre foi a sbita apario de um terceiro viajante a pedir boleia, um soldado negro, o que
levou o caridoso M r. Bell a parar mais uma vez,
        Essa  muito boa! - repetia ele ainda a rir, enquanto o soldado se aproximava correndo. - Quando temos de ir,
temos de ir mesmo!
Dia 16 de Novembro, em Las Vegas. Como o tempo e o sol haviam apagado a tabuleta onde outrora se lia
PENSO VILA FLOR, apenas se lia esta elucidativa inscrio: PENSO VIL... que parecia bem apropriada
ao edifcio que designava e que Harold Nye descrevia no seu relatrio oficial para o F. B. I. Como sendo
"desmantelado e srdido, do tipo mais inferior que se possa imaginar no gnero penso ou casa de quartos de
aluguer". O relatrio 'prosseguia: "At h poucos anos, segundo informaes da Polcia de Las Vegas, foi um
dos maiores bordis do Oeste. O fogo destruiu o edifcio principal e a parte restante foi convertida numa
penso barata." O vestbulo no continha mobilirio, a no ser uma planta de cacto com cerca de dois metros
de altura e uma secretria improvisada para a recepo: encontrava-se sempre deserto. O detective bateu as
palmas, at que uma voz de mulher, mas nada feminina, gritou de longe: "J l vai!" Mas s dali a cinco
minutos a mulher apareceu. Trazia um roupo cheio de ndoas, sandlias de salto alto de cabedal dourado. O
cabelo ralo e desbotado estava metido em bigudis. Tinha uma cara larga, musculosa, coberta de rouge e p-dearroz.
Trazia na mo uma lata de cerveja Miller High Life; cheirava a cerveja, a tabaco e a verniz das unhas
acabado de aplicar. Contava setenta e quatro anos, mas, na opinio de Nye, "parecia mais nova... talvez dez
minutos". Olhou para ele, com o seu fato escuro impecvel e o seu chapu de abas curtas. Quando viu a
insgnia, pareceu divertida: entreabriu a boca e Nye avistou duas filas de dentes postios.
        Hum, hum! J esperava por essa - declarou. - O. K. Diga l1 Ele mostrou-lhe uma fotografia de Richard
Hickock.
Conhece este?
A mulher resmungou uma negativa.
        E este?
Ela respondeu:
        Hum, hum! Esse esteve c uns tempos. Mas agora no est. Saiu h um ms. Quer ver o registo? Nye inclinou-se sobre a secretria e ficou-se a ver as unhas 
pintadas e compridas da senhoria a procurar numa pgina de nomes
166
escritos a lpis. Las Vegas era a primeira de trs cidades que os superiores o tinham mandado visitar. Cada
uma delas fora escolhida por estar relacionada com Perry Smith. As duas outras eram Reno, onde se julgava
que vivia o pai, e S. Francisco, onde habitava a irm, a quem chamaremos aqui Mrs. Frederic Johnson. Muito
embora Nye projectasse entrevistar estes parentes e qualquer outra pessoa que lhe pudesse dar indicaes
acerca do paradeiro do suspeito, o seu principal objectivo era obter o auxlio das autoridades locais. Ao chegar
a Las Vegas, por exemplo, discutira o caso Clutter com o tenente B. J. Handlon, chefe da Diviso dos
Detectives do Departamento de Polcia de Las Vegas. O tenente escrevera uma ordem dirigida a todo o
pessoal da Polcia para estar de preveno a fim de ajudar na captura de Hickock e Smith: "Procurados no
Kansas por violao da palavra e que se julga viajarem num Chevrolet de 1949, com matrcula do Kansas JO-
58269. Estes homens encontram-se provavelmente armados e devem ser considerados perigosos." Hadlon
nomeara tambm um detective para auxiliar Nye naquele "caso de penhoristas" ; segundo ele afirmara, "haviaos
aos montes em todas as cidades capitais do jogo". Nye e o detective de Las Vegas tinham passado revista a
todas as cautelas de penhores datadas do ms anterior. Na realidade, Nye esperava encontrar alguma referente
a um rdio porttil marca Zenitb roubado da casa dos Clutters na noite do crime. Mas nisso no teve sorte. Um
dos penhoristas, no entanto, recordava-se de Smith. ("Ele tem aparecido por a de vez em quando nestes
ltimos dez anos.") E mostrou-lhe uma cautela de uma manta de pele de urso empenhada no passado ms de
Novembro. Foi por essa cautela que Nye ficou sabendo a direco da casa que alugava quartos.
        Entrou para aqui a 30 de Outubro - declarou a senhoria. E saiu a 11 de Novembro.
Nye olhou para a assinatura de Smith, com todas as suas complicaes, curvas e floreados que o deixavam
surpreendido. A velha percebeu por certo esta surpresa, porque acrescentou:
        E s queria que o ouvisse falar. Dizia palavras difceis e muito compridas, numa voz a modos que sussurrada
e cava. Era um bom ponto. Mas que mal fez ele, esse pobre diabo to simptico?
        Falta de cumprimento da fiana.
        Hum, hum. E o senhor veio l do Kansas atrs dele s por causa de uma coisa dessas! Ora bem, eu sou uma
velha maluca, por isso acredito. Mas no v contar essa s novas, porque ningum a come. - Ergueu a lata da
cerveja e esvziou-a de um trago. Depois ficou a faz-la girar, com um ar pensativo, entre as 167
mos engelhadas e cobertas de sardas. - Seja l por que motivo for, no pode ser nada de importante . No
quero crer. O outro, nunca o vi, por isso no sei do que ele seria capaz. Mas este no passa de um patifrio. O
maroto queria-me comer a renda da ltima semana que aqui passou! - e ria, provavelmente do absurdo de
semelhante ideia.
O detective perguntou quanto era a renda do quarto de Smith.
O preo do costume, nove dlares por semana, mais um depsito de cinquenta cntimos Ali bem contado. E
pago adiantadamente.
        Em que se ocupava ele enquanto aqui esteve? Tinha algum amigo? O senhor acha que eu vou andar a vigiar todos os mecos que por aqui passam! - retorquiu a 
senhoria. - So vadios ou mariolas. No me interessam. Eu c tenho uma filha muito bem casada! - Depois acrescentou: - No, este no tinha amigos. Pelo menos nunca 
o vi andar por ai com ningum de especial. Da ltima vez que aqui esteve passou a maior parte do tempo a consertar o automvel. Tinha-o parado aqui na frente. Era 
um Ford muito velho. Devia ter sido fabricado antes de o dono nascer. Ele pintou-o todo. A parte de cima de preto e a de baixo prateado. Depois escreveu-lhe no pra-brisas 
"Vende-se". Um dia ouvi parar aqui um palerma que lhe ofereceu por ele quarenta dlares. O calhambeque no valia nem um. Mas ele declarou que no o podia vender 
por menos de noventa. Precisava do dinheiro para um bilhete de autocarro. Pouco antes de ele se ir embora ouvi contar que tinha vendido o carro a um preto.
        Ele disse que precisava do dinheiro paraum bilhete de au tocarro? No sabe para onde? A mulher cerrou os lbios, espetou entre eles um cigarro, sempre sem 
desfitar Nye.
        Ponha as cartas na mesa, se eu falar ganho alguma coisa com isso? Do-me alguma recompensa - Esperou
pela resposta, mas esta no veio. A velha pareceu ponderar os prs e os contras, decidiu-se a falar: - Tenho c
uma ideia de que no tencionava demorar-se onde quer que seja. Tencionava voltar para aqui. Indicou com a
cabea o interior da casa - Venha da, vou mostrar-lhe uma coisa que lhe explicar porque digo isto.
Escadas. Paredes enegrecidas. Nye aspirava vrios cheiros tentando diferen-los uns dos outros: desinfectante
de casa de banho, lcool, cigarros apagados. Atrs de uma porta fechada um hspede bbedo ora gemia, ora
cantava, to depressa feliz como amargurado.
168
        Acaba com isso, Holands! Cala-te, seno vais para o olho da rua! - gritou-lhe a mulher. -  aqui - disse para
Nye, fazendo-o entrar num quarto escuro de arrumaes. Acendeu a luz. Olhe aqui.  esta caixa. Ele pediu-me
se lha guardava at voltar.
Tratava-se de uma caixa de carto por embrulhar mas atada com um cordel. Sobre a tampa estava escrito a
lpis um aviso no gnero daquela praga egpcia: "Cuidado! Isto pertence a Perry E. Smith. Cuidado!" Nye
desatou o cordel; verificou com desgosto que o n no era o mesmo que os assassinos haviam empregado para
amarrar a famlia Clutter. Abriu as tampas. L de dentro saiu uma barata que a senhoria se apressou a
esborrachar com o taco da sandlia dourada.
        Olha! - exclamou ela, enquanto o detective tirava e examinava com todo o cuidado os pertences de Smith. -
O ladrozito! Esta toalha  minha!
Alm da toalha, Nye ia assentando meticulosamente na sua agenda: "Uma almofada suja que tem escrito
Souvemr de Honolnlu; um cobertor cor-de-rosa de beb; um par de calas de caqui; uma sert de alumnio
com o respectivo garfo de voltar os fritos." Havia ainda outros objectos, como seja um livro de assentos cheio
de recortes de revistas de cultura fsica (estudos ensebados sobre levantamento de pesos e seus praticantes e,
dentro de uma caixa de sapatos, uma poro de remdios: bochechos e ps para combater a gengivite e
tambm uma estranha quantidade de frascos de aspirina, pelo menos doze, alguns j vazios.
        porcarias - comentou a dona da casa. - S sucata!  certo que aquilo no apresentava o menor interesse, mesmo para um detective com falta de provas. No 
entanto Nye sentia-se satisfeito por ter visto cada um daqueles objectos: os remdios para as gengivas, a almofada ensebada, tudo lhe dava a impresso de ter ficado 
a conhecer melhor o heri daquela vida solitria e mesquinha.
No segundo dia passado em Reno, ao redigir as suas notas oficiais, Nye escrevia: "s nove da manh o autor
deste relatrio contactou com Mr. Bill Driscoll, chefe das investigaes criminais, no gabinete do xerife, no
condado de Washoe, Reno, Nevada. Ao ser posto ao corrente das circunstncias deste caso, forneceram-se
igualmente a Mr. Driscoll as fotografias, as impresses digitais e outros indcios referentes a Hickock e a
Smith. Foi dada ordem para deter estes dois indivduos bem como o seu carro. s dez e trinta o autor deste
relatrio contactou com o sargento Abe Feroah, detective da diviso do Departamento da Polcia de Reno,
Nevada. O sargento Feroah e o autor deste relatrio verificaram as fichas da polcia. No constava delas
nenhum
169
nome de Smith nem Hickock. Idntica revista passada nas lojas de penhores tambm no deu qualquer
resultado com respeito ao rdio roubado. As cautelas de penhores ficaram sob controlo permanente da polcia,
para o caso de o rdio vir a ser empenhado aqui em Reno. O detective encarregado das casas de penhores
mostrou fotografias de Smith e de Hickock a todos os penhoristas da cidade e deu uma busca a todas as casas
de penhor em procura do rdio. Os penhoristas identificaram Smith como sendo seu conhecido, mas mostraram-se incapazes de fornecer mais qualquer informao." Isto, 
quanto  manh. Nessa mesma tarde, Nye partiu em busca de Tex John Smith. Mas logo na primeira paragem, ou seja nos Correios, o empregado da distribuio geral preveniu-o 
de que no valia a pena procurar mais, pelo menos no Nevada, porque "o indivduo" sara dali no ms de Agosto anterior e vivia agora nos arredores de Circle City, 
Alasca. Para a, pelo menos,  que lhe enviavam o correio.
        Isso agora  mais difcil de dizer - respondeu o empregado quando o detective lhe pediu que fizesse uma
descrio do pai de Smith.
        O tipo parece tirado de um livro. Chama-se a si prprio "Lobo Solitrio". Grande parte do correio dele vem
assim endereado: "Lobo Solitrio". Recebe poucas cartas, mas antes montes de catlogos e panfletos com
anncios. No calcula a quantidade de pessoas que pedem coisas nesse gnero s para terem o prazer de
receber correio, com toda a certeza. Que idade tem ele? Calculo que os seus sessenta anos. Veste  moda do
Oeste: botas de cowboy de cano alto. Disse-me que dantes trabalhava nos rodeos. Eu costumav a conversar
muito com ele. Nos ltimos anos vinha sempre aqui quase todos os dias. De vez em quando desaparecia
durante um ms ou dois, e explicava sempre que andara a fazer prospeces. Um dia, no passado ms de
Agosto, apresentou-se um tipo aqui ao guichet. Dizia que vinha  procura do pai, Tex John Smith, e perguntou-me se eu sabia onde ele parava. No era nada parecido 
com o velhote: o Lobo tem os lbios finos e o tipo irlands e o rapaz parecia quase de pura raa ndia: cabelos negros como a graxa e olhos da mesma cor.
Mas na manh seguinte veio c o Lobo e disse que era verdade: que o filho acabava de deixar a tropa e que
iam ambos para o Alasca. Ele  um velho explorador do Alasca. Acho que teve em tempos por l um motel ou
pousada de caa, no sei bem. Declarou que devia demorar-se uns dois anos. No, depois disso nunca mais o
vi.        Nem a ele nem ao filho.
170
A famlia Johnson mudara-se havia pouco para aquele bairro de S. Francisco - um bairro de casas econmicas, para a classe mdia, situado nas colinas ao norte da 
cidade. Na tarde de 18 de Dezembro de 1959, a jovem Mrs. Johnson esperava visitas; trs vvizinhas que vinham tomar caf com bolos e possivelmente jogar s cartas. 
A rapariga estava nervosa. Era a primeira vez que recebia na sua nova casa. Neste momento, enquanto esperava que tocassem  porta, deu uma volta final, arranjando 
aqui uma haste de verdura compondo ali uma flor. A casa, tal como as outras daquela rua em ladeira, era do estilo convencional, tipo rancho, cmoda e vulgar. Mrs. 
Johnson gostava muito dela; adorava o lambrim de madeira avermelhada, as alcatifas, as janelas panormicas na frente e nas traseiras, a vista que dali se disfrutava; 
vales, colinas, o cu e o mar.
Fazia gosto no jardinzinho; o marido, agente de seguros e carpinteiro nas horas vagas, construralhe em volta uma paliada de ripas pintadas de branco, uma casota 
para o co, uma caixa com areia para as crianas brincarem e balouos. Neste instante, todos quatro: o co, dois rapazinhos e uma menina, andavam l fora sob o cu 
ameno. A me esperava que se conservassem ali enquanto ela tivesse as visitas em casa. Quando a campainha tocou e Mrs. Johnson se dirigiu para a porta, levava o 
vestido que julgava favorec-la mais do que todos os outros: de tricot amarelo, bastante justo, fazendo realar-lhe o moreno da pele e o negro dos cabelos, curtos 
e encaracolados. Abriu a porta, pronta a mandar entrar as trs vizinhas. Em lugar destas avistou dois desconhecidos, que levaram a mo aos chapus e lhe mostraram 
as insgnias da Polcia dentro das carteiras de cabedal.
        E Mrs. Johnson? - inquiriu um deles. - Eu sou o inspector Nye. Este  o inspector Guthrie.
Trabalhamos de colaborao com a Polcia de S. Francisco e acabmos de receber um pedido de inqurito referente ao seu irmo Perry Edward Smith. Parece que ele deixou 
de comparecer no Comando da Polcia conforme constava da fiana e gostaramos de saber' se a senhora nos poderia dar qualquer informao quanto ao seu paradeiro.
Mrs. Johnson no ficou perturbada e, ao cabo e ao resto, nada surpreendida com o facto de a polcia se mostrar mais uma vez interessada nas actividades do irmo. 
O que a preocupava era ter visitas que poderiam vir encontr-la a contas com os detectives E respondeu:
        No, no sei nada. H anos que no vejo o Perry.
        Isto  um caso srio, Mrs. Johnson. Gostaramos de conversar um pouco consigo - declarou Nye.
No tendo outro remdio seno submeter-se, e depois de ter 1 71
mandado entrar os dois homens a quem ofereceu caf, o qual ambos aceitaram, Mrs. Johnson declarou:
        No vejo o Perry h quatro anos. Nem voltei a saber dele depois que foi solto. No Vero passado, a seguir a
ter sado da priso, ele veio visitar o meu pai a Reno. O meu pai contou-me numa carta que ia voltar para o
Alasca e levava o Perry consigo. Depois escreveu de novo e mostrava-se muito zangado. Tinha-se incompatibilizado com o Perry e cada um fora para seu lado antes de 
chegarem  fronteira. O Perry voltou para trs. O meu pai prosseguiu sozinho para o Alasca.
        E ele no voltou a escrever-lhe depois disso? -No.
        Ento  possvel que o seu irmo se lhe tenha ido juntar h pouco. No ms passado, por exemplo.
        Isso no sei nem me interessa.
        Esto de relaes cortadas?
        Eu e o Perry? Sim, mais ou menos. Tenho medo dele.
Mas quando ele esteve em Lansing escreviam-se com frequncia. Pelo menos foi o que nos disseram as
autoridades de l
        informou Nye. O outro, o inspector Guthrie, parecia dar-se por satisfeito com o seu papel de espectador.
        Eu desejava fazer alguma coisa por ele. Esperava que mudasse de ideias. Agora no estou para me ralar. Os
direitos dos outros no interessam ao Perry. No tem respeito por ningum.
        E quanto a amigos, no faz ideia de algum com quem ele possa estar?
        O Joe James - disse ela. E explicou que esse tal James era um jovem lenhador ndio que vivia na floresta
perto de Bellingham, em Washington. No, ela no o conhecia pessoalmente, mas ouvira dizer que ele e a sua
famlia eram pessoas caridosas que haviam protegido Perry muitas vezes noutros tempos. A nica pessoa
amiga de Perry que realmente conhecera fora uma rapariga que lhe viera bater  porta em Junho de 1955,
trazendo uma carta de Perry, na qual ele a apresentava como sua mulher. Afirmava que ele precisava de
auxlio e pedia-lhe que tomasse conta dela enquanto ele a no mandava chamar. A rapariga aparentava vinte
anos. Ao cabo e ao resto, s tinha catorze. E claro que no estavam nada casados! Mas nessa altura fui na fita.
Tive pena dela e convidei-a c para casa. Ela ficou, mas no por muito tempo. E quando se foi embora levou
consigo duas das nossas malas com tudo o que pde meter-lhes dentro, roupas minhas e do meu marido, pratas
e at o relgio da cozinha.
        Quando isso aconteceu onde viviam os senhores?
        Em Denvcr.
172
        Alguma vez habitou em Fort Scott, no Kansas?
        Nunca fui ao Kansas.
        Tem alguma irm em Fort Scott?
        A minha irm morreu. No tenho outra. Nye, sorriu e disse: Compreende, Mrs. Johnson, que fazemos isto na esperana de que o seu irmo venha a contactar 
consigo, escreva ou telefone ou aparea por a.
        Deus queira que no! Na verdade ele nem sequer sabe que mudmos para aqui. Julga-me ainda em Denver. Peo-lhe por tudo, se acaso o encontrar, que no lhe 
d a minha direco, tenho medo dele.
        Quando diz isso  porque receia que ele lhe faa algum mal? Isto , fisicamente? Ela pensou um pouco, incapaz de discernir, at que afirmou no saber ao 
certo:
        Mas tenho medo dele. Sempre tive. Ele  capaz de se fingir muito compreensivo. Amvel at.
Chora com muita facilidade. Por vezes a msica impressiona-o e quando era pequeno costumava chorar quando achava um pr do Sol bonito. Ou ento o luar. Oh,  muito 
capaz de lhes comer as papas na cabea. Faz que tenham d dele e depois...
A campainha da porta tocou. A relutncia de Mrs. Johnson em responder traduzia o seu dilema e Nye (que mais tarde escreveria a respeito dela: "Durante toda a entrevista 
mostrou-se sempre calma e graciosa. Uma pessoa de um carcter excepcional") pegou no chapu castanho de aba curta:
        Desculpe t-la incomodado, Mrs. Johnson. Mas se souber alguma coisa de Perry espero que tenha o bom-senso de nos comunicar. Pergunte pelo inspector Guthrie.
Depois da partida dos detectives, a compostura que tanto impressionara Nye desapareceu por completo, dando lugar a um desespero j antigo. A rapariga tentou reagir, 
dominou-se at ao fim da tarde, depois de as amigas se terem ido embora. Deu o jantar s crianas, bem como o banho, ouviu estas fazerem as suas oraes. Ento a 
tristeza, tal como a nvoa martima que no Vero envolve,  noite, os candeeiros das ruas, abateu-se sobre ela. Afirmara ter medo de Perry e era verdade, mas seria 
apenas a pessoa dele que temia ou antes um todo de que o irmo fazia parte - aquele destino horrvel que parecia inevitvel a todos os filhos de Florence Buckskin 
e Tex John Smith? O mais velho, o seu irmo preferido, dera um tiro na cabea; Fem cara de uma janela, ou atirara-se: e Perry era dado  violncia, um autntico 
criminoso. Assim, num certo sentido, s escapava ela. E o que a
173
atormentava era a ideia de que viria o tempo em que tambm ela havia de sucumbir de endoidecer, de contrair uma doena incurvel ou perder num incndio tudo aquilo 
que amava: casa, marido e filhos.
O marido andava por fora, em viagem de negcios, e quando estava sozinha ela nunca pensava em beber qualquer lcool. Mas nessa noite preparou uma bebida forte e 
depois deitou-se no sof da sala com um lbum de fotografias aberto nos joelhos.
Na primeira pgina havia um retrato do pai, tirado num estdio, em 1922, ano em que se casara com a jovem artista de rodeo Miss Florence Buckskin. Este retrato encantava 
sempre Mrs.
Johnson. Fazia-a compreender o motivo que levara a me a casar com ele, quando eram aparentemente to diferentes um do outro. O jovem do retrato possua uma vivacidade 
mscula extraordinria. Tudo, a inclinao da cabea ruiva, o olho esquerdo ligeiramente pisco (como se estivesse sempre a apontar para o alvo), o pequeno leno 
de cowboy atado ao pescoo, tudo isto o tornava atraente. Ao cabo e ao resto, a atitude de Mrs. Johnson em face do pai era ambivalente, porm uma coisa sempre respeitara 
nele: a sua coragem. Sabia perfeitamente como ele podia parecer excntrico aos olhos dos outros, pois que tambm se lhe afigurava excntrico a ela. Mesmo assim, 
era um "verdadeiro homem". Conseguia fazer inmeras coisas com a maior facilidade. Era capaz de deitar abaixo uma rvore obrigando-a a cair precisamente onde queria. 
Sabia esfolar um urso, consertar um relgio, construir uma casa, fazer um bolo, remendar uma meia ou pescar uma truta com um alfinete dobrado e uma guita. Passara 
um Inverno inteiro sozinho, na desolao do Alasca.
Sozinhos: na opinio de Mrs. Johnson era assim que os homens daquela tmpera deviam viver.
Mulheres, filhos, uma vida
inspida, no eram coisas prprias para eles.
Voltou algumas pginas cheias de instantneos da sua infncia tirados em utha, no Nevada, no Idaho e no Oregon. A carreira
de "Tex & Fio" terminara havia muito e a famlia, habitando um velho camio, percorria o pas  procura de trabalho, coisa difcil de encontrar em 1933. "Tex John 
Smith e famlia apanhando amoras no Oregon em 1933", era a legenda que se via sob um dos instantneos representando quatro crianas descalas, de cales de ganga, 
com os rostos fatigados e contrados. Amoras ou po duro em sopas de leite condensado era a comida deles. Brbara Johnson recordava-se de, a certa altura, terem 
apenas para se alimentar bananas sorvadas e de que em resultado disto Perry sofrera uma clica: gritara a noite inteira enquanto Bobo, o nome que davam a Brbara, 
chorava por julgar que ele ia morrer.
174
Bobo, trs anos mais velha do que Perry, adorava-o: era ele o seu nico brinquedo, um boneco que penteava e beijava e em quem por vezes batia. Havia um retrato dos 
dois juntos a tomarem banho nus num afluente do Colorado, de guas prateadas: o garoto, com uma barriga enorme, um cupido queimado pelo sol, a agarrar na mo da 
irm e a rir como se o regato travesso tivesse dedos que lhe fizessem ccegas. Noutro instantneo, Mrs. Johnson no tinha a certeza, mas julgava ter sido tirado 
num rancho distante do Nevada onde a famlia estivera alojada na altura em que se travara entre os pais a batalha final (uma luta terrvel em que as armas empregadas 
haviam sido chicotes, gua a ferver e candeeiros de petrleo), ela e Perry esto a cavalo num pnei que as armas empregadas haviam sido chicotes, agua a ferver e 
candeeiros de petrleo), ela e Perry esto a cavalo num pnei com as cabeas juntas e as faces a tocarem-se; atrs deles, as montanhas secas e escaldantes.
Mais tarde, quando a me e os filhos tinham ido viver para S. Francisco, o amor de Bobo pelo rapazinho diminura at se extinguir por completo. Deixara de ser o 
seu menino para se transformar num bicho selvagem, um gatuno, um ladro. O primeiro furto de que tinha memria datava do seu oitavo aniversrio. At que por fim, 
depois de vrios internamentos em diversas instituies e centros penais infantis, foi entregue  guarda do pai e s dali a muitos anos Bobo voltou a v-lo, a no 
ser em fotografias que Tex John mandava de vez em quando aos outros filhos, agora coladas por cima de inscries escritas a tinta branca e que constituam uma parte 
do contedo do lbum.
Havia uma intitulada: "Perry, o Pai e o seu co lanzudo", "Perry e o Pai pesquisando ouro", "Perry na caa do urso, no Alasca". Nesta ltima via-se um rapaz de quinze 
anos, com um gorro de peles e botas para a neve, no meio de rvores vestidas de branco, com uma espingarda debaixo do brao. O seu rosto era sorumbtico e os olhos 
tristes e cansados. E Mrs. Johnson, ao olhar para o retrato, recordou-se de uma "cena" que Perry havia feito em sua casa, quando a visitou no Nevada. Fora esta, 
na verdade, a derradeira vez que ela o vira, na Primavera de 1955. Estavam a discutir a infncia de ambos na companhia de Tex John, e Perry, que bebera bastante, 
empurrara-a de encontro a uma rvore e mantivera-a com fora ali, dizendo:
        Eu era o escravo dele. Uma pessoa que se matava a trabalhar e a quem se no pagava um tosto.
No, Bobo! Deixa-me falar! Cala-te, ou atiro contigo ao rio! Como daquela vez em que eu ia a atravessar uma ponte no Japo. No meio dela estava parado um tipo que 
eu nunca tinha visto mais gordo. Peguei nele e atirei-o ao rio.
"por favor, Bobo. Escuta-me! Julgas que gosto de ser como 174
sou? Oh, que grande homem eu poderia ter sido! Mas aquele canalha nunca me deu uma oportunidade. Nunca
me deixou frequentar uma escola. E eu que tinha uma inteligncia excepcional, fica sabendo! Uma grande
inteligncia e tambm talento! Mas no tive instruo porque ele nunca me deixou aprender nada, apenas a
moirejar para ele. Mudo. Ignorante. Assim  que ele me queria, para que nunca lhe pudesse fugir. Mas tu,
Bobo, tu, frequentaste a escola? Tu, o Jimmy e a Fem. Vocs todos, seus patifes, tiveram instruo. Todos,
menos eu. E eu odeio-vos, do primeiro ao ltimo, incluindo o pai! Como se para os outros irmos a vida tivesse sido uma mar de rosas! S se ele considerasse uma 
felicidade limpar os vmitos da me bbeda, nunca ter fatos bonitos para usar, nem comida suficiente para matar a fome.
Apesar disso, no entanto, era certo terem todos feito o liceu. Na verdade Jimmy fora mesmo o aluno mais
distinto da sua turma, honra esta que ele devia unicamente  sua fora de vontade. Fora precisamente isso o
que tornara o suicdio dele to trgico. Forte personalidade, coragem notvel, persistncia no trabalho - dava a
impresso que nenhuma destas qualidades se podia considerar factor determinante na sorte de qualquer dos
filhos de Tex John. Achavam-se todos sob um mau signo contra o qual a virtude no constitua defesa. No
que Perry fosse virtuoso, nem to-pouco Fem. Quando tinha catorze anos, Fem mudou o nome e durante o
resto da sua curta vida procurou justificar a substituio: passou a chamar-se Joy. Eras uma rapariga de gnio
agradvel, "querida de todos", em demasia at, pois agradava-se particularmente dos homens, muito embora
no tivesse muita sorte com eles. De certo modo, os homens que ela preferia no lhe ligavam nenhuma. A me
morrera vtima do coma alcolico e ela tinha medo  bebida. No entanto bebia. Antes dos vinte anos, Fem-Joy
desjejuava-se j com uma garrafa de cerveja. At que, numa bela noite de Vero, caiu da janela de um quarto
de hotel. Na queda viera parar acima do toldo de um teatro, rebolara depois para o cho, ficando esmagada
debaixo das rodas de um txi. L em cima, no quarto vazio, a Polcia foi encontrar a carteira dela sem
dinheiro, os sapatos e uma garrafa de whisky vazia.
Podamos compreender o caso de Fem e perdoar-lhe, porm Jimmy era diferente. Mrs. Johnson contemplava
naquele momento um retrato dele vestido de marinheiro. Durante a guerra servira nas foras armadas. Era um
marujo plido e jovem, de cara comprida e uma expresso vagamente serfica, que se mostrava na foto com o
brao em volta da cintura da rapariga com quem se casara, coisa que nunca deveria ter feito, na opinio de
176
Mrs. Johnson, pois nada tinham em comum entre si: aquele rapaz srio e aquela garota que andara com todos
os marujos, cujos olhos lembravam contas de vidro onde h muito se extinguira o reflexo do sol. E, no entanto,
aquilo que Jimmy sentira por ela ultrapassava o amor vulgar: era a paixo autntica, uma paixo at certo
ponto patolgica. Quanto  rapariga, devia ter gostado dele, e gostado a valer, de contrrio nunca teria feito o
que fez. Se ao menos Jimmy tivesse acreditado nela! Se ele tivesse sido capaz de acreditar... Mas o cime
cegava-o. Vivia mortificado com a ideia dos homens que haviam dormido com ela antes de se casar; e estava
convencido, alm disso, de que ela continuava a portar-se mal, que todas as vezes que ele ia para o mar ou
sequer a deixava sozinha durante um dia inteiro, ela o traa com uma multido de amantes, cuja existncia
exigia que ela lhe confessasse. At que a rapariga apontou uma espingarda entre os olhos e puxou o gatilho
com o dedo do p. Quando Jimmy deu com ela no chamou a polcia. Pegou-lhe ao colo, deitou-a na cama e
estendeu-se ao lado dela. Pela madrugada voltou a carregar a espingarda e suicidou-se tambm.
Em face da fotografia de Jimmy e da mulher, via-se outra, de Perry fardado. Fora recortada de um jornal e
vinha acompanhada por um bocado de texto: "Quartel-General do Exrcito dos Estados Unidos da Amrica,
Alasca. Soldado Perry E. Smith, o primeiro veterano do Exrcito de combate na Coreia que regressa a
Anchorage, no Alasca,  condecorado pelo capito Mason, oficial das Informaes Pblicas, ao chegar  Base
da Fora Area de Elmendorf. Smith serviu quinze meses na 24.a Diviso como mecnico de combate. A sua
viagem de Seattle at Anchorage foi um prmio da linha area Pacific Northern Airlines. Miss Lynn Marquis,
hospedeira do ar, mostra-lhe um sorriso de boas-vindas. (Foto oficial do Exrcito dos E. U.)" O capito
Mason, de mo estendida, olhava para o soldado Smith, mas este ourava s para a objectiva. Na sua expresso,
Mrs. Johnson via ou julgava ver no gratido mas sim arrogncia e, em lugar de orgulho, uma vaidade intensa.
No custava a acreditar que ele tivesse encontrado um homem sobre uma ponte e fosse capaz de o atirar ao
rio. Claro que o fizera, disso no tinha ela a menor dvida! Fechou o lbum e ligou a televiso, mas esta no a distraiu. Suponhamos que ele vinha ter com ela? Os 
detectives haviam descoberto o seu endereo. Porque no o descobriria ele tambm? Mas que no esperasse da sua parte o menor auxlio. Nem sequer o deixaria entrar. 
A porta da frente estava trancada, mas no a do jardim. Este, todo branco, envolto em nevoeiro, parecia coalhado de fantasmas. A me, o Jimmy e a Fem.
Quando foi
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trancar a porta, Mrs. Johnson sentia tanto receio dos mortos como dos vivos.
Uma tromba de gua. Chuva a potes. Dick desatou a correr. , Perry corria tambm, mas no com a mesma pressa; as suas pernas eram mais curtas e transportava a mala. 
Dick abrigou-se muito antes dele num palheiro  beira do caminho. Ao deixar Omaha, depois de dormirem uma noite no abrigo do Exrcito da " Salvao, um motorista 
de camio dera-lhes boleia para passarem a fronteira do Nebrasca para o lowa. Contudo, durante as ltimas horas haviam viajado a p. A chuva desabara no momento 
em que se encontravam a dezasseis milhas ao norte de uma aldeia '. do lowa chamada Tenville Junction.
No palheiro fazia escuro. Perry chamou: -Dick!
        Estou aqui! - respondeu Dick. Estendera-se sobre a palha. Perry, todo encharcado e a tremer, deixou-se cair ao seu lado:
        Estou cheio de frio - declarou enterrando-se na palha. - Tenho tanto frio que no se me dava se isto pegasse fogo e eu fosse queimado vivo! - Tambm sentia 
fome. Uma fome mortal. Na noite anterior tinham ceado a malga de sopa do Exrcito de Salvao e naquele dia o nico alimento de ambos fora umas barras de chocolate 
e goma elstica que Perry furtara no balco de um caf.
        Ainda h chocolate? - perguntou Perry.
Acabara-se, mas tinham hicklets. Dividiram-nos e comearam ambos a chupar,-cada qual dois quadrados e meio de hortel-pimenta, o paladar preferido de Dick (Perry 
gostava mais de sumo de fruta). O dinheiro no era problema. A sorte extraordinria que os bafejara ultimamente levara Dick a tentar aquilo que Perry considerava 
"uma coisa de louco": o regresso a Kansas City.
Quando Dick falara pela primeira vez na necessidade dessa viagem de regresso, Perry respondera:
        No ests bom da cabea!
Agora, aninhados ambos na escurido, ouvindo l fora cair a chuva fria, reataram a discusso.
Perry evocara de novo os perigos de semelhante passo, pois certamente a estas horas Dick andaria j a ser procurado por no se ter apresentado na Polcia, "quando 
no fosse outro o motivo..." Mas Dick no desarmava. Kansas City, teimava ele de novo, era o nico lugar onde poderia, com xito distribuir mais uma poro de cheques 
falsos. "Que diabo, devemos ter cautela. Sei que nos devem ter dado ordem de priso. Por causa dos cheques que assinmos. Mas ns andaremos depressa.
Basta-nos um dia. Se amealharmos o suficiente,
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talvez, possamos experimentar ir at  Florida. Passar o Natal em Miarru, ficar l o Inverno se a coisa nos
agradar."
Contudo Perry continuava a chupar o chiklet, a tremer de frio e muito mal humorado. Dick perguntou-lhe:
        Que  isso, rapaz? Ainda te ests a lembrar daquilo? Porque diabo no esqueces tudo? Eles nunca ligaro
uma coisa  outra. No so capazes disso!
Perry contestou:
        Podes muito bem enganar-te. E, se tal suceder, isso significa o "canto".
Nenhum deles se referira ainda at ento  pena mxima do estado do Kansas, a forca, ou morte no "canto",
como os habitantes da Penitenciria do Estado do Kansas chamam ao barraco que alberga a aparelhagem
necessria para enforcar um homem,
Dick respondeu:
        Que gracinha. Ests a assustar-me.
Acendeu um fsforo com a inteno de fumar um cigarro, mas aquilo que viu  luz da chama f-lo pr-se
imediatamente de p e atravessar o telheiro at a um curral que ficava a seguir. Dentro deste estava um
automvel, um Chevrolet preto e branco de duas portas, modelo 1956 A chave via-se metida no tablier.
Dewey estava resolvido a ocultar " populao civil" qualquer notcia de importncia relativa ao caso Clutter.
To decidido que resolveu pedir segredo aos dois divulgadores profissionais de notcias de Garden City: Bill
Brow o editor do Telegram de Garden City e Robcrt Wells, director da estao de rdio local, a KfUL. Ao
fazer um apanhado geral da situao, Dewey apontou as razes que tinha para invocar o segredo indispensvel: "Lembrem-se de que existe uma possibilidade de estes 
homens estarem inocentes." Tratava-se de uma hiptese demasiado vlida para se por de lado. O informador. Floyd Wells, podia muito bem ter inventado toda a histria; 
semelhantes patranhas so moeda corrente entre os prisioneiros que pretendem obter favores especiais ou atrair a ateno dos superiores. Mas ainda que as palavras 
do homem fossem verdades como punhos, Dewey e os colegas no haviam conseguido ainda desenterrar uma s prova importante, "vlida em tribunal". Que tinham eles descoberto 
que no pudesse ser interpretado como coincidncia, muito embora extraordinria? S porque Smith viera ao Kansas de visita ao amigo Hickock, e porque este possua 
uma carabina de calibre
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igual  arma do crime, e porque os suspeitos possuam um libi falso para explicar os seus movimentos na
noite de 14 de Novembro, isso no significava forosamente que se tratasse dos assassinos.
        No entanto, estamos mais do que convencidos de que foram eles. Somos todos da mesma opinio. Se assim
no fosse nunca teramos posto em estado de alerta dezassete estados, desde o Arkansas at ao Oregon. Mas
notem bem: podemos levar anos a apanh-los.  possvel que j se tenham separado ou at deixado o pas. H
uma possibilidade de terem ido para o Alasca, no  difcil uma pessoa perder-se por l. Quanto mais tempo
eles andarem em liberdade, menos fcil se torna para ns a sua captura. Francamente, no ponto em que as
coisas esto, dispomos de poucas probabilidades. Podemos agarrar amanh mesmo esses filhos-da-me e no
conseguirmos provar nada contra eles.
Dewey no exagerava. Com excepo de duas impresses de solas, uma com um desenho em estrela, a outra
com cinco salincias, os assassinos no haviam deixado um nico indcio. Visto serem to cuidadosos,
certamente h muito se teriam desfeito das botas. Assim como do rdio, partindo do princpio que haviam sido
eles quem o roubara, coisa de que Dewey duvidava ainda, pois afigurava-se-lhe "muito improvvel". Dada a
importncia do crime e a esperteza manifestada pelos criminosos, achava "inconcebvel" terem estes entrado
naquela casa  espera de encontrarem um cofre a abarrotar de dinheiro e, ao cabo e ao resto, como no o
descobrissem, achassem por bem assassinar toda a famlia, talvez por causa apenas de uns mseros dlares e de
um aparelho de rdio porttil.
        Sem a confisso deles nunca conseguiremos uma condenao - declarava ele. -  este o meu parecer. E  por
isso que temos de usar de todas as cautelas. Eles julgam-se seguros. Pois bem, deixemo-los continuar nessa
certeza. Quanto mais confiantes eles estiverem, mais depressa lhes deitaremos a mo.
Porm os segredos so um luxo desusado em cidades do tamanho de Garden City. Quem visitasse o escritrio
do xerife, que se compunha de trs compartimentos mal mobilados e atravancados, no terceiro andar do
edifcio do tribunal, sentia logo uma atmosfera estranha e quase sinistra. A azfama, os murmrios azedos das
primeiras semanas haviam desaparecido; o local encontrava-se agora envolto numa quietude expectante. Mrs.
Richardson, a secretria, pessoa muito terra--terra, adquirira de um dia para o outro o hbito de falar em
segredo e andar em bicos de ps, ao passo que os homens que ela auxiliava, o xerife e os seus colaboradores,
Dewey e os agentes do K. B. J. Andavam por
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ali a conversar' uns com os outros em voz baixa. Era como se se tratasse de caadores numa floresta, escondidos, com receio de que qualquer som ou movimento brusco 
pudesse espantar os animais que se aproximavam
O povo comeou a falar. O Trail Room, que era o caf pertencente ao Warren Hotel, considerado pelos homens de Garden City como uma espcie de clube particular, era 
um antro de murmuraes e boatos. Estavam prestes a prender um cidado importante, afirmava algum. Dizia-se por outro lado que o crime fora obra de bandidos a soldo 
dos inimigos da Associao dos Produtores de Trigo do Kansas, organizao progressiva na qual Mr. Clutter desempenhara importante papel.
Das muitas histrias que circulavam, a que se achava mais perto da verdade era contada por um notvel negociante de automveis (que se recusava a revelar-lhe a origem): 
"Parece que apareceu um tipo, trabalhador l na quinta do Herb a por volta de 47 ou 48, um assalariado qualquer, que mais tarde foi preso e depois na cadeia se 
ps a cogitar que o Herb era um tipo rico a valer. E ento, mal se apanhou c fora, aqui h um ms, o seu primeiro acto foi vir aqui e roubar e assassinar aquela 
gente toda."
porm a sete milhas a oeste dali, na aldeia de Holcomb, no transparecera nada destas notcias sensacionais e uma das razes disto era o facto de o assunto Clutter 
ter sido banido das conversas nos dois centros principais de reunio: o Correio e o Hartman'1; Caf.
C por mim no quero ouvir falar mais sobre o caso - declarara Mrs. Hartman. -J lhes disse. No se pode continuar assim, a desconfiar de toda a gente e a viver-se 
num pavor mortal. S digo que quem quiser falar do assunto no entra c.
Myrt Clarc adoptou uma posio to intransigente comoesta:
        Vm aqui algumas pessoas comprar um selo dos mais baratos e no entanto julgam-se no direito de ficar durante trs horas e trinta e trs minutos a dar a 
lngua e a devassar a vida dos Clutters.
Fazem as criaturas em pedaos. Coscuvilheiros de uma figa! Eu no tenho tempo para os aturar.
Estou aqui a cumprir o meu dever. Sou uma representante do Governo dos Estados Unidos. E, seja como for, isto  doentio! O Al Dewey e toda essa malta de Topeka e 
de Kansas City, que se julgam espertos como ratos.. Mas creio bem que ningum tem iluses quanto a esperar que eles apanhem algum dia o assassino' por isso, na minha 
opinio, o mais acertado  no se falar no assunto. S se morre quando se tem de morrer e no interessa saber como. Quem morreu, morreu. Por isso, de que serve andarmos 
com cara de enterro s porque
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cortaram o pescoo ao Herb Clutter?  uma coisa doentia. Sabem quem  a Polly Stringer, a mestra dos
midos? Pois a Polly Stringer esteve aqui esta manh e disse que s hoje  que os garotos comearam a
acalmar. E eu ento cogitei; imaginem o que sucederia se prendessem algum! Se tal acontecer, decerto ser
alguma pessoa nossa conhecida. E isso iria atear o rastilho, deitar lenha no fogo precisamente quando ele
comeava a apagar-se. Se querem que lhes diga, acho que j houve rebulio a mais! Era ainda cedo, no tinham dado as nove horas, e Perry fora o primeiro cliente 
da lavandaria automtica.
Abriu a pesada mala de vime e tirou de l uma trouxa de cuecas, meias e camisas umas dele, outras do Dick),
enfiou-as num dos depsitos, e meteu na mquina uma ficha de chumbo, das muitas que comprara no Mxico.
Perry estava familiarizado com o manejo de semelhantes engenhocas, visto ter se servido delas muitas vezes, e
sempre com satisfao, pois achava muito calmante estar ali sentado a ver lavar as roupas. Mas no naquele
dia. Sentia-se demasiado apreensivo. Apesar dos seus avisos, o Dick teimara na sua. C estavam eles, de volta
a Kansas City, sem vintm e, alm disso, viajando num carro roubado! Durante toda a noite haviam corrido 
desfilada no Chevrolet encontrado em Iowa, debaixo de uma chuva contnua. Tinham parado duas vezes para
chupar gasolina de carros estacionados em ruas desertas de pequenas cidades adormecidas. (Isto era a
especialidade de Perry. Uma tarefa em que se considerava "absolutamente mestre. Aquele bocado de tubo de
borracha  o meu passaporte de viagem". Quando chegaram a Kansas City, ao nascer do Sol, os viajantes tinham-se dirigido em primeiro lugar ao aerdromo, onde, nos 
toilettes dos homens, se haviam lavado, barbeado e escovado os dentes; duas horas mais tarde, aps terem dormido um pouco na sala de espera do aerdromo, voltaram 
 cidade. Foi nessa altura que Dick largou o companheiro na lavandaria, prometendo vir busc-lo dali a uma hora.
Depois da roupa lavada e seca, Perry voltou a met-la na mala. Passava das dez. Dick que devia andar por a, "
a distribuir papelinhos", estava atrasado. Perry sentou-se  espera dele, depois de localizar uma carteira de
senhora, mesmo a tentar a mo dele. Porm a chegada da dona, a mais avantajada de todas as mulheres que
neste momento aproveitavam as comodidades do estabelecimento, deixou-o descorooado. Noutros tempos,
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quando era uma criana vadia na cidade de S. Francisco, ele e um garoto chins (seria o Tommy Chan ou o Tommy Lee?) haviam trabalhado juntos como "carteiristas". 
Perry divertia-se, animavase, ao recordar algumas aventuras desse tempo.
"Como daquela vez em que roubmos a carteira a uma velhota, mesmo muito velha. O Tommy deitara-lhe a mo, mas a senhora no havia maneira de a largar, parecia uma 
fera. At que me avistou, comeando a gritar: Ajuda-me! Ajuda-me aqui! E ento respondi-lhe: Eu ajudo-o mas  a ele! - e bifmos-lhe a mala, deixando-a cada no 
cho. Noventa cntimos era precisamente o que a bolsa continha, lembro-me muito bem. Fomos a um restaurante chins e comemos at carmos para debaixo da mesa."
As coisas no haviam mudado muito. Perry era mais velho vinte anos e pesava mais vinte quilos, no entanto a sua situao material no melhorara nada. Continuava 
a ser (coisa incrvel, tratando-se de uma pessoa com a sua inteligncia a aptides) um garoto que vivia por assim dizer  custa dos patacos roubados.
O relgio pendurado na parede em frente atraa-lhe constantemente a vista. s dez e meia comeou a afligir-se; s onze as pernas latejavam-lhe de dor, o que nele 
era sinal certo de um prximo pnico; "o sangue a ferver", dizia ele. Tomou uma aspirina e tentou apagar, pelo menos desvanecer, a cavalgada de imagens que lhe passava 
pelo crebro: Dick nas mos da polcia, provavelmente apanhado a preencher um cheque falso, ou por causa de uma simples transgresso s regras de trnsito (ao volante 
de um carro roubado). Provavelmente neste mesmo instante, Dick encontrava-se encerrado no meio de um crculo de polcias de cachao vermelho. E no discutiam trivialidades, 
tais como cheques falsos ou automveis roubados. O assunto da discusso era o assassnio, pois provavelmente aquela relao, que Dick afirmava impossvel de descobrir, 
tinha sido descoberta. E neste instante exacto uma carrada de polcias de Kansas City vinha a caminho da lavandaria.
Mas no, era tudo imaginao sua! Dick nunca daria com a lngua nos dentes. Quantas vezes o no ouvira dizer: "Podem matar-me com pancada, mas nunca lhes direi seja 
o que for!" Dick era um "fala-barato" ; a sua valentia, j Perry descobrira, s existia quando ele estava numa situao de superioridade. Felizmente que, de sbito, 
comeou a lembrar-se de outras razes para a demora de Dick. Fora decerto visitar os pais. Coisa arriscada,  certo, mas Dick era muito amigo deles ou fingia s-lo, 
e ainda na noite passada, durante aquela interminvel viagem debaixo de chuva, ele afirmara a Perry:
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        Gostava muito de ir ver os meus pais. Eles no seriam capazes de me denunciar, ao funcionrio da Polcia,
digo eu. Nunca diriam nada que nos prejudicasse. Mas tenho vergonha de l ir. Receio o que o meu pai dir
por causa dos cheques. E tambm por nos termos posto a andar daquela maneira. Mas gostaria de podei falarlhes
pelo telefone e saber como esto.
Contudo, isto era impossvel, visto que em casa dos pais de Dick no havia telefone; se houvesse, Perry j teria
telefonado a saber dele.
Dali a poucos minutos, convencera se de novo de que Dick fora preso. A dor nas pernas aumentou subitamente, trespassou-lhe o corpo todo, e o cheiro a barrela, aquele 
cheiro a vapor pestilento, comeou a agoni-lo, obrigando-o a levantar-se e a sair a correr pela porta. Parou no passeio, aos arrancos, como um bbedo atacado de 
vmitos secos, Kansas City! Bem sabia que aquela terra lhe dava azar! Tanto que pedira a Dick para no irem para l! Quem sabe se agora, neste momento, Dick no 
lamentava j no lhe ter dado ouvidos. E perguntava a si prprio: Ento que h-de ser de mim? "Sem vintm, apenas com um punhado de fichas de chumbo no bolso?" Para 
onde iria? Quem o poderia auxiliar? Bobo? Nem pensar nisso! Mas o marido, esse, sim. Se acaso Alfred Johnson no houvesse dado ouvidos a mulher, tinha-lhe arranjado 
emprego  sada da cadeia, ajudando-o assim a obter a fiana. Mas Bobo no consentiia; afirmara que isso os iria meter em trabalhos e possivelmente acarretar-lhes-ia 
perigos. E escrevera a Perry a dizer-lhe precisamente isso. Ela ainda um dia havia de pagar-lhe tudo! Iria gozar  brava a descrever-lhe todas as suas habilidades, 
a descrever em pormenor tudo aquilo que era capaz de fazer a pessoas como ela, pessoas respeitveis, que viviam tranquilas e cheias de conforto como Bobo. Sim, ela 
precisava de saber que um tipo perigoso se trata com cautela. Isto valia bem uma viagem a Denver. Era isso mesmo o que ele ia fazer, visitar os Johnsons em Denver. 
Fred Johnson era muito capaz de lhe arranjar um encaixe. No teria outro remdio se queria ver-se livre dele.
Nesta altura, Dick surgiu ao seu encntro pelo passeio fora:
        Ol, Perry. Ests doente?
O som da voz de Dick foi como a injeco de um narctico potente, uma droga que, introduzindo-se-lhe nas
veias, produzisse um delrio de sensaes desencontradas: tenso e alvio, fria e afeio, Avanou para Dick,
de punhos cerrados:
        Seu filho de uma cabra! - exclamou.
Dick riu-se e disse:
        Anda da. Vamos outra vez comer.
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Mas era preciso dar explicaes e tambm desculpas, coisa a que Dick se no recusou, enquanto saboreavam a
comida apimentada de um restaurante barato que ele preferia em Kansas City, o Eagle Buffet.
        Desculpa, rapaz. Eu calculava que apanhasses um susto. J me julgavas caado. Mas eu estava com uma tal
sorte que achei por bem esgot-la at ao fim. - Explicou que se dirigira  Markl Buick Company, a firma onde
estivera empregado noutros tempos, na esperana de encontrar um par de chapas de matrcula para substituir a
perigosa numerao do Chevrolet roubado. Ningum me viu entrar nem sair. A Markl costumava fazer muito
negcio de sucata. Efectivamente encontrei logo um De Sotto todo amachucado com matrcula do Kansas. E
sabes onde esto agora essas chapas? No nosso calhambeque! Depois de efectuar a substituio, Dick fora deitar as placas de lowa na estrumeira municipal. Depois 
parara numa estao de servio onde trabalhava um amigo, outrora seu colega do liceu, chamado Steve, e persuadira este a pagar-lhe um cheque de cinquenta dlares 
coisa que nunca fizera at ali: "roubar um camarada". Bem, nunca mais voltaria a ver o Steve. Ia "limpar os ps" de Kansas City, desta vez para sempre. Nesse caso, 
porque no havia de "esmifrar" alguns velhos amigos? Com isto na ideia, foi procurar outro antigo colega de estudos, hoje caixeiro num drugstore. Este golpe valeu-lhe 
mais uns setenta e cinco dlares:
        Esta tarde vamos fazer subir a soma para uns duzentos dlares. Fiz uma lista dos lugares onde devemos
operar. So seis ou sete, a comear por aqui - dizia isto referindo-se ao Eagle Buffet, onde todos, do empregado do bar aos criados de mesa, o conheciam, estimavam 
e lhe chamavam Pickles (em ateno  sua iguaria preferida). - Depois, toca a andar para a Florida. Que dizes a isto, p?! Eu no te tinha prometido que havamos 
de ir l passar o Natal, como fazem todos os milionrios? Dewey e o seu colega do K. B. I, o agente Clarcnce Duntz, esperavam que vagasse uma mesa no Trail Room.
Olhando em volta as caras conhecidas da hora do almoo - homens de negcios de pele delicada, rancheiros
queimados pelo sol e de faces coradas -, Dewey cumprimentava alguns conhecidos em especial: o coroner do
condado, o doutor Fenton; o director da Warren, Tom Mahar; Harrison Smith, que se candidatara a attorney no
ano anterior e perdera a eleio em favor de Duane West; e tambm Flerbert W. Clutter, dono da quinta de
River Valley e membro da Escola Dominical de Dewey. Mas esperem L! O Clutter no tinha 185
morrido? E no havia ele, Dewey, assistido ao seu enterro? Sim, mas l estava ele sentado no reservado de canto do Trail Room, com os seus olhos vivos e castanhos, 
a maxila quadrada e o seu ar bem disposto que a morte no alterara. Mas Herb no se encontrava s.  sua mesa viam-se dois rapazes, e Dewey, ao reconhec-los, deu 
uma cotovelada no agente Duntz.
        Olha ali!
        Onde?
No canto.
        Diabos me levem!
Hickock e Smith! Mas tambm eles deram pelo facto de terem sido reconhecidos. Farejavam o perigo. Atiraram-se ambos atravs do vidro da montra do Trail Room, desataram 
a correr pela rua fora, passaram em frente da Joalharia Palmer, na Norris Drugs, de Garden Caf, dobraram a esquina, ultrapassaram os armazns do caminho-de-ferro 
e, como no jogo das escondidas, puseram-se a correr por entre os silos brancos do cereal. Dewey sacou da pistola e Duntz imitou-o; porm, ao quererem dar ao gatilho, 
interveio o sobrenatural. Sbita e misteriosamente (como num sonho!), ficaram todos a nadar: os perseguidores, os perseguidos, no meio daquela vastido de gua que 
a Cmara do Comrcio da Cidade de Garden City qualifica como a "Maior Piscina Gratuita do Mundo". No momento em que os detectives iam para alcanar as presas, a 
cena mudou novamente (Como poderia isto acontecer? Estariam a sonhar?) e viram-se no meio de outra paisagem: o Cemitrio de Valley View, aquela ilha verde e cinzenta 
com tmulos e rvores e alamedas floridas, um osis frondoso e sussurrante que lembrava a sombra de uma nuvem no meio das plancies luminosas dos trigais ao norte 
da cidade. Mas neste momento Duntz desaparecera j, e Dewey encontrava-se sozinho a perseguir os fugitivos. Muito embora no conseguisse avist-los, estava certo 
de que se achavam escondidos atrs de um tmulo, provavelmente do seu prprio pai: "Alvin Adams Dewey, 6 de Setembro de 1879 -26 de Janeiro de 1948". De pistola 
aperrada, Dewey seguiu ao longo das solenes alamedas, seguindo o som de um riso, at que viu Hickcok e Smith, j no escondidos atrs da pedra, mas sim de pernas 
abertas sobre a sepultura ainda sem dstico de Herb, Bonnie, Nancy e Kenyon Clutter. Encontravam-se de p, pernas alargadas e mos nos bolsos, de cabea atirada 
para trs, a rir. Dewey disparou... uma... duas... trs vezes. Nenhum deles caiu, muito embora as balas os tivessem atravessado lado a lado no stio do corao, 
por trs vezes: tornaram-se apenas transparentes, foram ficando invisveis pouco a pouco, evaporaram-se no meio de risadas, at que Dewey
186
se curvou perante o facto, desatou "a fugir, tomado de um desespero to furioso e intenso que o despertou.
Acordou como uma criana cheia de febre, assustado, com os cabelos empastados de suor, a camisa colada ao
corpo. A sala um gabinete que fazia parte dos escritrios do xerife, onde se fechara antes de adormecer,
sentado  secretria - estava quase envolta na escurido. Apurando o ouvido, escutou o telefone da senhora
Richardson a tocar na sala ao lado Mas ela no estava l para responder, visto no serem horas de trabalho. A
caminho da porta, Dewey passou com propositada indiferena diante do telefone que tocava. Depois hesitou.
Podia ser a Marie, a perguntar se se demorava ou se devia esperar por ele para jantar -Mr. A. R. Dewey, atenda, por favor. Kansas City ao telefone.
        Daqui fala Mr. Dewey.
        Fale, Kansas City. Mr. Dewey est a responder.
        Al? Daqui fala o irmo Nye.
        Ol, irmo Nye!
        Prepara-te para ouvir grandes novidades. - Diz l!
        Os nossos amigos esto aqui, mesmo em Kansas City.
        Como  que sabes?
        Bem,  que eles no se escondem mesmo nada O Hickock andou a distribuir cheques de uma ponta  outra da
cidade. E assinados com o seu prprio nome.
        Com o seu nome? Isso deve significar que no tencionam demorar-se muito por essas paragens... ou ento
que est muito seguro de si. E o Smith, continua a acompanh-lo?
        Andam juntos, sim, mas trazem um carro diferente. Um Chevrolet modelo 1956, preto e branco, de duas
portas.
Matrcula do Kansas?
        Matrcula do Kansas. E escuta, A. Nisso tivemos sorte. Compraram um aparelho de televiso. O Hickock
deu ao vendedor um cheque. No momento da partida, o homem teve o bom senso de anotar a matrcula do
carro, nas costas do cheque. Matrcula de Johnson County 16212
        Verificaram a quem pertence?
        Adivinha a quem?
         um carro roubado.
        Claro. Mas as chapas tinham sido substitudas. Os nossos amigos tiraram-nas a um De Sotto espatifado que
estava numa garagem de Kansas Citv.
        Sabe se quando?
        Ontem de manh. O patro (Logan Sanford) mandou um aviso com a nova matrcula e a descrio do carro
187
        E quanto  casa do Hickock? Se continuam nessas paragens, acho que mais cedo ou mais tarde acabaro por
ir l.
        No te preocupes. Ns c estamos, Olha, Al... -Diz...
        S queria este presente de Natal. No queria mais nada! Acabar com isto de uma vez e dormir at ao dia de
Ano Novo. No achas que era um presente bestial?
        Sim, espero que o consigas!
        Bem, espero que o consigamos ambos.
Depois disto, Dewey atravessou o ptio s escuras, saltando com ar absorto por cima dos montculos de terra e
das folhas mortas por varrer, intrigado com a sua falta de entusiasmo. Que diabo, agora que perdera o receio
de os suspeitos se haverem sumido nos confins do Alasca, do Mxico ou de Timbuctoo, quando se poderia
efectuar a captura de um momento para o outro, porque no sentiria ele a excitao que seria de esperar? O
culpado disto era o sonho que tivera, pois a complicao deste continuava a obcec-lo e a faz-lo duvidar das
afirmaes de Nye e a descrer delas, at certo ponto. No se convencia de que Hickock e Smith se deixassem
prender em Kansas City. Considerava-os invulnerveis.
Praia de Miami, 335, Ocean Drive,  a direco do Hotel Somerset, um pequeno edifcio quadrado, mais ou
menos pintado de branco com frisos alfazema e uma tabuleta da mesma cor onde se lia: "QUARTOS PARA
ALUGAR - PRAIA PRIVATIVA BRISA MARINHA". Fazia parte de uma fila de edifcios caiados de uma
rua melanclica. Em Dezembro de 1959, essa "Praia Privativa" resumia-se a dois chapus-de-sol espetados
numa nesga de areia nas traseiras do hotel. Um dos chapus, o cor-de-rosa, tinha escrito por cima: "Serve-se
creme Valentine". s doze horas do dia de Natal, encontravam-se quatro mulheres deitadas em redor de um
rdio transstor. O segundo chapu, azul e ostentando o reclamo "Bronzeie-se com Coppertone", abrigava
Dick e Perry, que h cinco dias habitavam o Somerset, rum quarto de casal cujo preo era de dezoito dlares
por semana.
Perry declarou:
        Ainda me no deste as boas-festas?
        Boas-festas, p! Feliz ano novo!
Dick estava de cales de banho, porm Perry, tal como em Acapulco, recusava-se a mostrar as pernas
aleijadas. Receava que avista destas pudesse "impressionar" os outros banhistas. Andava, portanto, inteiramente vestido, incluindo meias e sapatos. No 188
entanto mostrava-se relativamente satisfeito e quando Dick comeou a fazer exerccios de pino sobre a areia, para chamar a ateno das senhoras que estavam debaixo 
do chapu cor-de-rosa, ele entregou -se  leitura do Herald de Miami. A certa altura, deparou com uma histria numa das pginas secundrias que lhe captou inteiramente 
a ateno. Tratava-se de um crime, o assassnio de uma famlia da Florida, um tal Mr. Clifford, e da mulher, um filho de quatro anos e uma filha de dois. Cada uma 
das vtimas, embora no tivesse sido amordaada nem amarrada, fora morta com um tiro na cabea, disparado por uma carabina calibre 22. Este crime, do qual no havia 
provas e que, segundo parecia, fora cometido sem motivo, tivera lugar na noite de sbado, 19 de Dezembro, na herdade Walker, um rancho de criao de gado perto de 
Tallahassee.
Perry interrompeu as exibies atlticas de Dick para lhe ler a histria em voz alta, e inquiriu depois:
        Onde estvamos ns no Sbado passado?
        Em Tallahassee?
        Estou a perguntar,
Dick ps-se a pensar. Na quinta-feira, guiando o carro  vez, tinham vindo do Kansas, atravessado o Missouri at ao Arkansas. Tinham transposto as montanhas Ozaiks 
at Louisiana, onde a bateria avariada os detivera sexta-feira de manh cedo. (Substituram-na por uma em segunda mo, comprada em Shreveport, por vinte e dois dlares 
e meio. Nessa noite dormiram no carro, estacionado algures, na berma da estrada, perto da fronteira Alabama-Florida. No dia seguinte haviam viajado sem pressas, 
tendo visitado um rancho de lagartos e outro de cobras cascavis, passeado num barco de fundo de vidro num lago de guas prateadas, almoado tardssimo, comendo 
lagosta num restaurante de estrada. Que dia maravilhoso! Mas estavam ambos exaustos quando chegaram a Tallahassee e resolveram passar ali a noite.
        Sim, estvamos em Tallahassee - confirmou Dick.
-- Tem piada! - e Perry voltou a ler o artigo. - Sabes o que no me admiraria nada? Se isto tivesse sido obra de um louco. Um maluco que lesse o que aconteceu no 
Kansas.
Uma vez que no lhe agradava ouvir Perry "discorrer sobre aquele assunto", encolheu os ombros, sorriu e correu para a beira-mar. Passeou sobre a areia molhada, parando 
aqui e ali, para apanhar uma concha. Em pequeno sentira uma inveja louca de um rapazito seu vizinho que fora passar as frias a Costa do Golfo e regressara trazendo 
uma caixa cheia de conchinhas e odiara-o tanto por isso que lhas roubara e as esmagara todas, uma por 189
uma, com um martelo. A inveja sempre o atormentara, a ponto que considerava seu inimigo todo aquele que
fosse aquilo que ele desejaria ser, ou possusse aquilo que ele desejaria possuir.
Por exemplo, o homem que vira h dias junto  piscina no Fontaenbleau. A muitas milhas de distncia, envolto
na neblina do calor e do reflexo do mar, via ainda as torres dos hotis caros: o Fontainebleau, o den Rock, o
Roney Praza. No segundo dia da sua estada em Miami, sugerira a Perry que visitassem aqueles antros de
prazer.
        Poderamos arranjar por l umas tipas ricas - disse.
Perry mostrara-se relutante; pensava que as pessoas deviam estranhar o aspecto deles, com calas de caqui e
camisas abertas. A verdade  que a sua incurso nos faustosos arredores do Fontainebleau passou despercebida, no meio de todos aqueles homens que se passeavam de 
bermudas e camisas de seda crua s riscas e de mulheres em fato de banho e ao mesmo tempo com estolas de arminho. Os dois estranhos tinhamse demorado no trio, passeado 
no jardim, visitado a piscina. Fora a que Dck avistara o tal homem, mais ou menos da sua idade, vinte e oito ou trinta anos. Podia muito bem ser um "jogador profissional, 
um advogado, ou um gangster de Chicago". Fosse quem fosse, devia possuir todas as vantagens do dinheiro e do poder. Uma loira parecida com a Marilyn Monroe estava 
a unt-lo com creme para o sol, enquanto ele estendia a mo bronzeada para um copo de sumo de laranja gelado. Tudo aquilo devia pertencer a ele, Dick, mas nunca 
lhe pertenceria. Porque raio havia aquele filho-da-me de possuir tudo, ao passo que ele nada tinha? Porque iria a sorte toda para safados como ele? Com uma faca 
na mo, ele prprio, Dick, no tinha medo de ningum. Os tipos daquela espcie deviam ter um bocado de cautela, seno ele podia muito bem "abri-los de alto a baixo 
e deixar-lhes a sorte a escorrer para o cho". porm o dia ficara estragado Aquela bela loira a esfregar o homem dera cabo dele. F, declarou a Perry:
        Vamos embora desta porcaria!
Neste momento uma garotinha dos seus doze anos fazia riscos na areia com um pau, desenhando caras
enormes e grotescas. Fingindo admirar-lhe a habilidade, Dick ofereceu-lhe as conchas que apanhara. A criana
aceitou e Dick sorriu-lhe, piscou-lhe o olho. Tinha pena de ser assim, pois o seu interesse sexual pelas
rapariguinhas ainda crianas constitua um defeito de que se "envergonhava sinceramente", um segredo que
nunca confessara a ningum e que esperava ningum viesse a descobrir (muito embora suspeitasse de que
Perry j tinha razes para isso), pois os outros podiam julg-lo "anormal". Mas ele considerava-se absolutamente
190
"normal". Seduzir raparigas apenas adolescentes, como fizera "oito ou nove" vezes nos ltimos anos, no
provava o contrrio, pois, se todas as verdades fossem conhecidas, a maioria dos homens considerados mais
msculos sentia os mesmos desejos. Pegou na mo da pequena e disse: Tu s a minha menina. s a minha namorada.
Porm a garota reagiu. A mo dela, presa na dele, estorceu-se como um peixe no anzol e ele reconheceu a
expresso admirada dos olhos dela, que j vira noutras ocasies anteriores da sua carreira. Largou-a, com um
riso despreocupado, afirmando:
        Era a brincar. No gostas de brincadeiras?
Perry, ainda deitado debaixo do guarda-sol azul, observara a cena e percebera logo os intuitos de Dick, o que
lhe causara repulsa. No sentia "respeito pelas pessoas que no sabem controlar-se sexualmente", sobretudo
quando essa falta de domnio inclua o que ele chamava "perverso", "meter-se com midas", "coisas
esquisitas", violaes. Julgara ter tornado bem claro a Dick o seu ponto de vista. Na verdade, quase haviam
chegado a vias de facto uma vez que ele evitara que Dick violasse uma rapariguinha aterrorizada. No entanto,
ele no estava nada desejoso de repetir a faanha. E ficou aliviado quando viu a criana afastar-se de Dick.
Ouviam-se no ar os cnticos do Natal; vinham do rdio pertencente s quatro senhoras e contrastavam
estranhamente com o sol de Miami e os gritos das gaivotas turbulentas e irrequietas. "Oh, vamos ador-lo! Oh,
vamos ador-lo!", cantava o coro de uma catedral que comovia Perry at s lgrimas, as quais se recusavam a
deixar de correr mesmo depois de a msica se calar. E, segundo o costume destas ocasies em que se sentia
assim atormentado, encarava uma possibilidade que exercia sobre ele "uma tremenda fascinao": o suicdio.
Em criana pensara muitas vezes em se matar, mas isso eram divagaes sentimentais filhas de um desejo de
castigar o pai e a me ou outros inimigos. Depois de homem, contudo, a perspectiva de acabar com a vida fora
perdendo cada vez mais as suas caractersticas de fantasia. Essa, no devia esquecer, fora a soluo do Jimmy,
e tambm a da Fem. E ultimamente surgia-lhe no como uma alternativa, mas antes como a morte especfica
que o aguardava.
Fosse como fosse, no lhe parecia ter "muitos motivos para viver". As ilhas clidas, o oiro escondido, uma
vida passada a mergulhar num mar azul  cata de um tesoiro - tudo isso eram sonhos desfeitos. Desaparecera
igualmente "Perry Otarsons", nome inventado para usar nos seus triunfos no palco e no ecr que esperava,
meio a srio meio a brincar, alcanar um dia. Perry 191
Otarsons morrera sem ter chegado a viver. Que lhe restava pois na vida? Ele e Dick estavam "disputando uma
corrida sem meta de chegada", s agora se apercebera disso. E ao cabo de uma semana passada em Miami, a
longa corrida estava a terminar. Dick, que trabalhara outrora na companhia de automveis de aluguer ABC,
por sessenta e cinco cntimos  hora, declarara-lhe:
        Miami ainda  pior do que no Mxico. Sessenta e cinco cntimos! No estou para isso. No sou nenhum
escravo!
Por isso, no dia seguinte, restando-lhes apenas por junto vinte e sete dlares do dinheiro recolhido em Kansas
city, iam seguir de novo do Texas para o Nevada, procurando um "poiso definido".
Dick, que andara a fazer Corridas nas ondas, regressava. Deixou-se cair, a escorrer gua, sobre a areia
pegajosa
        Que tal estava a gua? Estupenda!
O facto de calhar perto do Natal, logo a seguir ao Ano Novo, o aniversrio de Nancy Clutter sempre criara
problemas ao seu namorado Bobby Rupp. Dava voltas  cabea, em busca de presentes apropriados para duas
ocasies to prximas. Mas todos os anos, com o dinheiro ganho a trabalhar durante as frias na plantao de
borracha do pai, conseguira sempre arranjar-se e, na manh do Natal, costumava correr para casa dos Clutter,
com um embrulho que as irms lhe haviam ajudado a fazer, destinado a despertar uma agradvel surpresa a
Nancy. No ano anterior tinha-lhe dado uma medalha de oiro do feitio de um corao. Este ano, com grande
antecedncia, comoera seu costume, hesitava entre os perfumes estrangeiros em exposio na Drogaria Norris
e um par de botas de montar. Mas entretanto Nancy morrera.
Na manh de Natal, em lugar de se dirigir a cavalo para a quinta de River Valley, ficara em casa, e mais tarde
tomara parte, com toda  famlia, no esplndido jantar que a me levara uma semana a preparar. Toda a gente
da casa, tanto os pais como os seis irmos, o haviam tratado com toda a gentileza desde o dia da tragdia.
Apesar disso, a hora das refeies, repetiam-lhe vezes sem conta que era preciso comer. Ningum compreendia que ele estava na verdade doente, que isso se devia ao 
desgosto, que este criara um crculo  sua volta do qual no podia fugir e onde os outros no tinham entrada, a no ser talvez a Sue. At a morte de Nancy ele no 
apreciara verdadeiramente Sue nem se sentira muito  vontade na presena da rapariga. Ela era muito diferente dele. Tomava demasiado a srio coisas a que mesmo as 
raparigas 192
no costumam ligar muita importncia : a pintura, os poemas, as msicas que tocava no piano. E tinha cimes dela, claro, da posio que ocupava no conceito de Nancy, 
que, muito embora com outro aspecto, era igual  sua. Mas era por isso mesmo que ela agora estava  altura de compreender o desgosto que sentia. Se no fosse a Sue, 
a constante presena dela, como poderia ter suportado aquela avalancha de embates: o prprio crime, as entrevistas com Mr. Dewey, a trgica ironia de ter sido durante 
uns tempos o suspeito nmero um? At que, ao cabo de cerca de um ms, essa amizade alterou-se. Bobby comeou a ir com menos frequncia a casa de Sue, sentar-se na 
sua salinha confortvel e, quando ainda o fazia, a pequena parecia receb-lo com menos afabilidade. O caso  que ambos recordavam um ao outro e continuavam a chorar 
um desgosto que, cada um por seu lado, procuravam j esquecer. As vezes Bobby conseguia-o: quando estava a jogar basebol ou conduzia o seu carro a oitenta milhas 
 hora pela estrada fora, ou quando, cumprindo o programa atltico que se impusera a si prprio (era sua ambio vir a ser monitor de ginstica), efectuava longos 
percursos a p atravs dos campos amarelos e planos. Neste momento, aps ter ajudado a levantar da mesa festiva todos aqueles pratos especiais, foi o que resolveu 
fazer: vestir uma camisa de desporto e ir fazer uma corrida.
O tempo estava maravilhoso. At mesmo naquela zona ocidental do Kansas, conhecida pelo seu prolongado Vero de So Martinho, o caso daquele ano parecia nunca visto: 
ar seco, um sol claro, o cu azul. Os lavradores optimistas profetizavam um "Inverno descoberto" - uma estao de tal modo suave que o gado poderia pastar c fora 
durante todo o tempo. Invernos assim eram raros, porm Bobby recordava-se de um, no ano em que comeara a namorar a Nancy. Tinham ambos doze anos e no fim das aulas 
ele costumava levar-lhe os livros e a sacola durante a milha de caminho que separava a escola do rancho do pai dela. Muitas vezes, quando o dia estava quente e soalheiro, 
paravam e sentavam-se  beira do rio, um trecho do Arkansas que corria escuro e vagaroso aos seus ps. Certo dia Nancy dissera-lhe:
        Um Vero que estivemos no Colorado, vi onde comea o Arkansas. O lugar exacto. Custa a acreditar que seja o nosso rio. No  da mesma cor, mas a gua  
pura, pode beber-se. Corre depressa, cheia de redemoinhos. O meu pai pescou uma truta...
Bobby nunca mais esquecera esta recordao da nascente do rio e, depois da morte da rapariga...
Bem, no sabia explicar, mas sempre que olhava para a corrente lamacenta do Arkansas, via-a 193
por um instante tal como Nancy a descrevera: uma torrente do Colorado, gelada, cristalina, povoada de trutas,
a correr vertiginosamente por entre as encostas de um vale da montanha. Fora assim a Nancy: enrgica, cheia
de vivacidade e alegria.
No entanto, os Invernos do Kansas obrigavam geralmente as pessoas a recolher a casa, e o gelo que cobria os
campos e os ventos cortantes alteravam o clima ainda antes do fim de Dezembro. Alguns anos antes cara
constantemente neve na vspera do Natal, e quando Bobby partira na manh seguinte para se dirigir a casa dos
Clutter, a trs milhas de distncia, fez o percurso sob uma avalancha de espessos flocos. Mas valera a pena;
apesar de l ter chegado entorpecido e cheio de fadiga, o acolhimento que lhe dispensaram reanimou-o por
completo. Nancy mostrou-se surpreendida e contente, a me, sempre to tmida e reservada, abraou-o e
beijou-o, teimando em o envolver numa manta e obrigando-o a sentar-se  lareira da sala. Enquanto as
mulheres se afadigavam na cozinha, ele, o Kenyon e Mr. Clutter tinham ficado sentados ao lume, a partir
nozes e amndoas. E Mr. Clutter declarara que aquele Natal lhe recordava outros dos seus tempos de rapaz, da
idade do Kenyon.
        Ns ramos sete. A minha me, o meu pai, duas raparigas e trs rapazes. Vivamos numa quinta bastante
longe da cidade. Por esse motivo era costume fazermos as compras do Natal todas de uma assentada. Uma s
viagem e pronto. Nesse ano de que estou a falar, na manh em que tencionvamos ir  cidade, a neve estava
to espessa como hoje, ou mais ainda, e continuava a cair, em flocos do tamanho de pires. Dava a impresso
que amos passar o Natal isolados, sem presentes debaixo da rvore. A minha me e as raparigas estavam
tristssimas. Eu ento tive uma ideia.
Lembrei-me de selar o mais rpido dos cavalos da lavoura e de ir fazer as compras de todos  cidade. A
famlia concordou. Cada um me entregou o seu dinheiro e a lista das coisas que desejava: quatro metros de
chita, uma bola, uma alfineteira, cartuchos de espingarda... uma nota de encomendas que levou at  noite a
executar."
No regresso a casa, com as compras bem resguardadas num alforje, ele sentia-se grato ao pai por o ter
obrigado a levar uma lanterna e tambm pelo facto de os arreios do cavalo estarem guarnecidos de guizos,
porque o seu tilintar alegre, bem como a luz mortia do petrleo, serviam-lhe de conforto na escurido.
"A ida para l foi na verdade fcil. Mas na volta a estrada desaparecera, bem como todos os pontos de
referncia. Tanto a terra como o ar, tudo era neve. O cavalo, enterrado at aos artelhos, 194
escorregava. Deixei cair a lanterna. Estvamos perdidos na noite. Era uma questo de tempo adormecermos e ficarmos gelados. Sim, tive medo a valer! Mas tambm rezei. 
E senti a presena de Deus..."
Os ces uivavam. Ele seguira na direco desse rudo e acabara por avistar as janelas iluminadas de uma herdade.
        Devia l ter parado. Mas lembrei-me da famlia, imaginei a minha me lavada em lgrimas. O meu pai e irmos a organizarem uma busca. Por isso continuei 
a viagem. J vem como fiquei desapontado quando cheguei a casa e vi tudo s escuras. As portastrancadas. Haviam ido todos para a cama, esquecendo-se completamente 
de mim. Ningum compreendeu a minha indignao. O meu pai disse-me: "Estvamos certos de que passarias a noite na cidade. Caramba, rapaz! Quem diria que farias a 
burrice de te meteres a caminho no meio de uma tempestade destas?" O cheiro fermentado a mas podres. Macieiras e pereiras, pessegueiros e cerejeiras: o pomar de 
Mr. Clutter, aquele to querido conjunto de rvores de fruto que ele prprio plantara. Na sua corrida sem destino, Bobby no tencionara ir at ali, ou a qualquer 
outra parte da quinta de River Valley. Foi uma coisa inexplicvel e quis ir-se embora, mas voltou de novo para junto da casa, branca, slida e espaosa. Ela sempre 
o impressionara e sentia prazer em pensar que a rapariga que namorava vivia ali. Agora, porm, privada dos cuidados dos falecidos donos, comeava a mostrar os primeiros 
sinais, muito tnues ainda, da decadncia. Na alameda jazia cado um ancinho a enferrujar-se; a relva estava manchada e demasiado crescida. Naquele domingo fatdico 
em que o xerife mandara vir as ambulncias para levar a famlia assassinada, estas haviam passado por cima da relva, indo at  porta da entrada, e as marcas dos 
pneus conservavam-se ainda visveis.
A casa do trabalhador encontrava-se vazia tambm; este arranjara cmodos para ele e para a famlia perto de Holcomb, e ningum se admirava disso, pois ultimamente, 
muito embora o tempo se apresentasse radioso, a propriedade dos Clutters a todos se afigurava lgubre e sombria... porm, ao passar em frente dos currais do gado, 
junto do palheiro, Bobby ouviu o sacudir da cauda de um animal. Era a Babe, a velha e obediente gua malhada de Nancy, com a sua frondosa crina platinada e os olhos 
roxos como enormes amores-perfeitos. Bobby agarrou-lhe nas crinas e encostou-lhe a cara ao pescoo, tal como Nancy costumava fazer. E a Babe relinchou. Ainda no 
domingo passado, da ltima
195
vez que estivera em casa das Kidwell, a me de Sue falara na Babe. Mrs. Kidwell era uma criatura cheia de
imaginao. Encontrava-se  janela a ver o crepsculo estender-se l fora por cima dos campos. De repente,
sem vir nada a propsito, dissera:
        Susan, sabes o que me parece estar sempre a ver? A Nancy, a cavalo na Babe, a dirigir-se c para casa.
Foi Perry quem primeiro os avistou - dois a pedirem boleia, um rapazinho e um velho, ambos transportando
sacolas feitas  mo, e, apesar do vento que fazia um vendaval como  costume no Texas -, vestidos apenas
com calas de ganga e camisas de riscado.
        Vamos dar-lhes boleia disse Perry. Dick no concordava l muito com isso; no por ser contra o facto de se
dar boleia, mas porque s gostava de o fazer a quem tivesse aspecto de poder pagar a viagem, "pelo menos
uma percentagem quando metessem gasolina". Mas Perry, com o seu conhecido altrusmo estava sempre
pronto a transportar as pessoas mais miserveis e estranhas que encontrassem. Dick acedeu por fim em parar o
carro.
O garoto, um fedelho entroncado, de olho vivo, falador e desembaraado para os seus doze anos, mostrou-se
exuberantemente agradecido, mas o velho, de rosto amarelo, entrou com dificuldade para dentro do carro onde
se deixou cair em silncio. O rapaz declarou:
        Estamos muito gratos a vocs porque o Johnny estava mesmo a cair. No conseguimos ningum que nos
desse boleia desde Galveston.
Perry e Dick tinham passado por esse porto de mar havia uma hora, depois de terem gasto a manh a tentarem
empregar-se nos escritrios martimos que contratavam marinheiros. Uma companhia oferecia-lhes trabalho
num navio-tanque que seguia imediatamente para o Brasil e, quela hora, podiam ambos ir j pelo mar fora se
no se desse a circunstncia de nem um nem outro possurem passaporte nem papis de identificao. Caso
estranho, o desapontamento de Dick foi ainda maior do que o de Perry:
        O Brasil!  l que andam a construir uma nova capital onde dantes no havia nada. Imaginem s, assistirmos
a uma coisa dessas! A qualquer palerma pode fazer fortuna!
        Para onde vo vocs? - perguntou Perry ao rapazito. Dirigiam-se para algures, no Texas.
        C o Johnny  meu av. Tem uma irm que vive em Sweetwater. Pelo menos eu peo a todos os santos que
ela ainda l viva.
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Julgvamos que ela vivia em Jasper, no Texas. Mas quando l chegmos houve quem nos dissesse que se
havia mudado para Galvestone. Mas tambm a a no encontrmos. Disse-nos uma senhora que ela tinha ido
para Sweetwater. S peo a Deus que ela l esteja declarou o pequeno, esfregando as mos do av, como que
para as aquecer. - Ests a ouvir, Johnny? Vamos num belo Chevrolet com aquecimento, modelo 1956!
O velho deu uma tossidela, moveu ligeiramente a cabea e revirou os olhos, tossiu de novo.
Dick inquiriu:
        Diz l, rapaz. Que tem ele?
 a mudana de clima - retorquiu o pequeno. E a caminhada. Andamos na estrada j desde antes do Natal.
Percorremos a maior parte do Texas. - Com a voz mais natural deste mundo, sempre sem deixar de massajar
as mos do velho, o rapaz informou que, at encetarem a viagem, tinham vivido todos trs, ele, o av e uma tia
solteira, numa quinta perto de Shreveport, na Louisiana. Essa tia morrera havia pouco. O Johnny anda
adoentado de h um ano para c e a tia tinha de fazer tudo sozinha, s eu  que a ajudava. Andvamos a rachar
lenha para o fogo. A cortar um toro. A certa altura, a tia disse que j no podia mais. Vocs j viram um
cavalo que cai para nunca mais se levantar! Eu j vi. Pois foi o que aconteceu  minha tia. Poucos dias antes do
Natal, o homem a quem o pai dela arrendara a quinta ps-nos dali para fora - prosseguiu o rapaz. - Foi por isso
que resolvemos meter ps a caminho do Texas,  procura de Mrs. Jackson. Eu c nunca a vi, mas ela  a nica
irm do Johnny. E algum tem de nos acolher. Ele j no vai longe. A noite passada choveu-nos em cima.
O carro parou. Perry perguntou a Dick a razo disto.
        Este homem est muito doente - respondeu Dick.
Bem, e que queres tu fazer-lhe? Larg-lo na estrada?
        V se reflectes, ao menos por esta vez.
        Na verdade ainda s mais patife do que eu supunha. Imagina que ele morre? O garoto observou:
        No morre nada. Aguentou at aqui, no vai morrer agora! Dick teimava: Imagina que ele morre. Sabes o que nos aconteceria? ramos interrogados.
        Francamente, quero l saber! Queres p-los l fora? Pelo amor de Deus! - Perry olhou para o invlido,
sempre a dormitar, surdo e inconsciente, olhou para o rapazito que lhe sustentou com firmeza o olhar, sem
splicas, "sem lhe pedir nada", e Perry
197
recordou-se do que fora naquela idade, quando andava a vaguear com um velho, tambm: - Anda, pe-nos l
fora, mas nesse caso eu saio!
        O. K., O. K., O. K.! - exclamou Dick. - Mas depois no te esqueas de que foi por tua culpa! Dick engatou o carro e este ps-se de novo em marcha. Nesse 
momento o rapaz gritou:
        Pare um momento! E, saltando para o cho, correu ao longo da berma da estrada, parou, curvou-se, e
comeou a apanhar uma, duas, trs, quatro garrafas vazias de coca-cola, voltou a correr para o carro, a sorrir,
todo satisfeito, e declarou: - As garrafas do dinheiro! E, dirigindo-se a Dick prosseguiu: - Olhe, se o senhor
quisesse ir devagar garanto-lhe que arranjvamos uma boa maquia.  com isto que eu e o Johnny nos temos
sustentado.
Dick achou graa, mas a coisa interessou-o e, quando o rapaz voltou a pedir-lhe que parasse, obedeceu
imediatamente. A ordem de parar tornou-se to frequente que gastaram uma hora a percorrer cinco milhas,
mas valeu a pena. O garoto tinha "uma habilidade dos diabos" para descobrir, na valeta, entre as pedras e o
lixo, o brilho escuro das garrafas de cerveja atiradas fora, as outras verde-esmeralda que tinham contido 7-Up
ou Canad Dry. Perry no tardou tambm a revelar os seus dotes de descobridor de garrafas. A princpio
limitava-se a indicar ao rapaz o que avistara; achava pouco digno ir a correr apanh-las pessoalmente. Aquilo
era um "disparate, mesmo ideias de garotos". No entanto, a coisa transformou-se numa espcie de caa ao
tesouro e ele acabou por tomar uma parte activa naquela busca entusistica de garrafas vazias. O mesmo
sucedeu a Dick, mas esse tomava o caso a srio. Por pouco que fosse, aquilo representava uma maneira de
fazer dinheiro, pelo menos uns cobres, e tanto ele como Perry bem precisavam disso; os dois no possuam
mais do que cinco dlares.
Agora todos trs saltavam do carro, Dick, Perry e o garoto, sem a mnima vergonha, e disputavam amigavelmente os respectivos achados. Certa vez, Dick descobriu um 
esconderijo de garrafas de vinho e whisky, no fundo de um poo, e ficou desolado ao saber que estas nada valiam.
        Eles no compram garrafas de lcool vazias - informou o pequeno. - At mesmo algumas de cerveja no
prestam para negcio. Com essas no perco tempo. S guardo as que se vendem de certeza: Dr. Pepper, Pepsi,
Cok, White Rock, Nehi.
Dick perguntou-lhe:
        Como te chamas tu?
        Bill - respondeu a criana.
198
        Muito bem, Bill. Sabes imensas coisas.
Cara a noite, o que obrigara os nossos caadores a interromper a faina, isso e a falta de espao, pois haviam recolhido tantas garrafas que o carro no comportava 
mais. A mala estava cheia, o assento de trs era uma pilha de vidro; o velhote doente quase nem se via, esquecido at pelo prprio neto, sob aquela massa que tilintava 
ameaadoramente.
Dick observou:
Tinha piada se tivssemos um choque.
Um aglomerado de luzes indicava o Novo Motel, que se transformou  vista dos nossos viajantes um impressionante grupo de chalets, uma garagem, um restaurante e uma 
sala de cocktails.
Assumindo o comando das operaes, o rapaz ordenou a Dick:
        Pare a. Talvez possamos fazer negcio. Mas deixe-me falar a mim. J tenho experincia disto.
Eles s vezes querem levar-nos. Perry no conseguia imaginar algum capaz de "levar um espertalho daqueles", segundo declarou mais tarde.
Ele no teve a mnima vergonha de entrar por ali dentro com toda aquela garrafaria. Eu c nunca me atreveria, tinha acanhamento. Mas os proprietrios do Motel foram 
simpticos e riram-se para ele. Ao cabo e ao resto, as garrafas valiam doze dlares e sessenta cntimos.
O rapaz dividiu o dinheiro por igual, metade para ele e a outra metade para os dois scios, e declarou:
Sabem uma coisa? Vou encher a barriga, mais o meu velho. Vocs no tm fome? Como sempre, Dick estava esfomeado. E ao fim de tanta actividade despendida, o mesmo 
se dava at com Perry. Segundo relatou depois: "Levei o velho ao colo para dentro do restaurante e sentei-o a uma mesa. O estado dele era o mesmo: um estado tanatide! 
Nunca disse uma palavra. Mas s queria que vissem o que ele metia para o bucho! O garoto mandou-lhe servir panquecas, acompanhadas por duas libras de manteiga e 
um quarto de melao. Foi ele que destinou. Para si queria batatas fritas e gelados, mas tambm ajudou o velho a comer a sua rao. No sei onde ele meteu tanta coisa!"
Durante o jantar, Dick, que estivera a estudar o mapa, declarou que Sweetwater ficava a cem milhas ou mais para oeste da estrada que seguiam, a qual os levaria atravs 
do Novo Mxico e do Arizona, at ao Nevada e a Las Vegas. Muito embora isto fosse verdade, Perry percebeu perfeitamente que o intuito de Dick era ver-se livre do 
velho e do garoto. Este tambm assim o compreendeu, mas no se deu por achado e disse delicadamente: 199
        No se preocupem connosco. Passa aqui muito carro e algum nos h-de levar.
Foi acompanh-los ao automvel, deixando o av a devorar nova dose de panquecas. Apertou a mo a Dick e
a Perry e desejou-lhes um feliz ano novo. Depois ficou no escuro, a acenar com a mo.
A noite de quarta-feira, 30 de Dezembro, foi memorvel para a famlia do agente A. A. Dewey. Ao record-la
mais tarde, a mulher deste declarou:
        O Alvin estava a cantar na banheira, "Rosa Amarela do Texas". Os garotos viam televiso. E eu andava a pr
a mesa. O jantar ia ser valente. Eu nasci em Nova Orlees e gosto de cozinhar e receber amigos em casa. A
minha me acabava de nos mandar um caixote de abacates e ervilhas, enfim, uma poro de coisas boas. Por
isso resolvi: vamos convidar alguns amigos para jantar: os Murray, o Cliff e a Dodie Hope. O Alvin no queria
mas eu teimei. Santo Deus! Este caso podia prolongar-se indefinidamente, e ele no descansara por assim
dizer um minuto desde que ele principiara. Portanto estava eu a pr a mesa quando ouvimos o telefone e eu
pedi a um dos garotos que fosse atender. Foi o Paul e disse que a chamada era para o pap; respondi: "Diz-lhe
que o pai est a tomar banho", mas o Paul achava melhor no dizer isso porque se tratava de M r. Sanford e
estava a falar de Topeka. Era o patro do Alvin. O Alvin veio atender s com uma toalha atada  cintura. Eu
fiquei furiosa porque ele deixava pingos por todos os lados. Mas quando ia para trazer a serapilheira, vi outra
coisa ainda pior: o gato, o malandro do Pete, em cima da mesa da cozinha, a devorar a minha salada de
camaro. O recheio dos abacates!
"Mas nisto o Alvin veio direito a mim, a abraar-me, a apertar-me, e eu gritava "Alvin Dewey, tu estars
louco?" Pode-se ter uma brincadeira, mas ele estava todo a escorrer gua e dava-me cabo do vestido, pois j
me preparara para receber as visitas. Mas imaginem o que significava para o Alvin saber que aqueles dois
homens tinham sido presos. Em Las Vegas. Disse que ia partir imediatamente para Las Vegas e eu disse-lhe
que ao menos vestisse alguma coisa. O Alvin estava muito excitado, no entanto disse: Que maada, querida,
parece-me que te estraguei a festa! C por mim acho que no podia haver melhor maneira de estragar uma
festa, tanto mais que isso significava que dali a um ou dois dias se daria o regresso  vida normal. O Alvin ria
e no calculam como era bom ouvi-lo rir de novo. Quero dizer que as duas ltimas semanas tinham sido
insuportveis. Os dois homens
200
haviam-se lembrado de voltar a Kansas City antes do Natal. Estiveram l e foram-se embora sem que ningum
os prendesse. Nunca vi o Alvin to deprimido como depois disso, a no ser quando o nosso filho mais velho
esteve no hospital, com encefalite, e pensvamos que amos ficar sem ele.
"Fui fazer-lhe caf e levei-lho ao quarto, onde pensava que ele estivesse a arranjar-se. Mas no. Dei com ele
sentado na borda da cama, com a cabea entre as mos, como se lhe doesse. Nem sequer calara ao menos
uma meia: "Que ests tu para a a fazer? Queres apanhar uma pneumonia?" Ele olhou para mim e disse-me:
"Marie, escuta. Devem ser estes tipos, no h dvida nenhuma.  a nica soluo lgica." O Alvin  um
homem estranho. Da primeira vez que se candidatou a xerife de Finney County, j depois de feita a contagem
dos votos e de se saber praticamente que ganhara, no havia a menor dvida, ainda ele continuava a repetir:
"Bem, s se sabe quando for a ltima volta!" At me apetecia estrangul-lo.
"Eu gritei-lhe: "Ento, Alvin, no comeces com isso. Claro que foram eles!" E ele replicou: "Mas onde esto
as provas? No podemos provar que eles tenham posto alguma vez os ps em casa dos Clutter!" Mas a mim
parecia-me que era precisamente isso que eles melhor podiam provar. Tinham marcas de solas! No seria isto
verdade? Porm o Alvin teimava: "Ho-de valer de uma grande coisa, a no ser que eles ainda andem com as
mesmas botas! Marcas de solas sem mais nada no valem um pataco furado!" Eu ento respondi: "Est bem,
querido. Bebe o teu caf e vou ajudar-te a fazer a mala." H ocasies em que no se pode discutir com o
Alvin. Pela maneira de ele falar, eu estava j meio convencida de que o Hickock e o Smith estavam inocentes
ou, se o no estavam, nunca confessariam, e se nunca confessassem no poderiam ser condenados. As provas
eram apenas circunstanciais. O que mais o preocupava, no entanto, era que tudo isto transparecesse e que os
homens viessem a saber a verdade antes que o K. B. I. Os interrogasse. At  data eles estavam convencidos de
que haviam sido presos por falta de cumprimento da fiana e por passarem cheques falsos. E Alvin considerava importantssimo que eles continuassem nessa iluso. 
E declarava: "O nome de Clutter deve cairlhes em cima de chofre, como um golpe inesperado!"
"O Paul, que eu tinha mandado buscar umas meias do Alvin, ficou-se a ver-me fazer a mala. Queria saber para
onde ia o pai. Este pegou nele ao colo e disse-lhe: "s capaz de guardar um segredo, Paulinho?" Nem era
preciso perguntar isso, pois ambos os garotos sabem que no devem falar acerca do trabalho do pai, daquilo
que ouvem nas conversas em casa. Ento disse ao filho: "Lembras-te daqueles dois tipos de que andvamos 
procura?
201
pois bem, j sabemos onde eles esto e agora o paizinho vai busc-los e traz-los aqui para Garden City." Mas o Paulinho comeou a choramingar: "No faas isso, 
pap! No os tragas para aqui!" Estava assustado, o que no admira numa criana de nove anos. O Alvin deu-lhe um beijo e disse: "No h perigo, Paulinho. Ns no 
os deixaremos fazer final a ningum. Eles nunca mais podero fazer mal seja a quem for!"
nunca
Nessa tarde, s cinco horas e vinte minutos depois de o Chevrolet roubado chegar  cidade de Las Vegas, aps atravessar o deserto, a longa jornada findou. Mas no 
antes de Perry ter parado no Correio Geral de Las Vegas, para levantar a enorme caixa de papelo que despachara do Mxico e segurara por cem dlares, soma esta que 
excedia em grande escala o seu msero contedo composto de leos solares e cales de riscado, cuecas, camisas usadas e dois pares de botas com fivela prateada. 
Enquanto esperava Perry c fora, Dick sentia-se extraordinariamente bem disposto; tomara uma deciso que decerto viria pr cobro s suas dificuldades presentes e 
o colocaria num caminho novo, com um novo objectivo em vista. Essa deciso consistia em assumir a personalidade de um oficial da Fora Area. Tratava-se de um projecto 
que acalentava havia muito, e Las Vegas era o lugar ideal para o pr em prtica. Escolhera j o nome e a patente do oficial, isto inspirado num antigo conhecimento, 
um rapaz que era guarda da penitenciria do estado do Kansas: Tracy Hand. Na pele do capito Tracy Hand, impecavelmente vestido com uma farda feita por medida, Dick 
tencionava "correr de ponta a ponta" a rua de Las Vegas onde os casinos nunca fecham. Luxuosos ou rascas, o Sands, o Stardust, tencionava percorr-los a todos, distribuindo 
pelo caminho "uma mo-cheia de papelinhos". Assinando cheques sem cobertura durante um dia inteiro, esperava recolher trs ou quatro mil dlares em vinte e quatro 
horas. Isto era metade do plano: a outra consistia em desenvencilhar-se de Perry. Dick estava farto dele: da sua harmnica, das suas doenas e padecimentos, das 
suas supersties, dos seus olhos femininos e lacrimosos, da sua voz rouca e irritante. Desconfiado, com a mania de que tinha sempre razo, cheio de despeitos, parecia 
uma mulher de quem teria de se separar. E s havia uma maneira: no dizer nada e pr-se a andar.
Absorvido nos seus planos, Dick no reparou num carro patrulha que passou por ele muito devagar, a observ-lo. Outro tanto sucedeu a Perry, que descia as escadas 
do correio com a caixa mexicana sobre o ombro.
202
Os agentes Ocie Pigford e Francis Macauley, entre vrias coisas que haviam fixado, lembravam-se da
descrio de um Chevrolet preto modelo 1956, com placa do Kansas n JO-16212. Nem Perry nem Dick
deram pela presena do carro da polcia que os seguiu, ao deixarem o correio. Com Dick ao volante e Perry a
indicar o caminho, percorreram cinco quarteires na direco do norte, voltaram  esquerda e pararam em
frente de uma palmeira moribunda e de uma tabuleta semiapagada na qual se liam apenas as palavras:
"PENSO VIL..."
         aqui? - inquiriu Dick.
Perry fez que sim com a cabea, enquanto o carro da polcia parava junto ao deles.
A Diviso de Detectives da cidade de Las Vegas compunha-se de duas salas para interrogatrios - iluminadas
a luz fluorescente, medindo dez metros por doze, com as paredes e o tecto de celotex. Em cada um dos
compartimentos, alm de uma ventoinha elctrica, uma mesa de metal e cadeiras de dobrar a condizer, havia
microfones, gravadores ocultos e um postigo de observao com um dispositivo de espelhos instalado numa
das portas. Naquele sbado, o segundo dia do ano de 1960, ambas as salas estavam reservadas para as duas
horas da tarde, hora que os detectives do Kansas haviam marcado para a primeira entrevista com Hickock e
Smith.
Pouco antes desse momento, os quatro detectives do K. B. I. Os agentes Harold Nye, Roy Church, Alvin
Dewey e Clarence Duntz encontravam-se no corredor c fora. Nye estava cheio de febre.
        Em parte era gripe, mas sobretudo sofria de excitao - declarou ele mais tarde a um jornalista. - Mas a
verdade  que eu j estava  espera em Las Vegas havia dois dias, tinha tomado o avio logo que a notcia
chegara ao nosso quartel-general de Topeka. O resto da equipa, o Al, o Roy e o Clarence vieram depois de
automvel. E fizeram uma viagem tormentosa. Um tempo desgraado. Passaram a vspera do Ano Novo
bloqueados pela neve num motel em Albuquerque. Caramba, quando aqui chegaram mereciam bem um
whisky e algumas notcias satisfatrias. Fui eu quem lhes forneceu as duas coisas. Os nossos patifes haviam
ambos assinado uma desistncia de pedido de extradio. Melhor ainda: tnhamos em nosso poder as botas, os
dois pares, as solas de umas com cinco salincias e as outras com um desenho em estrela, adaptando-se
perfeitamente s fotografias em tamanho natural das marcas encontradas na casa dos Clutter. As 203
botas estavam numa caixa de objectos que os dois rapazes tinham ido buscar ao correio precisamente na altura
em que caiu o pano sobre a tragdia. Eu j disse ao Al Dewey: "Imaginem que os tnhamos agarrado cinco
minutos antes!"
"Mesmo assim a nossa acusao era muito duvidosa, capaz de ser reduzida a nada. Mas eu lembro-me de que
enquanto esperava no corredor, apesar de me sentir nervoso e febril como o diabo, sentia confiana. O mesmo
se dava com os camaradas; sentamos que estvamos  beira de descobrir a verdade. A minha tarefa, minha e
do Church, foi arranc-la ao Hickock. O Smith ficou para o Al e para o velho Duntz. Nessa altura ainda eu no
tinha visto os suspeitos, limitara-me a revistar-lhes a bagagem e a preparar as desistncias de extradio.
Nunca tinha posto os olhos em cima do Hickock at ele ser levado para a sala do interrogatrio. Julgava-o
mais alto e mais moreno. No um lingrinhas como . Tinha vinte e oito anos, parecia um garoto esfomeado e
era magro como um esqueleto. Vestia camisa azul e calas de ganga, meias brancas e sapatos pretos.
Apertmos a mo um ao outro; a mo dele estava mais seca do que a minha. Limpo, bem educado, com uma
voz agradvel, boa pronncia, um tipo mesmo simptico, com um sorriso encantador, de que a princpio fez
largo uso.
"Eu disse-lhe: "Mr. Hickock, eu chamo-me Harold Nye e este senhor  Mr. Roy Church. Somos agentes
especiais do Kansas Bureau of Investigation e viemos aqui para falarmos da sua desobedincia  fiana. Claro
que o senhor no  obrigado a responder s nossas perguntas e tudo o que disser pode ser utilizado contra si.
Tem direito em qualquer altura de exigir a presena de um advogado. No nos serviremos da fora, nem de
ameaas, nem lhe faremos promessas." Ele mostrava-se o mais calmo possvel.
-J sei essa cantiga - respondeu Dick. - No  a primeira vez que me interrogam.
        Diga-me, Mr. Hickock...
Chame-me Dick.
        Diga l ento, Dick, em que ocupou o seu tempo desde que o libertaram sob fiana. Segundo estamos
informados, o senhor fez pelo menos duas largas distribuies de cheques falsos em Kansas City.
        Sim, distribu por l alguns.
Poder fornecer-nos uma lista?
O prisioneiro, sem dvida orgulhoso por possuir uma memria to extraordinria, recitou os nomes e
direces de vinte estabelecimentos de Kansas City, cafs e garagens, relatando com 204
todos os pormenores a natureza da "compra" e indicando o montante do cheque.
        Gostava de saber, Dick, por que razo essa gente aceitava os seus cheques. Gostaria que me explicasse esse
segredo.
        O segredo  este: as pessoas so estpidas. Roy Church respondeu:
        Bravo, Dick. Isso tem muita piada. Mas de momento esqueamos esses cheques. - Muito embora fale como
se tivesse a garganta forrada de cerdas de porco e tenha uns punhos capazes de partir pedras a murro (o que
constitui na verdade o seu passatempo favorito), tem havido quem tome Church por um sujeitinho amvel, um
solteiro rosado e careca. - Dick, gostaria que nos contasse alguma coisa acerca do seu meio familiar.
O prisioneiro satisfez o que lhe pediam. Certo dia quando tinha oito ou nove anos, o pai adoeceu. "Com um
bocado de febre, mas a doena durou meses, durante os quais a famlia foi sustentada pela assistncia pblica e
pela caridade dos vizinhos, "de contrrio teramos morrido de fome." Pondo de parte este episdio, a sua
infncia fora normal. "Nunca tivemos muito dinheiro, mas tambm nunca estivemos na misria, confessara
Hickock. "Sempre dispusemos de roupa lavada para vestir e de alguma coisa para comer. No entanto, o meu
pai era muito severo. S estava contente quando fazia os outros trabalhar. Mas dvamo-nos bem. Nunca
tivemos discusses graves. De resto, os meus pais nunca discutiam. No me recordo de uma nica questo
entre eles. A minha me  uma jia. O meu pai tambm  um bom tipo. Direi mesmo que ambos fizeram por
mim tudo o que puderam. Se fui  escola?"
Dick considerava que teria sido um aluno excepcional se dedicasse aos estudos uma parcela do tempo que
gastava com o desporto. "Futebol, basebol, fiz parte de todas as equipas. A seguir ao liceu, poderia ter entrado
para a Universidade, com uma bolsa de estudo do futebol. Queria estudar engenharia, mas mesmo com a bolsa
gasta-se muito dinheiro. No sei como foi, mas julguei mais seguro empregar-me." Antes de fazer vinte e um anos, Hickock j trabalhara como operrio da via frrea, 
fora condutor de uma ambulncia, pintor de automveis e mecnico numa garagem; casara tambm com uma rapariga de dezasseis anos. "A Carol. O pai dela era padre protestante. 
Tinha-me um dio tremendo. Afirmava que eu no prestava para nada. Fez-me todo o mal que pde. Mas eu era maluco com a Carol. Ainda sou. Ela  uma verdadeira princesa. 
O diabo  que... tivemos trs garotos. Todos rapazes. E ramos novos demais para mantermos trs filhos. O mal todo foi ficarmos
205
a dever tanto dinheiro. Se eu ganhasse mais qualquer coisa... Bem, tentei".
Experimentara o jogo e depois comeara a assinar cheques falsos e a praticar outras formas de roubo. Em 1958 fora condenado por assalto a domiclio. O tribunal de 
Johnson County condenarao a cinco anos de priso na penitenciria do estado do Kansas. Nessa altura j Carol o deixara e ele estava noivo de outra rapariga tambm 
de dezasseis anos.
        Era m como o diabo. Ela e toda a famlia. Divorciou-se de mim quando ainda estava preso. No me lamento disso. No passado ms de Agosto, quando sa da 
cadeia, pensava que tinha todas as probabilidades de comear vida nova. Arranjei trabalho em Olathe, fui viver com a minha famlia e passava os seres em casa. Portava-me 
lindamente...
        At que chegou o dia vinte de Novembro - interrompeu Nye. Hickock pareceu no compreender. - Nesse dia deixaste de te portar bem e comeaste a distribuir 
cheques falsos. Porqu ? Hickock suspirou e disse:
        Isso dava um romance. - Depois, enquanto ia fumando um cigarro que Nye lhe oferecera e Church amavelmente lhe acendera, foi dizendo: - O Perry, o meu camarada, 
Perry Smith, foi liberto sob fiana na Primavera. Mais tarde, quando eu sa, ele escreveu-me. A carta trazia carimbo do Idaho. Vinha lembrar-me o negcio de que 
havamos falado tanto. Relativo ao Mxico. A nossa ideia era irmos at Acapulco ou outro lugar semelhante, comprarmos um barco que ns prprios tripularamos, para 
alugarmos aos turistas que quisessem pescar no alto mar.
Nye inquiriu:
        E quanto calculavam vocs dar pelo barco?
-J l vamos - respondeu Hickock. - Ora oua. O Perry escreveu-me a dizer que tinha uma irm que vivia em Fort Scott e lhe devia uns dinheiros. Alguns milhares de 
dlares. Da chelpa com que o pai lhe ficara, produto da venda de uma propriedade no Alasca. Afirmava-me que vinha ao Kansas para receber a massa.
        E combinaram ambos empreg-la na compra de um barco.
        Exacto.
        Mas nada disso se passou.
        O que se passou foi que o Perry s apareceu talvez dali a um ms. Fui encontrar-me com ele na estao dos autocarros de Kansas City.
        Quando? Em que dia da semana? - interrogou Church.
        Numa quinta-feira.
        E quando foram a Fort Scott?
206
-Nesse sbado.
        Catorze de Novembro.
Os olhos de Hickock brilharam de surpresa. Via-se que estava perguntando a si prprio como poderia Church estar tanto a par da data; mas imediatamente, visto ser 
ainda demasiado cedo para levantar suspeitas, o detective acrescentou:
        E a que horas partiram para Fort Scott?
        Nessa mesma tarde. Estivemos a arranjar o meu carro e comemos um prato de chili no Caf West Side. Deviam ser umas trs horas.
Umas trs horas. E a irm de Perry esperava a vossa visita?
        No, visto que o Perry perdera a direco, imagine-se. E ela no tinha telefone.
        Ento como conseguiram encontr-la?
Fomos indagar aos Correios. -Tu?
        No, o Perry. Disseram-nos que se tinha mudado dali. Fora para o Oregon, julgavam eles. A verdade  que no deixara a morada.
        Vocs ficaram desolados. Depois de estarem a contar com esse dinheiro todo...
Hickock concordou:
        Sim, porque... bem, ns estvamos mais do que resolvidos a ir para o Mxico. De contrrio eu nunca teria assinado aqueles cheques. Mas tinha esperana... 
Escutem, eu estou a dizer a verdade.
Pensava que uma vez no Mxico e a ganhar dinheiro, poderia pagar tudo. Esses tais cheques.
Nye interveio:
        Um momento, Dick. - Nye  um homem baixo, de gnio vivo, que tem dificuldade em moderar os seus impulsos, tem uma lngua pronta e diz logo tudo o que pensa: 
Eu gostaria que me explicasses melhor essa tal viagem a Fort Scott - declarou num tom melfluo. - Quando viram que no encontravam a irm do Perry Smith, que fizeram 
vocs?
        Demos uma volta por ali. Bebemos uma cerveja e viemo-nos embora.
        Para casa, queres tu dizer?
No, para Kansas City. Parmos no parque de automveis Zesto e comemos uns cachorros-quentes.
Depois fomos at  Avenida das Cerejeiras.
Tanto Nye como Church nunca tinham ouvido falar na Avenida das Cerejeiras. Hickock estranhou:
        Esto a brincar? Todos os gajos do Kansas a conhecem.
207
E ao ver que os detectives continuavam a confessar a sua ignorncia, explicou tratar- se de uma zona do
parque onde se encontravam quase s prostitutas. - E acrescentou: Mas tambm l vo muitas amadoras.
Enfermeiras, secretrias, etc. Eu costumo ter l muita sorte.
        E nessa noite? Tiveste sorte?
        Foi do pior. Acabmos por arranjar um par de coiros.
        Como se chamavam?
        Mildred. A outra, a do Perry, creio que era Joan.
        Descreve-as l.
        Deviam ser irms. Ambas louras e gordas. No me recordo bem. J v, tnhamos comprado duas garrafas de
cocktail Flor de Laranja, j preparado, sumo de laranja misturado com vodka, e eu estava um bocado grosso.
Demos umas coisas a beber s garotas e levmo-las para o Fun Haven. Calculo que os senhores tambm no
sabem o que  o Fun Haven?
No sabiam.
Hickock sorriu e encolheu os ombros.
        Fica na Estrada de Blue Ridge. A oito milhas ao sul de Kansas City. Um misto de clube nocturno e motel.
Pagam-se dez dlares pela chave de uma cabana.
Prosseguindo, descreveu a cabana onde afirmava terem estado os quatro: duas camas iguais, um velho
calendrio com um reclame  coca-cola, um rdio que s trabalhava se lhe enfiassem uma moeda de um
quarto de dlar. O seu -vontade, todas estas explicaes, a rpida descrio de tantos pormenores verificveis, tudo impressionava Nye, muito embora, claro, ele 
soubesse que o rapaz estava a mentir. Ou no estaria? Ou fosse devido  gripe e  febre ou a uma sbita quebra de confiana, o certo  que Nye sentiu-se de repente 
coberto de suores frios.
        Na manh seguinte, ao acordar, verificmos que as tipas nos tinham roubado e se haviam posto ao fresco -
declarou Hickock.
        Eu pouco tinha a perder, mas o Perry ficou sem a carteira que continha quarenta ou cinquenta dlares.
        E que fizeram vocs ento? No havia nada a fazer.
        Podiam ter-se queixado  polcia.
        No faltava mais nada! Se no sabem fiquem sabendo que um tipo solto sob fiana no tem licena de se
embebedar. Nem de acompanhar com os antigos camaradas da choa...
        Tens razo, Dick. Era domingo. Quinze de Novembro. Diz-nos o que fizeram vocs a partir do momento em
que saram de Fun Haven.
        Bem, almomos num restaurante de camionagem perto de 208
Happy Hill. Depois seguimos para Olathe e deixei o Perry no hotel onde se hospedara. Deviam ser umas onze
horas. A seguir fui para casa e almocei com a minha famlia. Como era costume aos domingos. Fiquei a ver a
TV, um jogo de basquetebol, ou talvez fosse futebol. Eu vinha muito cansado. Quando voltaste a ver o Perry
Smith?
        Na segunda-feira. Ele foi ter comigo ao emprego,  loja do Bob Sands.
        E de que falaram? Acerca do Mxico?
        Bem, no tnhamos ainda abandonado a ideia, muito embora no dispusssemos do dinheiro necessrio para
a pr em prtica. Mas tencionvamos ir para l e valia a pena correr o risco.
        O risco de outra estadia em Lansing?
        No supunha essa hiptese. Nunca pensmos em voltar aos Estados Unidos.
Nye, que estivera a gatafunhar notas numa agenda, disse ento:
        No dia a seguir quela chuva de cheques - devia ser no dia vinte e um, - tu e o teu amigo desapareceram.
Vamos, Dick, vais fazer o favor de nos descrever as vossas actividades entre esse dia e a vossa priso aqui em
Las Vegas. S um apanhado geral.
Hickock assobiou e revirou os olhos:
        Huuu! - exclamou. Depois, apelando para o seu talento e como quem est a fazer uma reconstituio total,
comeou a narrativa daquela longa jornada, cerca de dez mil milhas, que ele e Smith tinham realizado nas
ltimas semanas. Falou durante uma hora e vinte e cinco minutos, das duas e cinquenta at s quatro e quinze,
referindo-se, enquanto Nye tentava tomar notas na sua agenda, a uma srie de auto-estradas, hotis e motis,
rios, cidades, citando uma infinidade de nomes prestigiosos: Apacbe, El Paso, Corpus Christi, Santillo, San
Luis Potos, Acapulco, San Diego, Dlias, Omaha, Sweetwater, Stillwater, Tenville Junction, Tallahassee,
Needles, Miami, Hotel Nuevo Waldorf, Hotel Simone, Arrowhead Motel, Cherokee Motel, e muitos, muitos
mais. Disse-lhes tambm o nome do homem a quem tinham vendido, no Mxico, um velho Chevrolet de 1949,
e confessou ter roubado um modelo mais recente em lowa. Descreveu pessoas que ele e o scio haviam
conhecido: uma viva mexicana, rica e provocante; Otto, um "milionrio" alemo; um par de negros lutadores
profissionais que viajavam num "espada" cor de alfazema; o proprietrio cego de uma herdade de cobras
cascavis; um velho moribundo e o seu neto; e muitos outros. No fim, sentou-se de braos cruzados e com um
sorriso agradvel nos lbios, como se esperasse ser elogiado pela sinceridade, pela graa e Clareza da sua
histria.
209
porm, Nye, no decorrer da narrativa, fizera voar a caneta sobre o papel, ao passo que Church ia batendo
vagarosamente com o punho fechado sobre a palma da outra mo aberta, sem dizer nada, at que de repente
exclamou:
        Calculo que saibas a razo por que aqui estamos! A boca de Hickock endureceu assim como a sua posio.
        Deves imaginar que no percorremos este caminho todo at ao Nevada s para conversar com uma parelha
de falsificadores de cheques!
Nye fechara a agenda. Tambm ele fitava o prisioneiro e observara uma rede de veias que lhe aparecera na
tmpora esquerda.
        Achas que sim, Dick? -Acho o qu?
        Que viemos at aqui para falar acerca de uns mseros cheques?
        No vejo outra razo.
Nye colocou uma marca na agenda e entretanto ia dizendo:
        Diz-me uma coisa, Dick. J ouviste falar no crime Clutter?
        Acerca deste momento, escreveu ele mais tarde no relatrio oficial do interrogatrio: "O suspeito sofreu uma
reaco notvel. Fez-se verde e comeou a tremer com os olhos." Hickock exclamou:
        Alto l. Espere a! Eu c no sou nenhum assassino.
        O que eu perguntei rectificou Church - foi se ouviste falar no caso Clutter.
        Devo ter lido qualquer coisa - respondeu Dick.
        Um crime repelente. Repelente e cobarde - disse Church.
        E quase perfeito - acrescentou Nye. - Mas tu cometeste dois erros, Dick. Um foi deixares uma testemunha
viva. Que ir prestar declaraes no tribunal. Que ir afirmar diante dos jurados que Richard Hickock e Perry
Smith amarraram, amordaaram e assassinaram quatro pessoas indefesas! A cara de Hickock fez-se muito vermelha:
        Uma testemunha viva? No pode ser!
        porque julgavas ter acabado com todos?
        Eu no disse nada disso! Ningum me pode relacionar seja com que crime for. Cheques, uns roubozitos,
ainda v. Mas eu c no sou assassino!
        Mas ento - exclamou vivamente Nye - porque nos estiveste a mentir?
        O que eu disse foi a pura verdade!
        Num ou noutro ponto. Nem sempre. Por exemplo, quando falaste na tarde de sbado, catorze de Novembro,
disseste que tinhas ido a Fort Scott.
210
        pois disse.
        E que, uma vez ali, tinham estado nos Correios. Sim.
        A perguntar a direco da irm do Perry Smith.
        Exactamente.
Nye ergueu-se. Passou para trs da cadeira de Hickock e colocando as mos no espaldar desta imclinou-se
como se fosse segredar-lhe alguma coisa ao ouvido:
        Perry Smith no tem irm nenhuma que tivesse vivido em Fort Scott. Nem nunca teve. E nos sbados  tarde
os Correios de Fort Scott esto fechados. - Depois acrescentou: - Pensa bem, Dick. Por hoje  tudo.
Voltaremos a falar mais tarde.
Depois de haverem despedido Hickock, Nye e Church atravessaram o corredor e, espreitando pelo postigo de
observao instalado na porta da sala, ficaram a observar o interrogatrio de Perry, uma cena muda para eles.
Nye, que via Smith pela primeira vez, sentia-se fascinado pelos ps dele, pelo facto de as suas pernas serem
to curtas que os ps, do tamanho dos de uma criana, no conseguiam pousar no cho. A cabea de Smith, de
cabelos lisos como os de um ndio - uma mistura de irlands e ndio, de feies descaradas - recordavam-lhe a
bela irm do suspeito, Mrs. Johnson. Porm, este homem-criana mal constitudo nada tinha de bonito: a
ponta rosada da sua lngua, que lhe espreitava da boca, lembrava a de um lagarto. Naquele momento fumava
um cigarro e pela calma das fumaas que exalava via-se estar ainda "virgem", quer dizer, que no fora ainda
informado da finalidade da entrevista.
Nye tinha razo, porque Dewey e Duntz, pacientes por dever de ofcio, haviam, pouco a pouco, circunscrito a
histria da vida do prisioneiro aos acontecimentos das ltimas sete semanas, at  recapitulao daquele
crucial fim-de-semana de sbado ao meio-dia  mesma hora de domingo, 14 a 15 de Novembro. Depois de
passarem trs horas a preparar o caminho, j no estavam longe do fim.
Dewey disse ento:
        Perry, vamos l analisar a tua posio. Quando te libertaram sob fiana foi com a condio de no voltares ao
Kansas.
        O estado do Girassol.1 No me consolava disso.
        Se assim era porque te foste embora? Devias ter tido uma razo muito forte.
1.        Nome dado ao tstado do Kansas. (N da T.)
211
-J lhe disse. Foi para ir procurar a minha irm. Para receber o meu dinheiro que ela l tinha.
        Oh, sim. A irm que tu e o Hickock queriam encontrar em Fort Scott. Perry, a que distncia fica Fort Scott
de Kansas City?
Smith sacudiu a cabea. No sabia.
        Bem, que tempo levaram a chegar l? Nada de resposta.
        Uma hora? Duas? Trs? Quatro? O preso disse que no se lembrava.
        Claro. No te lembras porque nunca na tua vida foste a Fort Scott.
At ento nenhum dos detectives pusera em dvida qualquer afirmao de Perry. Este inteiriou-se na cadeira
e, com a ponta da lngua, humedeceu os lbios.
        A verdade  que nada do que disseste  verdade. Nunca puseste os ps em Fort Scott. Vocs nunca se
encontraram com duas raparigas nem as levaram para nenhum motel...
        Isso  que levmos. No estou a brincar.
        Como se chamavam?
        No lhes perguntei.
        Tu e o Hickock passaram a noite com essas duas mulheres sem lhes perguntarem o nome?
        Eram apenas duas prostitutas.
Diz-nos o nome do motel.
        Perguntem ao Dick. Eu c nunca me lembro dessas bagatelas. Dewey voltou-se para o colega:
        Clarence, acho que so alturas de lhe darmos uma sacudidela! Duntz curvou-se para a frente. Tinha a
corpulncia de um
peso-pesado e a agilidade de um lutador, porm os seus olhos eram velados pelas plpebras descidas e
preguiosas. Falava com voz pausada, formando cada palavra lentamente e pronunciando-as com um sotaque
arrastado:
        pois claro. J no  sem tempo.
        Escuta bem, Perry. Mr. Duntz vai dizer-te onde estavas e o que fizeste.
Duntz declarou:
        Foste matar a famlia Clutter.
Smith engoliu em seco e comeou a friccionar os joelhos.
        Estavas em Holcomb, no Kansas. Em casa de Mr. Herbert W. Clutter. E antes de sares dela mataste toda a
gente que l se encontrava.
        Nunca! Isso nunca!
O que  que tu nunca fizeste?
        Nunca conheci ningum com esse nome, Clutter.
212
Dewey chamou-lhe mentiroso e depois, puxando de uma carta que os quatro polcias haviam previamente combinado guardar para o fim, exclamou:
        Ns temos uma testemunha, Perry. Houve uma pessoa que vocs no viram.
Decorreu um minuto e Dewey regozijou-se com o silncio de Smith, porque um inocente teria perguntado logo quem era essa testemunha, quem eram esses Clutters e porque 
imaginavam ter sido ele o seu assassino. De qualquer modo teria dito fosse o que fosse. Mas Smith ficou calado, a apertar os joelhos.
        Ento, Perry?
        Tem uma aspirina? Tiraram-me as minhas. Di-te alguma coisa?
        Doem-me as pernas.
Eram cinco e meia. Dewey, intencionalmente brusco, terminou a entrevista, dizendo:
        Bem, continuaremos a entrevista amanh. A propsito acrescentou. - Sabes que dia  amanh? O aniversrio de Nancy Clutter. Ia fazer dezassete anos.
"Ia fazer dezassete anos." Perry, desperto na madrugada, cogitava (segundo mais tarde recorda) se seria realmente aquele o dia de aniversrio da rapariga, e concluiu 
que se tratava de mais um truque para o desmoralizar, como aquela idiotice da testemunha, "uma testemunha viva". No era possvel. Ou quereriam eles dizer... Se 
ao menos pudesse conversar com o Dick! Mas tinham-nos separado: Dick estava numa cela de outro andar. "Escuta, Perry. Mr. Duntz vai dizer-te onde realmente estiveste..." 
A meio do interrogatrio, depois de reparar na quantidade de aluses a um certo fim-de-semana de Novembro, preparara-se para o que desse e viesse. No entanto, quando 
chegou a altura, quando aquele enorme cowboy com a sua voz sonolenta lhe declarou: "Tinhas ido matar a famlia Clutter", quase se sentira morrer. Pronto! Devia ter 
perdido dez libras de peso em dois segundos. Graas a Deus nada dera a perceber. Ou pelo menos assim o esperava. E o Dick? Provavelmente haviam-lhe pregado a mesma 
partida. Dick era esperto, um actor consumado, mas a coragem dele no era de inspirar confiana, assustava-se facilmente. Mesmo assim, e por mais que o apertassem, 
Perry tinha a certeza de que Dick se aguentaria. A no ser que estivesse disposto a deixar-se enforcar "E antes de sares daquela casa mataste toda a gente que l 
se encontrava." No se admirava de que todos os antigos reclusos do Kansas tivessem ouvido aquelas 213
palavras. Deviam ter interrogado centenas de homens e sem dvida acusado dezenas deles: ele e o Dick eram apenas mais dois. Por outro lado... ora vejamos: Teriam 
mandado do Kansas quatro agentes especiais a mil milhas de distncia para deitar a mo a um par de mseros transgressores da fiana? Talvez, efectivamente, tivessem 
descoberto qualquer coisa ou algum... "Uma testemunha viva". Mas isso era impossvel. A no ser que... Daria um brao ou uma perna para poder falar com o Dick a 
ss durante alguns instantes.
E este, acordado na sua cela no andar abaixo daquele, sentia-se (segundo mais tarde veio a afirmar) igualmente desejoso de conversar com Perry, para descobrir o 
que aquele idiota lhes dissera. Santo Deus! No se podia ter confiana nele, nem sequer para se lembrar das linhas gerais daquele libi do Fun Haven, muito embora 
o tivessem discutido vezes sem conta. E quando aqueles filhos-dame o ameaaram com uma testemunha! Apostava a cabea em como aquele palerma acreditara na existncia 
dessa testemunha ocular! Ao passo que ele, Dick, vira logo quem era a tal famosa testemunha: o Floyd Wells, o seu ex-amigo e companheiro de cela. Quando estava a 
cumprir as ltimas semanas da pena, Dick projectara apunhalar o Floyd, espetar-lhe o corao com uma "naifa" feita por ele. E que louco fora em no ter levado por 
diante esse projecto! Com excepo de Perry, Floyd Wells era o nico ser humano capaz de ligar os nomes de Hickock e Clutter. Floyd, com os seus ombros descados 
e queixo metido para dentro, parecia a Dick demasiado medroso para o acusar. Aquele grande safado devia esperar grande recompensa: a libertao sob fiana ou dinheiro, 
ou ento ambas as coisas. O palavreado de um preso no constitua prova. Provas so pegadas, impresses digitais, testemunhas, uma confisso. Que diabo! Se esses 
estpidos cowboys no dispunham de mais nada alm da histria contada pelo Floyd Wells, no tinha razo para se preocupar. Bem vistas as coisas, o Floyd no era 
to perigoso como o Perry. Este, se acaso perdesse a cabea e se descosesse, podia muito bem lev-lo ao "canto". E, de repente, compreendeu: era o Perry que ele 
devia ter feito calar! Numa estrada de montanha no Mxico, ou quando seguiam a p no meio do deserto de Mojave. Porque no se lembrara disso antes? Agora...
agora era demasiado tarde.
Finalmente, s trs e cinco da tarde, Smith admitiu ser falsa a histria da viagem a Fort Scott. "Isso foi uma patranha que o Dick inventou para contar  famlia, 
de modo a poder passar 214
a noite fora e beber umas coisas. Bem vem, o pai do Dick andava sempre em cima dele, com medo de que
transgredisse a fiana. Por isso arranjmos aquela desculpa da minha irm. S para intrujar Mr. Hickock." De
resto, repetiu a histria vezes sem conta e por mais que Duntz e Dewey o obrigassem a cont-la no conseguiram que a alterasse; apenas lhe acrescentava novos pormenores. 
Os nomes das prostitutas, lembrarase de repente, eram Mildred e Jane (ou Joan). "Comeram-nos as papas na cabea", recordava. "Levaram-nos a massa toda enquanto estvamos 
a dormir". E, muito embora at o prprio Duntz tivesse perdido a compostura
        ao despir o casaco e ao tirar a gravata abandonara-o um pouco da sua sonolenta dignidade -, o suspeito
continuava sereno e tranquilo; no saa dali. Nunca ouvira falar nos Clutters, ou em Hoicomb ou mesmo em
Garden City. Do outro lado do trio, no gabinete cheio de fumo onde Hickock estava sendo sujeito ao segundo
interrogatrio, Church e Nye aplicavam-lhe uma tctica mais eficaz. Durante esta entrevista que se prolongava
havia quase trs horas, nenhum deles mencionara ainda a palavra assassnio, omisso esta que mantinha o
preso numa expectativa enervante. Discutiram tudo: a filosofia religiosa de Hickock ("Sei que existe o Inferno.
J l estive. Talvez tambm exista um Paraso. H muito quem acredite nele"); a sua histria sexual ("Procedi
sempre como um homem cem por cento normal") E, mais uma vez, fez a narrativa da odisseia de ambos
atravs de todo o pas ("A nica razo de andarmos de um lado para o outro era querermos arranjar trabalho").
Porm o centro do interesse era aquilo que no se mencionava, aquilo que tornava Dick assim nervoso e
preocupado. At que fechou os olhos e pousou sobre as plpebras os dedos trmulos. Ento Church inquiriu:
        Sentes-te mal?
        Dor de cabea. Costumo t-las realmente fortes. Church ordenou:
        Olha para mim, Dick!
Hickock obedeceu com uma expresso que o detective interpretou como um pedido para dizer qualquer coisa,
acusar, coloc-lo na posio defensiva da negao sistemtica.
        Quando discutimos ontem o assunto, lembras-te de eu ter dito que o caso Clutter fora quase um crime
perfeito? Mas os assassinos cometeram dois erros. O primeiro foi terem deixado uma testemunha. O segundo... bem, vou-te mostrar. - Levantou-se, foi a um canto buscar 
uma caixa e uma pasta, objectos esses que trouxera para o gabinete logo no princpio do interrogatrio. Da pasta, tirou uma enorme fotografia, declarando ao pous-la 
sobre a mesa:
215
        Isto  uma reproduo em tamanho natural das marcas de solas encontradas junto do corpo de Mr. Clutter. E
isto abriu a caixa - so as botas que a fizeram. As tuas, Dick.
Hickock, depois de olhar desviou a vista. Apoiando os cotovelos nos joelhos, pousou a cabea nas mos.
        O Smith acrescentou Nye - foi ainda mais descuidado. Estamos em posse das botas dele, que correspondem
perfeitamente s outras que tm manchas de sangue.
E Church rematou:
        O que te vai suceder  o seguinte, Hickock. Vamos levar-te para o Kansas. Vais ser acusado do assassnio em
primeiro grau de quatro pessoas. Primeira acusao: no dia 15 de Novembro de 1959, um tal Richard Eugene Hickock assassinou, com premeditao e requintes de malvadez, 
Herbert W.
Clutter. Segunda acusao: o citado Richard Eugene Hickock, no mesmo dia 15 de Novembro de 1959...
Ento Hickock declarou:
        Quem matou os Clutters foi o Perry Smith! - ergueu a cabea e, lentamente, endireitou o corpo todo na
cadeira, como um lutador que faz um esforo para se manter de p. - Foi o Perry Smith. No consegui dominlo.
Matou-os a todos.
A empregada dos correios, Mrs. Clarc, que fora tomar um caf no intervalo do servio ao Hatman's Caf,
queixou-se de que o rdio estava muito baixo e pediu:
        Aumente o som.
O aparelho estava sintonizado para a estao de Garden City, Rdio KIUL, e Mrs. Clarc ouviu esta frase: "...depois de ter confessado por entre dramticos soluos, 
Hickock saiu da sala dos interrogatrios e desmaiou no trio. Os agentes do K. B. I. Levantaram-no do cho. Declararam eles que, segundo as afirmaes de Hickock, 
ele e Smith tinham penetrado na casa dos Clutter na esperana de encontrarem um cofre contendo pelo menos dez mil dlares. Mas tal cofre no existia e ento eles 
amarraram todos os membros da famlia e mataram-nos a tiro um por um. Smith no confirmou nem negou ter tomado parte no crime. Ao ser-lhe participado que Hickock 
assinara uma confisso, Smith dissera: "Muito gostava de ler as declaraes do meu companheiro." porm o seu pedido foi indeferido. A polcia recusa-se a revelar 
se foi Hickock ou Smith quem na verdade disparou os tiros. Acentuaram que a afirmao representava simplesmente a verso de Hickock. O pessoal do K. B. I, que regressa 
ao Kansas de automvel levando consigo os dois acusados, 216
j abandonou Las Vegas. Espera-se que chegue a Garden City na quarta-feira ao fim da tarde.
Entretanto, o attorney do condado, Duane West..."
        Um por um! - exclamou Mrs. Hartman. - Imaginem s. No me admira nada que o patife tenha desmaiado.
Outras pessoas presentes, como a Mrs. Clarc, Mabel Helm e um jovem e alentado campons, que entrara para comprar um pacote de tabaco de mascar Brown's Mule, comearam 
a murmurar em voz baixa. Mrs. Helm limpava os olhos ao pano da loia e declarava:
        No quero ouvir mais. No posso nem quero!
"...a notcia pouca reaco produziu na cidade de Holcomb, a meia milha de distncia da casa dos Clutters. De um modo geral, os habitantes da comunidade, que se 
compe de duzentos e setenta habitantes, exprimiram o seu alvio..."
O jovem campons observou, irritado:
        Alvio! Sabem o que fez a minha mulher quando ontem  noite ouvimos a notcia na televiso? Ps-se a chorar como uma criancinha.
        Calem-se, esto a falar em mim! - exclamou Mrs. Clarc.
"...e a empregada dos correios de Holcomb, Mrs. Myrtle Clarc, declarou que os cidados se sentem satisfeitos por ver este caso terminado, mas que h ainda quem imagine 
haver mais gente envolvida nele. Afirmou que muitas pessoas conservam ainda as portastrancadas e as espingardas a postos..." Mrs. Hartman desatou a rir:
        Oh, Myrtle, a quem disseste tu estas coisas?
        A um reprter do Telegram.
Quase todos os homens das relaes de Mrs. Clarc a tratavam como se ela fosse um homem tambm. O campons deu-lhe uma palmada nas costas e exclamou:
        Caramba, Myrtle! Ena p! Ento ainda pensas que algum de ns, qualquer pessoa daqui, possa ter alguma coisa a ver com isto?
Era precisamente o que ela pensava e, muito embora mais ningum partilhasse tal opinio no incio, isso no sucedia agora, porque a maior parte da populao de Holcomb, 
tendo vivido durante sete semanas no meio dos boatos mais contraditrios, de suspeitas e desconfianas, parecia desapontada ao saber que o assassino no era ningum 
dali. Na verdade, uma grande percentagem de pessoas recusava-se a acreditar no facto de os nicos responsveis pelo crime haverem sido dois desconhecidos, dois ladres 
totalmente estranhos ao meio. Mrs. Clarc, observava agora: 217
-Talvez fossem esses dois tipos. Mas a deve haver mais qualquer coisa. Esperem e vero. Algum dia ho-de
descobrir o fundo ao saco e ento saber-se- quem estava por detrs de tudo. Aquele a quem convinha ver-se
livre do Clutter. O crebro de tudo isto!
Mrs. Hartman suspirou. Desejava que a Myrtle estivesse enganada. Mrs. Helm declarou:
        O que eu espero  s isto: que os ponham o mais depressa possvel atrs das grades. No me sinto tranquila
enquanto souber que esto aqui perto.
        Oh, acho que no tem razo para receios observou o lavrador. - Neste momento esses dois gajos devem ter
muito mais medo de ns do que ns temos deles!
Numa auto-estrada do Arizona segue uma caravana composta por dois automveis que percorre a toda a
velocidade aquela plancie coberta de salva-a "mesa" povoada de mochos, de cobras cascavis e semeada de
altas rochas vermelhas.  Dewey quem vai ao volante, com Perry Smith a seu lado e Duntz no assento de trs.
Smith segue algemado e as algemas esto presas a um cinto de segurana por uma corrente curta, um
dispositivo de tal ordem que ele nem sequer pode fumar sem ajuda. Quando pede um cigarro, Dewey tem de
lho acender e meter-lho entre os lbios, trabalho este que o detective considera "nojento", por o considerar um
acto ntimo - coisa que s fazia quando namorava a mulher.
De um modo geral, o preso no faz caso dos guardas e das suas ocasionais tentativas no sentido de o apanhar
em falso, repetindo-lhe trechos da confisso gravada de Hickock, que durara uma hora.
"Ele diz que tentou opor-se a voc, Smith, mas que o no conseguiu. Receava levar tambm um tiro." Ou
ento: "Sim, Perry. O culpado de tudo  voc. O Hickock afirma ser incapaz de fazer mal a uma mosca."
Nada disto, pelo menos exteriormente, perturba Smith. Continua a contemplar o cenrio, a ler os anncios, a
contar as carcaas dos coiotes mortos a tiro que ornamentavam as vedaes dos ranchos.
Dewey, sem esperar qualquer reaco especial, disse:
        O Hickock afirmou-nos que eras um assassino nato. Que essas coisas para ti so como beber um copo de
gua. Contou-nos que, certo dia, em Las Vegas, tinhas morto um preto com uma corrente de bicicleta, 
pancada, s por prazer.
218
Com grande surpresa de Dewey, o preso sobressaltou-se. Torceu-se no assento at poder avistar, atravs do
vidro traseiro o segundo carro da caravana e quem ia l dentro:
        O valento! - exclamou. Voltando-se de novo, ficou a contemplar a fita negra da auto-estrada deserta. -
Pensei que se tratasse de uma armadilha, essa histria de o Dick ter dado  lngua. O valento! Oh, um tipo
realmente duro! Com que ento ele no faz mal a uma mosca! Mas atropela os ces! - deu uma cuspidela. - Eu
c nunca matei nenhum preto. - Duntz concordou, pois tendo estudado todos os casos por resolver relativos a
pessoas desaparecidas em Las Vegas, sabia Perry inocente deste crime. Nunca matei pretos na minha vida.
Ele julgava que sim, a  que est. Sempre pensei que se acaso fssemos apanhados, se algum dia o Dick
acabasse por falar, pondo tudo a claro, iria logo contar a histria do preto. Cuspiu de novo Ento o Dick teve
medo de mim? Tem piada. Tem mesmo um piado! O que ele no sabe  que estive mesmo para lhe pregar
um tiro!
Dewey acendeu dois cigarros. Um para ele outro para o preso: Conta l isso, Perry.
Perry ps-se a fumar de olhos fechados e explicou:
        Deixem-me pensar. Quero recordar-me bem de tudo tal e qual se passou. - Calou-se durante um bom bocado.
        Bem, isto comeou com uma carta que recebi em Buhl, no Idaho. Foi em Setembro ou Outubro. A carta era
do Dick e dizia nela que tinha em vista um projecto que era mesmo canja. Garantido. No lhe respondi mas
escreveu outra vez, pedindo-me com insistncia que voltasse ao Kansas para trabalharmos de sociedade.
Nunca disse que espcie de trabalho tinha em mente. Apenas que era uma coisa "garantida". Acontecia que eu
tinha outra razo para desejar vir ao Kansas nessa altura. Um assunto pessoal que nada tem a ver com este
caso e que, de momento, prefiro no revelar. S falo nele porque, de contrrio, nunca c teria vindo. Mas vim.
E o Dick foi esperar-me  estao de Kansas City. Fomos para a quinta dele, a quinta dos pais. Mas eles no
me queriam l. Eu sou muito sensvel e habitualmente percebo logo os sentimentos das pessoas. Como sucede
com o senhor. - Referia-se a Dewey, mas sem olhar para ele. - O senhor detesta dar-me um cigarro. Est no
seu papel. No o censuro. Como tambm no censuro a me do Dick. Na verdade  at muito simptica. Mas
ela sabia quem eu era, um amigo da choa e no me queria em sua casa. Santo Deus, fiquei satisfeito por sair
dali e ir para um hotel, em Olathe. Comprmos umas cervejas e levmo-las para o quarto e foi a que Dick me
exps o que idealizara. Contou-me que, depois de eu ter sado de Lansing, estivera numa cela juntamente
219
com um tipo que trabalhara em tempos para um rico plantador de trigo no Kansas Ocidental, Mr. Clutter. Dick
fez-me um esquema da casa do Clutter. Sabia onde ficava tudo: portas, vestbulos, quartos de dormir. Disse
que um dos compartimentos do rs-do-cho era utilizado como escritrio e que havia l um cofre, metido na
parede. Informou-me de que Mr. Clutter precisava dele porque tinha sempre  mo grandes somas de dinheiro
em notas. Nunca menos de dez mil dlares. O projecto era roubar o cofre e, se acaso algum nos visse, bem,
quem quer que nos visse tinha de desaparecer. Dick deve ter-me dito isso um milho de vezes: "No pode
haver testemunhas." Dewey observou:
        Quantas testemunhas julgava ele que encontraria? Isto , quantas pessoas esperava que houvesse na casa dos
Cluters?
        Isso tambm eu quis saber, mas ele no tinha a certeza. Quatro, pelo menos. Provavelmente seis. Era
possvel que houvesse hspedes. Achou que devamos ir preparados para enfrentar doze.
Dewey resmungou qualquer coisa, Duntz deu um assobio, e Smith, com um sorriso amarelo, acrescentou:
        Eu tambm achei que era exagero. Doze pessoas. Mas Dick garantiu-me que era canja. Afirmou-me: "At
nas paredes havemos de deixar cabelos agarrados". Eu estava com uma tal disposio de esprito que me
deixei levar imediatamente. Mas, para dizer a verdade, tambm tinha confiana no Dick. Julgava-o um esprito
prtico, muito msculo, e eu precisava tanto do dinheiro como ele. Queria-o para ir at ao Mxico. Mas
esperava consegui-lo sem violncia. Achava que isso seria possvel se levssemos mscaras. Discutimos a
coisa. No caminho para c, para Holcomb, quis parar para comprar umas meias pretas que enfiaramos na
cabea. Mas o Dick foi de opinio que, mesmo com as meias, poderamos ser identificados. Por causa do olho
torto dele. Mesmo assim fomos a Emporia...
Duntz interrompeu:
        Espera a, Perry. Ests a passar  frente. Voltemos a Olathe. A que horas saram de l?
        Uma hora. Uma e meia. Partimos logo depois do almoo e fomos at Emporia. A comprmos luvas de
borracha e um rolo de corda. A faca, a carabina e as balas, isso trouxera o Dick de casa. Mas no quis ir 
procura das meias pretas. Chegmos a zangar-nos por causa disso. Perto de Emporia, passmos por um
hospital catlico e eu convenci-o a parar e a ir l dentro ver se as freiras seriam capazes de nos vender umas
meias pretas. Eu sabia que elas costumavam us-las. Mas entrou s para me enganar.
220
Voltou e disse-me que no tinham querido vend-las. Eu tinha a certeza de que ele nem sequer tentara;
confessou-me que achava a minha ideia disparatada, que as freiras haviam de julgar que ele estava doido. Por
isso no voltmos a parar at Gread Bend. Foi a que comprmos o adesivo. Jantmos l, num jantar formidvel. Fez-me sono. Quando acordei estvamos a chegar a Garden 
City. Tive e impresso de entrar numa terra morta. Parmos numa bomba para meter gasolina...
Dewey perguntou se ele se lembrava de qual era a bomba.
Acho que foi numa Phillips 66.
-A que horas?
        Cerca da meia-noite. Dick afirmou que Holcomb ficava a sete milhas dali. Durante o resto do caminho foi a
falar sozinho, a dizer que devia ser ali, que no podia deixar de ser ali... segundo as instrues que fixara na
memria. Mal dei pela passagem em Holcomb.  uma terra muito pequenina. Atravessmos uma passagem de
nvel. De sbito, Dick exclamou: " aqui. Tem de ser aqui mesmo!" Via-se o comeo de uma estrada
particular, ladeada de rvores. Fomos andando devagarinho, com as luzes apagadas. No eram precisas, com
tanto luar. O cu estava completamente limpo. Nem uma nuvem. Era Lua Cheia. Quando entrmos na estrada,
parecia dia claro. E ento o Dick exclamou: "Olha-me s para o comprimento desta quinta! Estes estbulos!
Esta casa! No me digas que o tipo no tem massa com fartura! Contudo, eu no gostei do ambiente, achei-o
demasiado impressionante. Parmos o carro  sombra de uma rvore. Enquanto estvamos ainda sentados
dentro do carro, acendeu-se uma luz, no na casa principal, mas numa outra que deve ficar talvez a cem
metros para a esquerda. Dick pensava que seria a casa do trabalhador da quinta; sabia isso por causa do
esquema que tinha feito. Mas achava que era muito mais perto da casa do Clutter do que imaginara. Depois a
luz apagou-se. M r. Dewey... essa testemunha de que falou... era o trabalhador?
        No. Esse no ouviu nada. A mulher estava a tratar de um filho doente. Ele disse que andaram levantados
toda a noite.
        Um filho doente? Bem, talvez fosse isso. Enquanto estvamos sentados no carro, a coisa repetiu-se, a luz
voltou a acender-se e a apagar-se. E isso assustou-me deveras. Disse ao Dick que no contasse comigo. Se
estava resolvido a ir at ao fim, teria de se arranjar sozinho. Ele ps o carro a andar e eu pensei: graas a Deus!
Sempre me fiei nas minhas intuies e isso salvou-me a vida por mais de uma vez. Porm, a meio caminho da
estrada, o Dick parou. Estava danado. Era como se eu lesse no seu pensamento: Ento eu planeei este golpe
to bem, fizemos uma viagem
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to longa e agora este safado quer meter-me medo! E disse: "Tu deves julgar que eu no tenho coragem para
fazer a coisa sozinho. Mas hei-de mostrar-te, diabos te levem, quem  que tem coragem." Levvamos uma
garrafa no carro. Cada qual bebeu uns tragos e eu ento disse-lhe: "Est bem, Dick. Eu ajudo!" Voltmos pois
para trs. Parmos onde tnhamos estado antes,  sombra de uma rvore. Dick calou as luvas: eu j tinha
posto as minhas. Ele levava a faca e uma lanterna elctrica, eu a carabina. A casa tinha um aspecto terrvel ao
luar. Parecia abandonada. Recordo-me de ter desejado que no se encontrasse ningum l dentro...
Dewey interrompeu:
        Mas viram um co? -No.
        Eles tinham um velho co que fugia das espingardas. Nunca compreendemos por que razo ele no ladrou. A
no ser que tivesse visto a carabina apontada.
        Bem, ns no vimos nada nem ningum. Foi por isso que no acreditei nessa histria da testemunha ocular.
        No se trata de uma testemunha ocular. Testemunha, simplesmente. Algum cujas afirmaes o relacionam
com o Hickock neste caso.
        Oh, hum, hum! Foi ele! E o Dick sempre a dizer que no era capaz disso, que tinha medo! Ah! Duntz, que no queria diverses, lembrou-lhe:
        O Hickock tinha a faca e tu a carabina. Como  que entraram em casa?
        A porta no estava fechada. A porta lateral dava entrada para o escritrio de Mr. Clutter. Ficmos a a
esperar, s escuras, de ouvido  escuta. Mas s se ouvia o vento. Fazia um certo vento l fora. As rvores
agitavam-se e ouvamos bulir as folhas. A nica janela tinha gelosia, mas o luar coava-se atravs dela. Eu
fechei bem as gelosias e o Dick acendeu a lanterna. Vimos a secretria. O cofre devia estar na parede mesmo
por detrs desta, mas no conseguamos descobri-lo. A parede era apainelada e tinha prateleiras de livros e
mapas encaixilhados, e eu vi numa estante um esplndido binculo. Resolvi lev-lo comigo ao partir.
        E levaste? - inquiriu Dewey, pois o binculo no fazia parte da lista dos objectos desaparecidos da casa.
Smith acenou com a cabea:
        Vendemo-lo no Mxico.
        Desculpa, continua.
        Ento, visto no conseguirmos descobrir o cofre, Dick apagou a lanterna e samos do escritrio, atravessando
um compartimento
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e depois a sala comum. Dick ordenou-me em voz baixa que fizesse menos barulho a andar. Mas ele fazia tanto
como eu. Cada passo ressoava que eu sei l. Chegmos a um trio com uma porta, e Dick, recordando-se da
planta da casa, afirmou que era um quarto. Acendeu a pilha e abriu a porta. Um homem disse: "Querida!"
Estava a dormir e abriu os olhos piscos, dizendo outra vez: "s tu, querida?" Ento Dick perguntou-lhe: "O
senhor  o Clutter?" Ele acordou por completo e respondeu: "Quem  voc? Que est a fazer aqui?" Dick
declarou-lhe, muito delicadamente, como se fossem dois negociantes e bons vizinhos que estivessem a
conversar: "Preciso de falar com o senhor. Preferia que fosse no escritrio." Mr. Clutter, descalo e em
pijama, foi connosco para o escritrio e abriu as luzes.
"At essa altura no tinha conseguido ver-nos bem. Acho que aquilo que observou lhe causou muita impresso. O Dick comeou: "O que lhe queremos pedir  que nos diga 
onde est esse cofre." Mas Mr. Clutter interrompeu: "Qual cofre?" E disse que no tinha cofre nenhum. Eu vi logo que ele estava a dizer a verdade.
Mas o Dick ps-se a gritar: "No minta, seu filho de uma cabra! Eu sei perfeitamente que voc tem um cofre!"
Compreendi que nunca ningum tinha falado naquele tom a Mr. Clutter. Ele porm limitou-se a olhar para
Dick bem de frente e a dizerlhe com muito bons modos que desculpasse mas no tinha cofre nenhum. O Dick
ps-se a bater-lhe com a faca no peito e a dizer: "Mostre-nos l onde est o cofre, seno vai arrepender-se."
Contudo Mr. Clutter embora se visse que estava assustado, mas sempre com a voz serena e firme, continuou a
afirmar que no tinha cofre nenhum.
"A certa altura reparei no telefone, o do escritrio, e arranquei os fios. Perguntei a Mr. Clutter se no havia
mais telefones na casa. Ele respondeu que sim, havia outro na cozinha, que ficava bastante longe do escritrio.
Quando dei com ele, retirei o auscultador do descanso e cortei os fios com um alicate. Voltei para trs e nessa
altura ouvi um barulho, uns estalidos l em cima. Parei ao fundo das escadas que levavam ao segundo andar.
Estava escuro e no me atrevi a acender a lanterna, mas iria jurar que estava ali algum. Ao cimo das escadas,
recortado no vo claro da janela, via-se um vulto. Depois desapareceu." Dewey calculou que devia tratar-se de Nancy. Imaginara muitas vezes, partindo do relgio 
escondido na biqueira do sapato dentro do armrio dela, que Nancy devia ter acordado, sentindo que havia gente em casa, e, pensando tratar-se de ladres, tratara 
de esconder o relgio, a coisa de maior estimao que possua.
223
        Nesse momento - prosseguiu Smith - lembrei-me de que podia tratar-se de algum armado, mas o Dick no fazia caso do que eu lhe dizia. Entusiasmara-se com 
o seu papel de "valento" e dava ordens a Mr. Clutter. Fizera-o voltar ao quarto de dormir e estava a contar o dinheiro que ele tinha na carteira. Quando muito uns 
trinta dlares. Atirou com a carteira para cima da cama e afirmou: Deve ter mais dinheiro c em casa, um homem rico como o senhor, que vive numa quinta deste tamanho! 
Mr. Clutter tornou a afirmar que no tinha mais nada e explicou que fazia todas as transaces por meio de cheques. Props assinar um para ns, mas Dick recusou 
logo: Julga que somos alguns anjinhos? S me parecia que queria esmag-lo ali mesmo, por isso intervi: Escuta, Dick. Julgo que est algum acordado l em cima. Mr. 
Clutter informou-nos de que as nicas pessoas da casa eram a mulher, o filho e a filha. Dick queria saber se a mulher teria algum dinheiro e Mr. Clutter declarou 
que, se assim fosse, seriam apenas alguns dlares, e pediu-nos, com um ar de facto vencido, o favor de no a incomodarmos porque era uma invlida, estivera muito 
doente durante bastante tempo. Dick, no entanto, teimou em ir l acima e obrigou Mr. Clutter a seguir  sua frente.
"Ao fundo das escadas, Mr. Clutter acendeu as luzes do trio l de cima e, enquanto subia, ia dizendo: "No percebo por que razo vocs teimam numa coisa destas. 
Nunca vos fiz mal nenhum.
Nunca vos vi na minha vida." Foi ento que o Dick lhe ordenou: "Cale a boca. Quando quisermos que fale diremos." No trio de cima, no estava ningum e todas as 
portas se achavam fechadas.
Mr. Clutter indicou-nos os quartos do filho e da filha e depois abriu o da mulher. Acendeu o candeeiro da mesinha e disse: "No te assustes, minha querida. Estes 
homens s querem dinheiro." Ela era uma mulher muito magra, com uma camisa de noite comprida e branca. Mal abriu os olhos, comeou logo a chorar, afirmando ao marido: 
"Mas eu no tenho dinheiro nenhum, meu querido!" Ele pegou-lhe na mo e dava-lhe palmadinhas, enquanto a sossegava: "No chores, minha querida.
No h motivo para teres medo. J lhes dei tudo quanto tinha, mas querem mais. Pensam que h um cofre c em casa. J lhes disse que no." Dick ergueu a mo como 
se fosse bater-lhe na boca, repetindo: "No o mandei j estar calado?" Mrs. Clutter ento exclamou: "O meu marido falou verdade. No temos cofre nenhum c em casa!" 
O Dick tornou: "Sei perfeitamente que tm um cofre. E hei-de descobri-lo antes de sair daqui. Descansem que o descubro!" Depois perguntou onde tinha ela a carteira. 
Estava numa gaveta da escrivaninha. Dick voltou-a do avesso e encontrou apenas um ou dois dlares e alguns trocos. Eu fiz-lhe sinal 224
que viesse at ao trio. Queria discutir com ele a situao. Por isso samos e eu disse..." Duntz interrompeu-o para perguntar se Mr. Clutter podia ouvir a conversa 
deles.
        No, ns estvamos mesmo ao p da porta, a fim de podermos vigi-los, mas falmos em voz baixa. Disse ao Dick: "Esta gente est a falar verdade. Quem mentiu 
foi o teu amigo Floyd Wells.
No h cofre nenhum, portanto vamos embora daqui!" Contudo, o Dick sentia-se demasiado vexado para admitir o fracasso. Afirmou-me que s acreditaria depois de dar 
volta  casa toda. A ideia de ter toda aquela gente  sua merc excitava-o ao mximo. Havia uma casa de banho junto do quarto de Mrs. Clutter. O nosso plano era 
fechar ali os pais, depois ir acordar os filhos um por cada vez, e prend-los tambm noutros compartimentos da casa. E no fim, afirmava Dick, depois de termos descoberto 
o cofre, cortvamos o pescoo a todos. No podamos dar-lhes tiros, afirmava ele, porque isso fazia muito barulho.
Perry encrespou as sobrancelhas e comeou a esfregar os joelhos com as mos algemadas.
Deixe-me pensar um minuto, porque a partir daqui as coisas complicaram-se. J me recordo. Sim, foi isso. Peguei numa cadeira que estava no trio e meti-a na casa 
de banho, para Mrs. Clutter se sentar, uma vez que era doente. Enquanto a fechvamos  chave, Mrs. Clutter gritava: "No lhes faam mal! Pelo amor de Deus, no faam 
mal aos meus filhos!" O marido abraava-a e dizia: "Minha querida, estes rapazes no pretendem fazer mal a ningum. S querem dinheiro." "Dirigimo-nos ao quarto 
do rapaz. Ele j estava acordado, na cama, como se o medo o impedisse de se mover. Dick mandou-o levantar-se mas ele ou ficou quieto ou no se mexeu to depressa 
como Dick queria, porque este deu-lhe um soco e puxou-o da cama para fora. Eu disse-lhe: "Escusas de lhe bater, Dick", e ordenei ao rapaz, que estava apenas com 
uma camisa aberta, que enfiasse as calas. Ele vestiu umas de ganga e tnhamos acabado de o fechar na casa de banho quando apareceu a rapariga, a sair do seu quarto. 
Vinha completamente vestida, como se tivesse acordado j h tempo. Quero dizer que trazia meias e chinelos, um quimono e o cabelo seguro por uma bandelette. Esforava-se 
por sorrir e exclamou: "Santo Deus, que  isto aqui? Que brincadeira  esta?" Custa-me a crer que ela tomasse aquilo como uma brincadeira. Sobretudo depois de o 
Dick ter aberto a porta da casa de banho, empurrando-a l para dentro..." Dewey imaginava a cena: a famlia cativa, encolhida e receosa, mas desconhecendo ainda 
o destino que a esperava. O Herb nem
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sequer lhe passara uma coisa dessas pela cabea, de contrrio teria lutado. Era um homem de gnio manso,
mas muito forte e nada cobarde. Alvin Dewey tinha a certeza absoluta de que o seu amigo Herb teria lutado
at  morte para defender a vida de Bonnie e dos filhos!
        O Dick ficou de guarda  porta dos quartos de banho enquanto eu ia passar uma busca. Revistei o quarto da
rapariga. Achei uma bolsinha pequena, parecia de boneca. L dentro havia um dlar de prata. Deixei-o cair e
ele rolou pelo cho fora, para debaixo de uma cadeira. Tive de me pr de joelhos. Nessa altura foi como se me
visse por fora. Como se me estivesse a contemplar num filme absurdo. E senti-me mal. Enojado com aquilo
tudo. Dick, mais as suas conversas acerca do cofre do homem!... E eu ali de gatas para conseguir agarrar um
dlar de prata que roubara a uma criana! Um dlar! Eu de gatas para o agarrar! Perry esfregou os joelhos e pediu uma aspirina ao detective, agradeceu a Duntz quando 
este lhe estendeu um comprimido, engoliu-o e prosseguiu na narrativa:
"Mas era assim mesmo. Apanhava-se o que se encontrava  mo. Revistei tambm o quarto do rapaz. Nem um
cntimo. O que l vi foi o rdio porttil e resolvi lev-lo. Depois lembrei-me do binculo que vira no quarto de
Mr. Clutter e fui l abaixo busc-lo. Levei tudo para o carro. Estava frio e a frescura do vento soube-me bem.
O luar era to claro que se via a uma grande distncia. E eu pensei: porque no me ponho eu a andar? Vou at
 auto-estrada e peo uma boleia. Posso jurar por tudo que no me agradava nada voltar a entrar naquela casa.
No entanto... como hei-de explicar isto? Era como se no fosse eu a agir, como se estivesse a ler uma histria.
E tinha de saber como acabaria tudo aquilo. O fim. Por isso subi de novo as escadas. E ento, deixem-me ver...
hum, hum! Foi nessa altura que os amarrmos. Primeiro Mr. Clutter. Dissemos-lhe que sasse da casa de
banho e atmos-lhe as mos. Depois levei-o dali para a cave...
        Tu sozinho, e desarmado? - inquiriu Dewey.
        Levava a faca.
E Dewey perguntou ainda:
        Mas o Hickock ficou de guarda l em cima?
        Para os manter calados. Fosse como fosse, eu no precisava de auxlio. Toda a minha vida soube lidar com
cordas.
Dewey quis saber:
        Acendeste a lanterna ou abriste as luzes da cave?
        Acendi as luzes. A cave est dividida em duas partes. Uma pareceu-me uma sala de jogos. Levei-o para a
outra seco, a casa da fornalha. Vi l uma grande caixa de papelo encostada  parede.
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A embalagem de um colcho. Bem, achei que no devia mand-lo deitar no cho frio, por isso puxei a caixa, alisei-a e disse-lhe que se deitasse l dentro.
O homem que seguia ao volante olhou para o colega atravs do retrovisor, atraiu-lhe a ateno, e Duntz acenou de leve com a cabea. Dewey sempre afirmara que a caixa 
do colcho fora utilizada para comodidade de Mr. Clutter e, mediante outros indcios semelhantes, outras manifestaes espordicas de uma compaixo irnica e estranha, 
o detective conclura que pelo menos um dos assassinos no era de todo destitudo de piedade.
"Atei-lhe os ps, depois liguei-lhe as mos aos ps e perguntei-lhe se a corda estava apertada demais e ele disse que no. Mas pediu que deixssemos em pz a mulher. 
No havia necessidade de a amarrar. Ela no ia pr-se a gritar nem fugiria. Contou-me que estava doente havia muitos anos e comeava agora precisamente a melhorar, 
mas um incidente como este podia ocasionar uma recada. Sei que no  caso para rir, mas no pude deixar de o fazer ao ouvi-lo falar em "recada".
"A seguir fui buscar o rapaz. Primeiro deixei-o ao p do pai, com as mos atadas a um cano de aquecimento que ficava por cima. Depois lembrei-me de que no era seguro. 
Ele podia soltar-se e ir libertar o pai, ou vice-versa. Por isso cortei-lhe as cordas e levei-o para a sala de jogos onde havia um sof com aspecto confortvel. 
Amarrei-lhe os ps s pernas do sof, atei-lhe as mos e depois passei-lhe a corda pelo pescoo, de modo que, se lutasse para se soltar, estrangulava-se. A certa 
altura, enquanto trabalhava, pousei a faca sobre uma... bem, tratava-se de uma arca de cedro acabada de envernizar, ainda cheirava a verniz e ele pediu-me que no 
pousasse ali a faca. A arca era um presente que ele fizera para dar a uma pessoa que se ia casar. Creio que falou numa irm.
Quando eu ia a sair, teve um ataque de tosse, por isso meti-lhe uma almofada atrs da cabea.
Depois apaguei as luzes..."
Dewey observou:
        Mas ento no lhe tapaste a boca com adesivo?
        No, isso foi mais tarde, depois de ter amarrado as duas mulheres nos quartos delas. Mrs. Clutter continuava a chorar ao mesmo tempo que me fazia perguntas 
acerca do Dick. No tinha confiana nele, mas achava que eu devia ser um rapaz decente. "Tenho a certeza de que  assim", afirmava ela. E fez-me prometer que no 
deixaria o Dick fazer mal a ningum. Penso que ela se referia particularmente  filha. Eu prprio estava preocupado com isso. Desconfiava de que o Dick tinha l 
os seus planos, coisa que eu no admitiria de maneira nenhuma. Quando acabei de amarrar Mrs.
Clutter, descobri, efectivamente, que ele j levara
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a rapariga para o quarto de dormir. Estava deitada sobre a cama e ele, sentado na borda, a falar com ela.
Interrompi logo a conversa e disse-lhe que fosse procurar o cofre enquanto eu a amarrava. Depois de ele se ir
embora atei-lhe os ps e depois as mos atrs das costas. Em seguida puxei a roupa para cima, deixando s a
cabea de fora. Havia uma pequena cadeira de repouso junto da cama e achei que me podia ali sentar a
descansar um pouco; sentia as pernas em fogo, depois de subir as escadas tantas vezes e de ter andado sobre os
joelhos. Perguntei a Nancy se ela tinha algum namorado e ela respondeu que sim. Fazia um esforo enorme
para se mostrar valente e despreocupada. Gostei mesmo dela. Era muito simptica. Uma bonita rapariga e
nada amimada nem tola. Falou-me muito da sua vida, contou-me coisas do colgio e disse que tencionava
matricular-se na Universidade para estudar msica e arte. Tambm falou de cavalos. Do que mais gostava a
seguir  msica e  dana era de galopar, e ento eu contei-lhe que a minha me era campe de rodeo.
"Falmos tambm do Dick; eu tinha curiosidade de saber, compreendem?, o que ele lhe estivera a dizer. Ela
perguntara-lhe porque andava ele a roubar as pessoas. O Dick ento pusera-se a armar ao trgico, contando-lhe
que fora educado num orfanato, que nunca ningum gostara dele, que a nica pessoa da sua famlia era uma
irm que vivia com homens sem ser casada com nenhum. Durante todo este tempo ouvamos aquele doido c
em baixo a revolver tudo  procura do cofre. At procurava atrs dos quadros. Batia nas paredes. Pum, pum,
pum! Parecia um picapau. Quando regressou, perguntei-lhe s por maldade se tinha encontrado o cofre. No,
claro, mas descobrira outra carteira na cozinha, com sete dlares." Duntz interrompeu:
        H quanto tempo estavam vocs l em casa, neste momento? - Talvez uma hora.
Duntz inquiriu:
        E em que altura aplicaram os adesivos?
        Precisamente nesta altura. Comemos por Mrs. Clutter. Fiz com que o Dick me fosse ajudar... porque no
queria deix-lo s com a rapariga. Cortei o adesivo em tiras compridas e o Dick enrolou-as em volta da cabea
de Mrs. Clutter como quem liga uma mmia. Ele perguntou: "porque est a senhora sempre a chorar?
Ningum lhe fez mal!" Depois fechou a luz da mesinha e disse: "Boa noite, Mrs. Clutter. Durma bem!"
Depois declarou-me enquanto seguamos pelo corredor fora: "Vou violar a garota!" Eu respondi: "Est bem,
mas antes ters de me matar." Ele olhou para mim como quem no acreditava 228
no que ouvia. Depois respondeu: "Isso que te importa? A seguir podes ir tu." Ora se h coisa que me revolte  uma pessoa no saber controlar-se sexualmente. Caramba, 
no posso com isso. Disselhe logo ali: "Deixa-a em paz. De contrrio vai ser uma bulha tremenda." Isto danou-o, mas compreendeu que no eram alturas de levantar 
um p-de-vento. Por isso respondeu: "T bem, p, se assim queres..." E por causa disto nem sequer lhe pusemos os adesivos. Apagmos as luzes do trio e voltmos 
 cave.
Perry hesitou. A frase era uma pergunta, mas ele pronunciou-a como afirmao Aposto que ele nunca disse nada acerca do seu desejo de violar a rapariga.
Dewey confirmou, mas acrescentou que,  parte ser uma verso de certo modo favorecida no que se referia  sua prpria actuao, a histria de Dick adaptava-se perfeitamente 
 de Smith. Os pormenores variavam, o dilogo no era idntico, mas no todo as duas narrativas, pelo menos at  data, coincidiam uma com a outra.
        Podia ser, mas eu teria apostado a camisa em como ele no falaria no caso da rapariga.
Duntz observou:
        Perry, eu tenho estado atento  questo das luzes. Segundo os meus clculos, quando vocs vinham a descer para a cave, ficou tudo apagado, no  assim?
        Exacto. E nunca mais acendemos as luzes, a no ser a lanterna elctrica. Dick tinha-a na mo quando pusemos os adesivos a Mr. Clutter e ao rapaz. Quando 
ia para fazer isto ao Clutter, este perguntou-me - e foram essas as suas ltimas palavras como estava a mulher, se ficara bem e eu disse-lhe que estava ptima, que 
a deixara preparada para dormir. J pouco faltava para ser manh, e ento algum viria dar com eles. Nessa altura, eu e o Dick no passaramos de um sonho para todos. 
No estava a brincar. Eu no queria fazer mal ao homem. Achei que era uma boa pessoa, muito delicado. Pensava isso mesmo no momento em que estava a cortar-lhe o 
pescoo.
"Espere a. No estou a contar bem. - Perry fez uma careta irritada. Esfregou as pernas e as algemas tilintaram. - Esto a ver? Depois de lhes termos colado os adesivos, 
eu e o Dick retirmonos para um canto a conversar. Lembram-se de que nesse momento estvamos fulos um com o outro. Dava-me volta ao estmago s a ideia de que sentira 
admirao por ele e concordara com toda aquela sujeira. E disse-lhe: "Ento, Dick. Ests com remorsos?" Ele no me respondeu.
Continuei: "Se os deixas com
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vida, no apanhamos uma pena leve, podes estar certo! Pelo menos dez anos! - Ele no respondeu. Continuava
com a faca na mo. Eu pedi-lha e ele entregou-ma; insistiu: Muito bem, Dick. Ento, vamos a isto! Mas eu no
estava a falar a srio. Pretendia apenas desmascar-lo, obrig-lo a discutir o caso comigo, confessar que era
um farsante e um cobarde. Compreende, tratava-se de um desafio entre mim e ele. Ajoelhei-me junto de Mr.
Clutter e a dor que senti nos joelhos recordou-me o dlar de prata. Aquele maldito dlar. O vexame, a
desiluso que aquilo tudo me causara. Eles, bem me tinham dito que no voltasse ao Kansas! Mas no tive a
conscincia do que fizera seno quando ouvi o som. Como se algum se estivesse a afogar, gritando debaixo
de gua. Passei a faca ao Dick. E disse-lhe: "Anda, acaba com ele. Ficas mais satisfeito! Dick experimentou,
ou fingiu." Mas aquele homem tinha fora por dez, estava quase a soltar-se das cordas, j tinha as mos livres.
Dick perdeu a cabea. S pensava em pr-se a andar dali para fora. Mas eu no consenti. O homem morreria
de qualquer forma, mas eu  que no podia abandon-lo naquele estado. Mandei que o Dick segurasse na
lanterna e a apontasse para ele. Depois apontei a carabina. Foi como se a casa tivesse explodido. Ficou tudo
azul, at cegava. Cos diabos! Nunca percebi como  que ningum ouviu o estampido num raio de vinte
milhas!"
Dewey ainda sentia os ouvidos a zunir - com esse estampido que quase o fizera deixar de perceber o sussurro
abafado da voz de Perry. Mas este continuava a evocar uma catadupa de sons e imagens: "Hickock a procurar
freneticamente a cpsula vazia; depressa, depressa! A cabea de Kenyon num crculo de luz, o murmrio de
splicas abafadas, depois Hickock de novo em cata da bala vazia; o quarto de Nancy, esta de ouvido  escuta,
ouvindo o rudo das botas deles na escada, o ranger dos degraus  medida que eles se aproximavam, os olhos
de Nancy, Nancy a ver o foco da lanterna elctrica a. Procura do alvo, ("Ela gritou: Oh, pelo amor de Deus!
No! No! No! No! No faam isso! Por Deus! No! Entreguei a carabina ao Dick e disse-lhe que j tinha
feito tudo quanto podia. Ele apontou a arma e a pequena virou a cara para a parede"); o trio escuro, os
assassinos dirigindo-se a toda a pressa para a ltima porta. Talvez que, depois de acabar de ouvir aquilo que
ouvira, Bonnie esperasse ansiosamente a vinda deles!
        Aquela ltima cpsula foi o diabo para se encontrar. O Dick enfiou-se debaixo da cama para lhe chegar.
Depois fechmos a porta do quarto de Mrs. Clutter e descemos para o escritrio Ficmos ali a esperar como
sucedera  chegada. Espreitmos atravs
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das persianas para ver se o trabalhador da casa andava por ali a espiar ou qualquer pessoa que tivesse ouvido os tiros. Mas tudo estava calmo como antes, no se 
ouvia um som. S o vento e o Dick a resfolegar, como se fosse perseguido por uma matilha de lobos. Foi ali mesmo, poucos segundos antes de deitarmos a correr para 
o carro, que me pus a pensar se no faria melhor em dar tambm um tiro no Dick. Ele repetira-me vezes sem conta, sempre a martelar no mesmo: Nada de testemunhas,. 
E eu pensava: Ele  uma testemunha. No sei o que me deteve. E era o que eu devia ter feito. Dar cabo dele ali mesmo. Depois meter-me no carro e s parar no Mxico.
Seguiu-se um silncio. Durante dez milhas nenhum dos trs homens falou.
O desgosto e uma profunda fadiga explicavam o mutismo de Dewey. Desejara ardentemente saber "ao certo o que acontecera na casa nessa noite". Ouvira agora a histria 
duas vezes, em duas verses muito semelhantes, com a nica diferena, alis importante , de Hickock atribuir as quatro mortes a Perry, ao passo que este afirmava 
ter sido Dick quem assassinara as duas mulheres. Porm as confisses, muito embora explicassem o como e o porqu , no conseguiam satisfazer a sensao que experimentava 
de uma ausncia de significado vlido para aqueles actos. O crime fora um acidente psicolgico, virtualmente um acto impessoal; era como se as vtimas tivessem sido 
mortas por um raio. Salvo numa coisa: haviam sofrido um terror prolongado, uma lenta agonia. E Dewey no se conseguia abstrair disso. No entanto era capaz de olhar 
para o homem sentado ao seu lado sem dio, antes com uma certa dose de simpatia - porque a vida de Perry Smith no fora nenhuma mar de rosas, mas antes um doloroso, 
um triste e lamentvel percurso de uma iluso para outra. A piedade por Dick, no entanto, no era bastante profunda para se tornar compatvel com o esquecimento 
ou o perdo. Desejava ver Perry e o companheiro enforcados - enforcados costas com costas.
Duntz perguntou a Smith:
        Tudo somado, quanto levaram vocs em dinheiro de casa dos Clutters?
        Entre quarenta a cinquenta dlares.
Dos animais que habitam Garden City fazem parte dois gatos cinzentos que andam sempre juntos, magros e sujos; este par de vadios, com hbitos estranhos,  muito 
inteligente. Executam a sua principal tarefa ao lusco-fusco. Primeiro seguem ao longo da 231
rua principal, espreitando para as grelhas dos motores dos carros estacionados em frente dos dois hotis, o
Windsor e o Warren, porque os ditos carros, na sua maioria propriedade de viajantes que vm de longe,
contm habitualmente o que os dois esquelticos bichos metodicamente procuram: pssaros mortos - corvos,
mejengras e pardais suficientemente estpidos para se terem atravessado  frente dos carros. Utilizando as
patas como se fossem instrumentos cirrgicos, os gatos extraem de dentro das grelhas todos os bocadinhos das
vtimas. Depois de percorrerem a rua principal, dobram geralmente a esquina desta para a Rua Grant, em
seguida bamboleiam-se at ao largo do Tribunal, outro dos seus terrenos de caa, um dos mais fecundos
naquela tarde de quarta-feira, 6 de Janeiro, pois a zona encontrava-se pejada de carros de todo o Finney
County, que haviam conduzido  cidade parte da multido que enchia a praa.
Esta comeara a povoar-se cerca das quatro da tarde, hora que o attorney do condado indicara como sendo a
provvel para a chegada de Hickock e Smith. Desde que no domingo  tarde fora tornada pblica a confisso
de Hickock, os jornalistas de todas as espcies haviam acorrido a Garden Citv: representantes das maiores
agncias telegrficas, fotgrafos, operadores de actualidades do cinema e da televiso, reprteres do Missouri,
do Nebrasca, de Oklahoma, do Texas e, claro, dos principais jornais do Kansas, vinte ou vinte e cinco homens
ao todo. Muitos destes tinham estado  espera trs dias sem fazerem mais nada alm de entrevistar o empregado da estao de servio James Spor, que, depois de ter 
visto publicadas as fotografias dos assassinos, os identificara como sendo os clientes a quem vendera trs dlares e seis cntimos de gasolina na noite da tragdia 
de Holcomb.
Era a chegada de Hickock e Smith que estes espectadores profissionais ali estavam a aguardar. O capito
Gerald Murray, da Polcia de Trnsito, reservara-lhes um vasto recinto no passeio em que teriam de subir para
darem entrada na cadeia. Esta ocupava o andar superior do edifcio de quatro pisos. Um dos reprteres,
Richard Parr, do Star de Kansas City, adquirira um exemplar do Sun de domingo, de Las Vegas. O cabealho
do jornal provocara gargalhadas, pois rezava assim: RECEA-SE QUE A MULTIDO TENTE LINCHAR
OS SUSPEITOS AUTORES DO CRIME  SUA CHEGADA. O capito Murray observou:
        Vocs no me parecem nada dispostos a enforcar gente.
Na realidade, os curiosos que aguardavam no largo podiam muito bem, pelo seu aspecto, estar  espera de ver
uma parada militar ou um desfile da polcia. Estudantes do liceu, entre os 232
quais se encontravam antigos colegas de Nancy e Kenyon Clutter, cantavam canes alegres, mascavam goma
elstica, devoravam cachorros-quentes e bebiam gasosas. As mes tentavam acalmar os bebs impacientes que
choravam. Alguns homens passeavam com os filhos s cavalitas. Os escuteiros estavam presentes, o grupo
inteiro. E por fim as senhoras de meia-idade, scias do clube de brdege, chegaram em massa. O senhor J. P.
(Jap) Adams, chefe da Comisso dos Veteranos, surgiu envergando uma vestimenta de l de fantasia, de tal
modo esquisita que um amigo lhe gritou:
        Eh!, Jap! Que fazes tu por aqui vestido de mulher?  que Mr. Adams, com a pressa de se dirigir ao local da chegada, enfiara, por distraco, o casaco da 
secretria. Um reprter da rdio que por ali andava entrevistou diversas pessoas da cidade, perguntando-lhes qual seria, na opinio delas, o castigo adequado "para 
os autores de to repelente acto" e, ao passo que a maioria das pessoas se limitavam a soltar exclamaes sem sentido, um estudante declarou: Eu acho que os deviam 
encerrar a ambos na mesma cela para o resto da vida. Nem sequer teriam licena para receber visitas. Sozinhos em frente um do outro at  morte.
E um homenzinho duro e rgido disse o seguinte:
        Eu sou pela pena mxima. A Bblia bem o diz: "Olho por olho", e mesmo assim ficavam a dever dois pares
deles!
Enquanto o sol brilhara, o dia estivera claro e tpido, um clima de Outubro no ms de Janeiro. Porm mal ele
se inclinou para o ocaso, quando as sombras das gigantescas rvores da praa se juntaram e sobrepuseram
umas s outras, o frio e tambm o escuro comearam a deprimir a multido que enchia o largo. A deprimi-la e
a faz-la debandar. Cerca das seis horas no restavam mais de trezentas pessoas. Os jornalistas, vociferando
contra a demora, batiam com os ps no cho e esfregavam as orelhas geladas com as mos sem luvas,
igualmente frias. De sbito, elevou-se um murmrio do lado sul do largo. Os carros vinham a chegar.
Muito embora nenhum dos jornalistas esperasse qualquer aco violenta, muitos deles julgavam que a
multido iria manifestar-se ruidosamente. Mas quando todos avistaram os assassinos com a sua escolta de
polcias das estradas envergando farda azul, reinou o silncio, como se todos tivessem ficado empedrados ao
verificarem que os bandidos tinham forma humana. Os dois homens algemados, plidos e de olhos a piscar,
eram postos em destaque pelos fulgores das exploses do magnsio e pelo claro dos focos. Os operadores de
cinema, seguindo os prisioneiros
233
e a polcia dentro do tribunal e pelas escadas acima, at ao alto dos trs andares, acabaram por fotografar a porta da cadeia no momento em que esta se fechava na 
sua frente.
Ningum mais se demorou por ali. Nem os membros da imprensa nem os habitantes da cidade.
Chamavam-nos as casas aquecidas, o jantar quente, e enquanto se dirigiam apressadamente para os seus domiclios, deixando o largo desconfortvel por conta dos dois 
gatos, aquele milagroso Outono despedia-se tambm e comeavam a cair os primeiros flocos de neve do ano.
"234
IV
O "canto"
A aridez burocrtica e o conforto domstico habitam simultaneamente no quarto andar do Tribunal de Fmney
County. A presena da cadeia  responsvel pelo primeiro aspecto, ao passo que a residncia do xerife, uma
simptica habitao separada da cadeiapropriamente dita por dois portes de ao, explica o segundo.
Em Janeiro de 1960, a residncia do xerife no era, de facto, ocupada por este, Earl Robinson, mas sim pelo
subxerife e sua mulher, Wendle e Josephine ("Josie") Meier. Os Meiers, casados havia mais de vinte anos,
eram muito parecidos um com o outro: ambos altos, pesados, fortes, com mos grandes, rosto quadrado,
calmos e simpticos, sobretudo Mrs. Meier, mulher franca e prtica que apesar disso d a impresso de estar
rodeada por uma aurola de mstica serenidade. As suas funes de ajudante do subchefe deixam-lhe muito
tempo livre: desde as cinco da manh, hora a que comea o dia com a leitura da Bblia, at s 10 da noite,
quando vai para a cama, cozinha e cose a roupa dos presos, remenda, lava a roupa deles, cuida lindamente do
marido e trata dos cinco compartimentos que compem a sua casa, uma mistura gemuthch de fofos tamboretes, maples profundos e cortinas de renda creme. Os Meiers tm 
uma filha nica, casada e residente em Kansas City, por isso o casal vive s, ou antes, no dizer de Mrs. Meier: "Vivemos ss, no falando em quem calha estar na 
cadeia."
Esta compe-se de seis celas. A sexta, reservada as mulheres, fica separada das outras e situa-se dentro da
residncia dos Meiers, mesmo junto da cozinha.
        Mas isso no me preocupa - afirma Josie Meier. - Gosto de estar acompanhada, de ter algum com quem
conversar enquanto cozinho as refeies. Acabamos geralmente por ter d das mulheres que para ali vo.
Tiveram sempre um azar na vida, a verdade  essa. Claro que o caso do Hickock e do Smith era diferente. Que
eu saiba, o Perry Smith foi o primeiro homem a habitar a cela das mulheres. A razo disto foi o xerife querer
mant-los
236
inteiramente separados um do outro at  data do julgamento. No dia em que para aqui entraram, fiz seis tortas de ma e cozi po, mas durante todo esse tempo nunca 
deixei de estar de atalaia ao que se passava no largo. A janela da minha cozinha deita para l; v-se tudo o que ali se passa. No sei bem avaliar as multides, 
mas creio que deviam encontrar-se presentes muitas centenas de pessoas,  espera de verem os rapazes que haviam assassinado a famlia Clutter. Eu no conhecia pessoalmente 
nenhum dos Clutters, mas por tudo quanto tenho ouvido contar deviam ser excelentes pessoas.  difcil esquecer o que lhes fizeram e eu sabia que o Wendle estava 
receoso quanto  atitude da multido quando avistasse o Hickock e o Smith. Tinha medo de que tentassem atirar-se a eles. Estava por isso com o corao a tremer quando 
vi chegar os carros, e os reprteres e os homens das actualidades comearem a correr e a empurrar-se uns aos outros; mas nessa altura j fazia escuro, passava das 
seis, o frio era de rachar e mais de metade das pessoas tinham desistido de esperar. Os que restavam no disseram nem pio. Limitaram se a olhar.
"Depois, quando trouxeram os rapazes c para cima, o primeiro que eu vi foi o Hickock. Trazia umas calas muito finas e uma camisa velha de fazenda. Admira-me que 
no tivesse apanhado uma pneumonia, com o frio que estava. Que o aspecto dele era de um doente. Parecia um espectro.
Bem, deve ter sido terrvel sentir-se observado por uma multido de estranhos, passar pelo meio deles, sabendo todos quem ele era e o que fizera. Depois trouxeram 
o Smith. Eu tinha a ceia pronta para lhes servir nas celas. Sopa quente, caf, sanduches e empado. Habitualmente damos-lhes de comer duas vezes ao dia, sendo a 
refeio principal s quatro e meia. Mas eu no queria que aqueles tipos fossem para a cama com a barriga vazia; achava que j se deviam sentir bastante infelizes 
sem isso. Mas quando fui levar a ceia ao Smith, num tabuleiro, ele declarou-me que no tinha fome. Estava a olhar para fora da janela da cela das mulheres. Tem a 
mesma vista que a da minha cozinha, vem-se as rvores do largo e os telhados das casas. Eu disse-lhe: "Prove ao menos a sopa.  de legumes frescos, no  de pacote. 
Fui eu que a fiz, assim como o empado." Dali a uma hora fui buscar o tabuleiro e ele no tinha tocado numa migalha s que fosse. Continuava  janela, como se no 
houvesse feito um nico movimento. Estava a nevar e recordo-me de lhe ter dito que era a primeira neve do ano e que o Outono, at  data, fora maravilhoso. Agora 
chegara a neve. Perguntei-lhe ento se tinha algum prato preferido; se assim fosse tentaria arranjar-lho no dia seguinte. Ele voltou-se e olhou para
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mim, desconfiado, como se eu estivesse a entrar com ele. Depois disse qualquer coisa relacionada com um
filme. Tinha uma maneira de falar muito sumida, quase num murmrio. Queria saber se eu tinha j visto um
certo filme. No me lembro do nome, mas fosse l qual fosse, eu no tinha visto. Sempre fui pouco ao cinema.
Ele disse-me que se tratava de um filme dos tempos bblicos e que havia uma cena em que atiravam com um
homem de uma varanda abaixo para o meio da multido e que esta o fazia em pedaos. Acrescentou que fora
isso o que lhe viera  ideia ao ver o ajuntamento do largo, lembrara-se desse homem a ser despedaado e que
era isso que provavelmente lhe fariam a ele. Sentira tamanho susto que ainda lhe doa o estmago. Por isso 
que no conseguia comer. Claro que estava enganado e eu afirmei-lhe que ningum ia fazer-lhe mal, por causa
do crime que praticara. A nossa gente por aqui no  desse gnero.
"Falmos durante um bocado, ele era muito tmido, mas passado um pedao declarou: "A nica coisa de que
gosto verdadeiramente  de arroz  espanhola." Ento eu prometi-lhe que o faria e ele sorriu como se... enfim,
como se no fosse o maior facnora que vi na minha vida. Foi isso o que eu disse nessa noite ao meu marido
depois de estarmos deitados. Mas o Wendle torceu o nariz. O Wendle foi um dos primeiros a chegar  cena do
crime quando este foi descoberto. Disse-me que eu precisava de ter assistido  descoberta dos cadveres para
poder fazer um juzo da simpatia de Mr. Smith. Dele e do seu amigo Hickock. Afirmou-me que eram capazes
de nos arrancar o corao sem pestanejar. Disso no podia haver a menor dvida, depois daquelas quatro
mortes. E eu fiquei acordada, a pensar se essa ideia lhes causaria remorsos, a qualquer deles - a recordao
daquelas quatro campas...
Decorreu um ms e mais outro; a neve caiu quase todos os dias. Nevou a ponto de atapetar de branco os
campos cobertos pelos caules cortados do trigo, de se amontoar nas ruas da cidade, tornando-as silenciosas.
Os topos dos lamos carregados de neve roavam nas vidraas da cela das mulheres. Sobre essas rvores
viviam esquilos e aps semanas e semanas de haver tentado cativ-los com as migalhas dos restos do almoo,
Perry conseguiu que um se introduzisse pelas grades e saltasse para o parapeito da janela. Era um macho de
pelagem cor de canela. Ele ps-lhe o nome de Vermelho, e o bicho no tardou a adaptar-se, dando mostras de
se sentir bem na companhia do seu companheiro de crcere. Perry ensinou-lhe 238
vrias habilidades: a brincar com uma bola de papel, a pedir, a empoleirar-se no seu ombro. Tudo isto o ajudava a passar o tempo, no entanto restavam ainda longas 
horas vazias. No lhe consentiam que lesse jornais e as revistas que Mrs. Meier lhe emprestava aborreciam-no: antigos nmeros da revista Good Housekeeping ou da 
MacCalfs. Mas descobriu alguns passatempos: limar as unhas com uma lima de esmeril e poli-las at ficarem rosadas e brilhantes; pentear e escovar os cabelos encharcados 
em loo e perfume; lavar os dentes trs e quatro vezes por dia: tomar chuveiro e barbear-se quase outras tantas. E mantinha a cela, que continha um W. C., um chuveiro, 
um catre, uma cadeira e uma mesa, to limpa como a sua pessoa. Sentia-se orgulhoso com um elogio que Mrs. Meier um dia lhe fizera. "Pode-se jogar aos dados sobre 
a cama." Mas era  mesa que passava a maior parte do tempo; comia sobre ela as refeies, ficava sentado  sua frente para desenhar retratos do esquilo, pintar flores, 
o rosto de Cristo ou caras e troncos de mulheres imaginrias: era tambm ali que, em folhas de papel pautado e ordinrio, escrevia as suas notas quotidianas, registando 
os acontecimentos do dia-a-dia. Quinta-feira, 7 de Janeiro. Esteve c o Dewey. Trouxe-me uma caixa de cigarros e tambm alguns exemplares dactilografados da minha 
confisso para eu assinar. Recusei.
A "Confisso", documento de setenta e oito pginas que ele ditara a um estengrafo do tribunal de Finney County, repetia afirmaes j feitas a Alvin Dewey e a Clarcnce 
Duntz. Dewey, falando do seu encontro com Perry Smith naquele clebre dia, lembrou-se de que ficara muito surpreendido quando Perry se recusara a assinar a confisso.
        No tinha importncia de maior, visto que eu podia testemunhar em tribunal a confisso que ele fez diante de mim e do Duntz. O Hickock, est claro, dera-nos 
j uma confisso assinada quando estvamos ainda em Las Vegas, aquela em que ele acusava Smith de ter cometido os quatro assassnios. Mas eu estava intrigado. Perguntei 
ao Perry por que mudara de ideias. E ele respondeume: "Na minha confisso est tudo certo menos dois pontos. Se me deixarem corrigir esses pormenores ento assinarei." 
Ora bem, eu calculava quais eram esses pormenores a que ele se referia. Porque a nica diferena entre a histria de Smith e a de Hickock era o facto de ele negar 
ter cometido os assassnios sozinho. At ento jurara sempre que Hickock matara Nancy e a me.
"No me enganava! Era precisamente isso que ele pretendia, confessar que Hickock dissera a verdade e que fora ele, Perry, quem matara a tiro a famlia inteira. Declarou 
que mentira porque 239
"queria amolar o Dick por ser to cobarde, indo-se abaixo daquela maneira." E vinha agora fazer a rectificao, no por sentir uma sbita simpatia pelo Dick. Segundo 
declarava, procedia assim apenas por considerao pelos pais de Dick, e confessou ter pena da me dele. "Ela  mesmo muito boa pessoa. Dar-lhe- uma certa consolao 
saber que no foi o Dick quem puxou o gatilho. Nada disto teria acontecido sem ele, de certo modo foi o principal culpado, mas nem por isso deixa de ser verdade 
que quem os matou a todos fui eu." porm eu no tinha a certeza de poder acredit-lo. Pelo menos at ao ponto de o deixar alterar a confisso.
Como j afirmara, achava que no estvamos dependentes de uma confisso formal da parte de Smith para
provar fosse o que fosse acerca do caso. Assinasse ou no a confisso, tnhamos matria para o enforcar trs
vezes."
Entre as provas em que Dewey depositava tanta confiana contava-se o binculo, bem como o rdio que os
bandidos haviam roubado e depois vendido no Mxico (onde o agente do K. B I, Harold Nye, que l fora
expressamente de avio, os descobrira numa casa de penhores). Alm disto, Smith, ao ditar a sua confisso,
descrevera o cenrio com uma Clareza convincente: "Chegmos  auto-estrada e dirigimo-nos para leste" -
declarara ao contar o que ele e Hickock haviam feito depois de fugirem da cena do crime. "Seguimos numa
velocidade louca, indo o Dick ao volante. Acho que ambos nos sentamos muito eufricos, e ao mesmo tempo
muito aliviados. Nenhum de ns parava de rir. De repente, tudo nos pareceu muito cmico, no sei porqu,
mas era assim mesmo. A carabina pingava sangue e o meu fato estava todo manchado; at tinha sangue nos
cabelos. Por isso cortmos para uma estrada secundria e seguimos por ali adiante durante umas seis milhas,
at nos encontrarmos em pleno campo. Ouviam-se os coiotes. Fummos um cigarro e o Dick continuou a
gracejar acerca do que acabava de acontecer. Eu sa do carro, chupei alguma gua do radiador e lavei o sangue
do cano da carabina. Depois escavei um buraco no cho com a faca de mato do Dick, aquela de que me servira
para degolar Mr. Clutter, e enterrei as cpsulas vazias e o resto da corda de nylon e do adesivo. Depois disso
seguimos at  Estrada Nacional 83 e encaminhmo-nos para Kansas City e Olathe. Pela madrugada, Dick
parou num acampamento, aquilo a que chamam reas de repouso, onde h foges ao ar livre. Acendemos uma
fogueira e queimmos umas coisas, as luvas que tnhamos calado e a minha camisa. Dick declarou que s
queria ter ali um boi para assar, pois nunca sentira tamanha fome na sua vida. Era quase meio-dia quando
chegmos a Olathe. Dick Foi deixar-me no hotel e dirigiu-se 240
a casa para almoar com os pais. Sim, levou consigo a faca e tambm a carabina." Os agentes do K. B. I. Enviados a casa de Hickock, encontraram a faca dentro de 
uma caixa com material de pesca e a carabina encostada a um canto da cozinha. (O pai de Hickock, recusando-se a acreditar que o seu "rapaz" estivesse envolvido num 
"crime to medonho", teimava em como a carabina no sara ali de casa desde a primeira semana de Novembro, e portanto no podia ser ela o instrumento de morte.) 
Quanto s balas vazias, a corda e o adesivo, foram encontrados graas ao auxlio de um empregado das estradas, o qual, servindo-se de um tractor dos servios da 
rea indicada por Perry, escavou a terra palmo a palmo, at descobrir os objectos enterrados. Assim se reconstituram os ltimos elos da cadeia; o K. B. I. Reunira 
agora provas irrefutveis, pois os testes tinham provado que as balas haviam sido disparadas pela carabina de Dick e os restos de corda e de adesivo eram idnticos 
ao material usado para amarrar e amordaar as vtimas.
Segunda-feira, 11 de Janeiro. Tenho um advogado, Mr. Fleming. Um velho com uma gravata encarnada.
Informado pelos acusados de que estes no possuam recursos para pagar a defensores, o tribunal, representado
pelo juiz Roland H. Tate, nomeou seus representantes dois advogados da terra. Mr. Arthur Fleming e Mr.
Harrison Smith. Fleming, um velho de setenta e um anos, antigo "maior" de Garden City, um homem baixo
que anima o seu aspecto vulgar com gravatas vistosas, tentou negar-se: No fao o menor empenho em tomar conta deste caso, declarou ao juiz. - Mas se o Tribunal 
mo ordena no h outro remdio. - O advogado de Hickock, Harrison Smith, de quarenta e cinco anos, um metro e oitenta de altura, jogador de golfe, tipo exaltado, 
aceitou o encargo com resignao: "Algum tem de o fazer e vou esforar-me ao mximo. Muito embora duvide que isso me torne simptico c na regio." Sexta-feira, 
15 de Janeiro, Mrs. Meier tinha o rdio a trabalhar na cozinha e eu ouvi um homem dizer que o delegado ia pedir a pena de morte. "Os ricos nunca so enforcados, 
apenas os pobres e os desamparados." Ao fazer esta declarao o delegado Duane West, jovem ambicioso, imponente de figura, contando vinte e oito anos, mas com ar 
de quarenta e s vezes de cinquenta, declarou aos jornalistas:
        Se o caso for submetido a um jri e os rus forem considerados culpados, exigirei para eles a pena de morte.
Se estes dispensarem
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o jri e reconhecerem a culpa que lhes cabe perante o juiz, exigirei igualmente a pena de morte. Eu sabia que teria de tomar uma deciso e no o fiz de nimo leve. 
Entendo que, em face da violncia do crime e da crueldade manifestada para com as vtimas, a nica maneira de proteger o pblico  a aplicao da pena de morte aos 
culpados. Isto afigura-se-me tanto mais justo quanto  certo no existir no estado do Kansas a pena de priso perptua sem possibilidade de libertao. Os criminosos 
condenados a priso perptua em geral no cumprem mais do que quinze anos.
Quarta-feira, 20 de Janeiro. Convidaram-me a sujeitar-me  prova do detector de mentiras por causa do caso
Walker.
Um crime como este, de tamanha magnitude, desperta em geral o interesse dos advogados de toda a parte, particularmente dos que se vem a braos com casos insolveis 
mas semelhantes, pois  sempre possvel que a soluo de um mistrio venha resolver outro. Entre os vrios magistrados que se interessavam pelos acontecimentos de 
Garden City, contava-se o xerife do condado de Sarasota, na Florida, que abrange Osprey, uma aldeia de pescadores perto de Tampa e que fora teatro, pouco mais de 
um ms depois da tragdia dos Clutters, do assassnio de quatro pessoas num rancho isolado, cuja notcia Perry lera no jornal, em Miami, no dia de Natal. As vtimas 
eram igualmente membros de uma famlia: um jovem casal, Mr. E Mrs. Clifford Walker, e os dois filhos, um rapaz e uma rapariga, todos mortos com um tiro de carabina 
na cabea. Visto que os assassinos dos Clutters haviam passado a noite de 19 de Dezembro num hotel de Tallahassee, o xerife de Osprey, que no dispunha de outros 
indcios, mostrava-se, como no  de surpreender, ansioso por interrogar os dois rapazes e submet-los ao detector de mentiras. Hickock consentiu em sujeitar-se 
 prova, bem como Perry, que declarou s autoridades do Kansas:
        Eu reparei neste caso e at disse ao Dick: "Quem quer que fez isto tinha lido o que acontecera aqui no Kansas.  uma estupidez!"
Os resultados da experincia, com grande desapontamento do xerife de Osprey, bem como de Alvin Dewey que se recusava a acreditar em coincidncias estranhas, foram 
totalmente negativos.
O mistrio do assassnio da famlia Walker ficou por resolver.
Domingo, 31 de Janeiro. O pai do Dick veio c visit-lo. Disse-lhe adeus quando o vi passar (em frente da
porta da cela), mas ele seguiu adiante. Soube por Mrs. M. (Meier) que Mrs. H. (Hickock) no viera por se
sentir muito mal. Neva fortemente. A noite
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passada sonhei que estava, no Alasca com o meu pai. Acordei numa poa de urina gelada!" Mr. Hickock passou trs horas junto do filho. No fim caminhou pela neve at 
 estao dos caminhos-de-ferro de Garden City. O excesso de trabalho envelhecera-o, dobrara-o e estava emagrecido pelo cancro que o liquidaria dali a meses. Na 
estao, enquanto esperava por um comboio de regresso, falou a um reprter:
        Fui ver o Dick. Conversmos durante muito tempo. Garanto-lhe que ele no  como dizem, nem tal como o pintam nos jornais. Os rapazes no tinham ido quela 
casa com intuitos de violncia.
Pelo menos o meu. Pode ter os seus aspectos maus, mas no vai a esse ponto. Dick declarou-me que no fazia ideia de nada at ver o Smith atacar o homem (Mr. Clutter) 
e cortar-lhe o pescoo. O Dick nem sequer se encontrava no mesmo quarto quando isso se deu. Foi a correr quando ouviu os dois a lutar. O Dick levava a carabina. 
O meu rapaz conta assim: "O Smith pegou na minha carabina e rebentou a cabea ao homem." E afirmou-me: "Olhe, pai. S me apeteceu agarrar na carabina e mat-lo logo 
ali! Mat-lo antes que ele desse cabo do resto da famlia. Se o tivesse feito no estaria to encravado como estou agora." E eu penso o mesmo. Tal como esto as 
coisas, com a opinio pblica contra ele, no tem a mnima probabilidade de se safar. Vo enforc-los a ambos.
E saber-se que um filho vai ser enforcado - acrescentou com a derrota e a fadiga a transparecer-lhe nos olhos -,  a pior coisa que pode acontecer a um homem! Nem 
o pai nem a irm de Perry Smith escreveram nem vieram visit-lo. Tex John Smith devia estar a pesquisar ouro algures no Alasca, embora as autoridades, por muito 
que se esforassem, o no tivessem conseguido localizar. A irm declarara aos investigadores que tinha medo do irmo e pedira que no comunicassem a este a sua morada 
actual. (Ao ser informado disto, Smith sorrira de leve e afirmara: " S queria que ela se tivesse encontrado naquela casa na clebre noite. Que cena deliciosa!")
Salvo o esquilo, Meier e uma ou outra entrevista com o advogado, Mr. Fleming, Perry estava sempre s. Sentia a falta de Dick. Lembro-me muito do Dick, escrevia ele 
um dia no seu simulacro de dirio. Desde que estavam presos no haviam voltado a comunicar um com o outro, e era isto o que ele mais desejava - conversar com Dick, 
estar de novo com ele. Dick no era afinal o "duro" que imaginara: "pragmtico", "viril", " um tipo de ferro". Afinal revelara-se "bastante fraco e ftil", um "cobardola". 
No entanto, de todas as pessoas do mundo era dele que se sentia mais prximo neste momento;  que, ao menos, eram os 243
dois da mesma espcie, irmos de Caim; separado dele, Perry sentia-se "solitrio. Como algum que estivesse coberto de chagas. Algum que s um tremendo louco desejaria 
ter por companheiro."
At que, certa manh de meados de Fevereiro, Perry recebeu uma carta. Vinha carimbada de Readings, Massachusetts, e rezava assim:
Meu caro Perry, fiquei desolado ao saber da triste situao em que te encontras e resolvi escrever para te
afirmar que me lembro muito de ti e gostaria, de te ajudar na medida das minhas foras. Caso no te recordes
de mim, sou Don Cullivan e envio-te uma fotografia tirada na altura em que nos conhecemos. Quando li no
jornal o que acontecera fiquei espantado e depois comecei a lembrar-me dos tempos em que convivemos.
Muito embora nunca tivssemos sido amigos ntimos, tenho-te mais presente no esprito do que  maioria dos
tipos que conheci na tropa. Isso comeou talvez no Outono de 1951, quando fazias parte da companhia de
Artilharia ligeira do Fort Leiais, em Washington. Tu eras baixo (eu tambm no sou alto), entroncado,
moreno, com espessos cabelos pretos e um sorriso quase permanente. Por teres vivido no Alasca quase todos
os camaradas te chamavam o "Esquim". Uma das primeiras recordaes que conservo a teu respeito est
relacionada com uma inspeco na nossa Companhia, durante a qual os cacifos foram abertos e revistados.
Se bem me recordo, todos estavam em ordem, inclusive o teu, salvo o facto de estar forrado com fotografias de
mulheres. Ficmos todos convencidos de que ias ter sarilhos. Porm o oficial-inspector no tomou a coisa a
srio e depois de ele se ter ido embora, todos ns achmos que tu eras um tipo bestialmente corajoso. Lembrome
de que jogavas razoavelmente o bilhar e parece que estou a ver-te na sala da nossa Companhia. Eras um
dos melhores condutores de camies da unidade. Lembras-te dos problemas de terreno que tnhamos de
resolver nos exerccios? Num dos percursos que realizmos nesse Inverno recordo-me de que cada um de ns
era responsvel por um camio durante todo o exerccio. Na nossa unidade, os camies no tinham aquecimento e fazia l dentro um frio de rachar. Lembro-me de que 
tu abriste um buraco nas tbuas do cho afim de aproveitar o calor do motor. A razo de nunca me ter esquecido disto foi o que senti por saber que o "dano" causado 
a qualquer artigo pertencente ao exrcito constitua um crime pelo qual podias ser severamente punido. Claro que eu era um novato
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e por isso mesmo tinha receio de transgredir as leis, ainda que fosse na mais pequena coisa, mas lembro-me
de te ver sorrir (muito quentinho) enquanto eu. Me preocupava (e ia morrendo de frio). Recordo-me ainda de
teres comprado uma motocicleta e conservo a vaga lembrana de haver surgido qualquer contratempo com
ela - algum sarilho com a polcia? Desastre? Fosse o que fosse, s ento tive conscincia de que havia uma
ponta, de loucura na tua personalidade.  natural que algumas das minhas recordaes no sejam exactas;
isto passou-se j l vo mais de oito anos e s te conheci durante cerca de oito meses. Se bem me recordo, no
entanto, entendamo-nos os dois muito bem e eu simpatizava contigo. Sempre me pareceste alegre e atrevido,
cumprias bem o servio da tropa e no me recordo de teres dado muito que falar. Claro que eras completamente desaparafusado, mas eu no tinha grande intimidade contigo 
para saber tudo. O que sei agora  que ests verdadeiramente em maus lenis. Tento imaginar o que s hoje; como pensas. Quando li o que sucedera contigo fiquei 
passado, podes crer. Depois larguei o jornal e distra-me com outra coisa. Mas no me saas da ideia. No me sentia bem tentando esquecer. Sou (ou antes, esforo-me 
verdadeiramente por o ser) religioso catlico. Dantes no o era. Deixava correr e no me preocupava, afinal, com a nica coisa que existe. Nunca pensava na morte 
ou na possibilidade da vida para alm desta. Vivia intensamente: carros, Universidade, encontros com raparigas, etc. Mas a certa altura o meu irmo mais novo morreu 
com leucemia apenas com dezassete anos. Ele sabia que ia morrer e mais tarde pus-me a cogitar no que pensaria ele acerca disso. Neste momento penso em ti e cogito 
naquilo que poders sentir. No era capaz de encontrar palavras para dizer ao meu irmo nas ltimas semanas que precederam a sua morte. Hoje, porm, sei o que lhe 
diria.
E  por isso que aqui me tens a escrever-te: porque foste feito por Deus, tal como eu, e, segundo o pouco que
sabemos dos desgnios de Deus, o que te sucedeu a ti podia ter sucedido a mim.
Do teu antigo Don Cullivan.
O nome no dizia nada a Perry, mas reconheceu imediatamente o rosto da fotografia como sendo o de um
jovem soldado de cabelos cortados  escovinha e uns olhos redondos e honestos. Leu a carta diversas vezes;
muito embora achasse as aluses
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religiosas pouco persuasivas ("tentei acreditar, mas no posso, no consigo, no vale a pena fingir"), sentiu-se abalado. Ali estava uma pessoa a oferecer-lhe auxlio, 
um homem lcido e respeitvel que outrora o conhecera e estimara, um homem que se assinava seu amigo. Sentindo-se grato, comeou logo a responder-lhe:
Meu caro Don, se me lembro de ti! Caramba, Don Culhvan...
A cela de Hickock no tinha janela; dava para um largo corredor e para as fachadas das outras celas. Mas ele no estava isolado, tinha pessoas com quem conversar, 
uma cambada de vagabundos e bbedos, falsrios e tipos que espancavam as mulheres ou vadios mexicanos; e Dick, com o seu palavreado de "aldrabo", as suas anedotas 
obscenas e piadas jocosas, tornava-se popular junto dos companheiros de crcere (muito embora entre estes houvesse um com quem nunca conseguira meter-se, um velho 
que lhe atirava constantemente  cara a palavra: "Assassino! Assassino!" e que uma vez o encharcou atirando-lhe um balde de gua suja).
Exteriormente, Hickock parecia a todos um jovem extraordinariamente despreocupado. Quando no estava a conversar ou a dormir, deitava-se no catre a fumar ou mascando 
goma elstica e a ler revistas desportivas ou livros de cordel. Muitas vezes limitava-se a ficar estendido e a assobiar velhas melodias muito conhecidas (Devias 
ter sido um lindo beb, Pe-te a andar para Bfalo) e a fitar a lmpada sem resguardo, acesa dia e noite no tecto da cela. Odiava aquela vigilncia montona da lmpada; 
perturbava-lhe o sono e, mais concretamente, comprometia o xito de um plano secreto que forjara: fugir. Na verdade, este preso no era to despreocupado como parecia, 
nem to resignado; tencionava dar todos os passos ao seu alcance para evitar " o grande balouo".
Convencido de que essa cerimnia no podia deixar de constituir o resultado do seu julgamento, pelo menos de qualquer julgamento no estado do Kansas, resolvera "cavar 
dali para fora". Roubar um carro e "pr-se na alheta". Mas primeiro precisava de uma arma; e andava j havia semanas a fabricar um "espeto", certo instrumento muito 
semelhante a um quebra-gelo, algo que se poderia enterrar com mortfera preciso entre os ombros do subxerife Meier. O material da arma, um bocado de madeira e um 
bocado de arame duro, fazia outrora parte de uma vassoura que ele confiscara, desmanchara e escondera debaixo do
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colcho. Na noite anterior, quando o nico rudo que se ouvia era o ressonar, a tosse dos presos e os dolentes gemidos dos comboios de Santa F que atravessavam 
a cidade s escuras, ele limava o arame no cimento do cho da cela. E, enquanto trabalhava, ia cogitando.
No primeiro Inverno aps ter terminado o liceu, Hickock viajara  boleia atravs do Colorado e do Kansas: "Foi na altura em que andava  procura de emprego. Certa 
vez em que seguia num camio, eu e o motorista comemos a discutir j no me recordo bem porqu ; ele bateu-me e ps-me fora.
Deixou-me para ali, longe como burro, nas Montanhas Rochosas. Chuviscava e eu tive de andar milhas e milhas com o nariz a sangrar como uma torneira. At que cheguei 
a um grupo de cabanas numa encosta arborizada. Cabanas de Vero, naquela altura fechadas e desertas. Arrombei uma delas. Havia ali dentro lenha e latas de conservas 
e at algum whisky. Fiquei l uma semana e foi um dos melhores tempos da minha vida. Apesar de me doer o nariz e de ter os olhos inflamadssimos. Quando a neve deixou 
de cair surgiu o sol e eu nunca vi um cu como aquele.
Igual ao do Mxico, se l o clima fosse frio. Percorri as outras cabanas e encontrei alguns presuntos fumados, um rdio e uma carabina. Era bestial! Andar todo o 
dia  caa com a carabina.  noite, comia feijes e presunto frito, enrolava-me num cobertor junto do lume e adormecia a ouvir a msica do rdio. No aparecia por 
ali ningum. Acho que teria sido capaz de l ficar at  Primavera." Se a fuga resultasse, era para a que Dick contava dirigir-se, para as montanhas do Colorado, 
 procura de uma cabana para se esconder at  Primavera (sozinho, claro; o futuro de Perry j no o interessava). A perspectiva de to ednico estgio, aliada  
secreta inspirao com que trabalhava faziam com que o estilete fosse aguado com todo o cuidado.
Quinta-feira, 10 de Maro. O xerife teve hoje um choque. Revistou todas as celas e descobriu um estilete
escondido debaixo da cama do D. Que teria ele na ideia! (sorri).
No que Perry achasse realmente o caso para rir; Dick, empunhando uma arma perigosa, podia desempenhar um papel decisivo nos planos que ele prprio estava formando. 
A medida que decorriam as semanas, Perry familiarizara-se com a vida na Praa do Tribunal, os seus frequentadores e os hbitos destes. Os gatos, por exemplo: os 
dois bichanos cinzentos e esquelticos que apareciam ao cair da noite a rondar a praa, detendo-se para examinar as frentes dos automveis parados em volta, procedimento 
este que o intrigava, at que Mrs. Meier lhe explicou que andavam  caa dos pssaros entalados nas grelhas dos veculos.
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Dali em diante aquele espectculo foi-lhe doloroso: "A maior parte da minha vida tinha sido aquilo mesmo.
Ou coisa semelhante."
Havia um velho que dava particularmente na vista a Perry, um sujeito alto e robusto, de cabeleira branca como
um capacete de prata: o rosto cheio, de queixo firme, era de certo modo carrancudo quando em repouso, com a
boca descada, como se andasse mergulhado num soturno devaneio o vivo retrato da dureza implacvel. E no
entanto esta impresso era parcialmente falsa, porque de quando em quando o preso via-o parar e falar com
outros homens, gracejar com eles e rir; nessas alturas parecia despreocupado, jovial e generoso: "A espcie de
homem capaz de apreciar humanamente as coisas. - qualidade esta de suma importncia na personagem, pois
tratava-se de Roland H. Tate, juiz do 32 Distrito Judicial, o magistrado que devia presidir ao julgamento do
estado do Kansas contra Smith e Hickock. Tate, conforme Perry no tardou a saber, era um nome h muito
temido no Kansas Ocidental. O juiz era um homem rico, criador de cavalos, senhor de vastas terras, e cuja
mulher diziam ser muito bonita. Tivera dois filhos, mas o mais velho morrera, tragdia essa que afectara
grandemente os pais e os levara a adoptar um rapazinho que ali aparecera abandonado e sem famlia. "Parece
um sujeito compassivo", disse um dia Perry a Mrs. Meier. "Talvez nos d sorte." Mas no era essa realmente a convico de Perry; acreditava naquilo que escrevera 
a Don Culhvan, com quem agora se correspondia regularmente: o seu crime era "imperdovel" e pensava sinceramente que acabaria por "subir aqueles treze degraus". 
No entanto ainda no desesperara por completo, pois tambm ele planeara a fuga. Esta dependia de dois jovens que muitas vezes surpreendera a observ-lo. Um era ruivo, 
outro de cabelos negros. Era frequente porem-se debaixo da rvore cujo cimo tocava na janela da priso a sorrir-lhe ou a fazerlhe sinais, pelo menos assim o imaginava. 
Nunca lhe haviam dito nada e, passado um minuto talvez, desandavam dali. Mas Perry convencera-se de que os jovens, movidos provavelmente por um desejo de aventura, 
pretendiam ajud-lo na fuga. Em vista disso, desenhou um mapa do largo, indicando o ponto onde devia estacionar "um carro para fugir". por baixo do mapa escreveu: 
Preciso de um serrote n 5. Nada mais.
Mas j pensaram na consequncia se forem apanhados? (caso afirmativo, acenem com a cabea). Isso poder
acarretar-vos uma longa estada na priso. Ou at a morte. E tudo por causa de uma pessoa que no conhecem.  MELHOR REFLECTIREM!! Muito a srio! De resto como hei-de 
saber que 248
posso ter confiana em vocs? E quanto ao Hickock? Todos os preparativos lhe dizem igualmente respeito.
Perry conservava este documento na sua mesa, amassado numa bola e pronto a ser atirado pela janela da
prxima vez que visse aparecer os dois jovens. Mas isso nunca mais sucedeu. No voltou a pr-lhes a vista em
cima. Acabou por pensar que tudo fora produto da sua imaginao (a ideia de que poderia no estar "normal,
talvez mesmo louco", perturbava-o. "J acontecia o mesmo em pequeno, quando as irms troavam dele por
gostar da Lua. Ia esconder-se no escuro a ver o luar".) Quer fossem fantasmas ou no, a verdade  que deixou
de ver os dois rapazes. Outra forma de evaso, o suicdio, viera substitu-los nas suas cogitaes: e, apesar dos
cuidados do carcereiro (ausncia de espelho, de cinto, gravata ou atacadores), descobrira um meio de o pr em
prtica. Tambm na cela dele havia uma lmpada permanentemente acesa. Mas, ao contrrio do que sucedia
com Hickock, dispunha de uma vassoura e com o auxlio desta era possvel desatarrachar a lmpada. Certa
noite sonhou que conseguira deitar-lhe a mo. Partira-a em seguida e, com os vidros, cortara as veias dos
pulsos e dos tornozelos. "Sentia que me faltava a vista e a respirao", descreveu ele mais tarde. " As paredes
da cela desapareciam, o cu abatia-se sobre mim e via surgir o grande pssaro amarelo." Durante toda a sua vida - quando era ainda uma criana maltratada, depois 
um jovem vadio, agora um prisioneiro - o pssaro amarelo, enorme, com rosto de papagaio, pairara nos sonhos de Perry, qual anjo vingador que massacrava os inimigos 
ou ento, como agora, vinha salv-lo em momentos de perigo mortal.
"Ele levou-me como se eu fosse mais leve do que um rato e comeou a subir; a subir cada vez mais, enquanto
eu via l em baixo, na praa, os homens a correr e a gritar, o xerife a disparar contra ele, todos furiosos por
verem que eu estava livre, a voar cus fora, em melhor situao do que a deles." O julgamento foi marcado para o dia 22 de Maro de 1960. Durante as semanas que 
precederam esta data os advogados de defesa iam constantemente consultar os rus. As vantagens de requerer o julgamento noutra localidade' eram muito discutveis, 
pois o advogado mais idoso, Mr. Fleming, avisou o seu cliente de 1 Em ingls change ofvenue, significa requerer que o julgamento se faa noutra localidade diferente 
daquela onde foi praticado o crime, por se recear que os magistrados e os jurados no julguem imparcialmente. (N da T) 249
que o facto de o julgamento se realizar nesta ou naquela regio do Kansas no interessava. Os sentimentos do
pblico eram os mesmos por toda a parte. Talvez o melhor lugar ainda fosse Garden City. A comunidade era
muito religiosa. Onze mil habitantes e vinte e duas igrejas. A maioria dos padres opunha-se  pena de morte,
por a considerarem imoral e anticrist; at mesmo o reverendo Cowan, ministro da congregao a que
pertencia Mr. Clutter e grande amigo da famlia, pregara contra a pena de morte, referindo-se precisamente a
este caso. "Lembrem-se de que a nica coisa que poderemos tentar  poupar-vos a vida. E para isso temos
tantas probabilidades aqui como em qualquer outro stio." Logo a seguir  primeira acusao de Smith e Hickock, os advogados apresentaram-se ao juiz Tate, a fim 
de lhe entregarem um requerimento onde se pedia um exame psiquitrico dos acusados. Requeria-se que os dois rus fossem internados no hospital do Estado em Larned, 
no Kansas, estabelecimento de doenas mentais dispondo da mxima segurana, com o fim de averiguar se qualquer deles ou os dois eram "loucos, imbecis ou idiotas, 
incapazes de compreender a sua situao e de ajudar a defesa".
Larned fica a cem milhas a leste de Garden City; o advogado de Hickock, Harrison Smith, informou o tribunal
de que estivera no hospital na vspera e conferenciara com alguns membros da direco: "Ns no temos
psiquiatras capazes na nossa terra. De facto, Larned  o nico local dentro de um raio de duzentas e vinte e
cinco milhas onde poderemos encontrar essas pessoas, isto , mdicos treinados para poderem dar a sua
opinio em matria psiquitrica. Isso leva tempo. Entre quatro e oito semanas. Mas as pessoas com quem
contactei mostram-se dispostas a comear o trabalho desde j; e, como a instituio pertence ao Estado, claro
que no custar um real ao Condado."
Este projecto foi contrariado pelo assistente especial do acusador, Logan Green, o qual, certo de que os seus
oponentes iriam invocar em tribunal "um estado de loucura momentnea", receava que o resultado da proposta
fosse, tal como previra numa conversa particular, a exibio na barra das testemunhas de um "rebanho de
mdicos de malucos", simpatizantes com os rus ("esses tipos esto sempre prontos a chorar pelos assassinos e
nunca pensam nas vtimas".) Numa palavra, Green, que era muito teimoso, ou no fosse natural do Kentucky,
comeou por lembrar ao tribunal que a lei do Kansas, no que se refere a sanidade mental, segue a lei de
M'Naghten, que noutros tempos importmos da Inglaterra, a qual determina que, se o acusado reconhece a
natureza do seu acto, se sabe o que fez mal, ento  mentalmente 250
so e responsvel pelas suas aces. Mais ainda, afirmava Green, no existia nada nos estatutos do Kansas que
determinasse quais as habilitaes dos mdicos escolhidos para determinar as condies mentais de um
acusado: "Refere-se simplesmente a mdicos. Mdicos de clnica geral,  tudo quanto a lei exige. Todos os
anos temos neste condado juntas mdicas para internar gente nas instituies pblicas. Nunca se chamou
ningum de Larned nem de qualquer outro hospital psiquitrico. Bastam-nos os mdicos c da terra. No se
torna muito difcil averiguar se um homem  idiota, louco ou imbecil... Reputo inteiramente desnecessrio e
uma perda de tempo enviar os nossos rus para Larned." Na contestao, o advogado Smith afirmava que o caso presente era "muito mais grave do que um simples exame 
de sanidade mental para efeito de julgamento. Esto em jogo duas vidas. Fosse qual fosse o seu crime, estes homens tm todo o direito a ser examinados por pessoas 
de saber e experincia. A psiquiatria", acrescentava, dirigindo-se directamente ao juiz, " fez grandes progressos nestes ltimos vinte anos. Os tribunais federais 
comeam a trabalhar de acordo com esta cincia quando se trata de pessoas acusadas de actos criminosos. A mim afigura-se ser esta uma esplndida oportunidade de 
nos mostrarmos actualizados em face dos novos conceitos desta matria."
Mas o juiz preferiu desprezar tal oportunidade, pois, segundo observara uma vez certo jurista, "Tate  aquilo
que se pode chamar um magistrado que julga ao p da letra, nunca vai em experincias, agarra-se sempre ao
texto"; porm o mesmo crtico acrescentava: "Se eu estivesse inocente seria ele a primeira pessoa por quem
desejaria ser julgado. Se estivesse culpado, a ltima." O juiz Tate no rejeitou inteiramente a petio: fez antes
precisamente aquilo que a lei mandava, nomeando uma comisso de trs mdicos de Garden City e ordenando-lhes que dessem o seu parecer acerca das capacidades mentais 
dos prisioneiros. (Na devida altura, os trs mdicos examinaram os acusados e, ao cabo de cerca de uma hora de conversa, declararam que nenhum deles sofria de qualquer 
perturbao mental. Quando lhe deram parte do diagnstico, Perry Smith exclamou: "Como podem eles saber uma coisa dessas? Eles o que queriam era divertir-se, ouvir 
todos os pormenores do crime dos lbios perversos dos assassinos. At os olhos se lhes riam!" O advogado de Hickock mostrou-se tambm furioso: dirigiu-se mais uma 
vez ao Hospital do Estado, em Larned, onde requereu os servios gratuitos de um psiquiatra que estivesse disposto a ir a Garden City entrevistar os acusados. O nico 
que se prontificou a isso, o doutor W. Mitchell Tones, possua uma competncia excepcional; no fizera ainda trinta
251
anos, era um especialista ultramoderno em psicologia criminal e loucura criminosa: trabalhara e estudara na
Europa, bem como nos Estados Unidos. Concordou em examinar Smith e Hickock e, caso o seu diagnstico
fosse positivo, serviria de testemunha de defesa.)
Na manh de 14 de Maro, compareceram de novo perante o juiz os advogados de defesa, desta vez a fim de
pedirem um adiamento do julgamento, para o qual faltavam apenas oito dias. Para isso invocavam duas razes:
em primeiro lugar afirmavam que uma testemunha "de importncia vital", o pai de Hickock, estava nessa
altura demasiado doente para vir depor. A segunda razo era mais subtil. Na semana anterior, comearam a
aparecer nas montras da cidade, bem como nos cafs, restaurantes e na estao do caminho-de- ferro certos
anncios que diziam o seguinte: VENDA EM HASTA PBLICA DA HERANA DE H. W. CLUTTER 21
DE MARO DE 1960 NA QUINTA DA FAMLIA. "Ora", dizia Harrison Smith, dirigindo-se ao juiz, "eu
compreendo que se torna quase impossvel provar que este facto pode prejudicar os rus. Porm a venda em
hasta pblica da herana das vtimas ter lugar dentro de uma semana - por outras palavras, no prprio dia em
que comea a audincia. Se isto  ou no prejudicial para os acusados, no o posso afirmar.
Mas estes avisos, alm dos anncios dos jornais e da rdio, recordam constantemente o crime a todos os
cidados, dos quais cento e cinquenta foram convocados como possveis jurados." O juiz Tate no se deixou impressionar. Recusou a petio sem dar explicaes.
No princpio do ano, Hideo Ashida, o japons vizinho de Mr. Clutter, vendera as suas alfaias agrcolas e
mudara-se para o Nebrasca. A venda dos Ashida, que fora considerada um xito, no chegara a atrair cem
compradores. A dos Clutters reuniu um pouco mais de cinco mil. Os cidados de Holcomb esperavam um
ajuntamento desusado. O Clube Feminino da Congregao Crist de Holcomb transformara um dos telheiros
da quinta em bufete, fornecido com duzentos empades de confeco caseira, duzentas e cinquenta libras de
carne picada, sessenta libras de presunto em fatias. Mas ningum estava preparado para receber a maior
afluncia de pessoas registada na histria do Kansas. Acorreram a Holcomb automveis de metade dos
condados daquele estado, bem como de Oklahoma, Colorado, Texas e Nebrasca. Seguiam aos solavancos pela
vereda que conduzia  quinta de River Valley.
252
Era a primeira vez que o pblico tinha licena de visitar a casa dos Clutters depois dos crimes, circunstncia
esta que explicava a presena de pelo menos um tero da enorme assembleia - aqueles que tinham ali vindo
por curiosidade apenas.  claro que o tempo contribura tambm favoravelmente, pois em meados de Maro as
grandes neves do Inverno haviam-se derretido j, deixando a descoberto sucessivos hectares de lama funda; os
lavradores nada tinham  fazer enquanto o solo no endurecesse.
        A terra est de tal modo hmida e desagradvel - afirmava a senhora Bill Ramsey, mulher de um lavrador -
que ningum pode fazer nada. Por isso lembrmo-nos de vir ver o leilo.
Na verdade, o dia estava bonito, primaveril. Muito embora a lama cobrisse tudo, o sol, durante tanto tempo
oculto pela neve e pelas nuvens, parecia novo em folha e as rvores - e pomar de macieiras e pereiras de Mr.
Clutter e os lamos que ensombravam a alameda - viam-se ligeiramente nimbados de uma aurola de luz
esverdeada. O belo relvado que rodeava a casa dos Clutters apresentava-se tambm com um tom de verdenovo
e os intrusos que o calcavam, sobretudo mulheres, desejosas de espreitar pelas janelas da casa desabitada,
invadiam o recinto, como que esperanadas e ao mesmo tempo receosas de divisar na penumbra que reinava
para l das cortinas floridas alguma sinistra apario.
Em voz gritante, o leiloeiro fazia o elogio dos artigos: tractores, carroas, carrinhos de mo, medidas de
pregos, maos, vigas novas, baldes para o leite, ferros de marcar, cavalos, ferraduras, tudo quanto era
necessrio ao funcionamento de uma quinta, desde as cordas at aos arreios, desde as pias at s bacias de lata.
A perspectiva de adquirir estas mercadorias por preos mdicos fora o mbil que atrara ali a maior parte das
pessoas. Porm as mos dos compradores tremiam de receio - mos calosas do trabalho que sentiam dificuldade em se separar das notas to penosamente ganhas; no entanto, 
nada ficou por vender, houve at algum suficientemente interessado para comprar um molho de chaves ferrugentas e um jovem cowboy de botas amarelo-claro ficou com 
o "carro dos coiotes" de Kenyon, o velho calhambeque que o infeliz rapazinho utilizava para ir  caa nas noites de luar.
Os ajudantes da venda, aqueles que traziam e levavam os artigos mais pequenos  mesa do leiloeiro, eram Paul
Helm, Vic Hirsik e lfred Stocklein, todos eles antigos e dedicados serviais do falecido Herbert Clutter.
Ajudar na venda dos seus pertences constitua para eles um derradeiro servio, pois era este o ltimo dia que
passavam em River Valley; a propriedade fora alugada 253
a um rancheiro de Oklahoma e de futuro seriam como estranhos, embora voltassem a trabalhar ali. A medida
que prosseguia a venda e que os bens de Mr. Clutter diminuam e desapareciam gradualmente, Paul Helm, ao
recordar o funeral da famlia assassinada, declarava: "Era como que um segundo enterro." A ltima coisa a vender-se foi o gado dos currais, constitudo sobretudo 
por cavalos, entre eles a gua de Nancy, a velha e gorda Babe, que foi  praa por muito menos do que o seu valor. Estava-se no fim da tarde, as aulas haviam terminado, 
e entre os espectadores encontravam-se vrios colegas de Nancy. Foi ento que se deu incio  venda dos cavalos; Susan Kidwell era uma das espectadoras. Sue, que 
adoptara um dos animais de estimao da amiga, o gato, desejaria ter ficado tambm com a gua, pois amava o velho bicho e sabia quanto Nancy estimara. As duas jovens 
tinham muitas vezes montado juntas no animal, galopando pelo meio dos campos de trigo nas tardes quentes de Vero, seguindo at  margem do rio e metendo-se em seguida 
dentro de gua. A gua caminhava contra a corrente, at ficarem todas trs, na expresso de Sue, "frias que nem peixes". porm Sue no tinha lugar em casa para a 
gua.
        Est em cinquenta... sessenta e cinco... setenta... - Os lances eram demorados, ningum parecia realmente
interessado na Babe, e o homem que ficou por fim com ela, um lavrador de Mcnnonite, disse que iria utiliz-la
na lavoura e arrematou-a por setenta e cinco dlares. No momento em que a conduzia para fora do curral, Sue
Kidwell correu para o animal, ergueu a mo, como se fosse dizer-lhe adeus, mas arrependeu-se e tapou a boca.
O Telegram de Garden City, na vspera do incio da audincia, publicou o seguinte editorial: "Pode haver
quem pense que os olhos do pas inteiro esto postos em Garden City durante este sensacional julgamento.
Mas no  assim. Mesmo a cem milhas a Oeste, no Colorado, poucas pessoas se lembram do caso; quando
muito recordam-se do assassnio de todos os membros de uma famlia muito conhecida. Isto constitui um triste
comentrio ao modo comoo crime est vulgarizado nesta nao. Desde que os quatro membros da famlia
Clutter foram mortos no passado Outono, vrios assassnios mltiplos tiveram lugar em diversos pontos do
condado. Precisamente nestes dias que precederam o julgamento, mais trs casos de assassnios colectivos
foram anunciados nos cabealhos dos jornais. Portanto, este crime e este julgamento no so mais do que um
entre tantos dos casos que lemos ultimamente e j esquecemos... " 254
Muito embora os olhos da nao no estivessem fixos nelas, a atitude das principais personagens do acontecimento, desde o escrivo at ao juiz, revelava preocupao 
na manh da primeira audincia no tribunal.
Os quatro advogados exibiam fatos novos; os sapatos que o delegado do Ministrio Pblico ostentava nos ps
enormes estalavam e rangiam a cada passo. Tambm Hickock se apresentava impecavelmente vestido com
roupas fornecidas pelos pais: calas de sarja azul, camisa branca e gravata estreita azul-escura. Apenas Perry
Smith, que no tinha gravata nem casaco, parecia ali deslocado, do ponto de vista da indumentria. Trazia uma
camisa aberta, (que lhe emprestara Mr. Meier), e calas de ganga enroladas em baixo; parecia to estranho
como uma gaivota num campo de trigo.
A sala de audincia, um compartimento despretensioso situado no terceiro andar do Tribunal de Finney
County, tinha as paredes caiadas e o mobilirio encerado de escuro. As bancadas dos espectadores comportavam quando muito umas cento e setenta pessoas. Na manh 
de tera-feira, 22 de Maro, os bancos estavam ocupados exclusivamente por todos os candidatos a jurados de Finney County, entre os quais iria ser escolhido o jri. 
Poucos se mostravam desejosos de desempenhar tal funo (um deles, em conversa com outro, dizia: "No me podem nomear. Ouo mal." Ao que o amigo, aps alguns momentos 
de manhosa reflexo, replicou: "Se vamos a isso, tambm eu no ouo l muito bem"), e era opinio geral de que a escolha dos jurados iria demorar vrios dias. Ao 
cabo e ao resto, porm, gastaram-se apenas quatro horas; alm disso, o jri, incluindo os dois membros suplentes, foi escolhido entre os primeiros quarenta e quatro 
candidatos.
Sete foram rejeitados pela defesa e trs dispensados a pedido da acusao; outros vinte viram-se excludos
pelo facto de se oporem  pena capital ou ento por confessarem que haviam formado j uma opinio firme
acerca da culpabilidade dos acusados.
Os catorze homens que por fim foram nomeados incluam meia dzia de lavradores, um farmacutico, o
director de uma creche, um empregado do aeroporto, um perfurador de poos, dois caixeiros-viajantes, um
maquinista e o gerente da pista de bowling. Todos eles eram chefes de famlia (alguns tinham cinco filhos ou
mais) e convictos proslitos de uma ou outra das igrejas locais. Durante o exame prvio, quatro deles
informaram o tribunal de que haviam tido relaes, embora no muito ntimas, com Mr. Cluter. Porm, aps o
interrogatrio, cada um deles declarou que tal facto em nada diminuiria a sua capacidade de proferir uma
sentena imparcial. O empregado do aeroporto, um 255
sujeito de meia-idade que se chamava N. L. Dunnan, afirmou, ao ser-lhe pedida a opinio acerca da pena de
morte: "Habitualmente sou contra ela. Mas, neste caso, no" - declarao esta que pareceu a algumas pessoas
presentes indicar claramente a existncia de um preconceito. No entanto, este homem foi aceite como jurado.
Os rus assistiam distrados  cerimnia da escolha. No dia anterior, o doutor Jones, o psiquiatra que se
prontificara a examin-los, tinha-os entrevistado separadamente durante cerca de duas horas: no fim das
entrevistas, alvitrara que cada um deles lhe fizesse uma declarao autobiogrfica, e foi a redaco deste
documento que ocupou os acusados durante as horas consumidas na escolha do jri. Ao fundo da mesa dos
seus patronos, Hickock escrevia com uma caneta e Smith com um lpis.
Este ltimo declarou:
O meu nome  Perry Edward Smith, nasci a 27 de Outubro de 1928, em Huntington, no condado de Elko,
Nevada, que fica por assim dizer no fim do mundo. Recordo-me de que em 1929 a nossa famlia se tinha
aventurado a ir at juneau, no Alasca. Na minha famlia ramos o meu irmo Tex J r. (mais tarde mudou o
nome para James, por achar ridculo o nome de Tex, e penso que tambm por detestar o meu pai-influenciado
pela minha me, a minha irm Fem (esta tambm mudou o nome para Joy), a minha irm Brbara e eu... Em
Juneau, o meu pai fazia contrabando de lcool. Acho que foi durante este perodo que a minha me comeou
a beber. A mam e o pap comearam ento a ter discusses. Recordo-me que a minha me "esteve" com
alguns marinheiros durante a ausncia do meu pai. Quando ele regressou a casa, seguiu-se uma discusso e,
depois de violenta luta, o meu pai ps fora os marinheiros e comeou a bater na minha me.. Eu apanhei um
susto tremendo. Na verdade todos ns estvamos aterrados. Chorvamos. Eu assustei-me porque pensei que o
meu pai me ia fazer mal, e tambm por ele estar a bater na minha me. No compreendi realmente o motivo
de tudo isto, mas sentia que ela devia ter feito qualquer coisa de mal... Aquilo de que me lembro vagamente a
seguir  de viver em Fort Bragg, Califrnia. Tinham dado ao meu irmo uma espingarda B. B. Ele matara um
passarinho e no fim ficara muito triste por isso. Eu pedi-lhe que me deixasse dar um tiro com a espingarda.
Ele empurrou-me dizendo que eu era pequeno demais para fazer isso. Fiquei to furioso que desatei a chorar.
No fim de chorar, senti-me mais furioso ainda, e nessa tarde, 256
quando a espingarda estava atrs da cadeira do meu irmo, agarrei-a, encostei-lha ao ouvido e gritei: Pum!
O meu pai (ou a minha me) bateu-me e obrigou-me a pedir desculpa. O meu irmo costumava, atirar contra
um grande cavalo branco em que um vizinho nosso montava, para ir  cidade. O homem descobriu-nos a mim
e a meu irmo escondidos nas silvas e levou-nos  presena do meu pai; eu apanhei uma tareia e o meu irmo
ficou sem a espingarda. Senti-me feliz com isso... No me lembro de mais nada enquanto vivemos em Fort
Bragg. (Oh, ns, garotos, costumvamos saltar de um palheiro, com um chapu-de-chuva aberto, para cima
de um monte de palha que estava no cho)... A seguir s me lembro de muitos anos mais tarde, quando
vivamos na Califrnia ou no Nevada? No tenho a certeza. Recordo-me de um episdio horrvel passado
entre a minha me e um negro. Ns, as crianas, dormamos num alpendre, no Vero. Uma das nossas camas
ficava precisamente por baixo da janela dos meus pais. Todos ns tnhamos j espreitado atravs das cortinas
semiabertas para ver o que se passava l dentro. O pai tinha contratado um preto (o Sam) para trabalhar na
quinta ou no rancho, enquanto ele prprio trabalhava mais longe. Ele costumava vir tarde para casa  noite,
na furgoneta modelo A. No me recordo bem do que sucedeu depois, mas calculo que o pai tinha sabido ou
desconfiado do que se passava. Isso deu como resultado a separao do pai e da me e esta, levou-nos para S.
Francisco. Fugiu com a furgoneta dopai e todas as coisas que ele trouxera do Alasca. Acho que isto se
passava em 1935 (f)... Em S. Francisco eu estava continuamente metido em sarilhos. Comecei a andar com um
grupo de rapazes todos mais velhos do que eu. A minha me estava sempre bbeda e nunca em condies de
cuidar ou tomar conta de ns. Eu andava  solta como um coiote. No conhecia regra nem disciplina nem
nada que me indicasse o que era mal e o que era bem. Ia para onde me apetecia, at que me meti pela
primeira vez em sarilhos. Andava sempre a ser internado em reformatarias por fugir de casa e por roubar.
Recordo-me de um lugar para onde me mandaram. Eu sofria dos rins e molhava a cama todas as noites.
Sentia-me humilhado com isso, mas no conseguia dominar-me. A vigilante do meu pavilho batia-me
furiosamente e mandava os outros fazer troa de mim e chamar-me nomes. Costumava vir a qualquer hora da
noite levantar-me a roupa para ver se eu tinha a cama molhada e batia-me com raiva com um grande cinto de
cabedal preto. Tirava-me da cama pelos cabelos, arrastava-me para o quarto de banho, mergulhava-me
numa.
257
banheira de gua fria e mandava-me lavar os lenis. Cada noite era para mim um verdadeiro pesadelo.
Depois comeou a achar divertido pr uma certa pomada no meu pnis e este ardia-me de uma maneira quase
intolervel. Mais tarde ela foi demitida do lugar. Mas isso em nada alterou o que eu sentia em relao a ela e
a todos os que fizeram pouco de mim.
Em seguida, visto o doutor Jones lhe ter dito que queria o relatrio nessa mesma tarde, Smith saltou para a
adolescncia e para o perodo em que ele e o pai haviam vivido juntos, vagueando pelo Far West, a pesquisar
ouro, a caar peles e a exercer toda a espcie de empregos: Eu amava o meu pai mas havia momentos em que este afecto que sentia, por ele se escoava do meu corao 
como gua, suja. Isto sucedia quando ele se revelava incapaz de compreender os meus problemas, de me dar um pouco de considerao, de me deixar exprimir, ou me negava 
responsabilidade. Nessas alturas tinha de me afastar dele. Aos dezasseis anos alistei-me na Marinha Mercante. Em 1948 fuipara a tropa. O oficial da recruta prejudicou-me 
nas provas. Dali em diante comecei a compreender a importncia da instruo. Cada vez sentia mais dio e inveja dos outros. Comecei a ulhar a torto e a direito. 
Atirei com um polcia japons de uma ponte abaixo. Fui julgado em Conselho de Guerra por ter destrudo o caf de um japons. Fui de novo julgado em Kyoto, no Japo, 
por roubar um txi. Estive na tropa cerca de quatro anos. Tinha frias terrveis enquanto servi no Japo e na Coreia. Estive quinze meses na Coreia, fui transferido 
e mandado regressar aos Estados Unidos, e tive honras especiais visto ser o primeiro veterano que regressava da Coreia ao Alasca.
Escreveram parangonas nos jornais, publicaram o meu retrato e pagaram-me a viagem at ao Alasca de
avio, etc., etc. Terminei o meu servio militar em Fort Leveis, Washington.
O lpis de Smith passava a escrever umas letras quase indecifrveis, com a pressa de chegar ao fim da histria;
o acidente de mota que o inutilizara, o roubo cometido em Phillipsburg, no Kansas, e lhe valera a sua primeira
condenao.
258
... Fui condenado em 5 a 10 anos por roubo grave, falsificao e fuga da cadeia. Achei que tinham sido injustos para mim. Enquanto estive na priso tornei-me um 
revoltado. Quando sa disse que ia para o Alasca ter com o meu pai, mas no fui, trabalhei durante uns tempos no Nevada e no Idaho, segui para Las Vegas e fui para 
o Kansas onde arranjei a situao presente. No tenho tempo para mais.
Assinava e acrescentava um ps-escrito:
Gostaria de conversar de novo com o senhor doutor. H muitas coisas que lhe interessam e ainda no disse. Sempre senti um prazer extraordinrio em estar junto de 
pessoas dotadas de boa vontade e dedicao. Notei isto quando me encontrei na sua presena.
Hickock no escreveu com o mesmo entusiasmo do companheiro. Parava muitas vezes para escutar o interrogatrio de um futuro jurado ou para olhar os rostos  sua volta 
- particularmente e com especial desagrado a cara musculosa do delegado do condado. Duane West, que tinha a mesma idade dele, vinte e oito anos. Porm o seu relatrio, 
escrito com uma letra estilizada e oblqua, que lembrava a chuva a cair, terminou antes que o tribunal encerrasse a sesso: Vou tentar relatar-lhe tudo aquilo de 
que me lembrar acerca da minha pessoa, muito embora parte da minha infncia no passe de uma vaga recordao, pelo menos at aos dez anos. O meu tempo de escola 
foi igual ao da maioria dos rapazes da minha idade. Tive as minhas bulhas, encontros com raparigas e sucederam-me outros factos prprios da adolescncia. A minha 
vida familiar tambm era normal, mas, como j disse, poucas vezes tinha licena para sair do ptio e ir brincar com os companheiros. O meu pai foi sempre muito severo 
connosco (ele e o irmo) nesse captulo.
Tambm tinha de ajudar o meu pai nos trabalhos da casa.... S me lembro de os meus pais terem tido uma discusso sem consequncia. Qual o motivo, no me recordo.
...O meu pai comprou-me um dia uma bicicleta e eu julguei-me o rapaz mais feliz da cidade. Era uma bicicleta de rapariga, mas o meu pai transformou-a, pintou-a e 
ficou como 259
nova. Tive tambm muitos outros brinquedos, muitos, para a nossa condio econmica. Sempre fomos o que
se pode chamar remediados. Nunca falimos, mas estvamos sempre arriscados a isso. O meu pai era muito
trabalhador e fazia o possvel por nos manter. A minha me trabalhava tambm muito. Trazia a casa sempre
em ordem e tnhamos abundncia de roupa para mudar. Lembro-me de o meu pai usar daqueles bons
antiquados de copa alta e obrigava-me a us-los tambm; eu no gostava nada... Fui realmente bom aluno no
liceu, obtive notas acima da mdia no primeiro e segundo ano. Depois desci um pouco. Tive uma namorada
por essa altura. Era uma rapariga simptica e nunca tentei tocar-lhe; apenas lhe dava de vez em quando um
beijo. Foi realmente um namoro srio... Durante os anos de liceu participei em todos os desportos e recebi ao
todo nove prmios. Basquetebol, futebol, basebol, atletismo, etc. O meu melhor ano foi o ltimo. Nunca tive
uma namorada certa, aproveitava todas. Foi por essa altura que tive pela primeira vez relaes com uma
mulher. Claro, dizia aos camaradas que isso j sucedera montes de vezes... Recebi convite de duas universidades para jogar futebol por elas, mas no aceitei. Depois 
de acabar o liceu fui trabalhar para os caminhos-de-ferro de Santa F, onde fiquei at ao ano seguinte, pois despediram-me. Na Primavera arranjei emprego na Roark 
Motor Company. Trabalhava l havia quatro meses quando tive um desastre de automvel com um carro da casa. Passei muitos dias no hospital com ferimentos de gravidade 
muito extensos na cabea.
Enquanto assim estive, no pude arranjar emprego, por isso fiquei desempregado durante quase todo o
Inverno. Entretanto conheci uma rapariga e apaixonei-me por ela. O pai era prestador baptista e no queria
que andssemos juntos. Casmos em Julho. O pai deu por paus e por pedras, at saber que ela estava grvida.
Mas nunca pde comigo e por isso as coisas correram sempre mal entre ns. Depois de casarmos, empregueime
numa estao de servio perto de Kansas Cit". Trabalhava das oito da noite s oito da manh. Por vezes a
minha mulher ficava l comigo durante toda a noite, com receio de que eu me deixasse adormecer, e por isso
ia ajudar-me. Depois tive uma oferta para trabalhar na Perry Pontiac, que aceitei com satisfao. Gostava do
emprego,
muito embora no ganhasse por a alm, 75 dlares por semana. Dava-me bem com os colegas e os patres
estimavam-me. Fiquei l cinco anos... Durante esse tempo passaram-se algumas das coisas de que mais me
envergonho.
260
Hickock revela a seguir as suas tendncias pedfilas e, depois de descrever algumas experincias elucidativas,
prossegue:
Sei que procedia mal. Mas nessa altura nunca pensava se a coisa estava certa ou no. Dava-se o mesmo com o roubo. Parece-me que se tratava de um impulso. H uma 
coisa de que nunca lhe falei relacionada com este caso. Antes de entrar em casa dos Clutters, eu sabia que vivia l uma rapariga. Acho que a principal razo por 
que l fui no era o roubo mas sim violar a rapariga.
Estava sempre a pensar nela. Foi por isso que nunca quis vir embora depois de l ter entrado.
Mesmo vendo que no existia cofre nenhum. Enquanto l estive fiz algumas tentativas junto da rapariga. Mas o Perry no me deixou levar nada por diante. Espero que 
ningum saiba disto seno o senhor, nem sequer o disse ao meu advogado. H outras coisas que tambm gostaria de lhe dizer, mas tenho receio de que os meus pais as 
venham a descobrir. Tenho mais vergonha de ter feito essas coisas do que de ser enforcado... Estive doente. Em consequncia do desastre de automvel, creio. Crises 
de desmaios e por vezes hemorragias do nariz e do ouvido esquerdo. Uma delas sucedeu em casa de uma gente de nome Crist, que vivia ao sul da quinta dos meus pais.
Ainda no h muito saiu-me da cabea uma lasca de vidro. Foi o meu pai quem ma ajudou a tirar... Acho que devo contar-lhe as circunstncias que determinaram o meu 
divrcio e a minha priso. Tudo comeou nos princpios de 1957. Eu e minha mulher vivamos num apartamento em Kansas City. Eu tinha deixado o emprego na companhia 
de automveis e comeara a explorar uma garagem por minha conta. A mulher a quem eu alugara a garagem tinha uma enteada de nome Margaret. Conheci-a uma vez em que 
estava a trabalhar e fui tomar com ela um caf. O marido dela estava na Marinha. Para encurtar razes, comecei a andar metido com ela. A minha mulher pediu o divrcio. 
Comecei apensar que realmente nunca devia ter gostado da minha mulher, pois se assim fosse nunca teria feito muitas das coisas que fiz. Por isso nunca contestei 
o divrcio. Pusme a beber e andei bbedo um ms. Descurei o trabalho, gastei mais dinheiro do que tinha, assinei cheques falsos e acabei por me transformar num ladro... 
Foi por isso que me mandaram para a penitenciria... O meu advogado aconselhou-me a ser sincero para com o senhor, pois poderia ajudar-me. E, como sabe, bem preciso 
de ajuda,.
261
No dia seguinte, quarta-feira, comeava verdadeiramente a audincia; era tambm o primeiro dia em que admitiam espectadores na sala, a qual era muito diminuta para 
conter uma pequena percentagem daqueles que iam  porta requerer entrada. Os melhores lugares tinham sido reservados para vinte membros da imprensa e para individualidades 
especiais, como os pais de Hickock e Donald Cullivan (o qual, a pedido do advogado de Smith, viera de Massachusetts para ser testemunha abonatria do seu antigo 
camarada do exrcito). Correra o boato de que as duas filhas de Mr. Clutter que restavam estariam presentes; no compareceram nesse dia nem em outro qualquer. A 
famlia estava representada pelo irmo mais novo de Mr. Clutter, Arthur, que se deslocara da terra onde vivia, a cem milhas dali. Declarou aos jornalistas:
        S quero ver-lhes bem as caras (de Smith e de Hickock). Pretendo averiguar a espcie de animais que so. Tenho-lhes uma vontade que me sinto capaz de os 
desfazer! Sentou-se mesmo atrs dos rus e fitava-os com tamanha intensidade que parecia querer desenharlhes os retratos de memria. A certa altura, como que obedecendo 
a um desejo de Arthur Clutter, Perry Smith voltou-se para trs e fitou-o; reconheceu ento nele a cara do homem que assassinara - os mesmos olhos suaves, lbios 
delgados, queixo firme. Perry, que estava a mascar goma elstica, imobilizou os queixos. Baixou os olhos e s dali a um minuto voltou a mastigar. Com excepo deste 
momento, Smith e Hickock assumiram no tribunal uma atitude de distraco e desinteresse absoluto; mascavam goma elstica e batiam com os ps com lnguida impacincia 
enquanto o contnuo chamava a primeira testemunha.
Nancy Ewalt. E depois de Nancy, Susan Kidwell. As raparigas descreveram o que tinham visto ao entrarem na casa dos Clutters naquele domingo, 15 de Novembro: os quartos 
silenciosos, uma carteira vazia no cho da cozinha e um quarto de dormir cheio de sol onde jazia a sua colega Nancy Clutter, num mar de sangue. A defesa requereu 
a acareao, tctica essa que empregou tambm em relao s trs testemunhas que se seguiram (o pai de Nancy Ewalt, Clarcnce, o xerife Earl Robinson e o coroner 
do condado, o doutor Robert Fenton), cada uma das quais fez a narrativa dos acontecimentos ocorridos naquela soalheira manh de Novembro: a descoberta, por fim, 
de todas as vtimas, a descrio do aspecto destas e, da parte do doutor Fenton, um diagnstico clnico: "graves leses no crebro e na estrutura craniana provocadas 
por um tiro." Depois, Richard G. Robleder levantou-se para depor 262
Rohleder  investigador-chefe do Departamento de Polcia de Garden City. Tem a paixo da fotografia em que  mestre. Foi ele quem tirou aquelas que revelaram a existncia 
das pegadas de Hickock no cho da cave dos Clutters, marcas que a objectiva registou mas que eram invisveis a olho nu. Fora ele quem fotografara os cadveres, essas 
cenas de morte que Alvin Dewey estudara sem cessar enquanto no vira descobertos os crimes. O objectivo do testemunho de Rohleder era provar que fora ele quem tirara 
essas fotografias, coisa que a acusao desejava acentuar. Porm o advogado de Hickock objectou:
        S o facto de as fotografias serem apresentadas em tribunal constitui um prejuzo e pode influenciar os jurados.
O juiz Tate no atendeu  objeco e as fotografias foram apresentadas aos jurados.
Enquanto isto se passava, o pai de Hickock dirigindo-se a um jornalista que estava a seu lado, disse:
        Isto  que  um juiz! Nunca vi um homem to parcial. Assim no vale a pena haver julgamento, com ele a presidir. Pudera! Ele era um dos que ia s borlas 
no enterro?... (A verdade  que Tate mal conhecia as vtimas e no assistira sequer ao funeral.) porm, Mr. Hickock era a nica voz que se erguia na sala extraordinariamente 
silenciosa. Ao todo, havia dezassete cpias e,  medida que passavam de mo em mo, os rostos dos jurados reflectiam o choque causado pelas fotografias - as faces 
de um coravam, como se lhe tivessem dado uma bofetada, as de outros, depois do primeiro olhar angustiado, mostravam que no tinham coragem para ver mais; era como 
se as fotografias lhes tivessem aberto os olhos do raciocnio obrigando-os finalmente a ver aquela coisa horrorosa e verdadeira que sucedera a um dos seus vizinhos 
e a toda a famlia. Parecia terem ficado espantados com o facto, e alguns deles - o farmacutico e o gerente da pista de bowling - fitaram os rus com uma expresso 
de absoluta repulsa.
O pai de Hickock abanava tristemente a cabea e repetia num murmrio:
        Assim, no. Isto no  maneira de fazer um julgamento! A acusao anunciara que iria apresentar, como testemunha final daquele dia, "o homem mistrio".
O autor da informao que levara  captura dos criminosos: Floyd Wells, o antigo companheiro de cela de Hickock. Visto estar ainda a cumprir pena, e portanto em 
risco de sofrer represlias da parte dos outros presos da penitenciria do estado do Kansas, Wells nunca fora identificado publicamente como informador. Agora, a 
fim de poder prestar declaraes sem perigo perante o tribunal, fora mudado para uma pequena cadeia de um condado vizinho. No entanto, 263
a passagem de Wells pelo meio da sala da audincia, em direco ao estrado das testemunhas, revelou uma
atitude furtiva, como se receasse encontrar um assassino pelo caminho. Ao passar junto de Hickock, este
arreganhou os lbios e proferiu alguns horrveis palavres. Wells fingiu no dar por isso; mais, tal como um
cavalo que ouve o rastejar de uma cobra cascavel, esquivou-se para o lado, fugindo  proximidade perigosa do
homem que trara. Ao ocupar o estrado, mantinha os olhos fixos na sua frente. Era um tipo de queixo retrado,
com um ar de aldeo, envergando um fato azul-escuro muito decente que a penitenciria lhe fornecera para a
circunstncia, pois o Estado empenhara-se em que a sua principal testemunha de acusao se apresentasse com
um ar respeitvel, a fim de merecer crdito.
As declaraes de Wells, que havia sido previamente bem ensaiado, foram to correctas como o aspecto da
testemunha. Animado pelos incitamentos amveis de Logan Green, confirmou haver trabalhado durante cerca
de um ano como auxiliar agrcola na quinta de River Valley; volvidos dez anos, depois de ter sido condenado
por roubo, veio a travar conhecimento com outro preso, Richard Hickock, a quem descrevera a quinta dos
Clutters, bem como a famlia.
Green perguntou:
        Ora diga l: durante essas conversas com Mr. Hickock, que disseram vocs acerca dos Clutters?
        Bem, falmos de Mr. Clutter. O Hickock disse-me que ia ser posto em liberdade e fazia tenes de se dirigir
para o oeste,  procura de trabalho; talvez passasse pela quinta de Mr. Clutter, e pedisse trabalho. Eu disse-lhe
ento que Mr. Clutter era muito rico.
        O Hickock mostrou-se interessado por esse facto?
        Bem, ele perguntou-me se Mr. Clutter no tinha um cofre l em casa.
        Mr. Wells, o senhor estava convencido de que havia um cofre em casa de Mr. Clutter?
        Bem, j se passara muito tempo depois que eu l tinha estado a trabalhar. Mas eu julgava que sim. Pelo
menos um cacifo em qualquer parte... Logo a seguir, ele (Hickock) comeou a falar em roubar Mr. Clutter.
        Ele descreveu-lhe a maneira como tencionava proceder?
        Declarou-me que, se o fizesse, no deixaria viva nenhuma testemunha.
        E no disse o que tencionava fazer s testemunhas?
        Disse, sim. Provavelmente iria amarr-las e, depois de cometer o roubo, tencionava mat-las.
Aps haver assim provado a premeditao em primeiro grau, 264
Green entregou a testemunha  defesa. O velho Mr. Fleming que era um clssico advogado da provncia, mais  vontade em questes de terrenos do que em casos de crime, 
iniciou o contrainterrogatrio.
A finalidade das perguntas, como logo deu a entender, era introduzir no debate uma matria que a acusao evitara at a propositadamente: o papel de Wells no plano 
dos crimes e a sua idoneidade moral.
        Ento o senhor no disse uma palavra ao Hickock - comeou Mr. Fleming, indo direito ao fim - para o dissuadir de roubar e matar toda a famlia Clutter?
        No.  coisa que no se costuma fazer ali (na penitenciria do Estado do Kansas). No ligamos ao que dizem uns e outros, porque pensamos que  tudo palavreado.
        Quer voc dizer que costumam ter conversas desse gnero, que no correspondem a nada? Ento voc no quis convenc-lo de que Mr. Clutter possua um cofre? 
Era isso que o senhor tinha em vista, no  verdade?
Com o seu processo calmo, Fleming fazia com que Wells passasse um mau bocado; a testemunha puxava pela gravata, como se esta de repente tivesse comeado a apertar-lhe.
        E o senhor deu-lhe a entender tambm que ele era muito
        rico, no  verdade?
        Sim, eu disse-lhe que Mr. Clutter tinha muito dinheiro. Fleming levou-o a fazer mais uma vez a descrio de como
Hickock informara Wells dos seus planos criminosos em relao  famlia Clutter. Ento, como que acabrunhado de desgosto, o advogado inquiriu tragicamente:
        E nem assim o senhor tentou nada para o dissuadir?
        Nunca acreditei que ele o fizesse.
        No acreditou! Ento por que motivo, assim que soube a notcia do crime, pensou ser ele o culpado?
Wells, replicou enfaticamente:
        porque a coisa fora executada exactamente como ele a descrevera! Harrison Smith, advogado de defesa mais novo, tomou a palavra. Com um ar agressivo e sobranceiro, 
que parecia forado, pois na realidade ele era um homem pacfico e tolerante, perguntou ao depoente se acaso no era conhecido por qualquer alcunha.
        No, chamam-me simplesmente Floyd. O advogado inquiriu sarcstico:
        No passaram a chamar-lhe "linguarudo"? Ou talvez "co polcia"?
        S me tratam por "Floyd" - repetiu Wells, um tanto casmurro.
265
        Quantas vezes esteve preso?
        Trs.
        Nenhuma delas por falso testemunho?
Wells negou, declarando que uma vez fora preso por guiar sem carta de conduo, a segunda por roubo e a terceira pena, noventa dias de cadeia, fora-lhe aplicada 
durante o servio militar:
        Andvamos numa patrulha de treino. Bebemos de mais e demos uns tiros nuns candeeiros e numas janelas iluminadas.
Toda a gente riu, com excepo dos rus (Hickock cuspiu para o cho) e de Harrison, que perguntou a Wells por que motivo, aps a tragdia de Holcomb, esperara algumas 
semanas antes de contar s autoridades aquilo que sabia:
        No estaria voc  espera de qualquer coisa? O anncio de um prmio, por exemplo? -No.
        Nunca ouviu falar numa recompensa?
O advogado referia-se  recompensa de mil dlares oferecida pelo jornal News, de Hutchinson, em troca de qualquer informao que conduzisse  captura dos criminosos 
do caso Clutter.
        Li isso nos jornais.
        Antes de se dirigir s autoridades, no  verdade? - E depois de a testemunha concordar que fora assim, Smith prosseguiu com ares de triunfo: - Que imunidades 
lhe ofereceu o procurador do condado em troca de voc vir aqui prestar declaraes? Logan Green, porm, interveio:
        Protesto contra essa pergunta, senhor doutor juiz! A objeco foi atendida e mandaram embora a testemunha. No momento em que esta deixava o estrado, Hickock 
exclamou para quem quis ouvir:
        Grande filho da me! Se algum merece ser enforcado  ele! Olhem s para aquilo! Vai-se daqui, ganha as massas e pem-no em liberdade!
Esta previso cumpriu-se, pois Wells no tardou a receber a recompensa, bem como a soltura sob fiana. Porm, foi de pouca durao a mar de sorte. No tardou a 
meter-se de novo em sarilhos.
No decorrer dos anos, sofreu muitas vicissitudes e presentemente reside na priso do Estado de Mississipi, onde est a cumprir uma pena de trinta anos por roubo 
 mo armada.
Na sexta-feira, quando o tribunal encerrou para o fim-de-semana, as testemunhas de acusao tinham sido todas ouvidas, entre elas quatro agentes especiais do Federal 
Bureau of Investigation, 266
de Washington, Estes eram tcnicos de laboratrio especializados em vrias categorias de investigao
cientfica criminal, tinham estudado as provas materiais relacionadas com a acusao dos rus (amostras de
sangue, pegadas, cpsulas vazias, a corda e o adesivo), e cada um deles garantiu a validade das provas. Por
fim, os quatro agentes do Kansas Bureau of Investigation forneceram relatrios de entrevistas com os presos e
das confisses que estes haviam acabado por fazer. Ao interrogarem o pessoal do K. B. I, os advogados da
defesa, vendo-se cercados por todos os lados, objectaram que tais confisses haviam sido obtidas por meios
imprprios, tais como interrogatrios forados em gabinetes abafados, com focos elctricos, etc. Esta falsa
acusao irritou os detectives que negaram de forma convincente. (Mais tarde, em resposta a um reprter que
lhe perguntava por que motivo ele tinha ido to longe na sua defesa infundada, o advogado de Hickock
retorquiu de mau humor: "Mas qual era o meu papel? Que diabo, eu no tinha o mnimo trunfo na mo. Mas
tambm no podia estar para ali sentado como um boneco. A certa altura uma pessoa diz aquilo que no
deve!").
A testemunha de acusao mais eficaz foi Alvin Dewey; o seu testemunho, o primeiro relato pblico dos
acontecimentos descritos na confisso de Perry Smith, mereceu a honra dos mais floreados cabealhos dos
jornais (MUDA REVELAO DO HORRVEL ASSASSNIO - FACTOS HORRIPILANTES) e chocou os
ouvintes, o mesmo sucedendo quanto a Richard Hickock, o qual passou a escutar com uma ateno que
denotava surpresa e pesar as declaraes de Dewey. Este prosseguia:
        Houve um incidente que Smith me descreveu, o qual ainda no referi. Depois de a famlia Clutter estar toda
amarrada, Hickock declarou-lhe achar a pequena Nancy Clutter muito bem feita e comunicou-lhe a sua
inteno de a violar. Smith dissera a Hickock que no consentiria em semelhante coisa. Afirmou-me que no
tolerava pessoas incapazes de controlar os seus desejos sexuais e que lutaria com Hickock, se fosse preciso,
antes de permitir que ele violasse a rapariga.
At ento Hickock ignorara que o companheiro havia revelado  polcia o seu projectado estupro; assim como
no sabia tambm que Perry, num acesso de boas intenes, alterara a sua primeira verso dos factos,
declarando-se autor da morte das quatro vtimas, facto este revelado por Dewey no fim do seu testemunho:
        Perry Smith declarou-me que desejava alterar dois pontos da confisso que nos fizera. Afirmou ser verdade
tudo o resto, com excepo destas duas coisas: o facto de ter sido ele e no 267
Hickock o autor dos assassnios de Mrs. Clutter e de Nancy Clutter. Afirmou-me tambm que no queria morrer deixando a me do Hickock convencida de que o filho matara 
qualquer dos membros da famlia Clutter. Afirmou ainda que os pais de Hickock eram boas pessoas. Por isso mais valia apresentar assim os factos.
Ao ouvir isto, Mrs. Hickock desatou a chorar. Durante todo o julgamento mantivera-se em silncio, sentada ao p do marido, sempre a torcer entre as mos um leno 
todo amarfanhado. Sempre que podia captar o olhar do filho, acenava-lhe com a cabea e tentava esboar um sorriso, embora sem convico, mas no qual exprimia toda 
a sua lealdade. Mas via-se claramente que j no podia dominar-se mais e comeou a chorar. Alguns dos espectadores olharam para ela e desviaram a vista; os outros 
pareciam alheios quele terrvel lamento que acompanhava o relatrio de Dewey; at o marido, talvez por considerar pouco digno de um homem reparar nisso, permanecia 
impassvel. Por fim, uma jornalista, a nica presente, levou Mrs. Hickock para fora do tribunal, conduzindo-a  sala das mulheres.
Uma vez dominada a crise de angstia, Mrs. Hickock mostrou necessidade de se expandir:
        No tenho ningum com quem desabafar - declarou  sua companheira. - No digo que as pessoas no sejam todas muito amveis comigo, vizinhos e tudo, at 
estranhos. Temos recebido cartas de desconhecidos dizendo que compreendem o nosso desgosto e o sentem connosco. Nunca ningum nos dirigiu uma palavra de ofensa, 
nem a mim nem ao Walter. At mesmo aqui, onde isso no seria de surpreender. Todos se mostraram o mais simpticos possvel. A criada da penso aonde vamos comer 
at nos pe creme gelado sobre a torta e no leva nada por isso. Eu digo-lhe que no vale a pena, porque no sou capaz de a comer, mas ela insiste. S por amabilidade 
para connosco.
Chama-se Sheila. Diz que ns no temos culpa nenhuma disto. Mas a mim parece-me que toda a gente olha e pensa l consigo: bem, ela em parte deve ser responsvel. 
Refiro-me  maneira como eduquei o Dick. Talvez tivesse procedido mal, mas no percebo em qu, por mais voltas que d  cabea. ramos umas pessoas simples, gente 
da aldeia, que levvamos uma vida igual  dos outros.
Por vezes tnhamos horas felizes l em casa. Fui eu que ensinei ao Dick a danar o fox-trot. Sempre adorei danar, no pensava noutra coisa quando era rapariga; 
havia nesse tempo um rapaz...
danava que era uma maravilha, meu Deus! E ganhmos uma taa de prata os dois, a danar a valsa. Durante muito tempo tnhamos o projecto de fugir e irmos danar 
para o teatro, para a 268
revista. Era o nosso sonho. Sonhos de garotos!... Mas ele foi-se embora l da terra e mais tarde casei com o Walter. Mas o Walter no era capaz de dar um passo de 
dana sequer. Dizia que se eu queria um trotador era melhor ter casado com um cavalo. Desde ento nunca mais dancei at que ensinei ao Dick. Ele nunca ficou a saber 
bem, bem, mas era um amor de rapaz. O Dick foi a criana mais bondosa que se possa imaginar.
Mrs. Hickock tirou os culos e limpou as lentes embaciadas, tornando a coloc-las no rosto redondo e agradvel.
        O Dick tem muitos aspectos melhores do que aqueles que foram revelados aqui no tribunal. S o acusam de coisas terrveis, no lhe reconhecem nenhuma coisa 
boa. Eu c no o posso desculpar por aquilo que fez, pela parte que tomou em tudo isto. No posso esquecer aquela pobre famlia.
Todas as noites rezo por eles. Mas tambm rezo pelo Dick e por esse rapaz, o Perry. Seria mal da minha parte odi-lo; s me resta lament-lo tambm. E sabe uma coisa? 
Estou certo de que Mrs.
Clutter havia de sentir o mesmo que eu, visto ser como dizem.
A audincia fora suspensa; ouviam-se os rudos dos espectadores a sarem, para l da porta dos toilettes. Mrs. Hickock declarou que ia ter com o marido:
        Ele est mesmo pronto. Acho que j nem se importa com coisa nenhuma! Muitos dos espectadores do julgamento ficaram espantados com aquele estranho vindo 
de Boston, Donald Cullivan. No conseguiam compreender como  que este circunspecto engenheiro que se formara em Harvard, jovem e catlico, casado e pai de trs 
filhos, viera propositadamente de to longe, como amigo de um tipo sem educao, um assassino que mal conhecera e no via h nove anos. O prprio Cullivan afirmara:
        A minha mulher tambm no compreende isto. A minha vinda aqui representa um grande sacrifcio. Perco uma semana de frias e o dinheiro da viagem faz-me 
muita falta para outras coisas de que necessitamos. Por outro lado, no podia de modo algum deixar de ter vindo. O advogado do Perry escreveu-me a pedir para eu 
ser sua testemunha abonatria: assim que recebi a carta, compreendi que no podia deixar de vir, pois tinha oferecido a este homem a minha amizade. E tambm porque... 
acredito na vida eterna. Todas as almas podem ser salvas por Deus.
A salvao de uma alma, sobretudo a de Perry Smith, era um empreendimento que o subxerife e a mulher, ambos profundamente catlicos, se mostravam muito dispostos 
a ajudar, embora 269
Mrs. Meier tivesse recebido um acolhimento muito desfavorvel da parte de Perry ao sugerir-lhe uma entrevista com o padre Goubeau, proco da terra. (Perry retorquira: 
"Os padres e as freiras j se divertiram comigo por uma vez. Ainda tenho cicatrizes que o podem provar.") portanto, aproveitando o intervalo do fim-de-semana, Mrs. 
Meier convidou Cullivan para almoar com o preso no domingo, na cela deste.
A oportunidade de receber o seu amigo, fazendo as honras da casa, encantou sobremaneira Perry, e a elaborao da ementa pato bravo estufado e recheado, com molho 
grosso e pur, feijo verde, salada com geleia, bolachas quentes, leite frio, torta de cereja, queijo e caf - parecia interess-lo mais do que o resultado do julgamento 
(que, pelos vistos, no considerava assunto discutvel: "Estes aldeos estpidos vo votar a condenao  forca mais depressa do que um poico engole a lavagem. Olhem 
s para os olhos deles. Diabos me levem se sou eu o nico assassino dentro daquela sala!") Durante toda a manh de domingo ocupou-se nos preparativos para receber 
o convidado. O dia estava quente, um pouco ventoso, e a sombra das folhas, as emanaes subtis que vinham da rvore, a roarem-se contra a janela da priso, atraam 
o esquilo domesticado de Perry.
O Vermelho corria atrs das sombras enquanto o dono varria e limpava o p, esfregava o cho, areava o W. C., desembaraava a mesa da papelada que a cobria. Era sobre 
ela que deviam almoar e, logo que Perry acabou de a pr, ficou com um aspecto deveras convidativo, pois Mrs. Meier emprestara-lhe uma toalha de linho, guardanapos 
engomados, a sua loua mais fina e os melhores talheres.
Cullivan mostrou-se impressionado, assobiou quando as iguarias chegaram dentro de tabuleiros que foram colocados sobre a mesa e, antes de se sentar, perguntou ao 
amigo se podia fazer a orao da bno. Este, de cabea erguida, fez estalar as articulaes, enquanto Cullivan, com a sua curvada, proferia: "Abenoai, Senhor, 
os alimentos que vamos receber em virtude da Tua misericrdia, por Cristo Nosso Senhor, Amen". Perry observou em voz baixa que a quem se devia agradecer era a Mrs. 
Meier: - Foi ela que fez tudo. - E depois, enchendo o prato do amigo: - Ora bem, gosto muito de estar contigo, Don. Acho-te precisamente na mesma. No mudaste absolutamente 
nada!
Cullivan, cuja aparncia exterior era a de um empregado de banco meticuloso, com os cabelos ralos e um rosto difcil de fixar, concordou que, externamente, pouco 
mudara. Mas o seu interior, o ser invisvel, isso era outra coisa:
        Eu andava  deriva. Conhecer a Deus  a nica realidade.
270
Uma vez que se compreenda isso, tudo o resto se resolve. A vida passa a ter significado bem como a morte, Eh p! Tu comes sempre petiscos destes ? Perry desatou 
a rir:
        Mrs. Meier  uma cozinheira de estalo. S queria que provasses o arroz  espanhola feito por ela.
Aumentei cinco quilos desde que aqui estou. Claro que eu estava esqueltico. Emagreci imenso enquanto andei com o Dick mais ou menos a monte, comendo sabe Deus o 
qu e nunca uma refeio completa. Vivamos quase como animais. O Dick passava a vida a roubar latas de conserva das mercearias. Feijes cozidos e espaguetti. Abriam-se 
no carro e comia-se tudo frio. Tal e qual como animais. O Dick gosta de roubar.  nele uma questo emocional, uma doena. Eu c tambm sou ladro, mas s quando 
no tenho dinheiro para pagar. O Dick, esse, ainda que tivesse milhares de dlares no bolso, havia de roubar nem que fosse uma pastilha de goma elstica! Mais tarde, 
quando j estavam nos cigarros e no caf, Perry voltou ao assunto do roubo:
        O meu amigo Willie-Jay costumava afirmar que todos os outros crimes no so mais do que variantes do roubo. Inclusive o assassnio. Quando se mata um homem 
rouba-se-lhe a vida.
Acho que esta teoria faz de mim um ladro de alto coturno. Porque tu bem vs, Don, fui eu que os matei a todos. L no tribunal esse tipo, o Dewey, apresentou as 
coisas como se o criminoso fosse eu s, por causa da me do Dick. Pois bem, no foi assim. O Dick ajudou-me. Ele  que segurou na lanterna elctrica e depois procurou 
as cpsulas vazias. E a ideia, alm disso, partiu dele. Mas o Dick no era capaz de dar os tiros, no tinha coragem, s sabe ser valente quando se trata de atropelar 
um co. O que eu queria saber  por que diabo fiz uma coisa destas? - Franzia os sobrolhos, como se o problema s agora lhe tivesse surgido, como se houvesse desenterrado 
uma pedra de cor surpreendente e ainda por qualificar: - No sei como aquilo sucedeu prosseguiu, como quem a levanta contra a luz, observando-a de todos os ngulos. 
- Estava furioso com o Dick. O valento! Mas no foi por causa dele. Nem pelo medo de ser identificado. Apeteceu-me arriscar no jogo. Tambm no foi em virtude de 
coisa nenhuma que tivessem feito os Clutters. Nunca me prejudicaram em nada, como esses que sempre foram malandros para mim durante a vida inteira. Talvez os Clutters 
estivessem destinados a pagar pelos outros...
Cullivan fez uma sondagem, como que a tentar medir a profundidade do arrependimento de Perry.
Este devia sentir sem dvida
271
remorsos suficientemente profundos para alcanar o perdo e a misericrdia de Deus? Perry respondeu-lhe:
        Se estou arrependido? Se  isso o que queres saber podes crer que no. No sinto nada que se relacione com isso. Desejaria sentir. Mas a verdade  que a 
coisa no me preocupa. Meia hora depois do caso passado, Dick estava a dizer piadas e eu a rir-me com elas. Talvez sejamos ambos desumanos. Mas eu sou suficientemente 
humano para sentir pena de mim prprio. Pena de no poder sair daqui para fora contigo quando te fores embora. Mais nada.
Cullivan mal podia acreditar nesta atitude to despreocupada: Perry estava confundido, enganavase, no era possvel haver algum de tal modo destitudo de conscincia 
ou de compaixo. Mas Perry objectou:
        porqu ? Os soldados matam e isso no lhes tira o sono. Assassinam e recebem medalhas por isso.
Esta boa gente do Kansas quer-me assassinar e deve haver um carrasco que ficar todo satisfeito por fazer esse servio. Matar  fcil. Fica sabendo,  muito mais 
fcil do que passar um cheque falso. Mas lembra-te: eu s conheci os Clutters durante uma hora. Se os tivesse conhecido h mais tempo aposto que sentiria de maneira 
diferente. Acho que nunca perdoaria a mim prprio. Mas, assim, era como atirar ao alvo numa barraca de feira.
Cullivan calou-se e o seu silncio perturbava Perry, que parecia interpret-lo como uma desaprovao muda:
        Caramba, Don! No me obrigues a fazer de hipcrita na tua frente. Despejar para a uma srie de frases como estas: "Estou muito arrependido! S me resta 
pr-me de joelhos e rezar!" Isso no  comigo! No posso aceitar de um dia para o outro aquilo que reneguei toda a vida. A verdade  que tu fizeste muito mais por 
mim do que aquele a quem chamas Deus nunca far! Escrevendo-me, assinando "teu amigo", quando eu no tinha amigos. A no ser o Joe James.
O Joe James, explicou ele a Cullivan, era um jovem lenhador ndio com quem vivera em tempos na floresta, perto de Bellingham, Washington.
        Fica muito longe de Garden City. Umas boas duas mil milhas. Mandei-lhe dizer a situao em que me achava e ele prometeu vir c ainda que tivesse de fazer 
a viagem a p. At hoje no apareceu e talvez nem aparea, mas eu quero crer que sim. O Joe sempre gostou de mim. E tu, Don, gostas de mim?
        Gosto, gosto de ti.
A resposta firme e suave de Cullivan agradou a Perry e animou-o. Sorriu e disse: 272
        Ento deves ser meio prulas! - e erguendo-se de chofre atravessou a cela, agarrando na vassoura:
        No sei por que hei-de morrer no meio de estranhos. De deixar que um bando de labregos esteja em volta a ver-me estrangular. Merda! Devia matar-me antes 
disso. - Ergueu a vassoura e comprimiu os plos contra a lmpada do tecto. - Bastava desaparafusar a lmpada, parti-la e cortar os pulsos. Era o que eu devia fazer. 
Enquanto tu aqui ests. Junto de algum que se interessa um pouco por mim.
A audincia recomeou na segunda-feira s dez da manh. Noventa minutos mais tarde encerravase de novo, porque a defesa terminara nesse breve espao de tempo. Os 
rus recusaram testemunhar a seu prprio favor e portanto no se ps a questo de ter sido Smith ou Hickock o assassino da famlia Clutter.
Das cinco testemunhas convocadas, a primeira foi Mr. Hickock. De olhos cavados, embora falando com uma Clareza digna e amarga, s conseguiu depor no sentido de se 
poder alegar a favor do filho um estado de loucura ocasional. O seu rapaz, afirmou ele, sofrera ferimentos na cabea num acidente de automvel, em Julho de 1950. 
Antes, desse desastre, Dick fora sempre um rapaz "folgazo", dera boa conta de si nos estudos, era estimado pelos colegas e respeitava os pais. "No causava preocupaes 
a ningum."
Harrison Smith, conduzindo habilmente o depoimento da testemunha, inquiriu:
        Pergunto se depois de Julho de 1950 o senhor observou qualquer mudana na personalidade, hbitos e reaces do seu filho Richard?
        Nunca mais voltou a ser o mesmo rapaz.
A ltima afirmao foi prontamente posta em dvida por Logan Green, que encetou o contrainterrogatrio:
        Mr. Hickock, o senhor disse que s teve sarilhos com o seu filho a partir de 1950?
        ... Acho que foi preso em 1949.
Um sorriso sibilino curvou os lbios de Green:
        Recorda-se de qual foi o motivo da priso?
        Acusaram-no de ter arrombado um drugstore.
        Acusaram-no? Ento,ele no confessou ter arrombado o estabelecimento?
        Confessou, sim, senhor.
        Isso foi em 1949. E no entanto o senhor acaba de nos dizer que ele mudou de atitude a partir de 1950. Quer dizer com isso que passou a ser um bom rapaz? 
273
Tossidelas fundas, agitavam o velho; cuspiu no leno:
        No - respondeu observando o escarro. - No  isso que eu quero dizer.
Ento qual foi a mudana que se verificou?
        Bem, isso seria muito difcil de explicar. No procedia como dantes.
        Quer o senhor dizer que perdera as tendncias criminosas? Esta sada do advogado provocou fungadelas na assistncia,
um tumulto que o duro olhar do juiz Tate prontamente extinguiu. Mr. Hickock foi mandado sentar e substitudo no estrado pelo doutor W. Mitchell Jones.
O doutor Jones identificou-se como sendo "mdico especializado no campo da psiquiatria" e, em abono das suas capacidades, afirmou ter visto mil e quinhentos doentes 
desde o ano de 1956, quando entrara como psiquiatra interno no Hospital do Estado de Topeka, no Kansas. Durante dois anos fizera parte do corpo clnico do Hospital 
do Estado de Larned, onde tinha a seu cargo o pavilho Dilloi, a seco reservada aos loucos criminosos.
Harrison Smith perguntou  testemunha:
        De quantos casos de assassnio se ocupou at hoje, mais ou menos?
        Cerca de vinte e cinco.
        Doutor, gostaria de lhe perguntar se conhece o meu constituinte, Richard Eugene Hickock?
        Conheo, sim, senhor,
        Teve ocasio de o examinar do ponto de vista psiquitrico?
        Sim, fiz um exame psiquitrico a Mr. Hickock.
        Baseado nesse exame poder dizer-nos se sim ou no Richard Eugene Hickock distinguia o bem do mal no momento de cometer os crimes?
A testemunha, um homenzarro de vinte e oito anos, com uma cara de Lua Cheia, mas de expresso inteligente, subtil e delicada, tomou uma funda inspirao, como que 
a preparar-se para uma resposta prolongada; porm o juiz avisou-o logo:
        Deve responder sim ou no  pergunta, doutor. Limite a sua resposta a um sim ou a um no.
        Muito bem.
        E qual  a sua opinio?
        Acho que, dentro dos conceitos habituais, Hickock sabia distinguir o bem do mal.
Assim entaipado pela lei M'Naghten ("as definies habituais"), frmula esta em que eram quase nulas as gradaes entre o branco e o preto, o doutor Jones no podia 
responder de outra 274
maneira. Mas claro que esta resposta era uma derrota para o advogado de Hickock, que insistiu, desesperado:
        Pode fazer o favor de esclarecer essa resposta?
Era um beco sem sada, pois muito embora o doutor Jones estivesse disposto a colaborar, a acusao tinha o direito de levantar objeces, e f-lo, citando o facto 
de que a lei do Kansas no permitia mais do que um sim ou um no a perguntas directas. A objeco foi atendida e despediram a testemunha. No entanto, se acaso o 
doutor Jones tivesse podido prestar mais esclarecimentos, aqui est o que ele teria dito: "Richard Hickock classifica-se acima da mdia em inteligncia, apreende 
novas ideias e possui largos conhecimentos. Est atento a tudo o que se passa  sua volta e no d indcios de confuso mental nem de desorientao. O seu pensamento 
est bem organizado,  lgico e parece tomar bom contacto com as realidades. Muito embora eu no encontre nele os vulgares indcios de leses cerebrais orgnicas 
- perda de memria, perturbaes na formao dos conceitos concretos, deformaes intelectuais - nada disto pode de modo algum ser posto fora de causa. Ele sofreu 
uma leso grave traumtica na cabea, ficando algumas horas em estado de coma, no ano de 1950. Isto verifiquei eu nos relatrios do hospital. Ele afirma sofrer de 
ataques de amnsia e de dores de cabea de tempos a tempos, e grande parte do seu procedimento anti-social surge a partir dessa poca. Nunca foi sujeito aos exames 
mdicos que definitivamente provariam ou negariam a existncia de qualquer resduo dos ferimentos. Esto indicados exames mdicos definitivos antes de se emitir 
um juzo completo... Hickock d mostras de anormalidade emocional. Que soubesse o que estava a fazer e teimasse em o levar a cabo  a prova mais cabal deste facto. 
Trata-se de uma pessoa impulsiva na aco, capaz de fazer coisas sem pensar nas consequncias ou nos futuros contratempos que elas lhe podero acarretar para si 
ou para os outros. No parece capaz de aprender pela experincia e apresenta perodos intermitentes de actividade produtiva, seguidos de aces nitidamente irresponsveis. 
No pode suportar como qualquer pessoa normal um sentimento de frustrao e  quase incapaz de se libertar desses sentimentos, a no ser por meio de actos anti-sociais... 
O respeito que nutre por si prprio  muito reduzido e sente-se secretamente inferior aos outros e sexualmente insatisfeito. Estes sentimentos parecem ser superados 
por meio de sonhos de riqueza e importncia, merc de uma tendncia para alardear as suas proezas, para esbanjar sempre o dinheiro que possui, no se satisfazendo 
com o aumento vagaroso que  de esperar nos empregos que arranja... tem dificuldades nas suas relaes 275
com os outros e possui uma incapacidade patolgica para arranjar e manter relaes pessoais. Muito embora
professe em teoria o cdigo da moral comum, no parece ser influenciado por ele nas suas aces. Numa
palavra, d claros indcios daquilo que se chama em psiquiatria uma profunda desordem de carcter. 
importante tomar as medidas necessrias para averiguar se existem leses cerebrais orgnicas, pois, no caso
afirmativo, poderiam estas ter tido influncia no procedimento do acusado durante os ltimos anos e tambm
na altura do crime."
 parte um apelo formal feito ao jri, que s teria lugar no dia seguinte, o testemunho do psiquiatra ps termo
 defesa de Hickock. A seguir, era a vez de Arthur Fleming, o advogado de Smith. Este apresentou quatro
testemunhas: o reverendo James E. Post, capelo protestante da penitenciria de Kansas City; o amigo ndio de
Perry, Joe James, que acabara por chegar de autocarro nessa mesma manh, depois de uma viagem que durara
dois dias e duas noites, desde os confins do longnquo Nordeste; Donald Cullivan; e, uma vez mais, o doutor
Jones. Com excepo deste ltimo, os outros eram apresentados como "testemunhas abonatrias" - que ali
vinham com o fim de declarar que o acusado era possuidor de algumas virtudes humanas. No foram l muito
bem sucedidos, embora todos tentassem fazer certas afirmaes mal alinhavadas, at que a acusao as fez
calar e as ps de parte, classificando-as de "incompetentes, descabidas e despropositadas".
Por exemplo, Joe James, com os seus cabelos negros, de pele ainda mais escura do que a de Smith, muito
magro, de camisa de caa toda desbotada e ps calados de mocassinas, parecia ter sado naquele momento
dalguma floresta. Limitou-se a dizer ao tribunal que o acusado vivera em sua casa durante mais de dois anos.
"Perry era um bom rapaz, estimado por toda a vizinhana, nunca fez nada de repreensvel, que eu saiba." O
procurador no o deixou ir mais alm; outro tanto se deu com Cullivan, depois de este ter afirmado: "Enquanto
foi meu companheiro na tropa, o Perry mostrou sempre ser um tipo estimvel." O reverendo Post conseguiu alongar-se um pouco mais, pois no fez a mais pequena tentativa 
para elogiar o preso, antes descreveu de maneira caridosa o contacto que tivera com ele em Lansing.
        Vi pela primeira vez o Perry Smith quando ele veio ao meu gabinete, na capela da priso, mostrar um
desenho que fizera: um busto de Jesus Cristo pintado a pastel. Ofereceu-mo para o colocar na capela. Desde
ento encontra-se pendurado na parede do meu gabinete.
276
Fleming inquiriu:
        Tem consigo alguma fotografia desse desenho?
O ministro trazia um envelope cheio delas. Mas quando ia abri-lo, evidentemente para proceder a uma distribuio, Logan Green saltou de l:
        Senhor doutor juiz! Isto passa das marcas!
O juiz achou realmente que passava das marcas e o caso ficou por ali.
O doutor Jones foi de novo chamado a depor e depois dos preliminares que haviam precedido a sua primeira actuao, Fleming fez-lhe a pergunta crucial:
        Depois de conversar com Perry Smith e de o examinar, sabe-nos dizer se ele seria capaz de distinguir o bem do mal no momento do crime de que  acusado? 
O senhor doutor tem alguma opinio a esse respeito?
        No, senhor!
No meio de murmrios de surpresa, Fleming, tambm surpreendido, retorquiu:
        Peo o favor de nos explicar por que motivo no tem qualquer opinio a tal respeito? . Green objectou:
        O homem no tem opinio e est tudo explicado. Legalmente, era assim mesmo.
Se, porm, o doutor Jones tivesse podido explicar a causa da sua indeciso, teria dito o seguinte: "Perry Smith d mostras evidentes de profunda doena mental. A 
sua infncia, de que ele fez o relato cuja exactido verifiquei por meio de relatrios prisionais, foi caracterizada pela brutalidade e pela falta de interesse dos 
pais, tanto de um como de outro. Pelos vistos, cresceu sem qualquer orientao e sem ter absorvido qualquer noo dos valores morais...  atilado, presta uma extraordinria 
ateno a tudo o que se passa  sua volta e no d indcios de confuso mental.
Possui uma inteligncia acima do vulgar e adquiriu um certo nmero de conhecimentos que surpreendem, tendo em vista a sua pouca instruo... H duas facetas da sua 
personalidade que se nos apresentam como particularmente patolgicas. A primeira  a sua viso "paranica" do mundo.
Desconfia e suspeita de toda a gente, julga-se prejudicado pelos outros, pensa que so injustos para com ele e que o no compreendem. E apercebe-se imediatamente 
se lhe falarem com pouca considerao ou lhe dirigirem algum insulto e muitas vezes acontece interpretar mal atitudes bemintencionadas.
Sente grande necessidade de amizade e compreenso, mas tem relutncia em se confiar aos outros, e quando o faz est sempre  espera 277
de ser mal compreendido ou at atraioado. A sua capacidade para avaliar as intenes e os sentimentos dos outros e para distinguir as situaes reais daquelas criadas 
pela sua imaginao  bastante fraca. Muitas vezes julga os outros em globo, considerando-os hipcritas, hostis e merecedores de tudo aquilo que ele se sente capaz 
de lhes fazer. Relacionado com este aspecto da sua personalidade, existe um outro: uma raiva latente e mal controlada, que facilmente se desencadeia em virtude de 
qualquer sentimento de desconsiderao ou de inferioridade perante os outros. Na maioria das vezes, as suas frias no passado tm sido dirigidas contra qualquer 
representante da autoridade: pai, irmo mais velho, sargento do exrcito, oficial da justia e isto por vrias vezes o levou a atitudes violentas e agressivas. Tanto 
ele como os que lhe esto prximos tm tido conhecimento dessas frias, que, segundo afirma, "sobem por ele acima", e do fraco domnio que revela para as controlar. 
Quando por acaso se voltam contra ele mesmo, essas frias assumem a forma de intenes suicidas. Esta extraordinria fora da raiva, esta falta de capacidade para 
a dominar ou canalizar, reflecte uma fraqueza primria da estrutura da personalidade.
"... A acrescentar a estas caractersticas, o sujeito apresenta certas perturbaes no processo de raciocnio. Possui pouca capacidade para organizar o pensamento, 
afigura-se-nos incapaz de o explicar ou esquematizar, envolve-se e por vezes perde-se em pormenores, e grande parte das suas cogitaes reflectem um carcter "mgico", 
um certo desprezo pela realidade... Poucas relaes emocionais tem mantido com outras pessoas e essas poucas no souberam resistir a pequenas crises. Interessa-se 
muito pouco pelos outros para alm de um crculo de amigos muito reduzido e no atribui grande valor  vida humana. Este desprendimento emocional, este vazio em 
certas reas, constitui outra prova da sua anormalidade mental. Seria necessrio um exame mais aprofundado para elaborar um diagnstico psiquitrico mais exacto, 
porm a sua actual estrutura da personalidade est muito perto das reaces de um esquizofrnico e paranico."  muito significativo o facto de que um veterano altamente 
respeitado no campo de psiquiatria forense, o doutor Joseph Satten, da Clnica Menninger, de Topeka, Kansas, tenha conferenciado com o doutor Jones e apoiado inteiramente 
a sua opinio acerca de Hickock e Smith. O doutor Satten, que depois prestou ao caso a sua melhor ateno, afirma que, muito embora o crime tenha sido cometido apenas 
em virtude de um certo despique entre os dois criminosos, este foi essencialmente obra de Perry
278
Smith, o qual, na sua opinio, representa um tipo de assassino descrito por ele num artigo intitulado "Crime sem motivo aparente. - Um estudo da desorganizao da 
personalidade." Este artigo, publicado na revista The American Journal of Psychiatry (Julho de 1960) e escrito de colaborao com outros colegas, Karl Menninger, 
Irving Rosen e Martin Mayman, define o seu objectivo no seguinte pargrafo: "Ao, tentar atribuir responsabilidade criminosa aos assassinos, a lei tenta dividi-los 
(bem como a todos os malfeitores) em dois grupos: os "lcidos" e os "loucos".
Cr-se que o assassino "lcido" procede de acordo com motivos racionais que podem ser compreendidos, muito embora condenados, e que o "louco"  apenas movido por 
causas irracionais e sem sentido. Quando os motivos racionais so evidentes (por exemplo, quando um homem mata para alcanar um lucro pessoal) ou quando os motivos 
irracionais so acompanhados de iluses ou alucinaes (por exemplo, um doente paranico mata o seu perseguidor imaginrio), a situao poucos problemas oferece 
ao psiquiatra. Porm os crimes que se nos afiguram racionais, coerentes e controlados, e no entanto em que o acto homicida possui como caracterstica a falta de 
mbil aparente, esses levantam um problema difcil quando o tribunal no concorda e apresenta opinies diferentes.  nossa convico que a psicopatologia de tais 
crimes constitui pelo menos um sndroma especfico que passaremos a descrever. De um modo geral, estes indivduos esto predispostos a importantes lapsos do seu 
ego-controlo, os quais permitem a expanso plena da primitiva violncia, nascida de experincias traumticas prvias e j esquecidas." Os autores, como parte de 
um processo de apelao, tinham examinado quatro homens condenados por assassnio aparentemente sem motivo. Todos eles haviam sido examinados antes do julgamento 
e considerados "sem psicoses" e "lcidos". Trs deles haviam sido condenados  morte e o quarto a uma longa pena de priso. Em cada um destes casos fora requerida 
uma observao psiquitrica mais minuciosa, porque algum - advogado, parente ou amigo - se considerava insatisfeito com as explicaes psiquitricas previamente 
dadas e, com efeito, perguntava: "Como pode algum, aparentemente so de esprito como este homem, cometer um acto to estpido como aquele por que foi condenado?" 
Depois de descreverem os quatro criminosos e os seus crimes (um soldado negro que mutilara e desmembrara uma prostituta, um lavrador que estrangulara um rapazinho 
de catorze anos quando este recusara as suas propostas sexuais, um cabo do exrcito que matara  martelada outro rapaz por imaginar que este
279
estava a fazer troa dele e uma criada de hospital que afogara uma criana de nove anos mantendolhe
a cabea debaixo de gua), os autores mostravam as semelhanas existentes em todos eles. Os prprios criminosos se declaravam ignorantes acerca do motivo por que 
haviam assassinado as suas vtimas, que eram para eles quase desconhecidas, e em todos os casos o criminoso parecia ter cado num estado de transe, um meio sonho 
dissociativo do qual acordou para, de repente, dar consigo a assassinar a vtima. "O facto mais comum e talvez mais significativo era a existncia de um longo perodo, 
por vezes uma vida inteira, durante o qual o criminoso dominara, mas de forma intermitente, os seus impulsos agressivos. Por exemplo, trs deles haviam passado a 
vida envolvidos em lutas que transcendiam a simples altercao, as quais teriam ido at ao ponto do homicdio se no fosse a interveno de terceiros." Aqui esto, 
em resumo, muitas outras observaes contidas neste estudo: "A despeito da violncia que caracteriza as suas vidas, todos estes homens se consideravam a si prprios 
fisicamente inferiores, fracos e desadaptados. As suas histrias revelam que cada um deles sofria em alto grau de inibio sexual. Para todos eles, as mulheres adultas 
eram criaturas assustadoras e em dois casos verificava-se uma ntida perverso sexual. Tambm todos eles haviam sido tidos durante os primeiros anos da adolescncia 
como "mariquinhas", pequenos de mais ou enfezados... Nos quatro casos existiam provas histricas de estados de alterao de conscincia, frequentemente relacionados 
com acessos de violncia. Dois dos homens haviam cado em graves estados de transe durante os quais revelavam um procedimento estranho e cruel, ao passo que os outros 
dois haviam sofrido certos estados menos graves de amnsia. Em certos momentos particularmente violentos sentiam-se como que isolados, separados de si prprios, 
como se estivessem a observar coisas passadas com outra pessoa... Verificava-se tambm nos antecedentes de todos eles a existncia de uma infncia extremamente dura, 
por culpa dos pais... Um declarava que "era chicoteado por tudo e por nada"... Outro apanhava tareias medonhas para lhe acabar com a gaguez e com "as birras", bem 
como para o curar daquilo a que chamavam o seu "mau comportamento". Os antecedentes relacionados com extrema violncia, quer imaginria, quer observada e realmente 
experimentada pela criana, condizem com a hiptese psicanaltica de que uma criana sujeita a estmulos demasiado violentos, numa idade em que os no pode ainda 
dominar, fica intimamente ligada a defeitos na sua formao interior e, mais tarde, a graves perturbaes no controlo dos seus impulsos. Em
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todos os casos se verificavam provas de grandes privaes na primeira infncia. Estas privaes poderiam concretizar-se por uma ausncia frequente ou prolongada 
dos pais, uma vida familiar confusa em que eles no conheciam os pais, ou um abandono total de um ou de ambos os progenitores, durante o qual a criana era criada 
por estranhos... Verificava-se uma perturbao na organizao afectiva. Na maioria dos casos, o sujeito manifestava tendncia para no sentir clera ou raiva associada 
ao acto de violncia. Nenhum confessa ter sentido rancor no momento de cometer o crime nem qualquer espcie de raiva de natureza violenta ou duradoira, muito embora 
qualquer deles fosse capaz de cometer uma agresso tremenda e brutal... As suas relaes com o semelhante eram de natureza fria e superficial, que conferia a esses 
homens uma caracterstica de isolamento e solido. Os outros, para eles, quase no tinham realidade, no sentido de lhes despertar sensaes de amizade (ou at de 
averso)... Os trs homens condenados  morte experimentavam sentimentos pouco profundos em relao ao seu prprio destino e ao das suas vtimas. Sensao de culpa, 
estados depressivos e de remorso eram coisas para eles desconhecidas... Tais indivduos podem ser considerados assassinos em potncia, quer no sentido de trazerem 
em si uma sobrecarga de energia agressiva, quer por possurem um sistema instvel de autodefesa que permite de tempos a tempos o surto dessa energia. O potencial 
assassino pode entrar em aco, especialmente se se verifica j qualquer desequilbrio, quando a futura vtima surge inconscientemente como figurachave de qualquer 
alucinao ps-traumtica. O comportamento ou mesmo a simples presena desta figura causam um desgaste a este instvel equilbrio de foras, o qual se traduz por 
uma sbita descarga de violncia, semelhante  exploso que se verifica quando um detonador faz deflagrar uma carga de dinamite... A hiptese do motivo inconsciente 
explica a razo por que o assassino considera as vtimas inofensivas e na maioria dos casos quase desconhecidas como provocadoras e portanto alvos merecedores de 
uma agresso. Mas porqu assassinar? A maioria das pessoas, felizmente, no responde com violncia assassina mesmo s provocaes mais evidentes. Os casos que descrevemos, 
por outro lado, apresentavam importantes lapsos no contacto com a realidade e uma fraqueza extrema no impulso de controlo durante perodos de tenso intensa e desorganizao. 
Em tais ocasies, um conhecido de momento ou at um estranho podiam facilmente perder o seu significado "real" e assumir uma identidade na iluso traumtica inconsciente. 
O "antigo" conflito era reactivado e a agresso assumia rapidamente propores de crime...
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Quando surgem estes crimes sem sentido, verifica-se constiturem o resultado final de um perodo de tenso crescente e de desorganizao mental da parte do criminoso, 
perodo este que comea antes do contacto com a vtima, a qual, adaptando-se aos conflitos inconscientes do assassino, serve involuntariamente para pr em movimento 
o seu potencial homicida." Em virtude dos mltiplos pontos de contacto existentes entre Perry Smith e os objectos deste estudo, o doutor Satten sentiu-se em condies 
de o classificar junto deles. Alm disso, as circunstncias do crime afiguravam-se-lhe capazes de se adaptarem com exactido ao conceito de "crime sem motivo aparente". 
No h dvida de que trs dos crimes cometidos por Smith possuam um motivo lgico: Nancy, Kenyon e a me tinham de ser mortos pelo facto de Mr. Clutter ter sido 
morto j. Mas  opinio do doutor Satten que s o primeiro crime conta psicologicamente e que, quando Smith atacou Mr. Clutter, se encontrava sob um eclipse mental, 
mergulhado numa escurido esquizofrnica, pois no se tratava apenas de um homem de carne e osso que ele "se encontrava subitamente a destruir", mas sim "da figura 
chave de uma iluso ps-traumtica": o pai? As freiras do orfanato que escarneciam dele e lhe batiam? O odiado sargento do exrcito? O oficial da justia que lhe 
ordenou: "no voltes ao Kansas"? Nenhum destes, ou todos eles.
Na sua confisso, Smith afirmava: "Eu no queria fazer mal ao homem. Achava-o um sujeito at muito simptico. Delicado. No tinha mudado de opinio no momento de 
lhe cortar o pescoo." Ao mesmo tempo, falando com Donald Cullivan, Smith confessara: "Eles (os Clutters) nunca me tinham feito mal nenhum. O que no aconteceu com 
os outros durante toda a vida. Talvez fosse por isso que eles tiveram de pagar."
E assim se verifica que, muito embora por caminhos diferentes, tanto o psicanalista profissional como o amador chegaram a concluses de certo modo semelhantes.
A aristocracia de Finney County tinha-se mostrado desinteressada do julgamento.
        No  bonito - declarara a esposa de um abastado rancheiro - mostrar-se curiosidade acerca de uma coisa destas.
No entanto, a ltima sesso levara um razovel nmero de membros da Igreja Oficial a sentar-se junto dos vulgares cidados. A sua presena constitua um gesto corts 
para com o juiz Tate e para com Logan Green, seus dignos pares. Tambm um largo contingente de advogados de fora, muitos dos quais de
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longe, ocupavam vrios bancos; estavam ali sobretudo para ouvirem o ltimo discurso de Logan Green dirigido ao jri, Green, um septuagenrio delicadamente duro, 
desfrutava de elevada considerao entre os colegas, que admiravam a sua arte de representar, as suas qualidades de actor, que inclua um sentido de oportunidade 
to agudo como o de qualquer actriz de clube nocturno. Na sua qualidade de advogado especialista no crime, o seu papel habitual  de defensor, porm neste caso o 
Ministrio Pblico nomeara-o como ajudante especial de Duane West, pois o jovem procurador era ainda demasiado inexperiente para levar a questo a cabo sem ajuda.
Assim como sucede com a maioria das estrelas, a actuao de Green ficara para o fim do programa.
Precederam a sua entrada em cena as calmas e ponderadas instrues do juiz Tate dirigidas ao jri, bem como a exortao do procurador do condado:
        Poder subsistir na vossa mente uma nica dvida quanto  culpabilidade dos rus? No! Sem nos importar saber qual dos dois puxou o gatilho da carabina 
de Richard Eugene Hickock, temos de os considerar a ambos igualmente culpados. S existe um meio de nos certificarmos de que estes homens nunca mais infestaro as 
cidades e as aldeias deste pas. Exigimos para eles a pena mxima, a pena de morte. Este pedido no  feito com esprito de vingana, mas antes em toda a humildade...
Tinham de ser ouvidos em seguida os discursos dos advogados de defesa. O de Fleming, qualificado por um jornalista como "chalado", parecia um sermo de igreja:
        O homem no  um animal. Possui um corpo e possui uma alma que vive eternamente. No creio que ningum tenha o direito de destruir essa habitao, esse 
templo da alma...
Harrison Smith, muito embora dirigisse tambm um apelo ao esprito cristo dos jurados, escolheu como tema principal os inconvenientes da pena maior:
        Ela constitui um resto de barbarismo. A lei diz-nos que  crime tirar a vida a outrem e em seguida faz o contrrio, d-nos o mau exemplo! Isto  quase to 
perverso como o crime que pretende castigar. O Estado no tem o direito de proceder assim. No resulta. No evita o crime, limita-se a fazer pouco da vida humana 
e a dar lugar a novos crimes. S pedimos piedade. Certamente que a priso perptua no constitui um pedido exagerado...
Nem todos lhe prestavam ateno; um dos jurados, como se estivesse contagiado pelos numerosos bocejos doentios que pairavam no ar, mantinha-se de olhos mortios 
e com a boca muito aberta.
Green encarregou-se de o acordar:
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        Meus senhores - comeou ele, falando sem nfase. - Acabmos de ouvir duas enrgicas defesas pedindo
misericrdia para os acusados. Acho que foi, quanto a mim, uma felicidade, que estes dois ilustres causdicos,
o doutor Fleming e o doutor Smith, se no encontrassem em casa dos Clutters, naquela noite fatdica. Foi uma
felicidade que eles l no tivessem estado a pedir misericrdia para aquela malfadada famlia. Porque, nesse
caso, se eles l estivessem... bem, na manh seguinte, no encontraramos apenas quatro cadveres.
Em pequeno, l no Kentucky, que era a sua terra natal, Green tinha a alcunha do "Coradinho", em virtude da
sua cor de sardento: neste momento, enquanto se aprumava em frente do jri, o esforo afogueava-lhe a cara e
cobria-lha de manchas escarlates.
        No  minha inteno encetar aqui um debate teolgico. Mas estou a ver que a ilustre defesa tenciona
invocar a Bblia Sagrada como argumento contra a pena de morte. J todos ouviram cit-la. Mas eu tambm
sei ler! - Abriu ento um exemplar do Velho Testamento: - Aqui esto algumas frases que o livro de Deus
contm sobre o assunto. No xodus Vinte, Versculo Treze, encontramos um dos Dez Mandamentos: "No
matars".
Isto refere-se  morte ilegal. Sem dvida, porque no captulo seguinte, Versculo Doze, quando se trata do
castigo pela desobedincia aos Dez Mandamentos, lemos: "Aquele que atacar outro de modo a que ele morra
deve morrer tambm." Ora, Mr. Fleming, o senhor pode objectar que tudo isto mudou com a vinda de Cristo?
Mas no  assim. Porque Cristo diz: "No julgueis que eu vim para destruir a lei nem os profetas: eu no vim
para destruir; mas sim para edificar" e, finalmente... - Green procurou apressadamente e depois deu a
impresso de que fechava o livro sem querer. Nesta altura os homens de leis vindos de fora sorriram e tocaram
com os cotovelos uns nos outros, pois este era um velho truque de oratria: o advogado, ao ler as Escrituras,
finge que se perdeu e depois prossegue, como fez Green neste momento: - No interessa. Creio ser capaz de
repetir de cor. No Gneses, Nove, Versculo Seis: "Quem derramar sangue humano, ver o seu sangue
derramado pela mo do homem."
"Mas - prosseguiu Green - no acho que exista vantagem em discutir a Bblia. O nosso Estado ordena que o
castigo por assassnio em primeiro grau seja a priso perptua ou a morte por enforcamento. Esta  a lei. E
vs, meus senhores, estais aqui para a fazer cumprir. E se h circunstncia em que se justifique a pena
mxima, eis-nos em face de uma delas. Estes crimes foram estranhos e cruis. Quatro dos nossos concidados
morreram
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como animais num curral. E por que motivo? No por vingana nem por dio. Mas sim por dinheiro. Dinheiro. O clculo feito friamente: tantos gramas de prata por tantos 
gramas de sangue.
E que baixo foi o preo dessas vidas! O esplio valia apenas quarenta dlares! - Voltou-se, apontando com o indicador, que se movia para a frente e para trs, na 
direco de Hickock e de Smith: - Iam armados com uma carabina e com um punhal. Iam com a inteno de roubar e matar...
        A voz dele tremeu, subiu de tom, sumiu-se, como que, estrangulado pelo desprezo que sentia perante aqueles rus indiferentes, que no paravam de mascar 
goma elstica. Voltando-se de novo para o jri, inquiriu com voz rouca: - Que vo os senhores fazer agora? Que destino vo dar a estes homens que ligaram outro homem 
de ps e mos para lhe cortarem o pescoo e lhe estoirarem os miolos? Vo-lhes dar a pena mnima? Sim, e isto  apenas um dos crimes. Que diremos de Kenyon Clutter, 
um jovem com a vida toda  sua frente, reduzido  impotncia, a assistir  luta de morte que travava o pai? Ou a Nancy Clutter, ouvindo os tiros e sabendo que a 
sua vez era a seguir! Nancy, que suplicou: "No! No! No! Por favor!" Que agonia! Que tortura indescritvel! E resta ainda a me, a qual, tambm amarrada e amordaada, 
teve de ouvir o estertor do marido e dos filhos estremecidos, um por um assassinados. At que por fim os algozes, esses rus que a esto na vossa frente, entraram 
no quarto dela, apontaram-lhe uma lanterna elctrica para os olhos e, com um derradeiro tiro, acabaram com a vida de uma famlia inteira.
Fazendo uma pausa, Green apalpou uma bolha infectada que tinha atrs, no pescoo, j madura, e que, tal como o fogoso procurador, parecia prestes a rebentar:
        Ento, meus senhores? Que ides fazer? Aplicar-lhe a pena mnima? Mand-los para a penitenciria, arriscando-vos a que venham de novo c para fora, soltos 
sob fiana? Da prxima vez a famlia assassinada pode muito bem ser a vossa. Atentem bem no que vos digo! - declarou solenemente, fitando o friso inteiro, de modo 
a parecer que fixava e lanava um desafio a cada um de per si. - Alguns dos nossos maiores crimes s foram cometidos porque um grupo de jurados de corao sensvel 
no foi capaz de cumprir o seu dever. Agora, meus senhores, deixo o caso s vossas conscincias.
Sentou-se. West segredou-lhe:
        Magistral, Doutor!
Porm alguns dos ouvintes no se mostravam to entusiastas; e, depois de o jri se haver retirado para discutir o veredicto, um deles, jovem reprter de Oklahoma, 
trocou uma srie de palavras 285
azedas com Richard Parr, do Star, de Kansas City. No entender do primeiro, o discurso de Green havia sido "demaggico, brutal".
        S disse a verdade - observou Parr. - E a verdade s vezes  dura, passe o lugar-comum.
        Mas no tinha necessidade de insistir nquele ponto. No foi justo.
        O que  que no foi justo?
        Todo o julgamento. Os tipos no tinham escapatria nenhuma.
        Tinham tanta como aquela que deram a Nancy Clutter.
        O Perry Smith, meu Deus! Que vida levada do diabo teve o pobre tipo! Parr observou:
        H mais quem tenha sofrido neste mundo como o Perry Smith. Eu, por exemplo. Posso beber de mais s vezes, isso sim. Mas nunca me deu para matar quatro pessoas 
a sangue frio.
        Sim, e o enforcamento do tipo? Tambm vai ser feito a sangue frio, no  verdade? O reverendo Post, que escutara a conversa, juntou-se a ambos, dizendo, 
enquanto lhes mostrava uma reproduo do retrato de Jesus feita por Perry Smith:
        Bem, a pessoa que pintou este retrato no pode ser cem por cento m. A pena capital est fora de questo: no deixa ao pecador o tempo suficiente para fazer 
as pazes com Deus. Chegamos por vezes a desesperar! - E mostrava um rosto jovial, com uns poucos de dentes obturados a ouro, e a abanar um topete de cabelos brancos 
de neve, enquanto repetia: - Uma pessoa chega a desesperar. Por vezes penso que quem estava na razo era o velho Doe Savage. (O Doe Savage a quem ele se referia 
era um heri popular da fico entre os jovens leitores de livros de cordel da gerao anterior.) - No sei se vocs se recordam, o Doe Savage era uma espcie de 
super-homem. Tornou-se perito em todos os campos da arte e da cincia; medicina, filosofia, etc. No havia nada que o sujeito no soubesse ou no fosse capaz de 
fazer. Um dos seus projectos era libertar o mundo de criminosos. Primeiro comprara uma ilha no meio do oceano.
Depois, ele e os seus assistentes - tinha um exrcito de auxiliares competentes - raptavam todos os criminosos do mundo e levavam-nos para a ilha. A, o Doe Savage 
operava-os ao crebro. Tiravalhes a parte onde se localizavam as ideias criminosas. E, depois, ficavam todos transformados em cidados pacficos. J no podiam cometer 
crimes porque lhes faltava aquela parte do crebro.
Neste momento afigura-se-me que a cirurgia, neste captulo, seria a soluo ideal para...
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Ouviu-se uma campainha a anunciar o regresso dos jurados, o que veio interromper a conversa. As deliberaes haviam demorado quarenta minutos. Muitos espectadores, 
calculando que a deciso seria rpida, no haviam abandonado a sala. No entanto, foi preciso ir buscar o juiz Tate  quinta onde tinha ido para dar de comer aos 
cavalos. Quando por fim chegou, trazia a toga negra ainda mal enfiada, mas foi, no entanto, com uma calma e uma dignidade impressionantes que inquiriu:
        Senhores jurados, haveis chegado a um acordo ? O presidente dos jurados replicou:
        Sim, senhor doutor juiz!
Ento o contnuo do tribunal levou os veredictos selados para a mesa do juiz.
O som dos apitos de comboios e da fanfarra do Expresso de Santa F, que se aproximava, chegavam at  sala do tribunal. A voz grossa de Tate intercalava-se com os 
silvos da locomotiva enquanto ia lendo:
        Primeiro caso: O jri considera o ru Richard Eugene Hickock culpado de assassnio em primeiro grau e o seu castigo deve ser a morte. - Nesta altura, como 
se tivesse curiosidade de ver a reaco deles, ergueu os olhos para os presos que se viam na sua frente, algemados aos polcias; os acusados sustentaram-lhe o olhar, 
ambos impassveis, at que ele voltou  leitura dos sete pontos que se seguiam: mais trs condenaes para Hickock e quatro para Smith.
"... e o seu castigo deve ser a morte". De cada vez que pronunciava a sentena, o juiz Tate fazia-o com uma voz cava e soturna que parecia condizer com o eco do 
fnebre e j longnquo apelo do comboio. Depois agradeceu e despediu o jri (dizendo-lhe que "tinham cumprido corajosamente o seu dever".) Os condenados foram levados 
da sala para fora.  porta, Smith disse para Hickock:
        Os jurados no se deixaram comover, hem?!
Soltaram ambos uma gargalhada e houve um reprter que lhes registou a expresso. A fotografia apareceu por cima de um cabealho intitulado: "A ltima Gargalhada?" 
Dali a uma semana, Mrs. Meier encontrava-se na sua sala, conversando com uma amiga. Dizia:
        Sim, isto por aqui sossegou. Acho que nos devemos todos regozijar com isso. Mas eu, por mim, ainda no me sinto bem de todo. Nunca tive grandes contactos 
com o Hickock, mas fiquei a conhecer melhor o Perry Smith. Na tarde em que leram a sentena, 287
quando o trouxeram para aqui, fechei-me na cozinha para o no ver. Sentei-me  janela a observar a multido
que saa do tribunal. Mr. Cullivan avistou-me e disse-me adeus com a mo. Os Hickocks tambm. Ia-se tudo
embora. Ainda esta manh recebi uma carta muito bonita de Mrs. Hickock. Veio visitar-me vrias vezes
enquanto durou a audincia e muito gostaria de ter podido fazer alguma coisa por ela, mas que h-de uma
pessoa dizer em situaes como esta? Depois de todos se terem ido embora, estava eu a lavar pratos, ouvi-o
chorar. Liguei o rdio para o no escutar, mas era impossvel. Chorava como uma criana. Nunca at ento
dera parte de fraco na mais pequena coisa. Bem, fui ter com ele. Quis que lhe pegasse na mo e foi o que fiz.
Peguei-lhe na mo e ele s dizia: "Estou coberto de vergonha!" Quis ir chamar o padre Goubeaux, prometi que
no dia seguinte lhe havia de fazer arroz  espanhola, mas ele s me apertava a mo cada vez com mais fora.
"E logo nessa noite tnhamos que o deixar s. Eu e o Wendle nunca saamos, mas tnhamos um compromisso
j de h muito, e o Wendle no quis faltar. Mas hei-de sentir sempre remorsos de o ter deixado sozinho. No
dia seguinte l lhe fiz o arroz mas ele, no lhe tocou. Mal me falava. Odiava toda a gente. Contudo, na manh
em que vieram busc-lo para ir para a penitenciria, agradeceu-me e ofereceu-me o retrato. Um retrato tirado
aos dezasseis anos. Disse-me que queria ficar assim na minha lembrana, como aquele rapazinho do retrato.
"O mais difcil era despedir-me dele, sabendo para onde ia e o que lhe ia acontecer. O esquilo sente a falta
dele, no h dvida nenhuma. Continua a vir  cela  procura de Perry. J tentei dar-lhe de comer mas ele no
quer nada comigo. S gostava do dono."
As prises constituem a parte mais importante do condado de Lavenworth, no Kansas. As duas penitencirias
do Estado, uma para cada sexo, ficam ali situadas. Por isso Lavenworth  a maior priso federal, e em Forte
Lavenworth fica situada a principal priso militar da regio, os Quartis Disciplinares do Exrcito dos Estados
Unidos e da Fora Area. Se todos os habitantes dessas instituies fossem postos em liberdade, chegariam
para povoar uma pequena cidade.
A priso mais antiga  a penitenciria do Estado do Kansas. Para homens, um casaro preto e branco, cheio de
torrees, nica caracterstica dessa cidade rural que de resto nada tem que a distinga. Lansing, edificada
durante a Guerra Civil, recebeu os
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seus primeiros hspedes em 1864. Presentemente, os condenados ali residentes ascendem a dois mil; o actual
director, Sherman H. Crouse, mantm em dia um mapa com a lista de todos os presos classificados por raas
(assim: 1405 brancos, 360 negros, 12 mexicanos, 6 ndios). Seja qual for a raa, cada condenado  cidado
daquela comunidade de pedra, que existe dentro dos muros altos, defendidos por metralhadoras - doze hectares
cinzentos de ruas cimentadas, blocos de celas e oficinas.
Na parte sul dos edifcios, existe um mais pequeno, muito curioso: uma construo negra, de dois andares,
com a forma de um caixo. Este edifcio, oficialmente chamado a Casa de Segregao e Isolamento, constitui
uma priso dentro de outra priso... Entre os presos, o andar inferior  denominado "O Buraco", local onde os
desordeiros "renitentes" so encerrados de vez em quando. Para subir ao andar superior, segue-se por uma
escada de caracol em ferro. L no alto fica a Ala da Morte.
A primeira vez que os assassinos da famlia Clutter subiram essa escada foi no fim de uma chuvosa tarde de
Abril. Tendo chegado a Lansing ao cabo de uma viagem de oito horas de automvel, durante a qual haviam
percorrido quatrocentas milhas, desde Garden City, os recm-vindos foram despojados dos seus fatos;
tomaram um chuveiro, cortaram-lhes o cabelo  escovinha e ambos receberam fardas grosseiras de riscado e
alpercatas (em muitas prises americanas este calado  o adoptado para os presos). Depois, entre uma escolta
armada, conduziram-nos, atravs do hmido crepsculo, para o edifcio em forma de caixo; fizeram-nos subir
a escada de caracol e meteram-nos em duas das doze celas que se encontram aos pares e formam a Ala da
Morte da Penitenciria de Lansing.
Estas celas so todas idnticas. Medem dois por trs metros e tm como nico mobilirio um catre, uma
retrete, um lavatrio e uma lmpada no tecto, acesa dia e noite. As janelas so muito estreitas, e no s
defendidas por barras de ferro, mas ainda cobertas por uma rede de arame muito apertada e to negra como
um vu de viva; assim, o rosto dos condenados mal se distingue c de fora. Os cativos, esses, podem ver para
o exterior; o que dali avistam  um espao vazio que serve no Vero de campo de basebol, e para l deste um
troo da parede da priso e por cima um bocado de cu.
A parede  de pedra bruta e as pombas fazem ninho nos interstcios destas. Uma porta de ferro negra de
ferrugem, situada na parte da parede visvel para os ocupantes da Ala da Morte, assusta as pombas todas as
vezes que algum a abre, obrigando-as a fugir espavoridas, em bandos, de tal maneira os gonzos rangem
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e chiam. Guardam-se ali dentro diversos objectos: uma reserva de chapas metlicas utilizadas pelos presos para fabricar placas de numerao para automveis, madeira, 
mquinas velhas, equipamento de basebol... e tambm uma forca de madeira por pintar que cheira vagamente a resina. E esta a cmara de execuo do Estado. Quando 
um homem  trazido para ali a fim de ser enforcado, os outros prisioneiros dizem que "foi at ao Canto" ou ento que "foi fazer uma visita  arrecadao".
De acordo com a sentena do tribunal, Smith e Hickock deviam ir para a arrecadao dali a seis semanas: um minuto antes da meia-noite de sexta-feira, dia 13 de Maio, 
de 1960.
O estado do Kansas aboliu a pena de morte em 1907; no ano de 1935, em virtude de uma sbita avalancha de criminosos profissionais que surgiu no Midwest (Alvin o 
"Velho Lango", Karpis, Charles o "Cara Linda" Floyd, Clyde Barrow e a sua amiga assassina, Bonnie Parker), os legisladores do Estado votaram  sua restaurao. 
No entanto, foi s em 1944 que um carrasco teve ensejo de exercer a sua arte; nos dez anos seguintes, o caso repetiu-se nove vezes. Mas durante seis anos, ou seja 
desde 1954, no se pagaram ordenados a nenhum carrasco no estado do Kansas (a no ser no Quartel Disciplinar do Exrcito e da Fora Area, que tem tambm a sua forca). 
O falecido George Docking, governador do Kansas de 1957 a 1960, foi o responsvel por esse intervalo, pois opunha-se abertamente  pena de morte ("Sou contra isso 
de matar pessoas").
Nesta altura, em Abril de 1960, havia portanto nas prises dos Estados Unidos cento e noventa pessoas  espera da execuo; cinco, incluindo os assassinos dos Clutters, 
encontravam-se alojados em Lansing. Em certas alturas, visitantes oficiais de categoria so convidados a "dar uma espreitadela  Ala da Morte", na expresso de um 
alto funcionrio. Aqueles que aceitam levam consigo um guarda, o qual, enquanto conduz os turistas ao longo do corredor guarnecido de grades em frente das celas, 
vai apresentando a estes os condenados, com uma espcie de formalismo cmico:
        Este - dizia ele a um visitante em 1960 -  Mr. Perro Edward Smith. Na porta a seguir reside o companheiro, Mr. Richard Eugene Hickock. Ali, temos Mr. Earl 
Wilson. Depois de Mr. Wilson, apresento-lhe Mr. Bobby Joe Spencer. E por ltimo, como decerto j reconheceu, encontra-se o famoso Mr. Lowell Lee Andrews.
Earl Wilson, um negro forte, que cantava bem, fora condenado 290
 morte por haver raptado, violado e torturado uma rapariga branca: a vtima, muito embora tivesse escapado com vida, ficara estropiada. Bobby Joe Spencer, um jovem 
branco e efeminado, confessara haver assassinado uma velhota de Kansas City, dona de uma casa de hspedes onde ele habitava. Antes de se reformar, em Janeiro de 
1961, o governador Docking, que fora derrotado na reeleio (em grande parte devido  sua atitude em face da pena capital), comutara as sentenas destes dois homens 
em priso perptua, o que geralmente significava que podiam requerer a liberdade condicional dentro de sete anos. No entanto, Bobby Joe Spencer no tardou a matar 
de novo: apunhalou com um estilete outro jovem detido, seu rival no afecto de um condenado mais idoso (como explicava um funcionrio da cadeia, "eram duas p...  
bulha por causa de um estivador"). Este feito valeu a Spencer outra condenao  morte. O pblico, porm, no se interessava muito por Wilson ou por Spencer; em 
comparao com Smith e Hickock ou com o quinto ocupante da Ala da Morte, a imprensa quase os passara em branco.
Dois anos antes, Lowell Lee Andrews, um rapaz de dezoito anos, enorme e com m vista, que usava uns grandes culos com aros de tartaruga e pesava cento e tal quilos, 
era segundanista na Universidade do Kansas, um aluno exemplar de biologia. Muito embora fosse um rapaz solitrio, reservado e pouco comunicativo, os conhecidos, 
tanto na Universidade como na sua terra, Wolcott, no Kansas, consideravam-no excepcionalmente atencioso, dotado de "bom gnio" (mais tarde, um jornal do Kansas publicava 
um artigo a seu respeito, intitulado "O rapaz mais simptico de Wolcott"). porm, dentro do tranquilo estudante, existia uma segunda e inslita personalidade, cheia 
de estranhas emoes e com uma mentalidade deformada que lhe fabricava ideias arrepiantes e sinistras. A famlia - os pais e uma irm um pouco mais velha, Jennie 
Marie - teria ficado admirada se acaso conhecesse os devaneios que Lowell alimentara durante o Vero e o Outono de 1958; aquele filho ilustre, aquele irmo adorado, 
projectava envenen-los a todos.
O pai de Andrews era um abastado lavrador; no tinha grandes capitais nos bancos, mas possua terras no valor de cerca de duzentos mil dlares. O desejo de herdar 
tudo isso constituiu sem dvida o mbil do projecto concebido por Lowell, no sentido de se desfazer da famlia.  que o outro Lowell Lee, aquele que se escondia 
dentro do aplicado estudante de biologia, imaginava-se um criminoso hbil e de corao frio. Desejava usar camisas de seda como os gangsters e guiar carros vermelhos 
de desporto. No queria ser considerado um simples estudanteco, um caixa de culos,
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um coca-bichinhos, virgem e gordalhufo. E, muito embora no odiasse nenhum dos membros da sua famlia,
pelo menos conscientemente, o assassnio afigurava-se-lhe o meio mais rpido e racional de concretizar as
fantasias que lhe povoavam a mente. Escolheu como arma o arsnico; depois de envenenar as vtimas,
tencionava met-las na cama e deitar fogo  casa, na esperana de que os investigadores considerassem as
mortes como acidentais. No entanto, havia um pormenor que o preocupava: suponhamos que a autpsia
revelava a presena de arsnico? E suponhamos que a pista do arsnico conduzia at ele? No fim do Vero
tinha elaborado outro plano. Levou quatro meses a aperfeio-lo. Chegou por fim o momento de agir, numa
noite de Novembro em que o "frio atingia quase 0. Estava-se na semana da Aco de Graas e Lowell Lee
vinha passar os feriados a casa, bem como a irm Jennie Marie, uma rapariguinha inteligente mas bastante
desengraada, que frequentava um liceu em Oklahoma. Na noite de 28 de Novembro, perto das sete horas,
Jennie Marie estava com os pais, na sala, a ver televiso; Lowell Lee encontrava-se fechado no quarto a ler o
ltimo captulo de Os Irmos Karamazov. Terminado o livro, fez a barba, vestiu o melhor fato que tinha e
comeou a carregar uma carabina semiautomtica 22 e um revlver Ruger do mesmo calibre. Meteu este num
coldre preso ao ombro, ps a carabina no brao e atravessou o trio em direco  sala, imersa em trevas, com
excepo do vdeo da televiso. Acendeu um comutador, apontou a carabina, puxou o gatilho e atingiu a irm
entre os olhos, matando-a instantaneamente. Disparou trs vezes contra a me e duas contra o pai. A me, de
olhos arregalados e braos estendidos, avanou para ele, aos tropees; tentava falar, abria e fechava a boca,
mas Lowell Lee exclamou:
        Cale-se!
E, para ter a certeza de ser obedecido, disparou contra ela mais. Trs tiros. Mr. Andrews, no entanto ainda
estava vivo; a soluar, a gemer, arrastou-se pelo cho fora at  cozinha. Porm, ao chegar ao limiar desta, o
filho puxou do revlver e despejou-o contra ele; depois voltou a carregar a arma e descarregou-a de novo. Ao
todo, o pai recebeu dezassete tiros.
Andrews, segundo as prprias declaraes, "no sentira nada. Chegara a altura e eu tinha de fazer o que
planeara. Nada mais.
Depois do tiroteio, ergueu uma vidraa no seu quarto, depois retirou o caixilho e revolveu a casa toda, tirando
as gavetas dos seus lugares e despejando-as no cho: tencionava por este meio atribuir o crime aos ladres. Em
seguida, ao volante do carro do pai, percorreu trinta milhas por estradas escorregadias at Lawrence, cidade
onde fica situada a Universidade do Kansas: pelo
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caminho, parou sobre uma ponte, desmanchou as armas e atirou-as, em peas separadas, ao rio Kansas. Porm a verdadeira finalidade da viagem era arranjar um libi. 
Primeiro parou na casa de hspedes onde habitava; conversou com a senhoria e disse-lhe que ia ali buscar a mquina de escrever; por causa do mau tempo, gastara duas 
horas na viagem de Wolcott at Lawrence. Antes de partir, entrou num cinema e conversou distraidamente com uma arrumadora e com uma vendedora de rebuados. s onze 
horas, quando acabou o filme, regressou a Wolcott. O co da casa estava  espera dele no alpendre da entrada, a ganir com fome. Lowell Lee entrou em casa, saltando 
por cima do cadver do pai, e foi preparar-lhe uma taa de leite quente com sopas. Depois, enquanto o animal devorava as sopas at ao fim, telefonou para o gabinete 
do xerife, dizendo:
        Chamo-me Lowell Lee Andrews e venho participar um roubo...
Quatro membros da patrulha do xerife do condado de Wysndotte acorreram ao local. Um deles, o guarda Meyers, descreve a cena da seguinte maneira:
        Devia ser uma hora da manh quando l chegmos. Estavam as luzes todas acesas. Um rapago enorme e de cabelos negros, que era o Lowell Lee, encontrava-se 
sentado no trio a fazer festas ao co. O tenente Athey perguntou-lhe o que acontecera. Ele apontou para a porta, com um ar indiferente em absoluto e disse: "V 
ver". Depois de terem visto, os guardas, espantados, chamaram o coroner, que tambm ficou impressionado com o desprendimento do jovem Andrews, pois, quando lhe perguntou 
quais as disposies que queria tomar quanto aos enterros, ele replicou encolhendo os ombros: "Faam o que quiserem."
Numa palavra, apareceram l tambm dois detectives mais antigos que comearam a interrogar o nico sobrevivente da famlia e escutaram atentamente a histria. Fora 
a Lawrence buscar uma mquina de escrever, entrara num cinema, chegara a casa depois da meia-noite e encontrara os quartos de dormir voltados de pernas para o ar 
e a famlia assassinada. Mantinha as afirmaes e nunca as teria negado se, em seguida a ter sido preso e levado para a cadeia do condado, as autoridades no houvessem 
obtido o auxlio do reverendo Mr. Virto C. Dameron.
Este homem, verdadeira personagem de Dickens, orador untuoso cujo estilo era prdigo em imagens do Inferno e dos seus caldeires de enxofre a ferver, era ministro 
da Igreja Baptista de Grandview, em Kansas City, que a famlia de Andrews frequentava com regularidade. Despertado a meio da noite por uma chamada
293
urgente do coroner do condado, Dameron apresentou-se na cadeia cerca das trs da manh. A, os detectives que haviam estado a interrogar continuamente o suspeito 
sem o menor resultado, retiraram-se para outra sala deixando o ministro a ss com o seu paroquiano. Esta entrevista foi fatal para este, que alguns meses mais tarde 
fazia a um amigo o seguinte relato:
        Mr. Dameron disse-me: "Vamos, Lee, eu conheo-te desde sempre. Eras tu um catraio. Conheci tambm sempre o teu pap, crescemos juntos e fomos amigos de 
infncia.  por isso que estou aqui, no na minha qualidade de ministro da Igreja, mas porque me considero como fazendo parte da tua famlia. Sei que precisas de 
um amigo em quem possas confiar. Sinto profundamente esta coisa horrvel que sucedeu e estou to ansioso como tu para ver o culpado descoberto e punido." "Perguntou-me 
se tinha sede e eu disse que sim. Foi-me buscar uma coca-cola e depois disso falou dos feriados da semana de Aco de Graas, perguntou-me se gostava do curso, etc., 
at que, de repente, diz-me: "Escuta, Lee. Parece-me que desconfiam um bocado da tua inocncia. Estou certo de que no vs inconveniente nenhum em te submeteres 
ao detector de mentiras para os convenceres de que ests inocente, a fim de que possam dirigir a sua actividade noutro sentido, de forma a apanharem o culpado." 
A seguir, disse: "Lee, no foste tu quem fez esta coisa horrvel, no  verdade? Se foste, so alturas de redimir a tua alma." Em vista disso, pensei que no valia 
a pena esconder e contei-lhe tudo. Ele ouviu, sempre a abanar a cabea, a revirar os olhos e a esfregar as mos uma na outra e declarou-me que era uma coisa horrvel, 
que eu tinha de dar contas ao Altssimo e que devia redimir a minha alma contando s autoridades aquilo que acabava de lhe dizer. Seria capaz disso?" Ao ver o aceno 
afirmativo do prisioneiro, o seu conselheiro espiritual dirigiu-se  sala contgua onde se agrupavam os polcias ansiosos, a quem dirigiu um triunfante convite:
        Entrem! O rapaz est pronto a fazer declaraes.
O caso Andrews deu origem a uma cruzada mdico-legal. Antes do julgamento, durante o qual Andrews invocara como defesa a loucura, os psiquiatras da Clnica Menninger 
procederam a um exame rigoroso do acusado; o qual teve como resultado um diagnstico de "esquizofrenia do tipo simples". por "simples" o diagnstico subentendia 
que Andrews no sofria de iluses, nem percepes falsas, nem alucinaes, mas apenas da doena primria que consiste em separar o pensar do sentir. Compreendia 
a natureza dos seus actos, sabia que estes eram proibidos e que estava sujeito a castigo, "Mas", para nos servirmos 294
das palavras do doutor Joseph Satten, um dos examinadores, "Lowell Lee Andrews no sente a mais pequena emoo. Considera-se a nica pessoa importante e significativa 
deste mundo. E no seu universo particular parecia-lhe justo e certo matar a me, como se esta fosse uma mosca ou outro qualquer animal."
Na opinio do doutor Satten e dos seus colegas, o crime de Andrews representava um exemplo to flagrante do caso de carncia de responsabilidade que poderia ser 
invocado para pr em causa a lei M'Naghten nos tribunais do Kansas. Esta lei, como j se disse, no reconhece nenhuma forma de loucura desde que o ru tenha capacidade 
para distinguir entre o bem e o mal, legalmente, no de um ponto de vista moral. Com grande desgosto dos psiquiatras e dos juristas liberais, esta lei prevalece 
nos tribunais do Commonwealth Britnico e, nos Estados Unidos, nos tribunais de quase todos os estados, com excepo de uns seis, bem como o distrito de Colmbia, 
que so fiis  lei de Durham, menos rgida, mas inaceitvel para certas mentalidades. Determina esta lei que o acusado no seja considerado responsvel por um crime 
se acaso o seu acto for produto de uma doena ou deformidade mental.
Numa palavra, o que os defensores de Andrews desejavam alcanar (compunham-se estes de uma equipa de psiquiatras da Clnica Menninger e de dois advogados de primeiro 
plano) era uma vitria no plano legal. O mais importante de tudo isto era conseguir que o tribunal substitusse a lei M'Naghten pela lei Durham. Se tal sucedesse, 
Andrews, perante a abundncia de provas a atestar a sua esquizofrenia, seria decerto condenado, no  forca nem mesmo a uma pena de priso, mas sim a um internamento 
no Hospital do Estado, para loucos criminosos.
No entanto, a defesa no contava com o conselheiro religioso do ru, o incansvel reverendo Mr.
Dameron, que apareceu no tribunal como a testemunha de acusao mais terrvel e que, no estilo complicado e barroco de um pregador de provncia, declarou ao tribunal 
que muitas vezes avisara o seu ex-aluno da escola dominical de que era preciso ter cautela com a clera de Deus: "Quando eu te dizia que no h nada neste mundo 
que valha a nossa alma, tu afirmaste-me muitas vezes que a tua f era fraca, e que no acreditavas em Deus. Sabes que todo o mal que se faz  um pecado contra Deus, 
que Deus  o nosso ltimo juiz e que tens de responder perante Ele". Foi isto o que eu lhe disse para lhe mostrar o horror daquilo que cometera, afirmando-lhe que 
teria de responder perante o Altssimo por este crime.
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Ao que parece, o reverendo Dameron estava resolvido a que o jovem Andrews respondesse no s perante o
Altssimo mas tambm perante os poderes temporais, pois foi o testemunho dele, junto  confisso do ru, que
decidiu da sentena. O juiz presidente manteve a lei M'Naghten e o jri proferiu a sentena de morte que a
acusao pblica exigia.
Quinta-feira, 13 de Maio, a primeira data marcada para a execuo de Smith e Hickock passou sem novidade,
pois o Supremo Tribunal do Kansas deferiu a apelao que os advogados tinham requerido. Por essa altura a
sentena de Andrews estava tambm a ser revista pelo mesmo tribunal.
A cela de Perry ficava contgua  de Dick; muito embora se no vissem um ao outro, podiam conversar; no
entanto, Perry poucas vezes dirigia a palavra ao camarada e isto no por se ter estabelecido entre eles qualquer
mal-entendido (aps a troca de algumas censuras pouco acerbas, as relaes de ambos voltaram a ser de
tolerncia mtua: a resignao fatal de dois irmos siameses no congnitos), mas' sim porque Perry, como
sempre desconfiado, reservado, secreto, no gostava que os guardas ou os outros presos ouvissem naquilo que
no era de sua conta", especialmente Andrews ou Andy, como lhe chamavam na Ala da Morte. A pronncia
culta de Andrews e a sua qualidade de estudante universitrio constituam um insulto para Perry que, muito
embora no tivesse ido alm do terceiro ano dos liceus, se julgava mais letrado do que a maioria dos companheiros e gozava a emend-los sobretudo em matria de gramtica 
e pronncia. Mas eis que aparecia junto de si algum - um garoto! - que o corrigia constantemente a ele. No admira que no lhe apetecesse abrir a boca. Era melhor 
estar calado do que arriscar-se a ouvir aquele sabicho das dzias largar uma das suas tiradas ranhosas: "No digas sestifeito quando queres dizer satisfeito." Andrews 
era bem-intencionado, no fazia aquilo por mal, mas Perry seria capaz de o queimar vivo. No entanto nunca confessaria nem deixaria que ningum adivinhasse por que 
motivo, a seguir a um destes humilhantes incidentes, ficava amuado e recusava as refeies que lhe levavam trs vezes ao dia. No princpio de Junho deixou de comer 
por completo e disse a Dick:
        Tu podes esperar pela corda, mas eu no vou nisso. A partir desse momento recusou tocar na comida ou na
gua e no voltou a dirigir a palavra fosse a quem fosse.
O jejum durou cinco dias, at que o director da priso comeou a levar o caso a srio. No sexto dia, mandou
que transportassem
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Perry para o hospital da cadeia, mas a mudana no modificou a resoluo do preso; quando tentavam aliment-lo  fora, deitava a cabea para trs e cerrava as maxilas, 
at estas ficarem rgidas como duas ferraduras. Por fim amarraram-no e tiveram de o alimentar com injeces intravenosas e com um tubo introduzido numa das narinas. 
Mesmo assim o seu peso baixou de 75 quilos para 52, e o director da priso foi avisado de que a alimentao artificial s por si no poderia manter o prisioneiro 
indefinidamente vivo.
Dick, muito embora impressionado com a fora de vontade de Perry, no se convencia de que este estivesse resolvido a suicidar-se: mesmo quando lhe disseram que Perry, 
cara em estado de coma, declarou a Andrews, de quem se tornara amigo, que o seu ex-scio estava a aldrabar:
        O que ele quer  ser dado por doido.
Andrews, grande comilo (enchera um livro de apontamentos com desenhos das mais variadas iguarias, desde uma torta de morangos at um leito assado), respondeu:
        Deve estar louco com certeza, para se deixar assim morrer  fome.
        Ele s pretende sair daqui para fora. Est a armar. E para o darem por doido e o meterem num manicmio.
Depois, mais tarde, Dick passou a repetir a resposta de Andrews, pois parecia-lhe um belo exemplo das "ideias malucas" do rapaz, uma conformao da sua personalidade 
de sujeito que "anda sempre nas nuvens". Declarara com um ar desinteressado:
        Bem, c por mim acho que  uma maneira muito estpida de fazer a coisa, essa de deixar de comer. Mais cedo ou mais tarde, todos acabamos por sair daqui 
para fora. Tanto faz sarmos a caminhar como sermos levados dentro de um caixo. C por mim -me indiferente a maneira como irei. Ao cabo e ao resto vale o mesmo.
Dick observara-lhe:
        O teu mal, Andrews,  no teres respeito nenhum pela vida humana, nem sequer pela tua.
Andrews concordou:
        E ainda te digo outra coisa. Se acaso daqui sasse com vida, quero dizer, se me apanhasse fora destes muros e conseguisse fugir... Bem, no dizia a ningum 
para onde ia o Andy, mas todos haviam de ficar sabendo por onde tinha passado!
Durante o Vero, Perry oscilou entre um estado de semi-inconscincia e um sono doentio que o deixava coberto de suores. Ouvia vozes a ressoar dentro da cabea; uma 
delas perguntava-lhe com insistncia: "Onde est Jesus? Onde est ele?" E certo 297
dia acordou a gritar: "O pssaro  Jesus! O pssaro  Jesus!" Este velho pensamento e ainda a ideia de que
gostaria de aparecer no teatro sob o pseudnimo de "Perry Otarsons, o Homem Sinfonia", visitavam-no
muitas vezes sob a forma de um sonho. O cenrio deste era Las Vegas, um clube nocturno, onde ele, de
chapu-alto branco e smoking da mesma cor, se pavoneava num palco brilhantemente iluminado por focos, a
tocar harmnica, guitarra, banjo, tambor, e a cantar a melodia You Are My Sunshine (Tu s o meu sol) e a
sapatear numa espcie de lano de escadas douradas: no cimo destas, ao chegar a uma plataforma, fazia uma
vnia. No se ouvia nenhum aplauso, no entanto a sala enorme e vistosamente decorada achava-se  cunha,
repleta de uma assistncia estranha onde predominavam os homens e parte destes negros. Ao contempl-los, o
executante compreendeu finalmente a causa daquele silncio, e isso deixou-o coberto de suor. De sbito
percebeu que se tratava de espectros, os fantasmas daqueles que haviam sido legalmente assassinados, por
meio da forca, da cadeira elctrica ou da cmara de gs e, no mesmo instante, percebeu que se encontrava ali
para se ir reunir a eles, que as escadas douradas o haviam conduzido ao cadafalso, que a plataforma onde se
achava se abria por baixo de si. Caiu-lhe da cabea o chapu alto. A urinar e a defecar sem querer, Perry
Otarsons entrava na eternidade.
Certa tarde, ao acordar deste sonho, deparou com o director da cadeia sentado  beira da cama. Este disse-lhe:
        Parece que tiveste um pesadelo.
Perry no lhe respondeu, e o director, que por vrias vezes o fora j visitar ao hospital e tentara persuadi-lo a
acabar com a greve da fome, declarou:
        Tenho uma coisa para ti.  do teu pai, pensei que gostasses de ler.
Perry, cujos olhos enormes brilhavam num rosto de palidez quase fosforescente, fitava o tecto, at que por fim,
depois de colocar um postal ilustrado na mesa de cabeceira, o visitante retirou-se em face daquela m
recepo.
Nessa noite, Perry olhou para o postal. Vinha dirigido ao director da priso e era datado de Blue Lake,
Califrnia. O texto, escrito numa letra arredondada bem sua conhecida, dizia o seguinte: "Meu caro senhor,
estou informado de que o meu filho Perry est de novo a preso. Peo o favor de me escrever dizendo o que ele
fez de mal e se posso ir visit-lo. Eu c por mim estou bem e outro tanto desejo ao senhor. Agradece, Tex J.
Smith."
Perry rasgou o postal, mas ficou com ele gravado na ideia, pois aquelas curtas e secas linhas haviam-lhe
reavivado as recordaes
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tanto de amor como de dio, lembrando-lhe que ainda era aquilo que tentara j no ser, isto , um homem
vivo. "Resolvi ento", declarou ele mais tarde a um amigo, "que assim havia de continuar. Aqueles que
queriam tirar-me a vida que no contassem com nenhum auxlio da minha parte. Teriam que se esforar
bastante para isso."
Na manh seguinte pediu um copo de leite, o primeiro alimento que tomava voluntariamente havia catorze
semanas. Pouco a pouco, graas a um regime de sumo de laranja e gemas de ovos, foi ganhando peso; em
Outubro, o mdico da priso, o doutor Robert Moore, considerou-o suficientemente forte para voltar a habitar
a Ala da Morte. Quando ali chegou, Dick disse-lhe a rir:
        Sejas bem aparecido, p!
Decorreram dois anos.
A partida de Wilson e de Spencer deixou Smith, Hickock e Andrews sozinhos na Ala da Morte com as
lmpadas acesas e as janelas tapadas por redes. Os privilgios concedidos aos presos vulgares eram-lhes
negados; no tinham rdios nem podiam jogar s cartas, nem sequer fazer exerccio - no lhes era permitido
sequer deixar as celas, a no ser ao sbado, quando os levavam  sala de banho, para tomar chuveiro, e lhes
davam uma muda de roupa; ou ento quando recebiam a visita dos advogados, ou de parentes, o que era caso
muito raro. A me de Hickock vinha apenas uma vez por ms; o marido morrera, ela ficara sem a quinta e,
conforme participara a Dick, vivia em casa de parentes, ora de um ora de outro.
Perry tinha a impresso de viver "debaixo de gua" - talvez porque a Ala da Morte era to silenciosa e escura
como as profundas do Oceano; no se ouvia ali o menor rudo, a no ser ressonos, tossidelas, o chinelar de ps
calados de alpercatas, o roagar dos pombos que faziam ninho nas paredes da priso: Mas nem sempre.
"s vezes", escrevia Dick numa carta para a me, "o barulho  tanto que uma pessoa nem sequer pode pensar.
Metem homens nas celas l de baixo, a que chamam o "Canto", muitos deles completamente malucos, doidos
de manicmio. Praguejam e gritam constantemente. Torna-se insuportvel e por isso todos nos pomos a berrar
que se calem. Gostava que me mandasse uns objectos prprios para tapar os ouvidos. O pior  que no me
deixam us-los. Os criminosos no podem ter sossego, estou a ver." O pequeno edifcio existia h mais de um sculo e as mudanas 299
de estao revelavam diversos sintomas, da sua antiguidade: o frio do Inverno infiltrava-se pelos interstcios da pedra e do ferro e no Vero, quando as temperaturas 
subiam acima dos 100 graus fahrenheit, as celas eram caldeiras pestilentas.
"Cheira aqui to mal que a minha pele deita um fedor insuportvel", escrevia Dick a me, numa carta datada de 5 de Julho de 1961. "Fao por me mexer o menos possvel. 
Deixo-me estar sentado no cho. A minha cama est to molhada de suor que no me posso l deitar e o cheiro enjoa-me porque s tomamos banho uma vez por semana e 
andamos sempre com a mesma roupa. No h a menor ventilao e as lmpadas elctricas ainda fazem mais calor. As baratas passeiam-se pelas paredes".
Ao contrrio dos presos vulgares, os condenados  morte no esto sujeitos  obrigao de trabalhar: podem fazer o que quiserem durante todo o dia: dormir, como 
acontecia com perry muitas vezes ("Finjo que sou uma criancinha que no pode ter os olhos abertos"); ou ento, como era hbito de Andrews, ler a noite inteira. Devorava 
de quinze a vinte livros por semana; tanto apreciava a literatura de cordel como a boa literatura gostava de poesia, particularmente da de Robert Frost, mas tambm 
admirava whitman, Emily Dickinson e os poemas cmicos de Ogden Nash. Muito embora esta sede de literatura h muito houvesse esgotado a biblioteca da cadeia, o capelo, 
e outras pessoas que se condoam de Andrews forneciam-lhe volumes da biblioteca pblica de Kansas City.
Dick tambm era um devorador de livros; porm o seu interesse limitava-se a dois assuntos: o sexo, representado nos romances de Harold Robbins e de Irving Wallace 
(depois de lhe emprestarem um desses volumes, Perry devolveu-o a Dick com um bilhete indignado: "porcarias de um degenerado, destinadas a mentalidades igualmente 
porcas e degeneradas!") e livros de direito. Passava todos os dias e horas a desfolhar obras jurdicas, compilando passagens que julgava poderem servir para a reviso 
da sua sentena. Tambm, com o mesmo intuito, dirigiu uma avalancha de cartas a certas organizaes, tais como a Unio das Liberdades Civis Americanas e a Associao 
dos Advogados do Estado do Kansas, cartas essas em que criticava O seu processo, alcunhando-o de "farsa" e intimando os destinatrios a ajudarem-no, a conseguir 
novo julgamento.
Perry estava resolvido a seguir o mesmo processo, porm, quando foram dizer a Andrews para escrever cartas idnticas a protestar contra a sentena, este exclamou: 
"Tratem de salvar o vosso pescoo que eu ca estou para me preocupar com o meu." 300
(Na verdade, o pescoo de Dick no era neste momento o ponto do seu corpo que mais o preocupava. "Cai-me o cabelo s mancheias", confessava noutra carta para a me. 
"Estou aterrado.
Ningum na nossa famlia era calvo, que me lembre, e horroriza-me a ideia de ficar careca.") Ao chegarem  Ala da Morte, numa noite de Outubro de 1961, os dois guardas 
de servio traziam novidades aos presos:
        Ora bem - declarou um deles. - Acho que vocs vo ter mais companhia.
O significado desta notcia no podia ser outro: referia-se a dois soldados que haviam sido julgados pelo assassnio de um trabalhador do caminho-de-ferro do Kansas 
e tinham apanhado a pena mxima.
         verdade - confirmou o guarda. - Foram ambos condenados  morte.
        pois claro - ripostou Dick. - A coisa  vulgar c no Kansas. Os jurados votam a pena de morte com a mesma facilidade com que dariam rebuados s crianas.
Um dos soldados, George Ronald York, tinha dezoito anos; o companheiro, James Douglas Latham, era um ano mais velho. Ambos eram bonitos rapazes, o que explica o 
grande nmero de raparigas que assistiram ao julgamento. Muito embora fossem condenados apenas por este crime, os acusados confessaram terem feito sete vtimas durante 
uma bebedeira.
Ronnie York, louro e de olhos azuis, fora nascido e criado na Florida, onde o pai era um mergulhador muito conhecido e bem pago. Os Yorks levavam uma vida muito 
confortvel e Ronnie, estragado com mimos pelos pais e uma irm que o adorava, era o centro de afecto da famlia. Os antecedentes de Latham, de natureza diametralmente 
oposta, revelavam-se to miserveis como os de Perry Smith. Nascera no Texas e era o filho mais novo de uma famlia numerosa e pobrssima, cujos pais se davam mal 
e que, quando finalmente se separaram, deixaram os filhos ao deus-dar, tendo de procurar o sustento por um lado e outro, como se fossem ces vadios. Aos dezassete 
anos foi julgado e condenado por awol1 e encerrado em Fort Wood, no Texas. Foi ali que conheceu Ronnie York, que cumpria pena por idntico motivo. Muito embora fossem 
muito diferentes fisicamente, pois York era alto e fleumtico ao passo que o texano era baixo, com uns olhos manhosos a luzir na cara atrevida e rechonchuda, descobriram 
que tinham uma opinio em comum: o mundo no prestava e era melhor para toda a gente morrer.
1.        Absense uithout leave, ausncia sem licena. (N. Da T.) 301
        Este mundo  uma chatice - afirmava Latham. - Tudo  de uma mesquinhez atroz. Queime-se a barraca de um homem, ele conforma-se. Envenene-se-lhe o co e 
mata-se.
Ronie declarou que Latham tinha cem por cento de razo, acrescentando:
        Quando se mata algum s se lhe faz um favor.
As primeiras vtimas a receberem tal favor foram duas mulheres da Gergia, donas de casa respeitveis, que tiveram a desgraa de encontrar York e Latham pouco depois 
de estes haverem conseguido fugir de Fort Hood, numa carrinha roubada, na qual se dirigiram a Jacksonville, na Florida, onde habitava a famlia de York. O local 
do encontro foi uma estao de servio Esso, nos escuros arrabaldes de Jacksonville: a data, 29 de Maio de 1961. De incio, os desertores haviam-se dirigido a Jacksonville 
no intuito de visitarem a famlia de York; uma vez ali, contudo, este reflectiu que seria imprudente contactar com os seus, pois o pai tinha um gnio exaltado. Ele 
e Latham discutiram o assunto e dirigiram-se para Nova Orlees quando pararam na estao de servio. Estacionaram junto de outro carro que estava tambm a meter 
gasolina: dentro dele encontravam-se as duas futuras e sedentrias vtimas, as quais, ao cabo de um dia de compras e de distraco em Jacksonville, regressavam s 
suas casas, numa pequena aldeia da fronteira da Florida com a Gergia. Por mal delas haviam-se enganado no caminho. York, a quem perguntaram uma indicao, mostrou-se 
muito amvel: "Venham atrs de ns. Deix-las-emos na estrada que devem seguir." porm aquela para onde as conduziram, estava longe de ser a indicada: tratava-se 
de um atalho que ia ter aos pntanos. Ignorando isto, as duas senhoras seguiram atrs deles at o carro da frente fazer alto. Avistaram ento os dois prestveis 
jovens que se aproximavam a p, mas s tarde se aperceberam de que cada um deles vinha armado com um chicote preto. Os chicotes pertenciam ao proprietrio legal 
da carrinha, um criador de gado: a inteno de Latham era servirse deles como garrotes, e assim fizeram, depois de roubarem as duas mulheres. Em Nova Orlees compraram 
um par de pistolas e gravaram-lhe na coronha duas ranhuras. Durante os dez dias que se seguiram acrescentaram outras ranhuras s pistolas em Tullahome, Tennessee, 
onde entraram na posse de um vistoso Dodge descapotvel vermelho, depois de matarem a tiro o dono, que era caixeiro viajante, e nos subrbios de St. Louis, onde 
assassinaram mais dois homens. A vtima do Kansas, que seguiu s primeiras cinco, era um velhote: chamava-se Otto Ziegler, contava sessenta e dois anos - e era um 
tipo robusto e simptico, daquelas pessoas incapazes de passar por um motorista
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empanado sem lhe prestarem auxlio. Quando seguia vagarosamente ao longo de uma auto-estrada no Kansas, certa manh soalheira de Junho, Mr. Ziegler avistou um carro 
aberto, vermelho, estacionado na berma, com o capot erguido, enquanto um par de jovens de boa aparncia remexiam no motor. Como poderia o bom do Mr. Ziegler adivinhar 
que esse motor no tinha a mnima avaria e que aquilo no passava de uma armadilha para roubar e matar os bons samaritanos que aparecessem por ali. As suas ltimas 
palavras foram: "Posso ajudar?" A uma distncia de seis metros, York trespassou-lhe o crnio com uma bala, depois voltou-se para Latham e exclamou: "Belo tiro, hem?"
A ltima vtima foi a mais impressionante. Tratava-se de uma rapariga de dezoito anos apenas; era empregada num motel do Colorado onde a infame parelha passou a 
noite. A jovem deixou-se seduzir por eles. A seguir declararam-lhe que iam para a Califrnia e convidaram-na a acompanhlos:
        Vem da connosco! - insistiu Latham. - Talvez ainda possamos todos vir a ser vedetas do cinema! A rapariga, mais a maleta de papelo que arranjara a toda 
a pressa, foram parar ao fundo de uma ravina perto de Craig, no Colorado; no decorreram, porm, muitas horas depois de os criminosos a haverem morto a tiro e abandonado, 
e j se encontravam a ser fotografados pelas cmaras de cinema.
A descrio dos ocupantes do carro vermelho, fornecida por testemunhas que os haviam visto a vaguear perto do local onde fora descoberto o corpo de Otto Ziegler, 
tinha sido difundida por todo o Mdio Oeste e pelos Estados do Oeste. Ergueram-se barreiras nas estradas enquanto os ares eram patrulhados por helicpteros; foi 
numa dessas barreiras, em Utah que Latham e York foram capturados. Mais tarde, numa esquadra de polcia em Salt Lake City, uma companhia local de televiso obteve 
licena para filmar uma entrevista com os criminosos. A imagem, se fosse transmitida sem som, mostraria dois jovens atraentes, com aspecto de atletas bem alimentados, 
que pareciam dissertar acerca de hquei ou beisebol, e nunca um par de assassinos a descreverem os crimes e o papel que, orgulhosos, confessavam haver representado 
na morte de sete pessoas.
        porque fizeram vocs isto? - inquiriu o entrevistador. York, com um sorriso prazenteiro, respondeu:
        Odiamos todo o mundo!
Os cinco estados que invocaram o direito de acusar York e Latham em tribunal pediram a pena de morte: a Florida (cadeira elctrica), o Tennessee (cadeira elctrica), 
o Ilinis (cadeira elctrica), o Kansas (enforcamento) e o Colorado (cmara de gs).
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Mas, em virtude de haver apresentado as provas mais firmes, quem teve a primazia foi o Kansas.
Os reclusos da Ala da Morte viram pela primeira vez os seus novos companheiros a 2 de Novembro de 1961. Um guarda, que os escoltou at s celas, apresentou-os:
        Mr. York, Mr. Latham, dem-me licena que lhes apresente Mr. Smith. Este  Mr. Hickock e aquele  Mr. Lowell Lee Andrews - o moo mais simptico de Wolcott! 
Depois de o cortejo passar, Hickock ouviu Andrews a rir sozinho e inquiriu:
        Que disse esse filho da me para lhe achares tanta piada?
        Nada - respondeu Andrews. - Mas estava c a pensar: se contares os meus trs, os vossos quatro e os sete deles, soma catorze e ns somos cinco. Catorze 
a dividir por cinco d...
        Catorze a dividir por quatro - emendou Hickock secamente. - Aqui h quatro assassinos e um tipo que foi julgado sem justia. Eu c no sou nenhum reles 
criminoso. Nunca toquei num cabelo sequer fosse de quem fosse!
Hickock continuava a escrever cartas a protestar contra a sua condenao, at que finalmente uma delas produziu algum resultado. O destinatrio, Everett Steerman, 
Presidente da Comisso Auxiliar da Associao dos Advogados do Estado do Kansas, ficou impressionado com as alegaes do autor da missiva, que se queixava de, tanto 
ele como o seu co-acusado, no haverem tido um julgamento honesto. Segundo Hickock, a "atmosfera hostil" de Garden City tornara impossvel organizar um jri imparcial 
e, portanto, devia ter sido autorizado o pedido para que o julgamento se realizasse noutro lugar. Quanto aos prprios jurados, dois haviam-se antecipadamente declarado 
convencidos da culpabilidade dos rus durante as perguntas preliminares, antes da nomeao: "Quando lhe perguntaram a sua opinio acerca da pena capital, um dos 
sujeitos afirmara que, "habitualmente, era contra, mas, naquele caso, no"; infelizmente essas perguntas no haviam ficado registadas, pois, segundo a lei do Kansas, 
isso no  preciso, a no ser que haja um pedido especial. Alm disto, muitos dos jurados eram das relaes da famlia. At o prprio juiz fora amigo ntimo de Mr. 
Clutter"
porm, a mais certeira seta disparada por Hickock era dirigida aos dois advogados de defesa, Arthur Fleming e Harrison Smith, cuja incompetncia e falta de adaptao 
tinham sido a causa da presente situao do autor da carta, pois este no beneficiara de uma defesa correcta e bem elaborada. Esta falta de interesse,
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evidentemente propositada, correspondia a uma atitude de entendimento entre a defesa e a acusao.
Estas afirmaes, to graves, visavam a integridade de dois advogados considerados e de um juiz igualmente distinto. Embora fossem apenas parcialmente verdadeiras, 
os direitos constitucionais dos rus tinham sido menosprezados. Instigada por Mr. Steerman, a Associao dos Advogados tomou uma iniciativa sem precedentes na histria 
do direito no Kansas: encarregou um jovem advogado de Wichita, Russel Schultz, de investigar as acusaes e, no caso de as provas o justificarem, de pr em causa 
a validade da sentena invocando a lei do habeas corpus perante o Supremo Tribunal do Kansas, que ainda havia pouco confirmara a sentena.
Dava a impresso de que as investigaes de Schultz eram unilaterais, visto se terem limitado a pouco mais do que uma entrevista com Smith e Hickock, da qual o advogado 
saiu cheio de frases bombsticas como estas: "A questo  a seguinte: os pobres, acusados de crime tm ou no direito a uma defesa completa? No creio que o estado 
do Kansas venha a ser prejudicado de maneira grave ou durante muito tempo pela morte destes dois rus. Mas tambm no creio que algum dia se restabelea dos estragos 
causados pela morte dos processos legais." Schultz apresentou a sua petio do habeas corpus e o Supremo Tribunal do Kansas encarregou um dos seus juizes reformados, 
o Meritssimo doutor Walter G. Thiele, de organizar um interrogatrio completo. E foi assim que, quase dois anos depois do julgamento, a mesma assembleia se reuniu 
no tribunal de Garden City. Os nicos participantes de importncia que se encontravam ausentes eram os prprios rus. No seu lugar estavam sentados o juiz Tate, 
o velho Mr. Fleming e Harrison Smith, cujas carreiras se encontravam periclitantes, no por causa das alegaes dos apelantes em si, mas por causa do aparente crdito 
que a Associao dos Advogados lhes concedera.
Os interrogatrios, que a certa altura tiveram lugar em Lansing, onde o juiz Thiele ouviu os testemunhos de Smith e de Hickock, levaram seis dias. Acabaram por se 
esclarecer todos os pontos. Oito dos jurados declararam sob palavra de honra nunca terem conhecido qualquer membro da famlia assassinada; quatro confessaram terem 
conhecido vagamente Mr. Clotter, mas todos eles, incluindo N. L. Dunnan, o empregado do aeroporto que fizera a tal afirmao durante o interrogatrio prvio, que 
dera lugar  pendncia, jurou ter entrado na bancada sem nenhuma ideia preconcebida. Schultz desafiou Dunnan dizendo:
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        Ento o senhor acha que gostaria de ser julgado por um membro do jri cujo estado de esprito fosse igual ao
seu?
Dunnan afirmou que sim e Schultz ento inquiriu:
        Lembra-se de lhe terem perguntado se era ou no contra pena mxima? A testemunha acenou com a cabea:
        Respondi que em circunstncias normais seria provavelmente contra ela. Mas, dada a importncia deste
crime, provavelmente votaria a favor dela.
Tornava-se mais difcil lidar com Tate: Schultz no tardou aperceber-se de que tinha um tigre seguro pela
cauda. Ao responder  pergunta relativa  sua suposta intimidade com Mr. Clutter, o juiz declarou:
        Ele (Clutter) esteve uma vez neste tribunal como litigante num caso a que eu presidi, uma aco de perdas e
danos relativa a um avio que caiu na sua propriedade; ele requeria indemnizao, creio que pelo estrago
causado numas rvores de fruto. Nunca tive mais relaes com ele. De nenhuma espcie. Via-o talvez uma ou
duas vezes durante o ano...
Schultz interrompeu-o subitamente, cortando o assunto:
        Sabe - inquiriu - qual era a atitude do povo desta Comunidade a seguir  priso dos dois acusados?
        Acho que sim - retorquiu o juiz com ostensiva confiana. Era a atitude normal que se tem para qualquer
pessoa acusada de um crime grave - desejava-se que fossem julgados segundo a Lei; no caso de se provar a
sua culpa, deveriam ser condenados; pretendia-se que fossem tratados com a mesma justia que qualquer outra
pessoa. S havia o preconceito natural em face de dois homens acusados de um crime.
        Quer o senhor dizer - interrompeu malevolamente Schultz
        que no vira razo para o tribunal ordenar a mudana de local para o julgamento?
        Mr. Schultz - retorquiu Tate com uma voz sibilante-, o tribunal por si no ordena uma mudana de local. O
tribunal s a concede quando lha pedem nos devidos termos.
        Mas ento porque no fora ela requerida pelos advogados da defesa? - Schultz dirigia agora a pergunta a
estes, pois o principal objectivo do causdico de Wichita era desacredit-los e provar que os seus clientes no
haviam recebido deles a mnima proteco. Fleming e Smith suportaram a invectiva com toda a correco,
sobretudo Fleming, o qual, com a sua gravata vermelha flamejante e sorriso prazenteiro, ouviu Schultz at ao
fim com uma resignao cavalheiresca. Ao explicar por que razo no requerer mudana de local, declarou:
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        Achei que, em vista do reverendo Cowan, ministro da Igreja Metodista e homem de grande prestgio c na
terra, bem como muitos outros ministros, se haverem pronunciado contra a pena capital, a semente estava
lanada e provavelmente haveria aqui mais pessoas inclinadas  tolerncia do que em qualquer outra parte do
estado. Alm disso, houve um irmo de Mr. Clutter que escreveu um artigo para um jornal onde declarava ser
de opinio de que os rus deste crime no deveriam ser condenados  morte.
Schultz tinha de reserva uma srie de acusaes, mas no fundo de todas elas subentendia-se que, em virtude da
presso exercida pela comunidade, Fleming e Smith haviam descurado os seus deveres. Ambos eles, teimava
Schultz, tinham atraioado os clientes, no conversando com eles amiudadas vezes (Mr. Fleming afirmou:
"Trabalhei no caso com toda a minha capacidade, consagrando-lhe mais tempo do que costumo dedicar 
maioria dos casos"); tinham renunciado a um interrogatrio preliminar. (Smith respondeu: "Mas nem eu nem
Mr. Fleming tnhamos sido ainda nomeados para a defesa na altura do interrogatrio preliminar"); tinham, em
conversas com jornalistas, feito afirmaes prejudiciais aos rus (Schultz para Smith: "Recorda-se de que um
reprter, Ron Kull, do Daily Capital, de Topeka, registou algumas palavras suas no segundo dia do julgamento, no sentido de no haver dvidas quanto  culpabilidade 
de Hickock, mas que o seu papel era conseguir que ele fosse apenas condenado a priso perptua e no  pena de morte?" Smith respondeu a Schultz: "Se repetiram isso 
a meu respeito no  exacto"); declarando por fim que eles no haviam preparado uma defesa condigna.
Foi neste ltimo ponto que Schultz insistiu mais;  oportuno, portanto, reproduzir aqui a opinio escrita a tal
respeito por trs juizes federais como resultado de um requerimento feito depois pela Associao dos
Advogados do Dcimo Crculo Judicial: "Somos, no entanto, de opinio que aqueles que se ocuparam mais
tarde do caso perderam de vista os problemas que tiveram de enfrentar na altura os advogados Smith e
Fleming, ao tomarem conta da defesa dos acusados. Ao aceitarem o encargo, qualquer dos dois rus havia
feito uma confisso completa que no negou depois, nem sequer durante o julgamento, no declarando nunca
que esta lhe fora arrancada por meios ilegais. Um rdio levado pelos rus da casa dos Clutters havia sido
recuperado na Cidade do Mxico e os advogados tinham conhecimento de outras provas da sua culpabilidade
ento na posse da acusao. Ao serem convidados a justificar-se, permaneceram mudos e foi necessrio
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o tribunal encetar a defesa em lugar deles. No havia ento provas, nem apareceram depois, capazes de
justificar a loucura dos acusados. A tentativa feita nesse sentido em virtude dos acidentes sofridos anos atrs,
os quais tinham como consequncia dores de cabea e desmaios da parte de Hickock, valeu tanto como
algum agarrar-se a uma palha para no morrer afogado. Os advogados enfrentaram a situao provada de
haverem sido cometidos quatro crimes atrozes contra pessoas inocentes. Nestas circunstncias, estava
justificado que aconselhassem os rus a confiarem na clemncia do tribunal. A sua nica esperana residia
num golpe de sorte que lhes pudesse poupar a vida." No relatrio que apresentou ao Supremo Tribunal do Kansas, o juiz Thiele foi de opinio que os acusados tinham 
sido honesta e constitucionalmente julgados; o tribunal indeferiu portanto a petio para ser anulada a sentena e marcou nova data para a execuo, 23 de Outubro 
de 1962. Na realidade, Lowell L Andrews, cujo caso subira duas vezes ao Supremo Tribunal dos Estados Unidos, estava indigitado para ser executado um ms depois.
Os assassinos dos Clutters conseguiram ainda que certo juiz federal adiasse a data da execuo. A de Andrews
foi mantida.
Quando se trata de caso de pena capital, nos Estados Unidos, o tempo mdio que decorre entre a sentena e a
execuo , aproximadamente, de dezassete meses. Ainda h pouco, no Texas, um ladro  mo armada foi
electrocutado um ms aps a condenao; na Louisiana, porm, encontram-se presentemente dois acusados de
crime de violao que esperam de um acrdo do tribunal h j doze anos. As diferenas de prazo dependem
em grande parte da sorte, mas sobretudo da demora de questes processuais. A maioria dos advogados que
tratam de casos deste gnero so oficiosos e trabalham sem emolumentos; mas os tribunais, para evitarem
futuras apelaes baseadas em queixas acerca da falta de interesse da defesa, confiam estas quase sempre a
juristas de primeiro plano que se encarregam delas com todo o vigor. No entanto, at mesmo um advogado de
talento medocre  capaz de retardar a data da execuo de ano para ano, pois o sistema de apelao que vigora
na jurisprudncia americana equivale a uma roda da fortuna legal, uma espcie de jogo de azar, de certo modo
tolerado, propcio ao criminoso, e que permite manobrar indefinidamente, primeiro nos tribunais dos Estados,
depois nos federais, at se atingir o Supremo Tribunal dos Estados Unidos. Mas mesmo a perda da causa a
no significa nada se o
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advogado do ru conseguir descobrir ou inventar novos fundamentos para nova apelao;  o que fazem geralmente e de novo a roda se pe a girar durante alguns anos 
talvez, at que o acusado torne a atingir o mais alto tribunal da nao, possivelmente para recomear de novo a lenta e cruel discusso. Por vezes, porm, a roda 
pra para anunciar uma vitria ou ento, o que  cada vez mais raro, um fracasso. Os advogados de Andrews lutaram at ao fim. Mas o seu cliente foi enforcado na 
sexta-feira, 30 de Novembro de 1962.
        A noite estava muito fria - declarava Hickcock, falando com um jornalista com quem mantinha correspondncia e que o visitava de vez em quando. - Fria e 
hmida. Chovia a potes e o campo de basebol era um lamaal onde nos enterrvamos at  barriga. Por isso, quando vieram buscar o Andy para o levar para a arrecadao, 
foi preciso seguirem pelo caminho coberto. Ns estvamos todos s janelas, o Perry e eu, o Ronnie, o York e o Jimmy Latham. Passava pouco da meia-noite e a arrecadao 
estava to iluminada que parecia uma abbora esburacada com uma vela dentro. As portas tinham sido escancaradas. Vamos as testemunhas, uma cambada de guardas, o 
mdico e o director, vamos tudo menos a maldita forca. Ficava num canto, s lhe vamos a sombra. Uma sombra na parede, como a de um ringue de box.
"O capelo e quatro guardas ocupavam-se de Andy e, quando chegaram  porta, pararam durante um segundo. O Andy olhava para a forca, adivinhava-se perfeitamente. 
Tinha as mos amarradas na Frente. De sbito, o capelo estendeu o brao e tirou os culos ao Andy. At fazia pena ver o Andy sem os culos. Levaram-no para dentro 
e eu nem sei como ele conseguiu subir os degraus.
Estava tudo calado, s se sentia aquele co a ladrar ao longe. Um co da cidade. Foi ento que ouvimos o tal barulho e o Jimmy Latham perguntou o que era aquilo. 
Eu expliquei-lhe o que era - o alapo.
"Depois fez-se de novo um grande silncio. S se ouvia o co. O Andy, coitado, esteve a danar que tempos. Os tipos com certeza tiveram muito que limpar. De vez 
em quando o mdico vinha c fora e ficava ali um bocado com o estetoscpio na mo. Parecia-me que a tarefa no lhe agradava l muito - arfava como se lhe faltasse 
o ar e chorava ao mesmo tempo. O Jimmy disse: "Ele j no pode mais." Acho que vinha c fora para que os outros o no vissem chorar. Depois tinha de voltar l para 
dentro, a fim de escutar se o corao do Andy deixara de bater. Parecia que 309
nunca mais parava! O facto  que continuou a bater durante dezanove minutos.
"O Andy era um tipo estranho", prosseguiu Hickock, sorrindo de vis, enquanto metia um cigarro entre os lbios. "Tal como eu lhe disse um dia, no tinha o menor 
respeito pela vida humana, nem mesmo pela sua. Pouco antes de o enforcarem sentou-se  mesa e comeu dois frangos tostados.
Passou a ltima tarde a beber coca-cola, a fumar e a escrever versos. Quando o vieram buscar, despediu-se de ns, e eu disse-lhe: "At qualquer dia, Andy. Tenho 
a certeza de que vamos para o mesmo lugar. Por isso procura bem e v se descobres por l uma sombra fresca para ns ambos!" Ele riu-se e declarou que no acreditava 
nem no cu nem no Inferno. Era tudo p e mais nada.
Disse ainda que uns tios dele o tinham vindo visitar, afirmando que haviam comprado um caixo para depois o levarem para um pequeno cemitrio l no Norte do Missouri. 
Queriam-no junto do lugar onde desejavam ser enterrados. Afirmou-me que lhe tinha custado ficar srio ao ouvir aquilo.
Eu respondi: "Bem, ests cheio de sorte. O mais certo  eles mandarem-me a mim e ao Perry para as aulas de anatomia." Passmos o tempo nestas e noutras brincadeiras, 
at serem horas de ele se ir embora, e nesse momento entregou-me um bocado de papel com um poema. No sei se o escreveu ou se o tinha copiado de um livro. Desconfio 
que foi ele quem o fez. Se voc est interessado vou mandar-lho."
Cumpriu a promessa e verificou-se que a mensagem de despedida de Andrews era a nova estncia da Elegia Escrita num Cemitrio de Aldeia:
Os faustos da nobreza, a pompa formidvel, O gozo da beleza que a fortuna, procura, Tudo vai acabar na hora inevitvel; O trajecto da glria s leva  sepultura.' 
"Eu gostava a valer do Andy. Ele era maluco. No doido varrido como queriam fazer crer, mas um bocado prulas. Falava constantemente em fugir daqui para se tornar 
assassino profissional.
Gostava de imaginar que vagueava por Chicago ou Los Angeles, com uma metralhadora escondida num estojo de violino,
1.        No original:
The boasts ofheraldry thepomp ofpou>'r And ali that beauty, ali tbe wealth e'er gave, Awatt ahke the inevttable hour:
Thepaths ofglory lead but to the grave.
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a matar gajos. Declarava que levaria mil dlares por cada um." Hickock riu, provavelmente com o absurdo das ambies do amigo, suspirou e sacudiu a cabea:
        Mas, para um rapaz da sua idade, era o tipo mais esperto que tenho conhecido. Uma verdadeira biblioteca humana. Quando lia um livro, ficava com ele metido 
na cabea. Claro que acerca da vida no sabia patavina. Eu c no percebo nada de nada, mas tenho experincia da vida. Percorri muitos caminhos escabrosos. J vi 
flagelar um branco, nascer meninos, vi uma garota, no tinha mais de catorze anos, estar com trs tipos ao mesmo tempo e todos eles darem por bem empregado o seu 
dinheiro. J ca de um navio  gua, e tive de nadar cinco milhas para chegar a terra, sentindo que a vida se me esvaa a cada braada. Apertei um dia a mo ao Presidente 
Truman. Ao Harry S.
Truman, sim, senhor!, no trio do Hotel Muehlebach. Quando ia para o hospital, a conduzir uma ambulncia, observei todos os aspectos que a existncia nos pode oferecer. 
Vi coisas que fariam vomitar um co. Mas o Andy? No sabia nada de nada, a no ser aquilo que tinha lido nos livros.
"Era to inocente como uma criancinha de mama. Nunca estivera com nenhuma mulher. Nem era homem a valer. Alis, ele prprio o confessava. Por isso mesmo  que eu 
gostava dele. Como no havia um tipo assim de prevaricar? Ns, os outros que estamos aqui na Ala da Morte, somos uma cambada de bazfias. Eu sou o pior de todos. 
S temos palavreado. Pronto, a verdade  que temos de falar de qualquer coisa, de nos gabarmos seja do que for. De contrrio, no somos nada, ningum, no passamos 
de uma simples barata a vegetar neste reduto de sete metros por dez. Mas o Andy nunca entrou nisso. Dizia que no fazia sentido uma pessoa pr-se a contar coisas 
que nunca tinham acontecido.
"O Perry, esse, coitado, ficou satisfeito por ver desaparecer o Andy. Ele  precisamente aquilo que o Perry desejaria ter sido, quero dizer, um homem culto. O Perry 
nunca lho perdoou. Sabe que o Perry est sempre a empregar palavras caras cujo significado a maior parte das vezes no percebe? Faz lembrar um daqueles pretos que 
estudaram na Universidade. Caramba, ia aos ares quando o Andrews o apanhava nalgum erro e o levava  parede. Claro que o Andy estava sempre a tentar dar-lhe aquilo 
que ele precisava, isto , educao. Ningum pode entender-se com o Perry. No tem um nico amigo em parte nenhuma. Que diabo, quem se julga ele, afinal? Est sempre 
a desdenhar de toda a gente,
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a chamar pervertidas e degeneradas s pessoas. A atirar-lhes  cara o facto de possurem um quociente de inteligncia muito baixo.  uma pena no termos todos a 
sensibilidade do Perryzinho! Um santo! Caramba, mas eu c sei de algum que iria de boa vontade para o "Canto" depois de ter tido a oportunidade de se encontrar 
a ss com ele, nem que fosse por um minuto s, na sala do chuveiro! A maneira como ele despreza o York e o Latham! O Ronnie diz que s queria ver-se com um chicote 
nas mos ao p dele! Gostaria de lhe dar um apertozinho. E no serei eu quem o censure. Ao cabo e ao resto, estamos todos na mesma situao, e eles so bons tipos.
Hickock soltou uma risada amarga, encolheu os ombros e disse: "Sabe o que eu quero dizer. Bons,  como quem diz. A me do Ronnie York veio c v-lo por vrias vezes. 
Um dia encontrou a minha me na sala de espera. Ficaram amigas para a vida e para a morte. A senhora York quer que a minha me v estar uns tempos a casa dela, na 
Florida, talvez mesmo que v viver para l. Meu Deus, quem dera que ela fosse? Assim no teria de passar por este mau bocado. Vir aqui todos os meses para me ver, 
sujeitando-se a uma viagem de autocarro.
Sempre a sorrir e a tentar dizer-me qualquer coisa de animador. Pobre criatura! No sei como ela aguenta. No me admira que venha a perder o juzo!" Os olhos desiguais 
de Hickock voltaram-se para uma janela da sala de espera: o seu rosto intumescido, plido como um lrio fnebre, alvejava  luz do Sol de Inverno que se filtrava 
pela janela de grades.
"Pobre criatura! Escreveu ao director da cadeia e pediu para falar ao Perry da prxima vez que c viesse. Queria ouvir da boca dele a afirmao de ter sido ele quem 
matou aquela gente e que eu no dera um nico tiro. S tenho esperana de que sejamos um dia julgados de novo e que o Perry diga a verdade. Mas duvido. Ele est 
mais do que resolvido a termos ambos o mesmo destino. Lado a lado. No est certo! H muito homem que matou e nunca esteve dentro de uma cela da morte. E eu c nunca 
matei ningum. Se voc tiver cinquenta mil dlares, pode matar  vontade toda a gente de Garden City, que no lhe acontece mal algum!" Um sorriso sbito veio apagar 
aquela fogosa indignao: "Ora, ora! C estou eu outra vez a choramingar a minha pouca sorte! J era tempo de ter aprendido. Mas posso jurar que fiz todo o possvel 
para me entender bem com o Perry. Ele  que  muito esquisito. Um tipo de duas caras. Tem inveja de tudo: das cartas que recebo, das visitas. No vem c ningum 
v-lo a no ser o senhor", declarou, indicando com a cabea o prprio jornalista,
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que to boas relaes mantinha com Smith como com Hickock. "Ou ento o advogado. Lembra-se de quando ele esteve no hospital? Por causa dessa tal farsa da greve da 
fome? E que o pai lhe mandou um postal? Pois fique sabendo que o director respondeu ao pai do Smith, a dizer-lhe que seria bem recebido todas as vezes que quisesse 
aparecer. Mas nunca c ps os ps. Porqu, no sei.
s vezes at sinto pena do Perry. Deve ser uma das pessoas mais solitrias que existe no mundo.
Mas ora! Que v para o Inferno! Tudo sucedeu por culpa dele." Hickock tirou mais um cigarro de um mao de Pall Malls e franziu o nariz. " J tentei deixar o fumo. 
Depois pus-me a pensar que diferena  que me fazia, nestas circunstncias. A minha sorte era arranjar um cancro e vencer o Estado no seu prprio terreno. Houve 
uns tempos aqui atrs em que fumei charutos. Eram do Andy. Na manh seguinte a terem-no enforcado, acordei e chamei-o como de costume: " Andy!" Depois lembrei-me 
de que ele devia ir a caminho do Missouri, mais o tio e a tia. Tinham feito limpeza  cela dele e todas as suas coisas estavam empilhadas num canto.
O colcho, as alpercatas e o livro de apontamentos com os desenhos das comidas. Ele chamava-lhe o seu frigorfico. E tambm l se encontrava aquela caixa de charutos 
Macbeth. Eu disse ao guarda que o Andy tencionava oferecer-mos, tinha-mos deixado em testamento. A verdade  que no consegui fum-los todos. Talvez o Andy tivesse 
realmente a inteno de mos oferecer. Mas a verdade  que me fizeram nuseas.
"Bem, que se h-de dizer mais acerca da pena capital? Eu no sou contra ela.  uma vingana, mas que mal h na vingana? Acho at uma coisa muito importante . Se 
eu fosse parente dos Clutters ou de qualquer das pessoas que o York e o Latham mandaram desta para melhor, no teria um momento de descanso enquanto os responsveis 
no fossem andar um bocado no Grande Baloio.
Mas todos esses que andam sempre a escrever cartas para os jornais... Outro dia vinham duas num dirio de Topeka. Uma era de um padre. Diziam mais ou menos isto: 
para qu toda esta farsa jurdica? Porque no penduraram j pelo pescoo esses filhos-da-me do Smith e do Hickock? Por que motivo esto ainda esses filhos de uma 
cadela a comer as sopas do Estado? Esses percebo eu.
Esto fulos porque ainda no obtiveram o que queriam, isto , vingana. E nunca a conseguiro desde que eu possa evit-lo. Eu c no sou contra a forca. Desde que 
o enforcado no seja eu.
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Mas acabou mesmo por ser.
Passaram mais trs anos e durante esse espao de tempo dois advogados excepcionalmente hbeis, de Kansas
City, Joseph P. Jenkins e Robert Bingham, vieram substituir Schultz, que se demitira do cargo. Nomeados por
um juiz federal e trabalhando sem recompensa (mas movidos por uma convico ntida de que os acusados
haviam sido vtimas de um "julgamento pavorosamente injusto"), Jenkins e Bingham fizeram vrias apelaes
dentro do esquema dos tribunais federais, evitando assim trs datas marcadas para a execuo: 25 de Outubro
de 1962, 8 de Agosto de 1963 e 18 de Fevereiro de 1965. Os advogados afirmavam que a condenao dos seus
clientes fora injusta, pois alicerara-se apenas no facto de terem confessado e haviam-lhe sido negados os
interrogatrios preliminares: alm disso, no estavam convenientemente representados no julgamento e a
sentena fora proferida sem que as armas do crime estivessem devidamente identificadas (a faca e a carabina
que se achavam em casa de Hickock); no lhes tinha sido tambm concedida a faculdade de serem julgados
noutro local, muito embora, nas vsperas da audincia, o ambiente estivesse saturado de propaganda hostil aos
acusados.
Com estes argumentos, Jenkins e Bingham conseguiram levar trs vezes o caso perante o Supremo Tribunal
dos Estados Unidos - o Patro-Mor, como lhe chamam muitas vezes os litigantes -, mas, de todas as vezes, o
Tribunal, que nunca comenta as suas decises em casos como este, negou a apelao, indeferindo os requerimentos que dariam aos acusados o direito de serem de novo 
ouvidos em tribunal. Em Maro de 1965, depois de terem passado quase dois mil dias na Ala da Morte, o Supremo Tribunal do Kansas decretou que as vidas de Smith e 
Hickock deviam terminar entre a meia-noite e as duas da manh de quarta-feira, 4 de Abril de 1965. Depois disto foi apresentado um pedido de clemncia ao novo governador 
do Kansas, William Avery; este, porm, que era um rico fazendeiro muito sensvel  opinio pblica, recusou-se a interferir, deciso esta que ele julgava servir 
"os melhores interesses do povo do Kansas". (Dali a dois meses Avery negava tambm o apelo de clemncia em favor de York e Latham, que foram enforcados em 22 de 
Junho de 1965.)
E foi assim que, na madrugada dessa quarta-feira, Alvin Dewey, ao tomar o pequeno-almoo no caf de um
hotel de Topeka, leu na primeira pgina do Star, de Kansas City, o cabealho que havia muito esperava:
MORTOS NA FORCA por CRIME SANGUINRIO.
A histria, escrita por um reprter da Associated Press, comeava 314
assim: "Richard Eugene Hickock e Perry Edward Smith, companheiros no crime, morreram na forca, na priso do Estado, s primeiras horas da manh de hoje, como castigo 
de um dos crimes mais sangrentos da histria criminal do Kansas.. Hickock, de 33 anos, morreu primeiro, s 12.41 da manh. Smith, de 36, morreu  1.19."
Dewey vira-os morrer, pois contava-se entre as vinte testemunhas convidadas ao acaso para a cerimnia. Nunca assistira a uma execuo e quando,  meia-noite, entrou 
na arrecadao fria, o cenrio surpreendeu-o: imaginara um ambiente de dignidade e no esta soturna caverna frouxamente iluminada, atravancada de madeira e sucata. 
A forca, porm, com os seus dois narizes claros ligados a uma viga transversal, possua uma imponncia incontestvel; o mesmo se dava com o carrasco, uma figura 
inslita, que projectava uma sombra alongada l no seu poleiro, sobre a plataforma, no alto do instrumento de suplcio, que tinha treze degraus. O carrasco, um tipo 
annimo e esgalgado, que haviam mandado vir do Missouri para o efeito, e por cujo trabalho pagavam seiscentos dlares, envergava um fato trespassado de riscas estreitas, 
demasiado largo para o seu corpo. O casaco chegava-lhe quase aos joelhos; na cabea trazia um chapu de cowboy que talvez em novo tivesse sido verde, mas que no 
passava agora de um objecto estranho desbotado e com manchas de suor.
Tambm Dewey achou desconcertantes as conversas das outras testemunhas, que esperavam o comeo daquilo a que uma delas chamava "as festividades".
        Ouvi dizer que tinham tirado  sorte com palhinhas para ver quem seria pendurado em primeiro lugar. Ou que haviam deitado uma moeda ao ar. Mas Smith sugeriu 
que procedessem por ordem alfabtica. Provavelmente visto o S vir depois do H. Ah! Ah!
        Vocs leram no jornal, no da tarde, o que eles pediram para o jantar? Quiseram ambos a mesma coisa: camares, filhos, po de alho e morangos com natas batidas. 
Parece que o Smith mal tocou na comida.
        Este Hickock sempre tem um sentido do humor! A mim contaram-me que, aqui h uma hora, um dos guardas lhe dissera: "Esta noite deve ser a mais comprida de 
todas." E que o Hickock respondera: "Est enganado,  a mais curta."
        Sabem aquela dos olhos do Hickock? Deixou-os a um oftalmologista. Assim que lhe cortarem a corda, o mdico arranca-lhe
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imediatamente os olhos e aplica-os a outra pessoa. Est-me a parecer que no me agradava nada ser essa pessoa. Tenho a impresso de que me havia de sentir mal com 
eles.
        Santo Deus! Tudo isto  chuva? Fechem as janelas! Ai o meu Chevrolet novo! Caramba! Uma btega sbita crepitava no telhado da arrecadao. O rudo, semelhante 
a um rufar de tambores numa parada, precedeu a chegada de Hickock. Acompanhado por seis guardas e o capelo que rezava em voz baixa, entrou no fnebre local algemado 
e envergando um feio dispositivo de correias que lhe mantinha os braos ligados ao tronco. Junto da forca, o director da cadeia leu-lhe a ordem oficial da execuo, 
um documento de duas pginas; e durante esse tempo os olhos de Hickock, enfraquecidos por meia dcada de sombra, percorriam a reduzida assistncia, at que, no 
conseguindo avistar o que procurava, perguntou em voz baixa a um guarda se estava presente algum membro da famlia Clutter. Ao receber uma resposta negativa, o prisioneiro 
pareceu desapontado, como se achasse que o protocolo que rodeava este ritual da vingana no estava a ser cumprido  letra.
Como  hbito, o director, no fim de recitar o documento, perguntou ao condenado se tinha qualquer coisa a declarar. Hickock sacudiu a cabea:
        S desejo afirmar que no quero mal a ningum. Vocs mandam-me para um mundo melhor do que este. - Depois, como que para acentuar a afirmao, apertou as 
mos dos quatro homens que haviam sido mais directamente responsveis pela sua captura e condenao, e que tinham pedido expressamente para assistir  execuo da 
sentena: os agentes do K. B. I. Roy Church, Clarcnce Duntz, Harold Nye e Dewey.
        Muito prazer em v-los declarou Hickock, com o seu melhor sorriso, como se estivesse a receber os convidados do seu prprio enterro.
O carrasco tossiu, ergueu com impacincia o chapu de cowboy e voltou a coloc-lo na cabea, num gesto que lembrava um peru a enfunar as penas do pescoo. Ento, 
Hickock, obedecendo a uma cotovelada de um dos guardas, subiu as escadas do cadafalso.
        O Senhor o deu o Senhor o leva, bendito seja o nome do Senhor - recitava o capelo, enquanto o ritmo do crepitar da chuva se acelerava subitamente e o carrasco 
ajustava o n e aplicava a fina mscara negra no rosto do condenado. O alapo abriu-se e Hickock ficou suspenso no ar para que todos o vissem, durante uns bons 
vinte minutos, at o mdico declarar: "Considero este homem morto." - Um carro fnebre com os faris
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salpicados de gotas de chuva entrou na arrecadao e o corpo, colocado numa padiola e envolto num cobertor, foi metido l dentro e saiu para a escurido da noite.
Ao contemplar a cena, Roy Church sacudiu a cabea e disse:
        Nunca pensei que ele tivesse tanta coragem. Considerava-o um cobarde.
O homem com quem falava, outro detective, retorquiu:
        Ora, Roy. O tipo era um patife. Um malandro da pior espcie. S teve o que merecia! Church, de olhos pensativos, continuou a abanar a cabea. Enquanto esperavam 
pela segunda execuo, um guarda e um reprter conversavam um com o outro. O reprter inquiriu:
         a primeira vez que assiste a um enforcamento?
        Vi o do Lee Andrews.
        Eu,  o primeiro a que assisto.
        Ah, e quais as suas impresses? O reprter apertou os lbios:
        L na redaco ningum queria vir. Nem eu to-pouco. Mas afinal no foi to mau como eu pensava.  como quem salta de uma prancha, s que se traz uma corda 
ao pescoo.
        Os tipos no sentem nada. Caem, um aperto e pronto, no sentem absolutamente nada.
        Voc tem a certeza? Eu estava mesmo ao p dele. E bem o ouvi a resfolegar.
        Hum, hum! Mas acho que no sentem nada. Seria desumano se sentissem alguma coisa.
        Bem, calculo que os devem encher primeiro de drogas. Sedativos...
        Nem pensar nisso!  contra o regulamento. A vem o Smith.
        Cos diabos! Nunca pensei que ele fosse assim um aranhio!
         pequeno, l isso , mas h aranhas peonhentas.
Ao chegar  arrecadao, Smith reconheceu o seu velho inimigo, Dewey. Parou de mascar uma pastilha elstica de mentol, sorriu para Dewey e piscou-lhe o olho, com 
uma expresso malvola e atrevida. Mas, quando o director lhe perguntou se tinha alguma coisa a declarar, a sua expresso tornou-se sria. Fixava os olhos graves 
e sensveis nas caras que o rodeavam, ergueu-os para o carrasco, voltou a baix-los para contemplar as mos algemadas. Depois fitou os dedos manchados de tinta de 
escrever e aguarelas, pois passara os ltimos anos na Ala da Morte a pintar auto-retratos e caras de crianas, quase sempre filhos de prisioneiros que lhe davam 
as fotografias da prole que poucas vezes tinham visto em carne e osso.
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        Acho que  horrvel tirar assim a vida a uma pessoa - disse por fim. - No creio que a pena de morte tenha fundamento moral ou legal. Talvez eu merea de 
certo modo este castigo, talvez...
        Faltaram-lhe as foras e a vergonha embargou-lhe a voz, reduzindo-a a um murmrio apenas audvel: - No faria sentido que pedisse perdo por aquilo que 
fiz. Ou seria at imprprio. Mas fao-o. Peo perdo.
Seguiram-se os degraus, o n, a mscara; mas, antes de esta lhe ser aplicada, o preso cuspiu a pastilha elstica para a palma da mo que o capelo lhe estendia. 
Dewey fechou os olhos; manteveos fechados at se ouvir o estalido que faz uma corda a quebrar os ossos do pescoo. Tal como a maioria dos americanos, Dewey est 
certo de que a pena capital  um antdoto do crime e acha que, se alguma vez esta foi bem merecida, era no caso presente. A execuo anterior no o impressionara, 
nunca simpatizara com Hickock, que considerava "um aldrabozito que se sara das cacas e no valia um caracol". Mas Smith, muito embora fosse ele o verdadeiro assassino, 
abalarao mais, porque Perry possua uma caracterstica especial, parecia um animal exilado, um bicho ferido, e o detective no conseguia deixar de ser sensvel a 
isso. Recordava-se do seu primeiro encontro com Perry na sala de interrogatrios do Quartel da Polcia de Las Vegas, daquele homemano sentado na cadeira metlica, 
com os pezitos calados de botas que mal tocavam no cho. E, quando Dewey abriu os olhos, foi a primeira coisa que viu: esses ps de criana pendurados, a baloiar.
Dewey imaginara que com a morte de Smith e de Hickock sentiria uma espcie de repouso, de relaxamento, produzindo a ideia de se ter cumprido determinada misso. 
Mas, pelo contrrio, deu consigo a recordar um incidente ocorrido havia quase um ano, um encontro casual no cemitrio de Valley View, que, visto retrospectivamente, 
tinha representado para ele mais ou menos o fim do caso Clutter.
Os pioneiros fundadores de Garden City eram sem dvida pessoas de mentalidade espartana, mas, quando chegou a altura de construrem um cemitrio, resolveram, apesar 
do solo rido e da dificuldade de transportarem a gua, fazer daquilo um osis que contrastasse com as ruas poeirentas e as plancies austeras. O resultado deste 
esforo foi o cemitrio de Valley View, situado acima da cidade, num planalto de mdia altitude e que hoje se assemelha a uma ilha sombria rodeada pelas vagas ondulantes 
dos campos de trigo. Ele representa um suave refgio depois de um dia de calor, com as suas alamedas ininterruptas de rvores que as geraes precedentes plantaram.
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Numa tarde do ms de Maio anterior, quando os campos cintilam cobertos pelo verde doirado do trigo meio
crescido, Dewey tinha passado algumas horas no cemitrio de Walley View, a tirar as ervas daninhas da
sepultura dos pais, tarefa esta que havia muito descuidara. Dewey contava cinquenta e um anos, mais quatro
do que quando tomara parte na investigao do caso Clutter; mas continuava esbelto e gil e continuava a ser o
primeiro detective do K. B. I. No Kansas Ocidental; ainda na semana anterior capturara dois ladres de gado.
O sonho de se estabelecer numa quinta sua no se realizara ainda, pois o receio manifestado pela mulher de ir
viver para um local isolado no se desvanecera. Em vista disso, Dewey construra casa na cidade; tinha
orgulho nela, assim como nos dois filhos, que falavam j com voz grossa e estavam to altos como o pai. O
mais velho ia entrar para a Universidade no Outono.
Depois de limpar a campa, Dewey ps-se a passear ao longo das calmas alamedas. Parou em frente de uma
sepultura cuja inscrio fora recentemente gravada na pedra. O nome era Tate. O juiz Tate morrera com uma
pneumonia no passado ms de Novembro. Coroas, rosas secas, fitas desbotadas cobriam ainda a terra dura.
Junto delas, havia ptalas frescas espalhadas sobre uma campa mais recente: a de Bonnie Jean Ashida, a filha
mais velha dos Ashidas, morta num choque de automveis quando viera de visita a Garden City. Mortes,
nascimentos, noivados... precisamente na vspera soubera que o antigo namorado de Nancy Clutter, o jovem
Bobby Rupp, se tinha casado.
As sepulturas da famlia Clutter, quatro campas sob a mesma lousa cinzenta e lisa, achavam-se num canto do
cemitrio. Para l das rvores, em pleno sol, quase no extremo dos campos de trigo cintilantes. Ao aproximarse
delas, Dewey reparou que j ali se encontrava outro visitante: uma rapariguinha magra, de luvas brancas,
cabeleira cor de mel e pernas compridas e elegantes. Ela sorriu-lhe e Dewey no sabia quem era.
-J se no lembra de mim, Mr. Dewey? Sou Susan Kidwell.
Ele riu-se e a rapariga aproximou-se:
        Sue Kidwell! Diabos me levem! - No voltara a v-la desde o julgamento, era ela ainda uma criana. - Como
tens passado? E atua me?
        Bem, obrigada. Continua a ensinar msica no liceu de Holcomb.
        No tenho ido para esses lados. H por l alguma novidade?
        Oh, fala-se em pavimentar as ruas. Mas sabe como  Holcomb. Na verdade paro l pouco tempo. Estou
caloira na Universidade
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        declarou ela, referindo-se  Universidade do Kansas.
        Vim passar uns dias a casa.
        Muito bem, Sue. E que vais estudar?
        Tudo. Principalmente arte.  do que mais gosto. Sinto-me realmente segura nessa matria. - Alongou a vista para os campos: - Eu e a Nancy tnhamos projectado 
ir juntas para a Universidade.
Ficaramos no mesmo quarto. Penso nisso muitas vezes. De repente, quando estou a sentir-me satisfeita, recordo todos os planos que havamos feito ambas.
Dewey fitou a pedra escura com os quatro nomes gravados e a data das mortes: 15 de Novembro de 1959.
        Vens aqui muitas vezes?
        De vez em quando. Bolas! O sol est forte! - Protegeu os olhos com uns culos escuros. - Lembra-se do Bobby Rupp? Casou-se com uma linda rapariga.
        Tambm ouvi dizer.
        Chama-se Colleen Whitehurst.  bonita a valer. E tambm muito simptica.
        Ainda bem, coitado do Bobby. - E, para a arreliar, Dewey acrescentou: - E tu? Deves ter muitos apaixonados.
        Oh, nenhum a srio. Mas ainda bem que fala nisso: Diz-me as horas, por favor? Oh! - exclamou ao ver que passava das quatro. - Tenho de ir embora a correr. 
Mas gostei muito de o ver, Mr.
Dewey!
        Tambm gostei muito de te ver, Sue. Felicidades! - acrescentou ainda, enquanto a rapariga se afastava pela alameda abaixo, uma jovem bonita, de cabelos 
ao vento, a brilhar, uma mulher bela como Nancy teria podido vir a ser. E depois, de regresso a casa, ao encaminhar-se na direco das rvores, passou por baixo 
destas, deixando para trs o vasto cu e o murmrio das vozes do vento que inclinava as hastes do trigo.
